quinta-feira, 5 de julho de 2012

Aliança PSTU/PCdoB em Belém do Pará: Pragmatismo eleitoral ou “flexibilidade tática”?


Aliança PSTU/PCdoB em Belém do Pará: Pragmatismo eleitoral ou “flexibilidade tática”? Um debate de estratégia, princípios e táticas.
Recentemente, em meio eleições de várias capitais do país recheadas de anúncios de alianças “inusitadas” e pragmáticas, como a aliança Haddad/Maluf em São Paulo, ou o mal-entendido de uma possível coligação entre PSOL e PSDB em Resende, no Estado do RJ, nos chamou a atenção um processo específico, em Belém do Pará, em que PSTU compõe uma “Frente de esquerda”, com PSOL, PCB e... PCdoB!

Como tentativa de explicação o PSTU lançou uma nota¹, na qual tenta justificar em base aos princípios e tática dos revolucionários esta espúria aliança.
Assim, se torna oportuno demonstrar como esta aliança e os elementos de “justificativa” em sua nota, longe de se sustentarem pela tradição dos revolucionários de Trotsky e Lênin, se enquadram numa tática que atenta a princípios fundamentais, sobretudo em tempos de preparação frente a uma crise histórica que, tudo indica, começa a tocar o Brasil e desolar o Mundo.


O que sustenta a Frente em Belém: seus resultados e “coligações” ou seu programa?
Em sua nota, a direção do PSTU inicia a discussão com um panorama geral do processo em Belém, ressaltando a formação da frente (PCB, PSOL, PSTU e PcdoB.) e o lançamento de seu principal candidato Edmílson Rodrigues(PSOL) e a candidatura a vereador de Cléber Rabelo, dirigente do PSTU no Pará.

Comentam, nesta primeira parte, sobre a grande simpatia em relação a Edmílson, que já foi por duas vezes prefeito de Belém quando militava no PT e que, segundo a nota, canaliza um profundo sentimento de oposição à esquerda ao Governo federal. A frente desta coligação,o PSTU pontua que pode potencializar as chances de eleição de um operário socialista para a câmara dos deputados, referindo-se a seu candidato, Cléber e, assim, fortalecer seu partido filiando novos operários, referindo-se a este processo como os “objetivos tradicionais dos revolucionários nos processos eleitorais”. Ao fazerem esta explanação geral, não citam uma só bandeira ou eixo de programa que norteie a “Frente”e a Candidatura de Edmílson, só afirmando que, o PSTU, lutará por uma agitação cujo centro seria uma “Belém para os trabalhadores”, afirmando que exigirão sempre que o PSOL e Edmílson digam se “querem governar para 'todos' ou para os trabalhadores”.

Não bastasse valorizar os possíveis “resultados” da Frente em detrimento do programa que a baseia, o que a direção do PSTU omite, é que, segundo suas próprias notas antigas, o que fez Edmílson a frente da Prefeitura de Belém foi implementar um “modo petista de governar”, arrochando salários, reprimindo servidores e até agredindo militantes do PSTU em atos contra a prefeitura, o que lhe rendeu, segundo a notas, uma “desconfiança” por parte dos trabalhadores.²
Já é no mínimo estranho o tom de “indefinição” que dão a candidatura deste candidato que implementou projetos repressivos e precarizantes a população de Belém, num passado tão próximo, colocando como possíbilidade - “se”- ele governar para todos. Ora, se seu projeto foi, por duas vezes, o de implementar um “modo petista de governar”, com políticas de arrocho e precarização contrárias aos trabalhadores, que tipo de governo foi este? Não foi “'para todos”, no sentido petista, para os capitalistas? Porquê tratam de embelezar as possibilidades de seu governo?

Estranho também é o tom “fatalista” que dá a direção do PSTU, tanto no começo como no fim do texto, em relação a tentativa do PSOL fechar acordos com partidos burgueses, como PV, PTN que, sabemos, além de não ser alternativa, expressam interesses distintos, baseados na exploração dos trabalhadores.
Em sua primeira nota, o Partido simplesmente lamenta a “imposição” do PCdoB pelo PSOL. Já em sua segundo a nota, a direção do PSTU diz que lutou com todas as forças contra a presença dos “partidos burgueses” que, sem citar as razões, desistiram da coligação. Ainda assim, não conseguiram impor ao PSOL que saíssem todos, e, sendo assim, “não construíram” a frente, mas decidiram que era correto participar, aceitando a presença do PCdoB, um “partido governista”.
Ou seja, capitulam aos anseios eleitoralistas do PSOL que, em sua ânsia por cadeiras parlamentares, fazem um pacto com “o diabo e sua avó”, deixando entrar o PCdoB, sustentáculo de uma das maiores burocracias do país, sem explanar qual o programa da frente e como este entra em conssonância dos os ímpetos ruralistas e corruptos deste partido.

E porquê o fazem?

Um definição sociológica estranha ao Marxismo: PCdoB, um partido “não burguês”, “não-operário” e “Não-pequeno-burguês”; um partido governista!
Apesar de tentar não dar eixo a este elemento, o nó central de toda a argumentação e justificativa da presença do PSTU na frente com o PCdoB se dá em sua definição de quê este seria, não um partido burguês, mas um “partido governista”.

Com esta definição, a direção do PSTU inaugura uma caracterização na tradição “marxista”, dando mais ênfase ao papel que o PCdoB cumpre na superestrutura da sociedade (o regime e governo) do que ao seu conteúdo social e seu papel na relação entre as classes (as relações de produção, parte da estrutura da sociedade).
Desta forma tentam, usando da retórica, eliminar a contradição com um princípio inquebrantável defendido pela tradição trotskysta acerca da “independência de classe” dos trabalhadores e suas organizações.

Não é uma aliança com um partido burguês. É um “partido de governo”. Propõe então uma categoria insondável ao marxismo, que vive no limbo entre os partidos burgueses, pequeno-burgueses e operários...

Ora, mas o que seria, então o PCdoB, este monstro Frankenstein? Qual seu conteúdo social? Qual o conteúdo social de suas políticas? Como atua na relação entre as classes e, assim, qual seu papel na luta de classes?

Segundo uma nota, o PSTU o define da seguinte maneira:
Levando-se em conta a atuação do PCdoB nos últimos, não se poderia nem dizer que o partido implementa uma política nacional desenvolvimentista. Além de sustentar um governo que dá continuidade à política econômica de FHC, o PCdoB diretamente impõe um programa neoliberal quando, por exemplo, dirige o leilão dos poços de petróleo às empresas estrangeiras. Ou quando Aldo Rebelo apoia as reivindicações do latifúndio, parte dele ligado às multinacionais da indústria alimentícia. Por isso, não é de se estranhar que empresas como McDonald’s ou a Coca-Cola apareçam como financiadores eleitorais do partido, no caso de Aldo Rebelo.(...)
Sem uma estratégia e um programa socialista, ou mesmo alternativo ao que está aí, e completamente adaptado à institucionalidade,
restou ao PCdoB atuar unicamente em torno da lógica eleitoral e aparatista.
A estratégia deixou de ser a transformação social, por etapas ou não, e passou a ser fundamentalmente a sua permanência no poder. E como tal, o desvio de verbas públicas parece legitimado frente a essa estratégia.”³  
Esta declaração, por si só, contém um assombroso peso de denúncia que deve, legitimamente, arrepiar qualquer ativista honesto que pense numa aliança entre estes partidos e torna flagrante a contradição da definição do PSTU.
Ora, se implementa, diretamente, um programa neoliberal; articula, apóia e implementa planos de benefícios aos latifundiários assassinos de camponeses e indígenas; recebem milionárias doações legais de grandes corporações como Coca Cola e desviam milhões de reais com as Obras do Governo para a Copa; se fazem e são tudo isto, como definir, seguindo a sociologia marxista, este Frankenstein que é o PCdoB?

De nossa parte, cabe a definição de que o PCdoB é, sim, um partido burguês, com influência e inserção no movimento operário, sendo parte da burocracia governista que cotidianamente trata de amordaçar os operários avançados, confundir e deseducar os trabalhadores, burocratizar suas ferramentas como os sindicatos e comissões e, desta forma, manter o controle sob eles, garantindo , assim, as bases da “estabilidade nacional” para que se implementem as orientações neoliberais, ataques e cortes em direitos por PT, PCdoB e companhia.

No movimento estudantil transformaram a UNE num braço institucional do Governo Federal , amordaçando-o e controlando-o segundo os interesses dos grandes magnatas donos das Universidades privadas, seus financiadores diretos. Com isto, são parte da estratégia para “fazer o movimento operário e estudantil deixarem de ser perigosos”.

Os escândalos de corrupção, que chegaram a denúncias de 40 milhões desviados, são a cereja do Bolo de um partido integrado a Ordem, fundamental a preservação da estabilidade das classes dominantes, um partido que Lênin e trotsky utilizariam como o exemplo de “implementadores dos interesses dos patrões no movimento operário”, contra os quais há de construir uma hostilidade operária a todo custo.
Partindo da falsa premissa de que o PCdoB é um partido “governista”, algo como um “mal tolerável”, e de que a Frente, mesmo não sendo em “seus moldes” foi-lhes imposta pelo PSOL - diga-se de passagem, sem criticar a orientação que ruma a direita deste partido, num dos centros mais dinâmicos de conflitos operários no País - , o PSTU tenta se justificar e vai buscar nas raízes teórico-históricas explicações para tanto.

E como o fazem?

“Teoria como Guia para ação” ou “Teoria como justificativa para ação”?

Uma das definições fundantes do Marxismo e um dos crítérios mais fundamentais para se analisar a seriedade de uma organização é sua postura perante a Teoria. Esta, em nossa apreciação, longe de ser um dogma árido, um “todo imútável”, contém um sem número de lições de luta operária, transformadas em objeto de analogia histórica, que, por dentro de uma estratégia e entrelaçada com ela deve ser um verdadeiro guia para a ação revolucionária dos trabalhadores.

A direção do PSTU, em sua tentativa de justificar esta frente com um Partido burguês, no entanto, age de outra forma.
Com o objetivo de transformar a questão da Frente numa questão secundária, tática, que não atenta a nenhum elemento estratégico e muito menos a um princípio, pontuam uma oposição entre o que é “flexívelmente tático” e a “rigidez de princípios”.

Para isto, em sua primeira parte, usam duas citações confusas que deveriam corroborar uma visão “não-sectária”, sobre os acordos colocando a seguinte pergunta: “será admissível para um partido revolucionário apoiar ou participar de frentes eleitorais onde estejam também partidos burgueses ou governistas?”.

Não respondem categoricamente esta pergunta. O que fazem, no entanto, é utilizar duas citações que, não tem qualquer ligação ou analogia com o debate. Trata-se de um famoso “argumento de autoridade” que busca corroborar uma linha lógica.
A resposta que dão, no entanto, é a de que os acordos são parte da tradição revolucionária e que dependem dos objetivos e da situação concreta em que se fazem. Sendo assim, respondendo indiretamente, colocam a questão dos acordos como algo “natural” aos revolucionários e tornam a frente com o PCdoB como tática.
Tal formulação, que deixa dúvidas quanto a política para os “acordos eleitorais”, induz os leitores a não acharem um problema frentes com partidos “burgueses”, o que depois tentam corrigir com ênfase no final da nota.

Deste modo, não só usam a teoria - recortada e fragmentada- de forma a justificar uma ação pragmática, com objetivo de eleger um parlamentar, como realizam um verdadeiro “atentado” a um princípio fundamental do marxismo revolucionário, defendido a ferro e fogo por Lênin e Trotsky, ao qual, no entanto, em nenhum momento fazem menção em sua nota: “A independência de classes”.


Princípios, Tática e estratégia: o lugar da independência de classe.
Em sua segunda parte, sobre a “rigidez” dos princípios, sua justificativa ganha densidade e chegam a definições mais contundentes.
Definem que a “rigidez de princípios” é a Liberdade de ação, agitação e organização. Para isto, utilizam citações de Lênin e trotsky que, segundo sua própria lógica, demonstram que o fundamental não é “se o partido faz acordos e com quem são estes acordos”, mas sim se “o partido mantém ou não sua independência política, sua liberdade de ação, se mostra seu próprio programa ou não, se levanta suas próprias consignas ou não, se tem seus próprios materiais ou não.”

Nas duas primeiras citações, tanto Lênin como trotsky, deixam muito claro- e parece que a direção do PSTU não quer ver- que todas as táticas e medidas estão subordinadas ao fortalecimento e
avanço da consciência proletária e de sua vanguarda e, de outro lado, de que qualquer medida que se tome, não se deve jamais aos comunistas tornarem-se responsáveis, por menor que seja, por qualquer política dos outros partidos, sobretudo burgueses.Lênin mesmo dirá, em Esquerdismo, a doença intanfil do comunismo quando trata da posição dos revolucionários frente aos partidos da “democracia pequeno-burguesa”,ou seja os mencheviques, nos marcos da autocracia czarista e, por isto, com profundas mediações que:
“(...)Toda a questão consiste em saber aplicar essa tática
para elevar, e não para rebaixar, o nível geral de consciência, de espírito revolucionário e de capacidade de luta e de vitória do proletariado. É preciso assinalar, entre outras coisas, que a vitória dos bolcheviques sobre os mencheviques exigiu da Revolução de Outubro de 1917, não só antes como também depois dela, a aplicação de uma tática de manobras, acordos, compromissos, ainda que de tal natureza, é claro, que facilitavam e apressavam a vitória dos bolcheviques, além de consolidar e fortalecê-los às custas dos mencheviques. Os democratas pequeno-burgueses (inclusive os mencheviques) vacilavam inevitavelmente entre a burguesia e o proletariado, entre a democracia burguesa e o regime soviético, entre o reformismo e o revolucionarismo, entre o amor aos operários e o medo da ditadura do proletariado, etc.”

Em que pesem as mediações, até poderíamos utilizar esta profunda lição de “flexibilidade”, mas vejam, companheiros, que Lênin em nenhum momento cita alianças com partidos burgueses. Ao contrário, discorre sobre a vacilação dos pequeno-burgueses definindo seu traço mais fundamental, em acordo com Trotsky: a tendência a polarizar, ou no sentido do proletariado revolucionário, ou da burguesia liberal. Ou seja, toda a política dos revolucionários está em oposição a burguesia.

Ainda sobre este ponto, a direção do PSTU retira de seu contexto todo um tópico de Trotsky em que discute a aliança entre comunistas e social-democratas, não para uma “aliança eleitoral” mas contra...o facismo!

Vejamos como Trotsky, no entanto, trata do tema, tendo o cuidado de perceber que o PCdoB em quase nada se assemelha a social-democracia e que, trotsky não trata de uma “eleição municipal”:
Em regra geral, os acordos eleitorais, arranjos parlamentares feitos entre o partido revolucionário e a social-democracia servem aos interesses da social democracia. Acordos práticos para ações de massa, para fins de combate, servem sempre a causa do partido revolucionário. O comitê anglo russo foi uma forma indamissivel de bloco de dois vertices, sobre uma plataforma política indeterminada, enganadora, que não implicava em nenhuma ação. Apoias este bloco(...) significava da parte dos stalinistas (membros do Partido comunista alemão), fazer uma política traidora.”(Revolução e contrarevolução na Alemanha. TROTSKY.)Lendo estas palavras faz-se necessário questionar: Em que sentido uma aliança com os corruptos, neoliberais e burocratas do PCdoB faz a consciência opérária fortalecer-se? Em que sentido se fortalece a confiança dos operários em suas próprias forças? De que forma este “bloco eleitoral” terá alguma validade estratégica para a ação dos operários? O PSTU não se compromete com o PCdoB estando numa frente com eles e confunde os operários?

A tradição de Trotsky, no curso da grande revolução proletária na Russia e no curso de idas e vindas de revolução e contra revolução, nos ensinou que existem distinções entre questões de princípio (que são os “pilares de sustentação” de toda a política), as de estratégia (como um plano, segundo os princípios, que abarca um conjunto de operações objetivando a superação da sociedade de classes) e as táticas (como operações isoladas, de acordo e subordinadas a estratégia, que, no entanto, dão-lhe corpo). Qualquer desequilíbrio entre estes pode levar a graves problemas práticos.

Dentre os princípios, a
independência de classes é fundamental. Mais de uma vez, pautando-se em mais de um processo revolucionário, Trotsky nos ensinou como apenas o proletariado, a frente de todos os oprimidos (camponeses, semiproletários, etc) é capaz de produzir as transformações pendentes nos países atrasados (reforma grária, libertação nacional) e cumprir as tarefas de construção do socialismo, a partir de sua ditadura.
Tal aliança, desde o início e sempre, passa por rechaçar compromissos e conciliação com a Burguesia liberal e com a construção de um “ódio de classe”, de uma hostilidade frente as mínimas manifestações de suas tendências, aonde quer que estejam.

Assim,
a estratégia para a revolução socialista, condição da construção do comunismo, ganha corpo com a centralíssima tática da aliança com os camponeses, pautando-se no princípio de independência de classe, decorrente da época imperialista em que a burguesia prefere se aliar ao demônio do que beneficiar o proletariado.

A direção do PSTU, além de desferir um golpe no marxismo, quando deixa entender que é tático o conteúdo de qualquer acordo, caracterizando o PcdoB de maneira “indizível”, sem mencionar nada do programa da frente específica além de generalidades que não se forjarão em prática, deixa os operários reféns à influência da burguesia e de seus agentes mais decididos no movimento operário, atentando a um princípio e perdendo-se na estratégia e nastáticas oportunistas.

Ao entrar na Frente com PCdoB, mesmo com suas “críticas de esquerda”, aos olhos das massas o que faz é assumir um compromisso com ela, com seu programa e com a atitude de seus membros. Por isto a legítima estranheza dos “ativistas honestos” que conhecem bem o PCdoB.
Não há como “ não se comprometer” fazendo parte de um mesmo “grupo”, por mais indeterminado e frouxo que este seja.

Se tornam então uma “ala-esquerda” deste acordo que, com objetivos pragmáticos, subtrai, aí sim, um dos “
objetivos tradicionais dos revolucionários”, qual seja, o fortalecimento da consciência dos trabalhadores acerca de seu papel histórico, de que são a única classe capaz de emancipar a si e a humanidade e que precisam fazê-lo com suas próprias mãos e instrumentos, forjando uma tradição classista e autoorganizada no movimento operário.
A tarefa dos revolucionários nesta etapa histórica e na conjuntura de preparação à crise

Não é de hoje que são conhecidas nossas divergências com o PSTU e sua orientação estratégica.
Em suas conclusões, a direção deste partido trata de tentar demonstrar como seu “principismo e flexibilidade” se demonstrou no tempo.
Assim, fazem balanços iniciais de processos importantíssimos como seu apoio a candidatura de um dos maiores traidores da classe operária, Lula, demonstrando como “acompanharam” a experiência das massas com o PT.

Não se trata aqui de pregar a “pureza marxista”, mas de uma visão clara de quais objetivos estratégicos perseguir e como um mínimo desvio na teoria gera quilometros de ecletismo na prática.

O morenismo, a escola na qual se forma o PSTU, há muito demonstrou que está disposto a revisar os ensinamentos de Trotsky.

Há um tempo, impactado pelas revoluções no pós-2ªguerra, Nahuel Moreno, já dizia: “
..os fatos tem demonstrado que nesta pós-guerra não aconteceu o que dizia o texto da revolução permanente: que somente haveriam revoluções socialistas se a classe operária as realizasse dirigida por um partido bolchevique. Esse foi um erro tremendo já que houveram processos de revolução permanente que expropriaram a burguesia, fizeram uma revolução operária e socialista sem serem acaudilhados pela classe operária e sem um partido comunista revolucionário. Quer dizer, os dois sujeitos de Trotsky, o social e o político, faltaram ao encontro com a História. Hoje temos que formular que não é obrigatório que seja a classe operária e um partido marxista revolucionário quem dirija o processo da revolução democrática à revolução socialista...”  (Nahuel Moreno, “Escuela de quadros”- Argentina, 1984)

Partimos desta diferença estratégica com Moreno e, por conseguinte, com o PSTU. Não abrimos mão da perspectiva de que apenas a ditadura dos trabalhadores srá capaz de varrer o capitalismo da Terra e que esta é uma tarefa dos Trabalhadores, a frente de todos os oprimidos, contra a influência da Burguesia e da pequena burguesia.Também por isto, é concebível, que, de fato, pensem que é meramente tático votar numa frente eleitoral, como a que estão, com a caracterização que fazem desta, desde que façam uma “crítica” de esquerda.
Em certo sentido, segundo
sua estratégia, talvez o “ganho de posições” e a formação de Frentes deste tipo, façam a classe avançar rumo a revolução socialista.
Também por isto fazemos questão de demonstrar que devem ser honestos e assumir que partem de
uma ruptura com o legado de Trotsky. Acusam-no de um erro e enveredam por outra estratégia.

Neste sentido, é preciso dizer que toda a política da direção do PSTU e sua tentativa de justificativa desta espúria Frente ruma num sentido diverso da preparação que propunha Trotsky.
Em mais de uma vez em sua nota afirmam seus objetivos que se relacionam, a todo instante, não com a criação de uma tradição revolucionária no movimento operário, hostil a burocracia e a burguesia, autoorganizado desde as bases, com plena “consciência do porquê lutar”, mas sim com o exclusivo
“ganho de posições”, tensionados com a “melhor localização”, com a presença em alguns sindicatos, com a construção partidária e eleição de candidatos que possam servir de apoio para um fortalecimento do Partido.

Tal como dizem, buscam “acompanhar” a experiência das massas, adaptando-se aos terrenos de batalhas, tal como se apresentam, encontrando as “melhores posições” a todo o custo.
Assim, tratam de, num pólo importantíssimo de luta de classes, confundir os milhares de operários que ainda não passaram pela escola da Luta contra a burocracia e pela sua independência.

É certo que nem sempre os revolucionários escolhem em que terreno combater. A transição de democracias-burguesas em facismo e vice-versa foi e é a prova de que a Burguesia está disposta aos mais bruscos giros de “terreno” para desorientar os revolucionários e manter sua dominação de classe.

Ter a clareza estratégica da luta revolucionária, pensar as mais variadas táticas que façam avançar a perspectiva operária, sua confiança em suas próprias forças, seu papel como “tribunos do povo”, a necessidade de seu partido revolucionário e sua autoorganização só é possível se sua vanguarda, o próprio Partido,
está munido de um granítico, férreo, inflexível apego aos princípios. São eles que impedem que o vendaval das forças burguesas possam desmoralizar ou confundir nossa orientação; são eles o mais firme suporte para atuarmos em qualquer terreno.

 Hoje, por exemplo, na ESPANHA, se desenvolve uma mobilização histórica de mineiros... em frente única com os patrões do setor. São as contradições que a Crise de subjetividade dos trabalhadores coloca aos revolucionários como questões.

Os princípios não são a “denúncia” ou as frases abstratas colocadas em “fins de textos”; são sim, e antes de tudo, as bandeiras de gerações de operários afogados em sangue, fincadas no chão, em atitude hostil a burguesia, pela emancipação de todos trabalhadores que só é possível por suas próprias mãos.

É papel das organizações revolucionárias lembrar a todas as gerações destas lutas e lições. E não é com o PCdoB que o faremos.

domingo, 15 de abril de 2012

Que fazer USP?: Derrotar a Ditadura de Ontem e Hoje; ou Uma estatuinte Livre e Soberana: Um débito com o passado!

Neste último dia 1º de Abril se completou os 48 anos do Golpe Militar. Basta uma procura rápida para se observar as notícias sobre comemorações de “oficiais da reserva” e membros das forças armadas realizadas sem nenhum impedimento, mesmo sob o governo de uma Ex-guerrilheira e combatente à ditadura, Dilma. Tais senhores de casaca comemoraram a chamada “Revolução” de 64.

Uma pesquisa mais profunda nos garantiria, no entanto entender o brutal e profundo processo da Ditadura Militar e como esta, como parte de uma “maquinação” internacional, a serviço dos EUA, estabeleceu uma ditadura sanguinária, impondo um regime de torturas, assassinatos e silêncio ao povo trabalhador, que, junto da Ditadura Chilena e Argentina, deixou mais de 60 mil mortos e desaparecidos em toda a América Latina.

Como parte de nossa História, a Ditadura se alçou como um dos períodos mais autoritários e ainda hoje sua herança perdura nos métodos e na Lógica do Estado Brasileiro. Em todas as periferias, no campo e nas favelas a faceta mais degenerada do que foi a Ditadura se impõe de maneira brutal cotidianamente.

Para garantir a manunteção dos lucros dos Grandes capitalistas, muitos são os exemplos de repressão à greves como a recente de Jirau, em que milhares de militares reprimiram e assassinaram operários; Eldorado dos carajás; Pinheirinho; e incontáveis manifestações reprimidas burtalmente pela “cria legítima” da Ditadura: a Polícia e, mais propriamente, a Polícia Militar que, desde 2003 em SP e RJ assassinou mais de 11 mil pessoas.

Dentro de toda a realidade que nos envolve nacionalmente está a USP, dita “maior universidade da América Latina”, gerida por seu REItor Rodas, advogado que, vale dizer, em numerosos casos defendeu o Estado Brasileiro contra as acusações de crimes contra perseguidos e torturados, tendo muito evidência no caso de Zuzu Angel.

Na USP, quase como contrapartida ao papel que desempenhou na resistência contra a ditadura, restam profundas ligações com este período nefasto, sobretudo quando se observa o último período de lutas de trabalhadores e estudantes e como estes são perseguidos.
Resta como coroamento do “orgulho ditatorial”, um estatuto e regimento geral, escrito em 1972 (por Gama e Silva, o criador do AI-5) que, neste momento persegue e pune com expulsões mais de 80 estudantes, toda diretoria do SINTUSP e a associação de professores (ADUSP), por motivos de “atentado à moral e aos bons costumes” , ocupações ou “de incentivo à paralisações”. Ao lado desta ofensiva “legal” os ataques ilegais como espionagem no CRUSP e atentados, como a tentativa de explosão do SINTUSP, seguem na vida universitária...

Tal estatuto, no entanto, não só garante esta ofensiva repressiva; faz isto para colocar a Universidade a serviço dos interesses dos Grandes empresários.

Na mesma proporção dos ataques e medidas repressivas, se desenvolvem as mais obscuras relações entre a burocracia acadêmica dirigida por Rodas e as grandes empresas e empresários: Empresas de terceirização garantindo, pela via da semiescravidão, a mesa farta de professores titulares ao mesmo tempo em que a Reitoria prepara um plano- PROADE- para demitir trabalhadores efetivos e terceirizar em massa; numerosos convênios entre Nike, Avon, Monsanto, Dersa, odebretch e as faculdades da USP; projetos de “reurbanização”, como o proposto para a comunidade da São Remo, a qual, durante todos os anos na qual se estabeleceu jamais obteve qualquer atenção dos burocratas e diretores de Unidades como FAU e POLI, capazes de pensar planos de obras que garantissem emprego e estrutura para a massa de trabalhadores precários que ali residem; e um longo etc...

No que diz respeito ao Poder de decisão, tal estatuto amordaça a esmagadora maioria da Comunidade e garante que um número Hiperreduzido de professores titulares -cerca de 300- decidam as prioridades da maior Universidade da américa latina, em nome dos 100 Mil membros e de toda a população do Estado e País. Isto sem mencionar o quase feudal modo de escolha do Reitor- um cargo que sintetiza o quão arcaica é esta estrutura - votado por este “conselho de sábios” e, por fim, determinado pelo “magnânimo” governador do estado.

Rodas e toda a estrutura de poder da USP abordam a questão da “democracia e da perseguição política” como objeto de paranóia de radicais, ao mesmo tempo em que financiam monumentos em homenagem à “revolução de 64” e designam um coronel da PM, como chefe de segurança da USP.

Na USP, assim, como uma espécie de ampliação da realidade nacional, surge a conclusão do que foi a transição pactuada da ditadura para a democracia, nos anos 80: Um acordo feito pelas costas do povo pobre e trabalhador que nos deixou uma débil e podre democracia dos Ricos; aos demais resta de democráticos apenas o silêncio e a repressão.

Como débito histórico em memória de nossos combatentes é tarefa da nova geração não apenas combater esta herança mas buscar acabar com a ditadura em suas entranhas.
Um movimento amplo, de toda comunidade USP ligado à população trabalhadora, que lute por uma estatuinte Livre e Soberana, questionando as prioridades da USP, lutando por sua abertura radical com Fim do vestibular e buscando colocar sua pesquisa e seu conhecimento a serviço das necessidades dos trabalhadores é o proximo passo decisivo de nossa luta.


É preciso, neste sentido, lutar pela democracia no poder de decisão da USP acabando com o Cargo de Reitor e o Conselho Universitário buscando as vias de democratizá-la estruturalmente.
Hoje na Usp se encontram mais de 88 mil estudantes, 16 mil trabalhadores efetivos, uma estimativa de mais 5 mil terceirizados e 5 mil professores! 

Apenas organizando uma gestão/governo de trabalhadores - inclusive terceirizados-, professores e estudantes, da maneira mais democrática possível, ou seja, proporcional e com a consequente maioria estudantil, com representantes votados em todas as unidades da USP por democracia direta - uma mão um voto-, ligando-os intimamente às organizações da população trabalhadora de fora da USP, é que conseguiremos mudar as prioridades e derrotar a ditadura que vive na USP.

Um debate no movimento sobre que estrutura precisamos


Impregnada até a medula com a mentalidade militaresca e opressora, a estrutura da USP não pode se manter parcialmente, como dizem correntes como o PSOL , ao defender “Voto para reitor”, ou se transmutar numa semi-democracia, com “paridade” (peso de voto igual para professores, trabalhadores e estudantes, excluindo os terceirizados) para a direção da USP, como diz o PSTU, ignorando o peso real dos setores na USP.

Tais bandeiras, apesar de entrarem na discussão acerca da necessária democratização da USP, mantém a distorção existente na representação na Universidade e, assim, não golpeiam até o fim em seu caráter antidemocrático.

O voto para reitor, defendido pelo PSOL, sem questionar ou deixar claro a proporção da comunidade na direção da Universidade, ao invés de colocar em pauta uma luta consequente pela democracia na USP, trata de desviar sua energia, criando ilusões de que “um Reitor” mais generoso ou “democrático” pode garantir os rumos distintos que precisamos dar a USP, substituindo um governo/gestão dirigido pela comunidade por este cargo de “iluminado”, que é, historicamente, um cargo de “intervenção”.

Num sentido parecido, a paridade, defendida pelo PSTU, estabelece a luta por uma semi-democracia na USP.
Ao levantar a bandeira de uma proporção absolutamente igual entre professores, trabalhadores e estudantes - sem mencionar uma palavra sobre os terceirizados-, tratam de manter a mesma distorção na representação que hoje é funcional à implementação das iniciativas privatistas, além de fortalecer uma noção meritocrática, de prestrígio, de que os “professores”- sabe-se lá porquê - precisam ter peso maior na definição das prioridades da USP, seguidos dos estudantes e trabalhadores.

É uma perigosa armadilha lutar por um projeto de “paridade”, sobrevalorizando os professores, em oposição a todo o restante da comunidade USP.
Sua visão desconfia que uma gestão proporcional de toda a comunidade - que, funcionando por voto universal, por seus números, teria maioria estudantil, com trabalhadores e professores em seguida-, colocaria a USP fora dos eixos de um projeto que derrubasse o elitismo e isolamento históricos, justamente porque seria dirigida não pelos “iluminados professores” mas... pela maioria da comunidade USP e pelo projeto político que convença esta maioria!!!

Tais correntes, em níveis distintos, são uma expressão clara de ceticismo elitista! Ao não conceber concretamente o potencial da aliança entre os trabalhadores, professores e estudantes, dialogam com suas próprias dúvidas, levantando “demandas mínimas possíveis”. Deixam de lado, assim, todo o dito “radical”, como as bandeiras pelo Fim do vestibular, a luta por um governo dos três setores com voto universal e consequente maioria estudantil, a luta contra a terceirização, esquecendo as necessidades da maioria da população de fora da USP e a necessária conquista de uma legítima aliança operário-estudantil e popular, apontando nosso movimento no sentido do povo pobre e trabalhador, buscando dizer-lhes a verdade e construir a luta mais profunda. 



Ao seu lado, no entanto, encontram-se setores ainda mais desvairados, como o MNN- Movimento Negação da Negação-, que, posando como o supra-sumo revolucionário, propõe um projeto “subversivo” enlatado para o consumo imediato: A DESTRUIÇÃO(sic) DA UNIVERSIDADE SHOPPING Burguesa! Com esta formúla alquímica, propõe uma luta apesar e contra toda e qualquer idéia de reforma, se colocando contra Cotas, contra o Fim do vestibular, contra o aumento de Verbas para a universidade e educação, contra mais circulares, contra mais moradias estudantis, contra mais medidas de permanência estudantil e, assim, passo a passo colocam-se contra os interesses e necessidades dos trabalhadores.
Além do elitismo, aqui está a concepção de um grupo de estudantes com nenhuma ligação com os anseios democráticos da grande parcela dos trabalhadores.
Apontam, de dentro do mundo brilhante de marfim, sua miséria, mas advertem o pecado cometido pelos que ousam querer entrar e conferir..

De nossa parte, lutaremos para convencer as dezenas de milhares de estudantes e os milhares de professores e também trabalhadores de que um projeto de Universidade progressista e que avance para uma outra perspectiva da realidade, que tenha bases não na ganância dos acordos milionários de gabinete, mas na solidariedade e cooperação entre os trabalhadores e oprimidos é o projeto dos e para os trabalhadores.

Lutaremos por uma USP livre dos burocratas crias da Ditadura, que pense planos de Obras e arquitetura para os que mais precisam a partir da Poli e FAU, construindo moradias dentro e fora da USP; Medicamentos eficientes e quebras de patentes para garantir o tratamento e distribuição aos trabalhadores e membros da comunidade USP a partir da Farmácia e Química; que pense o questionamento da ideologia da opressão aos trabalhadores e coloque-se a pensar, formular e difundir a doutrina da emancipação moral, sexual, social, intelectual e muito além destes a partir das humanidades; e, na qual, sob o cadáver do último resquício da ditadura militar, possa construir uma “USP dos trabalhadores e do povo pobre” e não dos “rankings e elites”.

Isso, só é possível com o também débito da luta pelo fim do Vestibular, para que os muros da USP caiam definitivamente e a Universidade, hoje burguesa, seja tomada pela maioria da população, pobre, negra e trabalhadora e seja um centro vivo de progressismo, luta e organização por uma realidade distinta e superior.

Tal como o que resta da ditadura Militar, a estrutura de poder da USP- um obelisco reacionário-, precisa ser demolida e transformada radicalmente como condição para a “fundação” de uma nova Universidade, democrática, livre e da maioria.
Alexandre Vannucchi Leme, Merlino, Stuart Angel e todos os nossos caídos, cujo sangue se encontra nos armários de muitos membros da burocracia do estado e da USP seguem conosco, até a vitória!

AVANTE!






terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Policial ameaça com arma e agride estudante na USP; Na cracolândia e na USP: aos indesejáveis um só metodo; O porrete!

Policial ameaça com arma e agride estudante na USP;

Na cracolândia e na USP: aos indesejáveis um só metodo; O porrete!



Após todo processo de luta desencadeado na Universidade de São Paulo durante o fim do ano, cujo estopim foi a tentativa de prisão de 3 estudantes no dia 27 de outubro, seguida de diversos exemplos do papel repressivo da Pm no campus, como a invasão por 400 policiais que coroaram o projeto da reitoria de avançar na militarização da USP, a PM mostra, mais uma vez, aos que duvidaram, a que veio.

Neste dia 9 de janeiro, Nicolas, jovem negro, estudante de Ciências da natureza da Usp foi agredido aos tapas e ameaçado com uma pistola por um destes supostos “policiais preparados” para lidar com um ambiente “comunitário”.

Toda a ação foi filmada -Aqui- e, como era de se esperar, tanto a reação do policial - que aos berros dizia que era “Polícia” e não tinha feito nada de errado nem temia a corregedoria- quanto a posterior abordagem da mídia, em caracterizar Nicolas como um “suposto” estudante, já eram esperados por aqueles que se enfretaram com exemplos, truculência e repressão deste tipo por mais de 3 meses. 

O que está por detrás da abordagem deste jovem negro, “mal-vestido” e de Dread/Rastafari na Usp?

Nicolas, não coincidentemente foi abordado pelo policial que, naquele momento e em geral, seguiu um procedimento da PM, que não é exceção nas divisões de elite dos 400 que invadiram a USP ou dos 100 que entraram na cracolândia, nem nos tão “preparados policiais comunitários”. Esta é a política do racismo e da discriminação entre “normais” e os “indesejáveis” que norteia a Polícia.

A Pm é uma instituição reacionária, autoritária e violenta, filha direta da Ditadura Militar. Nas estrelas presentes em seu brasão de armas de mais de 181 anos, comemoram a repressão a Canudos - levante Popular organizado em contraposição à ordem vigente-, às greves operárias de 1917 e comemoram até mesmo o Golpe militar de 1964.
Isto porque seu caráter, a despeito do que dizem os defensores desta democracia dos ricos é o caráter de um organismo a serviço de uma classe: a dos patrões.
Isso implica que seu principal objetivo é garantir os interesses, lucros, empresas, locais de estudos e posses destes grandes magnatas e senhores, por quais vias forem necessárias.
Não é preciso procurar demais. Basta observar o papel que cumprem nas periferias de todas as cidades, nos morros cariocas, nos conflitos no campo, nas greves de trabalhadores em que dissolvem piquetes- o que já ocorreu na USP, em Jirau, com professores, etc-, e, não surpreendentemente, nas Universidades e cracolândias por todo o país.

Nicolas, um jovem negro e pobre não poderia ter outro destino que não ser abordado e agredido tanto pela PM, quanto pela reacionária guarda universitária, a serviço da reitoria. Este é o método comum em todas as periferias e, na Usp, uma universidade pensada, organizada e cujo acesso e permanência são somente acessíveis às camadas mais altas da sociedade, com tais “elementos”, só poderia se expressar o racismo corriqueiro da polícia cujas raízes remetem ao escravagismo do império.

O “indesejável” ao se dirigir ao capataz, tal como uma besta que se dirige ao ser civilizado, deve ser neutralizado e eliminado para garantir a manutenção da ordem imposta pela casa grande. Esta é a lógica da ditadura militar escravagista e é a serviço disto que está a repressão na USP que conta, hoje, com 73 presos e processados políticos e 6 expulsões por lutarem contra tal projeto.

A Reitoria da USP, com seus quadros e monumentos em homenagem à ditadura militar visa impor um choque de ordem aos “elementos indesejáveis” na USP, tal como o Governo do estado impõe sua ordem aos “indesejáveis” da Cracolândia!
Há alguns meses a reitoria tentou iniciar a construção de um dito “monumento à REVOLUÇÃO de 64”, comemorando a data memorável do golpe da ditadura... Igualmente foram veiculados imagens de quadros de “presidentes” reitores da ditadura Militar, como Gama e Silva, nas salas da reitoria... Não bastassem estes elementos tão emblemáticos, numerosos são os exemplos de ataques aos estudantes e trabalhadores na USP.
Demissões, agressões, ameaças com armas de fogo, PM's atacando piquetes de greve de trabalhadores, amordaçando estudantes, etc, são imagens que caracterizam a USP no último período, sendo os últimos meses exemplos cabais disto.

Já está mais do que claro que a presença policial no campus da USP tem um sentido político e repressivo. É uma encomenda especial do Governo do estado, aplicada pelo carrasco Reitor Rodas, para calar os setores que questionam um projeto de Universidade racista, elitista - que exclue a maioria da população com seu vestibular, em especial os negros da periferia-, e voltado aos interesses das grandes empresas.
Historicamente, um setor de resistência tem se organizado e combatido este projeto, no sentido de buscar abrir o debate acerca de que Universidade precisamos e a serviço de quem. São calados às balas, bombas e prisões, tal como os capatazes escravagistas tratavam suas propriedades fugitivas.

Paralelamente a isto, Alckmin e o oficialato da Pm prepararam um plano de higienização social maquiado como “revitalização” da região conhecida como cracolância, cujos objetivos obscuros podem muito bem estar a serviço de uma “limpeza social” pré-olímpiadas as custas da opressão e repressão de todos os moradores da região, vítimas desta miséria de vida que nos impõe.

Por lá, os métodos são bem parecidos. Não faltam balas, tiros, tapas na cara, ofensas e ameaças.
A PM tem estabelecido uma presença ostensiva contando até mesmo com o aparato da tropa de choque e da cavalaria - verdadeiros “capitães do mato”, caçadores de escravos modernos- para garantir que as “vias sejam liberadas” e que, pela “dor e sofrimento”, segundo as palavras do próprio “secretário de defesa da cidadania”, possam “superar” sua situação miserável.

As imagens de terror, armas nos rostos, socos e pontapés e denúncias de execuções sumárias por parte da PM também não faltam, assim como em todas as periferias e nas lutas populares. A justificativa do senso comum e das ditas “autoridades” é que são viciados e um setor “descontrolado” da sociedade.

As razões de tal repressão, sabemos, advém de que aos capitalistas é necessário esconder estes pobres miseráveis, os quais são a expressão mais aguda e mais cruel de um princípio do capitalismo: Ou você “vence” na vida e lucra, ou está abandonado a sua própria sorte por ser um perdedor.
Abandonados, não lhes resta nada além das drogas, da miséria, da prostituição e das ruas.
São a expressão concretizada do destino que o capitalismo reserva a toda civilização. O abandono, isolamento e a miséria.
O Estado, num ato de bondade cívica aplaudido por todos os meios reacionários, vem lhes dar um presente de ano novo e um “incentivo à civilização” na forma de lacrimogênio.

Pela Usp, o núcleo de consciência Negra - NCN- cuja resistência perdura há vários anos e tenta ser um contraponto à política segregacionista e elitista da Instituição e seus dirigentes “máximos”, tem sido ameaçado de perder sua sede e não ter para aonde ir, para, assim, dar lugar a um projeto de “revitalização” das estruturas...que não incluem o único núcleo de Negros!!!

Alguma semelhança?


A ditadura Militar, abençoada pelo PSDB e pela Reitoria da USP tem de acabar!
Não é de se estranhar que a Polícia aja desta maneira. Na realidade, a ação repressiva faz parte de um projeto de Universidade- e de estado- que vira as costas para a maioria trabalhadora da sociedade e busca submeter os trabalhadores e estudantes de baixa renda e resistentes a esta elitização.
A terceirização, que estabelece trabalhos exaustivos e salários de miséria, com assédio moral, etc; as demissões que continuam de maneira arbitrária; expulsões de alunos; processos e demissões inconstitucionais; tudo isto é o exemplo de uma estrutura arcairca e retrógrada, cuja manutenção tem a benção de um governo igualmente autoritário e retrógrado como o do PSDB e sua corja, cujas desocupações de sem-teto, repressão a greves de trabalhadores e a movimentos populares são bem conhecidos de toda a população.

A comunidade Universitária, em nenhuma instância, pode se fazer representar de maneira relevante e, sendo assim, cabe a um pequeno grupo de seletos iluminados, todos orbitando a figura do REItor decidir o que, quando, onde e de que maneira se organizar, financiar e estabelecer as prioridades da USP.

De 100 mil membros da USP, 300 tem poder de decisão. Dos 12 milhões de cidadãos de São Paulo, o governo do estado - que transfere Bilhões para grandes empresas e seus negócios-, através de seu vestibular, permite que tenham acesso à USP apenas 9 mil.
Nenhum deles será da Cracolândia, poucos serão negros e da periferia e os que forem, certamente, sofrerão com falta de condições para manter seus estudos, falta de moradia e muita repressão quando lutarem por algo neste sentido...

Recentemente, o movimento estudantil da USP tem se colocado em pé de questionamento, organizando ações e uma greve para garantir a saída da PM do campus tendo avançado no questionamento da estrutura do acesso e de poder na USP.
É necessário avançar na luta por uma Estatuinte que varra da USP estes dejetos ditatoriais, debata e decida sobre os objetivos, problemas e diretrizes da USP, que precisa estar a serviço dos trabalhadores: a maioria da população.

Igualmente, só um governo da Usp, baseado em conselhos dos estudantes, trabalhadores e professores, na proporção de sua presença na universidade, ligados as organizações dos trabalhadores e movimentos populares será capaz de organizar uma Universidade não elitista e que se desprenda da Lógica de benefício ao mercado e exclusão da massa de baixa renda que verdadeiramente financia a universidade pública.

Por enquanto, nas imediações do belo campus Butantã, dentro do circo de operações dos magnatas hipócritas do governo, Nicolas, agredido e ameaçado com tapas e uma pistola, é levado a crer que os policiais agressores serão, supostamente, afastados numa manobra hipócrita que visa maquiar o verdadeiro sentido “agressor” da repressão; há poucos metros da Universidade, na favela da São Remo, Cícera, trabalhadora terceirizada, assassinada pela Pm com um tiro na cabeça, não tem tanta sorte.

Enquando na USP, há a agressão e o suposto “afastamento”, na favela São Remo, há o corpo negro estirado no chão.

Numa, maqueia-se a segregação social que, inusitadamente, é captada pelas câmeras, noutra, as câmeras e imagens não resistem ao massacre cotidiano e, por lá, a "autoridade" não tem nada a esconder. É só o bom e velho "Mocinho e Bandido": De cinza é "mocinho"; qualquer tom de negro, é inimigo. Uma dica da ditadura.

Dois lados da mesma moeda. Duas ações da mesma hipocrisia. Uma ação de classe de costas para a outra. A ação da classe dos que querem eliminar as vozes que distoam, as palavras que discordam e os oprimidos que resistem.

NÃO PASSARÃO!



terça-feira, 22 de novembro de 2011

A insurreição das vassouras! Ou Uma homenagem a todas as Cíceras e Terceirizadas lutadoras.

A insurreição das vassouras!
A luta é dura, companheiro”. É com esta constatação que uma trabalhadora anuncia ao estudante mais um dia no piquete das trabalhadoras e trabalhadores terceirizados da Empresa União, bloqueando mais uma vez a entrada da surda e muda- porém, implacável- Reitoria.
Por debaixo de suas pernas cansadas, o velho papelão que, neste dia, garante que se sente sem sujar
suas roupas. Ele é o mesmo sob o qual todos os dias coloca sua comida e descansa seus cravados 20 minutinhos de almoço, fora, obviamente, dos prédios nos quais trabalha dentro da USP. Não é que ela goste ou tenha qualquer sentimento bucólico de ficar no mato, mas é que é preciso algo que a proteja do chão sujo no qual é obrigada a comer, uma vez que sua permanência junto a estudantes e professores é proibida.

Por cima, os raios escaldantes de sol atingem sua pele e aquecem todo o corpo. Curiosamente, ela pensa o quanto é melhor estar neste sol, do que ter de limpar com aquele uniforme calorento cerca de 33 salas em menos de 2 horas, repetindo esta maratona de hora em hora e, depois, no fim do dia, voltar para casa sem um banho. O que lhe resta de humor a faz pensar o quão parecida com uma atleta ela seria.

São muitos dias sem seu salário ou qualquer forma de subsistir. Lembra destes dias.. no quarto a criança chora e o irmão mais velho- que não passa dos 6 anos- inocentemente pede por um danone ou algo que adocique a vida no barraco abafado. O “dono do domicílio” já disse que, se não pagar os 100 reais, ele vai ter de dar um jeito na situação. São 4:00 e a greve começa cedinho cedinho. É preciso sair. É preciso deixar seu filho na escola municipal e seu bebê com a vizinha do lado esquerdo. Hoje não vai ter nada pra almoçar, porquê o que sobrou no armário vai pra merenda do mais velho. Lembra de espremer um pouco mais da pomada para varizes que pegou mês passado no posto e passa na perna. Ajeita seu cabelo com o pente olhando pelo espelinho do banheiro, toma um copo de água e sai sem saber o que vai acontecer, se seu salário vai sair, se seu barraco vai ficar ou se é capaz de aguentar...

É – pensa divagante enquanto o estudante sorridente segue seu caminho - a luta é dura....

No meio desta angústia muitas coisas vem à sua cabeça. Lembra que está sem seu salário e o dono do barraco já deu seu ultimato; sua barriga a lembra que há 4 dias tem vivido de pão e suco. Sua mão inchada a lembra do conflito que teve com o burocrata sindical que não quis deixar ela e os meninos do sindicato da USP entrarem para falar com o reitor. Lembra da estudante, agressiva e violenta, a chamando de vagabunda, suja, e apontando para o lixo no chão como se um monstro estivesse ameaçando a vida desta estudante e ela tivesse sido a responsável pela liberação deste câncer...
Se sentia muito mal por tudo isto. Sentia que nada adiantava mais...

Curiosamente, no entanto, algo no rosto daquele estudante e no que ele disse conseguiu mudar aquilo que sentia. Não se sentia mais só. Ele havia dito“ É sim, companheira, é mesmo. Mas você não tá sozinha! De hoje eles não passam!” e virou-se com um sorriso confiante pra fazer sei lá o quê.

O que ele disse deu algum tipo de força a ela. Nunca um rapaz, branco, estudante, bem vestido, havia sequer se dirigido a ela. Agora ele estava ali suando, brigando, cantando, conversando dividindo a luta e brincando com ela. Sentia que não estava sozinha. Sentia que aquilo que ele dizia era sincero.

Um dia antes tinha ouvido umas coisas ditas por este e outros estudantes com jornais na mão dizendo como a TV e os jornais estavam falando: “ Vocês hoje, guerreiras e guerreiros, mostraram pra todos os patrões que o que fazem é fundamental. Se vocês continuarem parados, a USP vai parar e nós, os estudantes, estamos com vocês. Não vamos permitir a escravidão nem aqui nem em lugar nenhum. Vocês perceberam sua força e perceberam que unidos podem mudar as suas e as vidas de outras pessoas. A luta de vocês é histórica e um exemplo para todos os trabalhadores. Nós queremos estar ao seu lado ajudando com o que quiserem decidir.”

Estas palavras a fizeram pensar mais ainda, sobretudo, na tal escravidão. Não parecia certo, agora, o que faziam com ela no trabalho. Não parecia certo receber 500 reais e ter de andar 2 horas para chegar ao trabalho, pois não recebia vale transporte. Não parecia certo ouvir do chefe para calar a boca e ir trabalhar porquê já tinha 20 minutos de descanso e, pra ele, 5 minutos parados são 2 portas que ficam sujas. Não parecia certo ter de comer em banheiros, ou salas minúsculas ou ter de se deitar nos gramados fora dos prédios como indesejáveis.
Acima de tudo, não parecia certo aquele tipo de olhar, meio de lado, desconfiado, como que acusando-a de estar ali para roubar algo e, sendo assim, como se falasse para ela se rastejar e abaixar a cabeça pois ali não era um lugar para gente como ela.

O que os estudantes disseram fizeram ela pensar que aquilo não estava certo e AH, que alívio! Foram mais de 14 anos de silêncio e, durante todo este tempo, não sabia que podia sentir o que sente, pensar o que pensa e, agora, lutar como luta! “Não estou sozinha!Todas minhas companheiras agora tem gente que dá apoio!” Ela pensava...

Parou de pensar- ainda com o sorriso esperançoso no rosto- e levantou-se para ir a uma atividade que os alunos estavam chamando junto dos trabalhadores para discutir alguma coisa.

Lá, ouviu várias falas de companheiros trabalhadores que diziam que aquilo ali era uma revolta mesmo. Diziam que todos os dias as pessoas olhavam para eles- sobretudo elas, já que a maioria esmagadora são mulheres- como vassouras varrendo o chão, invisíveis e automáticas. Um trabalhador da USP levantou e disse, então, com aquela veia do pescoço estalada como se estivesse falando e cuspindo fogo ao mesmo tempo, parecendo muito revoltado mesmo: “ Vocês são vistos como objetos que devem ser usados e jogados fora! Todo dia as pessoas olham pra vocês e ignoram o que vocês fazem. É hora de serem sujeitos e deixarem de ser objetos!”. Em seguida, como que pulando do chão pra não perder o tempo e a deixa, um estudante gritou bem alto: “Hoje as vassouras mostraram que tem vida! Não serão mais objetos e nem usados do jeito que estes canalhas as usaram até hoje! Hoje é o dia de começar a insurreição das vassouras!”
Aquilo fez explodir um mar de palmas, berros e sorrisos.
Em seguida um estudante continuou dizendo que a luta daquelas mulheres e homens era histórica, lembrando de um tal de maio de 68 e falando de uma tal aliança operária-estudantil que historicamente derrubou muitos daqueles patrões safados e foi capaz de garantir que num lugar lá longe todos pudessem ter uma vida diferente, com emprego, saúde, lazer, educação e moradia pra todos.

Toda a falação animou a companheira que, terminada a atividade, foi conversar com suas amigas sorridentes e tomar mais suco do galão de água improvisado.
Encontrou de novo o estudante, que foi falar com ela sobre o que ela tinha achado. Ela respondeu que achou muito bonito tudo aquilo que foi dito e que estava muito feliz por estar ali com os estudantes, que nem o tal do maio de 68. O estudante então, como que lembrando daquilo que ela disse anteriormente falou:
-Você lembra que me disse que a luta é difícil?
Então ela respondeu:
- Sim sim. Ela é, mas estamos juntos e que nem disseram ali, vamos vencer juntos!
Com um sorriso no olhar o estudante então disse:
Isso mesmo, não vamos dar nenhum passo atrás. Lá na frança, em 68, os estudantes e trabalhadores fizeram umas frases que marcaram a história. Uma delas era “La lutte continue”.
Confusa, a trabalhadora indagou:- Mas o que quer dizer?
-A luta continua! Ele respondeu.

Eles se olharam, sorriram e deram um longo abraço seguido de mais falação, debaixo do sol e sob a grama.
Algo, naquele dia, fez o estudante e a trabalhadora pensarem e os fez- e tem feito- seguir a risca o sentido desta última frase, histórica e carregada do sangue e suor de muitos trabalhadores e estudantes, unidos em luta. Para aqueles, no passado, e estes, no presente, a luta continua!



domingo, 14 de agosto de 2011

O “campo de batalha” cotidiano do trabalhador


O “campo de batalha” cotidiano do trabalhador
São 4:30 da amanhã. O tilintar do rádio-relógio ressoa como um martelo batendo em aço, em sua cabeça. João levanta de um só pulo e em dois movimentos se desfaz de seu calção e sua camiseta.

Daqui até sua saída serão exatamente 15 minutos, contando o banho, os ágeis movimentos para vestir suas roupas, o ajeitar final da mala aonde guarda sua vestimenta de trabalho, o embrulhar da marmita, a abocanhada no pão com margarina feito na noite anterior, o vestir da bota grossa e o beijo em sua esposa.

É recém casado com Maria. Ajeita a comida que vai na marmita da esposa- que se levanta em 10 minutos- e a deixa em cima da mesa de madeira compensada com os “pés” de metal; sai de casa e se vai para o ponto de ônibus.

João desce sua rua, ainda no escuro, vendo a fumaça sair de sua boca, enquanto pensa que precisa dar um jeito de arrumar algo melhor para sua esposa ou pedir um aumento. Limpar só tem dado dores a ela e a Empresa inclusive ameaçou de sumir e não pagar os salários e os direitos. Já tinha ouvido da boca da Josefa, amiga da Maria, que coisa parecida tinha acontecido lá na Usp, com uma tal de Dima e União, mas não imaginava que num lugar como a USP algo assim pudesse acontecer... Afinal, não era lá a escola dos “patrão”?

Sua especulação é abruptamente interrompida pela chegada no ponto de ônibus. Lá encontra o Martinho, vigia do terminal de ônibus e o Felipe, que acabou de entrar no telemarketing de dia e na Faculdade paga a noite. Junto deles, mais umas 10 pessoas do Bairro que só conhece de vista. João os cumprimenta e se prepara para o primeiro desafio: Pegar o microônibus.

Como calculado, o microônibus passa por volta das 4:55. Todos precisam subir já que a “ máquina de ponto” não entende muito bem de atrasos e problemas. A primeira batalha do dia começa:
Todos sacam os bilhetes de passe e se amontoam estratégicamente para ocupar o melhor espaço no microônibus, já abarrotado de gente. Mesmo se conhecendo, a hostilidade não deixa de ser evidente. É um resmungo pra cá, um empurrão mais forte pra lá, uma olhada de soslaio como quem diz “aí também não, né?” e, neste primeiro campo de batalha, todos disputam durante toda a viagem de 15 minutos até o Metrô, uns milímetros a mais no metro quadrado que abraça incríveis oito pessoas.
A viagem é tensa, barulhenta e muito quente. João olha pelos poucos espaços entre os corpos buscando observar as expressões. São uma combinação de sofrimento, raiva e passividade. Olhares caídos, distantes e expressões pálidas são o lugar comum...

O microônonibus chega ao metrô e a batalha recomeça. Muito empurra-empurra e a saída está completa. Pela rua e pelas calçadas, fileiras e fileiras mal-organizadas de pessoas marcham para a entrada do Metrô. Tim-tam, Tim-tam, Tim-tam, é o som do bater de sapatos apressados que prendem a atenção de João, não menos ansioso para entrar na estação e pegar o trem.
São 5:15 e ele entra às 6:15. Tem de bater o ponto até as 6:15 sem adiamentos.
João, apesar de toda esta pressão, aproveita ao máximo esta caminhada de cerca de 2 minutos, 200 passos e um pular de escadas, como um respiro de “paz” que precede o que virá. Pega o jornal gratuito que distribuem na porta da estação, coloca debaixo do braço e se encaminha para o segundo campo de batalha a enfrentar.
A subida das escadas é um desafio menor perto do que tem de enfrentar.
De cara, se choca com a multidão de gente apressada e pressionada, que tenta passar o bloqueio das catracas. Bate cartão, soa apito, bate cartão, soa apito, bate cartão, soa apito. Esta é a dinâmica da catraca.
Chega sua vez e, como não poderia deixar de ser, não é diferente.

Começa a corrida contra o tempo e o espaço. Multidões de apressados descem a escada e se encaminham para a estação. Posicionam-se estratégicamente- como no caso do Microônibus- em frente a sinalização das portas dos Trens e se aglomeram em verdadeiros bolos humanos, que vez ou outra soltam bolhas de fermento graças ao desconforto e aos choques. O trem chega, já com os lugares todos ocupados pelos passageiros da penúltima estação, pára e se posiciona. Os ânimos se acirram. Parece que ninguém gostou que “seus lugares” fossem tomados pelos passageiros da estação anterior. A aglomeração começa a vibrar. O apito toca. As portas abrem e o turbilhão é incontrolável.

João, no meio de um destes bolos, segue, como todos os dias, o ritmo da cidade. Empurra firmemente e se apóia aonde dá até encostar o rosto na frente da porta, do outro lado do trem. A massa de gente continua se convulsionando como que buscando encontrar uma forma aceitável e consensual para todos. O apito toca e, novamente, começam os insultos, o burburinho, os olhares e as reclamações. Passa a primeira estação e o clima já se estagna e retorna aos passivos, distantes e desconsolados olhares de tantos trabalhadores... Este é um processo dinâmico que, a cada viagem e a cada trem, tem suas particularidades e demonstram seus traços comuns.

João se acalma, apesar de vez ou outra- e não só ele- provocar um empurrão aqui, um olhar mal-encarado ali, tudo para buscar manter “seu espaço” e sua viagem. Intimamente ele- e, muito provavelmente, todos por ali- pensam: “Nem a merda do sossego na viagem pro trabalho eu tenho?”.
No caminho de quase uma hora para o trabalho, João sempre olha as mesmas paisagens, com os mesmos telhados e as mesmas cores, da mesma janela e na mesma linha, todos os dias. Só o que muda são os odores, os empurrões e o trem.
Entretanto, quando consegue pegar, sempre gosta de ler o Jornal Gratuito distribuído em frente a estação. De fato, é um jornal publicitário com 90 % de propaganda e 10% de notícias, ainda assim, para João, ter aquele material de manhã e poder distrair-se é sempre muito bom.

Abre cada página com cuidado examinativo rigoroso. Lê cada anúncio de imóveis, notícia dos astros do futebol e todo aquele papo de partidos, coligações e não sei quantos milhões que foram transferidos, retirados ou investidos aqui e acolá, com muita atenção. Nesta edição, algo na primeira página lhe chama a atenção.
O título da capa diz
“LONDRES EM CHAMAS; GRÉCIA RESISTE; CHILE NAS RUAS: INVESTIDORES E EMPRESÁRIOS APREENSIVOS COM AS MOBILIZAÇÕES POPULARES.”.
João nunca tinha visto o que estava naquelas imagens. Fora o ônibus que queimaram quando a polícia matou o Diego - menino trabalhador lá do bairro, pego a noite e pelas costas-, ele nunca tinha visto tanto carro, casa, pneu e viaturas apedrejados e queimados e nunca tinha visto tanta gente na rua. Lê tudo o que falam sobre os baderneiros e sobre o assassinato de um “homem suspeito de um bairro de periferia” no jornal e não tem como não lembrar do Dieguinho e da revolta e indignação que aquilo gerou. Na ocasião, mais 4 ditos “baderneiros” foram levados pelo choque e liberados, mais moídos que arroz de 3ª, três dias depois.

João, então, fica pensando nos motivos daqueles jovens em Londres e, quando vê o que ocorre na Grécia e no Chile, não deixa de expressar, de um lado uma simpatia ardente e por outro um alívio enorme por ter seu emprego nestes tempos duros. Já tinha ouvido seu irmão e amigos dizerem o quanto está difícil arrumar um emprego depois que perderam os últimos e isso, de fato, o assustava...

Mais uma vez seu pensamento é interrompido pelo imperioso ritmo da máquina citadina. João tem de descer e encarar seu terceiro campo de batalha: a transferência para a linha ferroviária.
Começa de novo a mesma dinâmica. Empurra-empurra, olha-olha, berra-berra, reclama-reclama, para-para, entra-entra, sai-sai, acomoda-acomoda, acalma-acalma e, enfim, João está de novo num outro bolo Humano a caminho de Capuava aonde vai entrar daqui a 20 minutos na fábrica aonde trabalha.

A esta altura, João, frente à iminente jornada de trabalho- que na verdade já começou bem antes do “previsto legalmente”- se rende aos apelos de Morfeus e adormece, ali mesmo, de pé, pendurado com um pingente na barra do trem. Não sonha. Inclusive, para ele, já faz algum tempo em que não pensa em seus sonhos ou se é que ainda existem. Sejam os pensados ou os “sonhados”.

O apito toca e o som anuncia: “Próxima estação: Capuava”. João, acompanhado de um batalhão de outros trabalhadores, se aglomeram e praticamente ignoram a presença da porta a sua frente, saindo impetuosamente, tendo-o em sua linha de frente. Ele corre para a saída da estação, passa a catraca e atravessa a rua correndo.
São 6:10 e ele chega na máquina de ponto em 3 minutos, correndo.
Seus movimentos são desengonçados e meio tortos, afinal, não é mole carregar uma Bolsa cheia de roupas, com sua marmita e correr com aquelas botas do serviço.

Quando está próximo de chegar à entrada da fábrica, já acenando ofegante ao vigia da entrada, ouve a sirene e os gritos: “Vai, vai, safado. A casa caiu, a casa caiu. Vai pra pare...” Antes de ouvir o fim da palavra já está com uma mão na cabeça, outra empurrando as costas e o rosto pressionado numa parede. Segue o procedimento:

-Qual seu nome?
João Roberto da Silva.
-Tem passagem, neguinho?
Não, senhor.
- Usa drogas, malandro?
Não senhor, eu sou trabalhador e to atra...
- Cala a boca, porra. Responde só o que eu perguntar. Dá os documentos.
Tá aqui, senhor.

O “oficial” da lei, examina João e seus documentos, liga para a central, faz mais algumas perguntas e libera o trabalhador com um “fica esperto, falador.” e um sorriso para seus “companheiros de profissão”. Todo este processo durou exatos 25 minutos, na frente dos colegas de trabalho de João, que até queriam ajudá-lo, mas o chamado do Ponto falava mais alto.
João entendia e sabia muito bem que era ruim se meter com a Polícia. Já tinha sido “enquadrado” muitas vezes antes.

João então, nem pensando em nada, apenas com a imagem da máquina de ponto e do patrão na mente, corre apressado para a entrada, cruza o portão principal e o estacionamento da fábrica em tempo recorde e chega à maquina de ponto. Lá, retira seu cartão e vai passar, quando percebe que a realidade não seria tão generosa assim.

“Seu Roberto”, como costumam chamar os aduladores e puxa-sacos, ou “velho desgraçado”, como o chamam os operários, aparece de sua porta e, munido de sua autoridade de patrão e um olhar repressor diz tudo o que João não queria ouvir:

-Você vai ter o dia descontado hoje, viu?
Mas Seu Roberto, eu estava no horário até que a polícia me parou ali na entrada e nem falaram o motivo.
-Não me interessa...Como é seu nome mesmo?
João, senhor.
-Não me interessa, João. Se eu deixo você se atrasar assim, que exemplo vou dar para os outros trabalhadores daqui, ein? Tem gente que vem de mais longe, chega no horário e não fica arrumando encrenca com a Polícia antes do trabalho.
Mas eu já te disse que não foi culpa minha. Eles que me pararam.
- Hoje seu dia vai ser descontado. Pode descontar desse aí, Nelson!
Então eu vou embora e volto amanhã, senhor.
- Prefere ir embora e não voltar nunca mais, “João”?- disse o patrão com um tom misto de nojo e sarcasmo.
Não senhor. Tô indo lá pras máquinas...

João não sabia, mas nestes últimos 30 minutos, havia passado por dois campos de batalha dos quais, necessariamente, ele seria derrotado.

A polícia e o Patrão e as situações que os envolvem, para o trabalhador, constituem uma das batalhas mais árduas e, certamente, João, ali, naquelas condições, sozinho, não estava preparado para combater e/ou para vencer nem, a exemplo do metrô, “alguns milímetros” de espaço.

São 6:40. A esteira começa já a rodar. O dia começa a raiar. Para nosso trabalhador, o dia acaba de começar. João é consumido, nas primeiras horas do dia, por um ódio enorme.
As pragas que profere em sua mente se mesclam com as imagens que viu no Jornal de manhã. Subitamente sente a vontade de explodir toda a fábrica e de enforcar seu patrão. Desconta toda a raiva na produção: Bate, amassa, entorta, retorce, encaixa, ajeita, prende, puxa, prende, passa...Milhares e milhares de vezes. Pouco a pouco, esta elasticidade dos sentimentos e pensamentos passa e João volta ao “normal”...

O dia é longo e, por fim, 6:40 se tornam 15:40, músculos fatigados, muita fome e muito sono. A jornada de 9 horas se passou e João se prepara para enfrentar novamente as mesmas batalhas, nesta volta para casa. Veste sua camisa reserva e se encaminha para a estação.

Ao sair da fábrica tagarelando com alguns companheiros de seção, João e eles olham para a rua que precisam atravessar e veêm muitos paus, pedras e, em frente a estação, um bolo de gente, como aqueles do trem e metro, desta vez não se empurrando e praguejando, mas se segurando, protegendo e jogando pedras e paus nos guardas da ferrovia e nas poucas viaturas que tentavam desobstruir a Rua, fechada por pneus e até um carro virado, em chamas.

João e seus companheiros, aflitos, seguram o primeiro daqueles “loucos” e pergunta o que se passa. Ele lhes diz que aquilo começou por que o Zé Pinéu, limpador da centrífuga, que já tinha avisado a chefia, por mais de 10 vezes, que o banquinho estava frouxo e que precisa trocar, caiu na boca da centrífuga e perdeu a perna direita. Se não fossem os operários, ele teria caído com o braço na engrenagem e poderia ter sido “moído inteirinho”. Os chefes demoraram uns 30 minutos para chamar a âmbulância, enquanto o Zé Pinéu morria nos braços de um dos operários. Dali,, indignados, os trabalhadores trancaram o patrão na fábrica e foram correndo para as fábricas vizinhas e para o metrô chamar aqueles que já estavam indo embora. Foi quando começou o furdunço da Guarda do trem e dos poucos policiais que começaram a ameaçar os trabalhadores caso não “dispersassem”...
O homem, dá um tapa nas costas de João, pega uma pedra no chão e vai para a estação.
João e seus companheiros olhando aquele mar de gente e pensando nos tantos Zé pinéu's que devem haver em sua fábrica, lembrando do que a Polícia lhe fez passar em toda sua vida e do seu patrão, hesitaram alguns instantes mas depois de alguns segundos, entreolhando-se e chegando a uma resposta quase instintiva, entram no meio da confusão, pegam paus e pedras e vão para cima da Polícia.

A imagem de londres e das bombas parecem, agora, cada vez mais vivas para João.
Em sua mente ressoa o pensamento: “Olha só, como aqueles filho de uma égua do jornal tão falando merda. A mulequada e os trabalhadores só tomam na cabeça aqui e no mundo. É todo dia Humilhação e cacetada. Agora vamo fazer que nem eles, tudo junto.”

O conflito dura 4 horas e é noticiado nos jornais e telejornais de todos os principais meios de mídia.
A “Rebelião dos indignados Fabris” é fruto de debates acalorados entre militantes de esquerda e senhores engravatados, juristas e parlamentares.

Na região, agora após 3 meses, não entram mais jornalistas sem pedradas, os patrões não seguram mais os trabalhadores, seus ritmos e sua organização e nem os “velhacos” do sindicato entram lá sem tomar um “pau”.

A peãozada, conversando com uma molecada que estuda lá no trabalho da Maria decidiu retomar o sindicato na próxima eleição e fazer algumas assembléias de todas as fábricas da região, juntas. Já participaram de umas manifestações lá em Capuava e no centro de São Paulo e estão fazendo muitas reuniões com outros trabalhadores, até mesmo daquele maldito e lotado Metrô.
Ouviram muito falar sobre classe, partido, burgueses e dos “pelegos” e patronal.
Os donos das fábricas mais de uma vez chamaram o “choque” para impedir as paralisações em solidariedade às outras categorias em greve e, agora, o governo quer até acabar com as “comissões internas” nas fábricas e impedir o “Movimento 'Zé Pinéu'” de levante anti-burocrático e de organização dos trabalhadores, como tem dito a Mídia burguesa, cruel e sarcásticamente.

João, após aquele dia, ao chegar em casa estrupiado e empolgado, jamais imaginava que aquele processo se daria e muito menos que ele seria eleito um dos representantas dos trabalhadores da Comissão de sua fábrica em pouco tempo.

Na ocasião, depois de contar tudo à sua mulher, soube que esta não teve tempo de fazer sua comida e passar sua roupa. Ficou bravo, discutiu e foi deitar, irritado. Não parecia certo que a “SUA mulher” não tivesse feito os seus deveres.

Ali, naquele momento, João não percebia que impunha, na verdade, à sua companheira, mais um campo de batalha: O da dupla, tripla e quadrúpla jornada de trabalho, uma dinâmica que acomete a todas as proletárias do mundo. O destino de serem as “trabalhadoras do trabalhador”.

Mais tarde, João, recebeu- e aceitou vivamente- severas críticas de Maria, recém eleita membro da comissão representante das trabalhadoras terceirizadas da Tolima e que, a partir de então, iria se encontrar nas assembléias conjuntas das categorias, com João, em São Paulo.

Desde então, João lembra daquele dia no trem e das imagens de Londres e Grécia que, no mundo, só se reproduziram e intensificaram.

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Uma homenagem às trabalhadoras e trabalhadores que enfrentam seus “campos de batalha” todos os dias e ao Futuro que, certamente, Nos pertence!

Valeu Suzano, pela inspiração e pelo Rap.

terça-feira, 19 de julho de 2011

O "Pink Money", os estereótipos e a apropriação de "guetos" pelo Capital.



Apesar de há algum tempo já existente, poucos são aqueles familiarizados com um termo que, por dentro de todo o debate gerado pelo brutal aumento dos ataques contra homossexuais tanto nas ruas das principais capitais brasileiras quanto no Congresso por Bolsonaro's e evangélicos, adquire centralidade e merece uma atenção especial daqueles que buscam entender como o capitalismo pretende a "resolução" de algumas das principais expressões de sua crueldade enquanto sistema econômico e social. Tal termo é o "Pink Money".

Criado já há algum tempo, o termo, como se define na Wikipedia, faz referência ao "poder de compra" da comunidade LGBT. Suas origens, alcance e perspectivas podem ser sintetizados da seguinte forma: "Com a ascensão do movimento dos direitos gays, o pink money passou de uma franja de mercado e marginalizado para uma próspera indústria em muitas partes do mundo ocidental, como os Estados Unidos e Reino Unido."¹ 
Esta dinâmica de transformação, da qual já emana um profundo conteúdo ideológico e desnuda inicialmente a maneira pela qual os capitalistas buscam lidar e entender a comunidade GLBT, encontra em numerosos artigos na internet e blogs aprofundamento e desenvolvimento.
Na maioria destes pontuam-se as bilionárias cifras que envolvem o "consumo gay" e buscam, por incontáveis vias, alertar e pontuar a importância de entender o "mercado" para, assim, e não há nada mais ideológico do que isto, "tirar melhor proveito" dele.

O que (dizem ser) é o "consumo gay" e a utilidade dos Estereótipos

Basta uma busca rápida e uma olhada nos estúpidos programas do dito "humor" para entendermos quais são as predileções dos homossexuais e/ou quais as áreas de interesses destes segundo a ideologia burguesa. Segundo um site dado a refletir o impacto, benefícios e a necessidade do empresariado e marketeiros dispenderem atenções ao "consumo gay", as principais áreas de interesse da comunidade são a automobilística, tecnologia, turismo, moda e luxo.²  
Obviamente que toda a estética e referências envolvidas são recheadas de todo o tipo de estereótipos e chavões pejorativos os quais, historicamente, foram atribuídos aos gays.
O Sadomasoquista, o bombeiro, o "emplumado", o delicado, o espalhafatoso, todos são os "tipos ideias", dos quais, nenhum homossexual, bissexual ou transsexual pode escapar. 

Tal é e sempre foi a tendência de interpretação das minorias e dos grupos indesejáveis, por parte da ideologia dominante, que seja, estereotipá-los, transformando-os em elementos caricatos e identificáveis, passíveis de separação e segregação para, assim, "Guetorizá-los" e proteger o padrão de indivíduo, desejável, estável, heterossexual, casado, branco e que deve se constituir, necessariamente, como a regra da sociedade como um todo.
Este processo, todavia, não é novo, nem na história dos oprimidos, nem no caso da comunidade LGBT. 
Basta ligar a TV em qualquer canal propagador do sensacionalismo e evidenciador da barbárie cotidiana da sociedade de necessidade capitalista, para vermos quais são os estereótipos atribuídos aos Jovens negros, pobres e da periferia, enquanto ladrões, estupradores e bandidos; às mulheres, enquanto, em sua grande maioria, donas de casa, "esposas", submissas e resignadas e, se forem negras, enquanto domésticas e faxineiras (Não por retratem a triste realidade da maioria da População feminina deste país submetida aos piores e mais degradantes empregos, mas por reproduzirem-nas enquanto corretas, sem críticas); dos homossexuais como os, chamados socialmente, "tarados", escandalosos e descontrolados e segue-se uma longa linha de definições rígidas e absurdas...

Como dissemos, no entanto, tal processo serve como uma espécie de "definidor universal" e bloqueio da ideologia dominante, definindo o "distinto" e o "regular", o diferente e o normal, para garantir a manutenção de seu padrão desejável e colocar em seus devidos guetos o que "surge e é diferente" sendo que, invariavelmente, como em tudo no capital, tal processo terá suas implicações econômicas, que encontram uma expressão acabada em relação a comunidade GLBT no "Pink Money".

 Pink Money: Aspectos positivos para a comunidade GLBT em sua "integração"?

A transformação da comunidade Glbt em "mercado gay", necessariamente precisaria passar por um processo de "homogeneização" de interesses pela via da conformação de tipos ideias, estereótipos, que, como demonstramos, servem a um interesse essencialmente ideológico de separação daqueles agrupamentos de indivíduos de um todo, cujas características são tidas como ideais e desejáveis. 
Esta definição possui base histórica e, sendo assim, basta voltarmos 40 anos no tempo para observarmos o quão indesejáveis e segregados eram os homossexuais na Grande Nação da liberdade, os EUA, na qual, os ataques aos homossexuais nas ruas, praças e pontos de encontros, dentre eles o emblemático STONEWALL, ao qual iremos nos referir mais a frente,  pelos orgãos repressivos do Estado -Polícia- eram tão comuns, ou mais, quanto os espancamentos, prisões arbitrárias e assassinatos de jovens "afro-americanos", submetidos a um apartheid aberto, que começavam a se organizar nos Grupos que dariam origem aos “Panteras Negras”.

Esta transformação das ditas "diferenças" em "mercados" é uma das principais ferramentas de objetificação de agrupamentos de indivíduos com características distintas do padrão aceitável burguês e, igualmente, uma importante ferramenta de cooptação e "fagocitose" destes setores, outrora oprimidos e atacados. Vende-se, então, a ideia de que, para garantir-lhes espaço na sociedade, é necessário atender-lhes aos seus interesses, cujas fontes de referência são os numerosos estereótipos pré-estabelecidos, realizando, assim, um duplo objetivo aos capitalistas: A transformação dos setores oprimidos e marginalizados em números objetivos e fonte de consumo para determinados ramos da produção e a cooptação destes setores e "amortecimento" dos conflitos sociais, estes gerados pela própria ideologia capitalista que, naturalmente, por dentro de uma sociedade de opressão e exploração, não deixarão de existir. 

O resultado é o esperado e constatado em relação a muitas comunidades historicamente oprimidas, ou seja, seu isolamento em guetos constantemente discriminados e atacados, elemento extremamente desejável pelos capítalistas pois divide a calsse trabalhadora dentro dela própria, com heterossexuais discriminando homossexuais, etc; a cooptação de milhões destes oprimidos ao projeto de sua realização no consumismo e na obtenção dos bens e posições ideologicamente vendidos e, em momentos de agudização das tensões sociais; a retomada de uma escalada de violência e ataques àqueles que representam o "indesejável" e não mais podem ser "toleráveis"- existe termo mais ideologicamente reacionário e cínico do que este?- na sociedade.

Recentemente, vimos reportagens que nos colocam os números da barbárie cotidiana relegada aos GLBT's e que nos evidenciavam espancamentos cotidianos de jovens que moram nos morros dos Rio de janeiro. Da mesma forma, centenas de mortes continuam ocorrendo todos os anos e o número de espancamentos, só na região da avenida Paulista se mantém em níveis estratosféricos. No mesmo sentido, a bancada evangélica organiza milhares de pessoas em marchas contra os direitos GLBT's e propagam, ao lado dos adeptos- assumidos- da ideologia da ditadura militar e da extrema direita, o ódio e a morte aos gays, lésbicas e todos os de orientação não heterossexual, pelo bem da Família, da Ordem e da Propriedade Privada. Neste cenário, até mesmo os grandes avanços, como a recém aprovada União estável, perdem completamente seu brilho, frente à reacionária PROIBIÇÃO de homossexuais doarem sangue e o veto Homofóbico, perpetrado por Dilma, ao Kit-Anti-homofobia. Nos termos mais populares e simples possíveis, fica a pergunta: "De que merda de integração dos GLBT os marketeiros e cães do capitalismo de plantão estão falando?"

De volta a Stonewall (Por isso lutamos) e a liberdade de SER

A revolta de Stonewall, como ficou conhecida, foi um processo de resistência e confrontos ocorrido em Nova York, em 1969, como resposta aos corriqueiros ataques, prisões, espancamentos e prisões arbitrárias que ocorriam na região da cidade conhecida como Greenwich Village. Após o que seria "mais uma batida cotidiana policial" os moradores homossexuais, travestis e moradores de rua que residiam na região e se encontravam no Bar Stonewall, decidiram se levantar e reagiram, desta vez nos mesmos termos, aquele ataque cotidiano. Prenderam os policiais e provocadores dentro do Bar na primeira noite, enfrentaram-se com as tropas de choque detrás de barricadas por semanas lado a lado de artistas, jovens, trabalhadores e militantes negros que já haviam combatido a polícia nas manifestações anti-guerra e, sendo assim, deram passos decisivos na autodeterminação de seus destinos, aglutinando milhares ao seu lado.

O processo de Stonewall, no qual se desenvolveu uma auto-organização interessantíssima contra a repressão e sua segregação, foi o berço de formação de organizações de luta pelos direitos do que chamamos hoje de GLBT, organizações estas que passaram a retratar as mazelas e a opressão cotidiana e a, até mesmo, organizar ações de enfrentamento tático contra a repressão que ainda perdurava em nome do Esquadrão de Moral Pública da época, que, em numerosos Países tem numerosos nomes com o mesmo intuito, proibir, reprimir e, quando possível assassinar. Este exemplo, não poderia deixar de ser lembrado e, dele, não podemos deixar de buscar lições.

Obviamente que não propagamos aqui a condenação em relação a qualquer aspecto dos "estereótipos ideais" que criticamos. Os exaltamos para evidenciar o quão simplista e formatador é o movimento da ideologia burguesa a serviço dos interesses do capitalismo que transforma o indivíduo, cujas potencialidades são enormes e tendem ao infinito, em elementos formatados, rígidos, secos, limitados e reprimidos em todos os níveis, sobretudo pelos padrões machistas, homofóbicos e racistas que fundamentam esta ideologia.

Os lutadores de Stonewal diziam :  
"times were a-changin'. Tuesday night was the last night for bullshit.... Predominantly, the theme (w)as, "this shit has got to stop!"Participante anonimo. Ou seja, esta merda tem de parar. Em inglês, inspirador. 
A opressão e "guetorização" dos GLBTT's tem de terminar e, mesmo com o brilhante e inspirador exemplo de Stonewall, sabemos que ainda demos pouquíssimos passos no sentido de avançar para sua "liberação", sobretudo, porque sabemos que estas tarefas envolvem, como buscamos demonstrar, um questionamento mais profundo da sociedade de classes na qual estamos.

Apenas questionando os estereótipos, os "dever-ser", a dinâmica de apropriação de um lado e de segregação de outro estabelecida pelo capitalismo em relação aos "indesejáveis"; somente buscando construir uma sociedade que se livre de todo o culto à aparência e busque a essência; somente construindo escrupulosamente uma sociedade cuja produção esteja a serviço das necessidades da maioria da população e não do lucro de uma fração ultra-minoritária da sociedade, os capitalistas; somente construindo, hoje, no pequeno, polegada por polegada, uma Contra-moral, uma legítima moral revolucionária, que se paute pela Liberdade Sexual completa; somente construindo uma sociedade que se paute por uma moral que não se pauta na auto-repressão, no auto-flagelo, na discriminação, na segregação, mas sim na completa autodeterminação pensada e organizada coletivamente; somente assim, refletindo e construindo tudo isto e muito mais, é que avançaremos na perspectiva da superação de nossa opressão, seja qual for.

O capitalismo merece e PRECISA perecer


 O capitalismo é um sistema econômico e social Podre e decrépito, baseado na exploração, na mentira e na transformação das massas em objetos de uma ínfima minoria. A ideologia Burguesa teve muito esforço em caracterizar a doutrina marxista, no que diz respeito ao que prega acerca do desenvolvimento do individuo e acerca das questões cotidianas e "morais", como um sistema de idéias que pregava o Rígido, estreito e o castrador. Não é difícil lembrar da propaganda anti-comunista que colocava lado a lado milhares, com fardas verdes, pastas de dentes iguais, vivendo em ocas gigantes e completamente alienados.


Na realidade, é nesta inverdade que se evidencia o principal medo e este é o recurso ideológico mais desesperado e de apelo ao velho que a burguesia internacional lança mão. Hoje, milhões passam fome enquanto bilhões de alimentos são queimados todos os dias. Igualmente, bilhões estão relegados ao desemprego e observam a face cruel de suas mortes sem perspectiva. Milhares e milhares de recursos, terras e bens nas mãos de pouquíssimos capitalistas e bilhões de desalojados, desabrigados, desprovidos de terra, moradores de Rua, etc. As idéias, os costumes, os valores, o aceitável é um padrão que se vende em lojas e homogeniza as intenções e os desejos- ou a repressão destes-...

Lutamos pela liberação desta lógica de opressão. Pelo fim desta sociedade e por uma cuja produção esteja a serviço de produzir e garantir, sejam remédios, alimentos, casas, transportes, etc e etc, a maioria da população conforme precisem. Somos pela transformação desta ideologia castradora e pela completa liberdade sexual, pela libertação da produção artística, pelo livre desenvolvimento da individualidade de cada um, dentro de uma sociedade dirigida CONSCIENTEMENTE e coletivamente.

Digam-nos: O que lhes soa mais castrador e arcaico? O que a sociedade capitalista tem a nos oferecer?

STONEWALL e o exemplo de seus lutadores, se organizando de modo independente e se aliando aos setores de jovens e trabalhadores negros, das periferias, contra os patrões e capitalistas castradores representados pela Polícia, nos indicam um caminho diferente do "PINK MONEY", da "integração burguesa" e de toda a opressão que nos reservam os espectros do velho.


AVANTE!