Tudo se passa como uma cena,
daquelas insólitas que a cidade tarda mas sempre, vez ou
outra, volta a impor a cada dia.
Terça a tarde, duas
pessoas sentadas em cadeiras de madeira - aquelas vazadas que todo
botequim tem- discutem sobre as mais diversas questões, sua
saudade, a política nacional, os problemas corriqueiros que
toda vida de jovens como eles, trabalhadores e estudantes,
apresentam.
A conversa é um belo Zig Zag de relatos,
risadas, histórias, que preenchem a tarde com uma sensação
gostosa de estabilidade e “segurança”. É claro que,
neste papo, tem um pouco de assunto desconfortável, afinal, na
vida, se não tem algo que te pinica, quer dizer que algum
problema mais profundo é o que te persegue. É só
questão de tempo para aparecer.
Como se encontram no
início da tarde, nenhum dos dois, uma garota e um jovem,
puderam cumprir o ritual cotidiano biológico e, sobretudo,
social de sentar-se a mesa e satisfazer aquela vontade fraca que
começa logo cedo e vai progredindo até chegarmos a
definir, ema lgum momento, como “fome”. É claro que esta
não é uma sensação absolutamente
insuportável. Está mais para um tic-tac que começa
a tilintar quando se dá o horário de pagar os tributos
ao ritual.
Como estavam fora de casa foram buscar algum lugar
para comer. Nada muito caro ou espalhafatoso, afinal, num país
como este, comer com alguma frequência um prato de 10 reais,
para um trabalhador, já o torna quase um felizardo, já
que com salários de 500 por mês e todo tipo de gambiarra
que sofrem os trabalhadores por aí, comer fora todo dia é
inviável.
Sentaram, então, num Bar de esquina,
para ver se pediam algum PF (vulgo, prato feito) e foram atentidos
por um cara, de avental, que lhes deu as opções. O
prato do dia era Frango ensopado e Costela ao molho. Com a fome que
começava a tilintar, o calor pré-cambriano e a pequena
preguiça, decidiram sentar-se e comer ali mesmo.
O
Boteco tinha algumas mesas lá dentro mas, como o calor era
forte, decidiram ficar numa mesa fora, sentados nas cadeiras de
madeira, com suas bolsas e tudo mais. A comida que chegou, em
seguida, era pra não se por defeito: Salada, Carne, um
refrigerante e o bom casal arroz e feijão.
De fato, nada
espalhafatoso; um bom e velho PF a que, em tese, todos deveriam ter o
direito.
Conversa vai, conversa vem, as questões que se
discutem variam, desde as inimizades ácidas que se
desenvolvem, até os planos de projetos, reflexões e
idéias tão presentes em suas preocupações
e então, eis que uma pausa inesperada aborda o casal e seu
ritual.
Sua voz é muito fraca, saindo dos lábios
que, com força, tentam irromper e se distinguir das profundas
rugas, verdadeiras falésias faciais, que demonstram sua muita
idade e experiência.
Esta expressão, recém
distinguida, faz parte de um todo muito simples: Um charpe na cabeça,
enrolado do topo ao pescoço, protege sua expressão e
seus cabelos brancos e lhe dá a aparência de retirante. Nas mãos, algumas sacolas cheias de
coisas. Nos ombros, uma pequena maleta pressiona suas costas,
levemente torcidas a frente, como que se curvando. No corpo, um
pequeno vestidinho, maltratado e todo dobrado. E, finalmente, acima
destes lábios, se erguem as pálbebras que mostram dois
olhos, azuis como o céu, estritamente contidos por uma
expressão de dúvida, medo, vergonha e tristeza.
O
casal interrompe o ritual a que se dispuseram e olham com atenção
aquela senhora. Escutam, então, esta voz fraca lhes perguntar
de maneira envergonhada: “Pode me dar o ossinho mocinha?”. O
casal, ainda desnorteado, entende então que ela fala do osso
do frango ensopado, já comido, que haviam pedido. A senhora
mantém o olhar fixo ao casal, repetindo a pergunta com uma
sugestão: “Pode ser só o ossinho
que tá bem, menina. A gente que já comeu coisa na rua,
tá acostumado...”.
Aquela não era uma cena tão
“alienígena”, nem na vida do casal, nem na vida de
milhares de paulistanos. O que surpreendia, no entanto, era a idade e
a expressão da senhora.
De imediato, impactados com a
situação, a jovem trata de dizer a senhora que podia
comer com o casal, havia sobrado muita comida, costela e frango, e
não tinha problema algum. Separam a comida em um prato, pedem
um garfo, arrumam uma cadeira para que se sentasse a mesa e pede para
que ela se sente.
A senhora, como que numa reação
instintiva, repete ao rapaz que “não precisa moço, os
homem daí não vão gostar, pode me dar só
a comida que eu vou embora...”, enquanto a jovem ajeita as coisas
para ela se sentar.
A senhora, como que agradecida e
espantada, frente ao prato de comida feito, retira uma sacola de sua
bolsa, com uma latinha, talvez recém recolhida, inclina-se
sobre a mesa pegando o prato e o garfo, afasta a cadeira na qual iria
sentar e diz, com uma expressão triste e aguda, porém,
agradecida, aos jovens:
“ Isto não está certo
moça, não posso sentar, os homem não vão
gostar. Eu como aqui mesmo” e termina colocando toda a comida na
sacola plástica suja, pra seguir sua caminhada.
Os dois
jovens, estarrecidos, nesse momento, insistem a senhora que se sente,
de que não há problema e, quando esta despeja a comida
na sacola, são tomados por uma sensação difícil
de descrever, de tristeza mista com frustração e de
profunda impotência enquanto olham aquela senhora, de, quem
sabe, uns 70 ou 75 anos, abrir novamente seus olhos azuis, dar-lhes
um sorriso que irrompe das rugas e andar, com a dificuldade de sua
idade, rumo ao desencontro...
Esta é um cena que choca
o casal. Ao olhar para a moça que está com ele, o jovem
percebe que escorrem lágrimas de seus olhos, uma forma de
solidariedade que não encontrou represas. Alguns minutos são
tomados pelo silêncio que se impõe. São difíceis
as conclusões do casal. Uma crueldade sem tamanho acabou de
bater-lhes a porta.
A senhora, do início ao fim,
tratou de manter os rituais com aquele casal ao qual, tão
desesperadamente, pediu ajuda. Não podia, mesmo desesperada
por algum alimento, incomodando a refeição de alguém,
pedir algo além de um Osso, para comer. O ritual não
permitiria.
Da mesma forma, sua expressão, seus olhos
fechados, suas rugas profundas, suas costas curvadas, a forma
envergonhada e inocente de abordar, perceberam mais tarde o casal,
não vinham da biologia ou anatomia, mas da imposição
cruel e fria do hábito da sujeição que, nesta
sociedade capitalista degenerada e podre, são a especialidade
da casa.
Pensaram o casal: “De onde veio esta senhora? Por
quais infernos passou? Qual foi a tragédia de sua vida? Será
que tem família?”, perguntas que, sabem, jamais encontrarão
a resposta e que, a cada esquina, poderiam fazer a cada jovem,
morador de rua, desencantados com a crua vida na cidade do
capital.
A senhora, ao se negar a sentar, não apenas
tinha certeza do quão inviolável é o Ritual no
qual estavam os jovens, uma lição certamente ensinada a
ela por um sem número de maníacos e degenerados, donos
de bar, policiais, guardas civis, todos sádicos espancadores
de mendigos, como sabia qual seu papel num ritual muito maior.
Este
ritual é uma coisa chamada luta de
classes. Seu olhar, sua expressão, sua
negação a sentar-se na mesa com os jovens, além
do medo da reação de desconhecidos trogloditas, era a
expressão de o quanto, em sua cabeça, ela se vê
como um ser inferior, um animal destinado a comer ossos e guardar
comida em sacos imundos, sendo que, para um ser como este, é
um “pecado” sentar-se na mesa, em pé de igualdade, com
qualquer um.
Muitos são os nomes que, certamente, esta
senhora já recebeu, numa sociedade decomposta, cujas bases são
as divisões de classes de seres: em sua juventude, certamente
foi a vagabunda, a vadia, a louca; hoje em dia é apenas a
velha moribunda, esperando o próximo osso e o próximo
saco que salvará mais um dia de uma vida à
deriva.
Perceberam, então, tomados por um misto de
revolta e tristeza, que os olhos azuis da senhora expressavam, na
verdade, uma profunda fome. Mas não apenas de comida. Seus
olhos, contidos por um corpo enjaulado na submissão e preso
pelas pálpebras insensíveis, estavam famintos. Famintos
de vida. Famintos de Sonhos. Famintos de possibilidades. Famintos de
uma vida que, sem poder fazer nada, foi-lhe tirada, escorreu por suas
mãos e hoje, no fio da navalha, se resume a ossos e
sacos.
Enquanto isto, regozijam-se a minoria de porcos imundos
em salas suntuosas, preenchidos até o esôfago do mais
nobre e novo quitute europeu, fazendo a festa, como parasitas
desprezíveis, com o sangue de milhões de senhoras,
jovens, trabalhadores, sugados até os ossos, pelos porcos
capitalistas, banqueiros, burocratas e toda espécie de vermes
que se intutulam “autoridades” responsáveis, nesta
sociedade miserável.
Afinal, em último caso, se
depender dos capitalistas, será este o resumo de todos os
trabalhadores: Ossos e sacolas.
Senão os ossos de galinha, em sacolas, pra comer, que sejam os
ossos de trabalhadores e do povo pobre, em sacolas, quando morrerem.