quarta-feira, 29 de julho de 2015

Suco Gástrico de mim:


Desço o busão como quem mastiga a própria angústia
fustigada entre tantas emoções, peço uma Pizza
engordurada, engrossada pela incerteza de amanhã
misturada com um suco de desgosto pela vida levada mecatrônica, icônica, inócua, que
se pensa uma mudança... na vida, na idéia, na história...
e engulo, apago, durmo. E só. Só.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Elogio ao que levanta

Levanta cedo. O amargor ainda fere a garganta, como um lembrete do que passou e ainda segue. É claro que é apenas mais um dia, apenas mais uma ação, apenas mais um momento, dentre tantos, que vêm e vão, que poderiam não ter nenhum sentido.

Depois de certas coisas, de tantas esperanças gritadas, a tensão presa na cabeça, de horas de pé, soando frio e esperando o resultado , depois de tudo o que se esperou e do que se sentiu parte, este não é um bom momento.
Um dia após o outro, diz o poeta, da rua e do livreto. Livreto que se encontra ali, naquela máquina automática de comprar idéias, muitas delas banais, por “apenas 2 reais quais quer livros”.

Levantar, as vezes, pode ser duro, se de tanta energia, se encontrou o desamparo, o vácuo da solidão, a casa sem móveis, a cabeça sem pressão, a luta sem vitória.
 É inevitável sentir que podia ter feito mais, pensado mais, agido mais, gritado mais, berrado, berrado, berrado!!!
No fundo, no entanto, a gente sabe que não é culpa nossa. E levanta.

 Pra qualquer um já é muito difícil. Levantar, então, já começa a ter um senso de responsabilidade. Não é aquela burocrática, de ter de levantar. Ainda que este não seja  ato o mais agradável, o mais empolgante, sequer comparável a alegria de um ‘Não tem arrego”, que vem dos rincões do dedão e extravasa como explosão nuclear da boca, ouvidos e narizes, a gente levante. Não é o suprasumo da vitória, mas é o preciso, pra nós e pra eles.

E eles são os desamparados, também. Mas não só. É qualquer um que levantou. Qualquer um que vai levantar. Qualquer um que pense em levantar.
Num mundo aonde os joelhos se ralam no dia a dia, as articulações encontram em seu exercício cotidiano o hábito do dobrar, levantar é um gesto de resistência, um gesto de luta, um espasmo da pressão, do ardor, do incêndio que nos toma e tomou.

Levanta e pega o instrumento. Idéias, palavras, pessoas, corredores, trilhos, catracas, sorrisos, lamentos, tristezas, impulsos e a luta. Um fluxo lhe toma, perante aquilo que foi e que, na cabeça de alguns ainda o é.

Levantar é só o começo. As vezes deitar. Veja bem, amigo, “deitar” e não se ajoelhar, render, prostrar, mas deitar, é mais difícil do que levantar.
O deitar é o reino das incertezas, das esperanças, do porvir. O deitar é o reino do futuro. Ao menos quando isto é possível. Mas não apenas do futuro, mas de um futuro preso ao passado, é um futuro que vem do passado, aonde o presente não aparece senão como via de possibilitar esta relação.

Esta, no entanto, amigo, não é a melhor forma de pensar. O futuro, é claro, contém o passado. Mas o que interessa é o presente. É nele, num fluxo incessante de transformação, que a gente faz acontecer. E levanta.

Aquele corredor, hoje cedo, que tomou de assalto, com a garganta amargurada, o peito pressionado, a cabeça no futuro, a angústia do passado, aquele pequeno gesto muda tudo. Mudou a nós, muda a ti, mudará muito mais.
Da angústia se faz a esperança, do rancor se faz o ódio, do prostrar se faz a chama. E Levanta.

Sabe amigo, esta estrada é só o começo, um passo de cada vez, uma chama acesa por hora, um berro lunaticamente escrupuloso solto na luta e uma cabeça no presente, construindo a mudança. Quantas quedas não virão? Mas quantas escarpadas escalaremos? Não temos motivos pra pessimismo. O futuro inextinguível a nós pertence.

Deita amigo; chora; pensa; prosta. Toma seu tempo. Mas não se esqueça. O presente é o caminho. E levanta.

Que ao levantar, um mundo se levanta com você. Porquê de caídos, nosso povo, classe e raça, nunca tiveram nada.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Robocop: Besteirol de Hollywood ou crítica ao militarismo dos EUA?


Estreou na última sexta-feira a refilmagem do clássico de ação e ficção científica, Robocop, que tomou as telas dos cinemas na década de 90, contando a história de Alex Murphy, um policial que, no original, após emboscada de uma gangue, tem quase a totalidade de seu corpo comprometido e fuzilado e é, então, encaminhado para uma “segunda vida” como o policial robótico do futuro, responsável pela segurança das Ruas de Detroit.

O filme, patrocinado pela Sony (grande multinacional japonesa), assinado por José Padilha (diretor de Tropa de elite 1 e 2) e tendo em posições chave da produção, mais quatro brasileiros, conta com figuras bastante conhecidas do cinema, como Samuel L. Jackson, Gary Oldman e tem, como todo produto de Hollywood o fim de entreter, com muito tiro, sangue e drama.
No entanto, mesmo esmagado pelas curtas margens da fome de lucro de Hollywood, o filme consegue não se manter preso apenas nisto e, na transição de uma cena a outra, de mudança de cenários, como base de justificativa para reviravoltas no enredo, se afasta da noção de besteirol e entra no trilho de importantes reflexões abertas pela situação mundial e em particular dos EUA, de hoje em dia.

O filme se inicia, numa escura e dramática cena protagonizada por Samuel L Jackson que, no melhor estilo “Brasil Urgente” ou “Cidade alerta”, se apresenta como Novak, o apresentador de um programa conservador de direita, que trata, aparentemente, de um único tema que é a crise de “segurança” que assola a vida dos Norte-americanos, levando, em suas palavras “vidas policiais e de famílias de bem”, no não tão distante ano de 2024.

Nos primeiros minutos, se apresenta o tipo de recurso que vai ser utilizado muitas vezes ao longo do filme, que é o de imagens e cenários curtos e sugestivos.
 Novak, discursando sobre a situação de calamidade de segurança nos EUA, apresenta aos telespectadores a alternativa, dada pelos Estados Unidos, para a pretensa “falta de segurança” no mundo. Esta solução é trazida pelo conglomerado industrial chamado Omnicorp, que, na prática, substituiu policiais e soldados por máquinas de guerra  de formato humano, engajadas em “proteger e executar” em distintas partes do mundo, a lei e a ordem.

Neste mesmo noticiário, repórteres correspondentes de Novak estão num dos locais pacificados buscando uma demonstração da efetividade e “tranqüilidade” garantida pelos robôs a população .
O local da ação é Teerã, capital do Irã, que atualmente é alvo de sanções e pressão militar e política dos EUA, por ser uma nação “não alinhada” no oriente-médio e , supostamente, ter iniciado o desenvolvimento de um programa nuclear com fins bélicos.
Aparentemente, este Irã do futuro foi ocupado pelas forças “pacificadoras” dos EUA que, segundo Novak e o General com o qual conversava ao longo do programa, aprenderam com Iraque, Afeganistão e Vietnam, e decidiram dar o passo além com os robôs, a fim de pacificá-lo, sem arriscar vidas norte americanas.

Numa cena que claramente serve como crítica a esta falsa serenidade, se apresenta uma família de iranianos discutindo para que um irmão mais velho não fosse fazer algo, enquanto seu irmão mais novo chora e se agita frente a decisão do irmão.
Com o corte da cena, se apresenta um grupo de jovens, com bombas amarradas no corpo, com o objetivo de, na frente das câmeras, mostrarem os robôs matando-os friamente, com seus sistemas automáticos de defesa. Ao longo da rua, os robôs mais humanóides batem de casa em casa para que os moradores se apresentem,  retirando famílias inteiras para demonstrar sua eficácia.

 O grupo de jovens, então, iniciam o ataque e são rapidamente dizimados pelos robôs em frente as câmeras. Nesta cena, o jovem mais novo, ao ver seu irmão e demais sendo mortos, sai de sua casa com uma faca em punho enfrentando um robô de 3 metros que, ao identificar o garoto, o executa friamente. Após esta cena, Novak corta a transmissão, por “razões de segurança” e, ao mesmo tempo, exalta a eficiência e segurança de sua equipe perguntando “porquê, então, em terras americanas não podemos usar estes Robôs?”.

O filme desenvolve uma linha paralela ao drama pessoal de Murphy  que, após investigar um mafioso com relações profundas com policiais dentro de seu distrito, tem seu carro explodido num atentado em Chicago e perde quase todo seu corpo, se tornando, por decisão da família, o projeto Robocop.              
Esta linha paralela é a tensão entre o presidente da Omnicorp, a grande responsável pela solução da crise de “segurança” em Teerã, Rio de Janeiro, Congo, e pelas vidas norte-americanas “salvas” e um senador chamado Dreyfus. Ambos estão numa queda de braço pela opinião pública quanto a se a emenda Dreyfus, que proíbe o uso de robôs nos EUA, deve ou não ser vetada.
O presidente da Omnicorp, que, apesar de dominar os mercados de grande parte do mundo, visa os possíveis bilhões em lucros com a conquista do mercado dos EUA, começa a disputa, no filme, perdendo frente aos argumentos de que um robô não poderia decidir sobre a vida ou morte de um humano.

Como solução a esta encruzilhada, percebe que o que a sociedade quer é que haja a mesma eficácia dos robôs, mas com um homem em seu “suposto” comando.
Daí, começam a procurar a candidatos ao projeto Robocop, dirigido por um cientista engajado em projetos de reconstituição robótica de membros, encontrando em Murphy e sua desesperada família os candidatos perfeitos.
Murphy, então, após a pressão da empresa sob sua família, desperta para a vida, novamente, como  Robocop, uma espécie de andróide que combina um corpo em sua maioria robótico, com apenas os sistemas respiratório e cerebral (além do rosto) orgânicos.


Em mais um corte de cena “crítico”, surge Murphy acordando numa espécie de laboratório, dentro do qual começa a ter um surto graças a sua nova condição robótica.
Desnorteado, começa a fugir, correndo rapidamente pelos corredores de uma gigantesca fábrica que vai, corredor após corredor, demonstrando ser um  gigantesco complexo industrial na China, dentro do qual evidencia-se uma enorme linha de montagem, com milhares de chineses em bancadas de produção e de  avental rosa, observando assustados o andróide que, ao pular os muros da fábrica, cai em cima de uma vasta plantação alagada de arroz trabalhada por camponeses, em frente ao complexo defendido por Robôs armados até os dentes.

Claramente uma referência ao banquete que os grandes monopólios capitalistas (como Apple, Samsung, etc) obtém com a baratíssima e super-explorada (e supervigiada) mão de obra operária chinesa que, trabalham em complexos industriais ultra avançados e convivem com a miséria e simplicidade da vida de outros milhões de camponeses no interior chinês.
O filme se desenvolve, então, como uma combinação da trama policial que cruza a vida de Murphy, buscando solucionar o crime que quase o matou, perpetrado por policiais e até uma chefe do seu distrito policial, e o tema político da emenda Dreyfus, que expressa a tensão entre o humano e a máquina.

 Numa das partes mais interessantes do filme, talvez, Robocop está em treinamento e competindo com um Robô quanto a eficácia em combate.
Vez após a outra, ele hesita frente a um criminoso que toma uma criança como refém, levando 3 segundos a mais para matá-lo, do que o robô. Isto abre uma crise entre os projetistas que, tendo de mostrar resultados, então, decidem atuar numa operação no cérebro de Robocop, com o objetivo de fazer o programa de computador convergir com a consciência do andróide, dando a ele a falsa impressão de que, enquanto combate, as decisões pragmáticas e frias do programa de computador seriam as suas decisões “pessoais”, como humano.  

 Impressões distintas são possíveis, no entanto, esta metáfora, no contexto da necessidade de eficácia, “eliminação” do criminoso e de “imposição da ordem”, parece fazer referência a atividade de policiais, segundo a concepção de Padilha que, programados “pelo sistema”, iludem-se quanto a suposta possibilidade de livre-arbítrio, sendo levados a tomar decisões pré-estabelecidas e, muitas vezes, repugnantes, como se fossem suas e se satisfazem com isto.

Esta seria uma retomada de seu argumento em “Tropa de elite 2”, no qual tenta demonstrar, com seu discurso anticorrupção, que, numa estrutura corrupta, que visa privilégios ou lucros, a ação individual e a noção de “livre arbítrio”, de “ser um bom policial”, etc, não teria qualquer chance de desenvolver-se pois se naturalizariam os “atos repugnantes”, sendo necessária uma limpeza desta estrutura, numa visão reformista e evolutiva, tanto das instituições repressivas, como a Polícia, quanto dos sistemas de governo no capitalismo, atrelados desde a medula e seu nascimento aos interesses das grandes corporações, empresas, máfias, etc, para os quais a repressão e polícia é indispensável.
Outra referência ao tema corrupção se dá quando, após descobrir  e prender os policiais e a chefe de polícia que tinham ligações com o mafioso que tentou matá-lo, Robocop é exaltado numa ação cirúrgica para o mercado, como a evolução do sistema, como uma força da lei “incorruptível”, que daria o passo que as máquinas sozinhas e a humanidade não conseguiu, girando a situação para que a emenda Dreyfus fosse revogada e os robôs fossem permitidos no terreno dos EUA.
Esta cena parece demonstrar um argumento do autor de como a direita, os jornais pastelões policiais e os grandes conglomerados capitalistas, podem e efetivamente, usam, temas como a corrupção, para atingirem seus objetivos privados.

Após a emenda Dreyfus ser revogada, o filme entra num ritmo muito mais veloz, com cenas de ação cruzando a tentativa da Omnicorp assassinar e fraudar a morte de Robocop, pois este começa a “fugir de seu propósito” após a investigação dentro da delegacia,  e a tentativa deste em prender o presidente da companhia.

 O desenvolvimento da trama, cruzado pelas situações citadas e o jornal sensacionalista de Novak, levam a que este jornal demonstre-se frequentemente atrelado aos interesses da grande companhia Omnicorp e a visão de “segurança” dada pelos EUA ao mundo.

 Ao longo do filme, este jornal expressa a tentativa dos grandes monopólios em mudar a maré da opinião pública e garantir a abertura do mercado dos EUA aos robôs, de modo a que a série de manobras que fazem, a manipulação e o discurso acidamente de direita, repressivo, leva, para quem vê o filme, a deslegitimação do programa, como se fosse quase um a sátira ou caricatura da realidade.

É interessante notar que, nas últimas frases do filme, que coincidem com um discurso de L Jackson sobre a segurança e a política dos EUA no mundo, é aonde se condensa e explicita mais claramente um dos objetivos que sutilmente vai cruzando o filme.

Neste discurso, Novak, após xingar aos palavrões e berros no melhor estilo Datena ou Alborghetti, a decisão do presidente em restabelecer a emenda Dreyfus, retomando a proibição de robôs, ironiza os “reclamões” que insinuam que a política dos EUA seriam uma espécie de “agressão imperialista”, devido a utilização de Drones (aviões não tripulados para ataque, em uso hoje no Iraque e Afeganistão)  e robôs e que estes deveriam parar de reclamar.

Numa finalização exaltada, sob o som de trompetes e com a bandeira dos EUA tremulando ao fundo, Novak diz que a “América, ainda é a maior nação do mundo” e merece ser protegida da melhor forma, numa referência a doutrina “messiânica” de um destino “especial” da nação estadunidense, que vigora nas concepções dos grandes capitalistas dirigentes do Governo dos EUA desde o pós 2ª Guerra.
 Após os atentados do 11de setembro, inclusive, tal doutrina ganha força se materializando na idéia de que os EUA devem espalhar o “bem” ao redor do mundo, idéia base da “guerra ao terror” e as invasões (por motivos econômicos e geopolíticos) de Iraque, Afeganistão e, agora, de todas as tensões com Irã, Coréia do Norte e das intervenções na Líbia.

Não se trata de um filme revolucionário, muito menos, sob as margens estreitas dos rios de dólares hollywodianos, consegue impor que este supere definitivamente os traços de besteirol com suas balas e sangue. Isto tudo existe, mas de longe, não é o que predomina na narrativa.

 O filme tem o mérito de, aos milhões, insinuar e colocar questões que tratam de temas cruciais mundialmente, que surgem com a decadência da hegemonia e dominação dos EUA no mundo. Após a Guerra do Iraque e Afeganistão, ficaram claros os custos políticos e humanos de uma ação imperialista visando a dominação econômica e política, sobretudo numa região turbulenta como o oriente médio. A crítica, sutil, desta ação está presente no filme.


A possibilidade de desenvolver-se uma crítica, por sutil que seja, por dentro de uma das maiores indústrias da nação imperialista, apesar de enfraquecida, mais forte do mundo, expressa, também, uma insatisfação interna da opinião pública, uma correlação de forças dentro dos EUA que com sua insatisfação crescente com as conclusões militares da doutrina “messiânica”, não apenas foi um elemento de pressão (combinado com a crise econômica e o rombo de gastos com as guerras) que levou a retirada parcial das tropas do Iraque, como se demonstrou um barril de pólvora que Obama decidiu não acender, quando da tentativa do governo em impor uma intervenção na Síria.


 A ridicularização, no programa de Novak, de que fariam agressões“ imperialistas” , na verdade, é a conclusão de toda uma construção sutil, que vai se desenvolvendo no filme e expressa um tema que aparece em diversas outros filmes, como, inclusive, o novo Superman, quando o homem de aço é vigiado pelo pentágono por um drone e o destrói, dizendo que “ Porquê me vigiam? Eu sou um americano”, ao que é respondido por um militar com um “precisamos ficar de olho”, numa referência, tanto a ação assassina dos Drones, quanto a espionagem militar e política desenfreada desenvolvida pelos EUA, dentro e fora de suas fronteiras.


quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Estatização e Passe livre: Uma oposição?

23:10  JUVENTUDE ÀS RUAS  


O transporte no Brasil e algumas idéias sobre sua transformação.



Por André Bof

É inegável o papel transformador cumprido pelas mobilizações de junho.

Igualmente inegável é a novíssima situação aberta após a vitória representada pela revogação do aumento de 20 centavos nas passagens do transporte, em junho, uma demanda extremamente parcial, porém concreta para as condições de vida do povo trabalhador.

Se, por um lado, este foi um grande êxito após muito tempo de “paralisia” política, por outro, segue o “campo de batalha cotidiano” do transporte: extrema lotação, a falta de linhas de ônibus e trens, as – ainda - caríssimas tarifas (como a de 3 reais em SP), os escândalos de corrupção e desvio de milhões de dólares a cartéis empresariais (Alstom, Bombardier, Siemens) e, sabendo disto,  os jovens pensam, a cada viagem, que “precisamos é de mais daquelas passeatas”.

Uma olhadela no transporte de carga e pessoas, no Brasil

A questão do transporte é uma questão delicada num país de desenvolvimento capitalista atrasado, como o Brasil.
Integrado a corrente industrial mundial tardiamente e, como uma nação submetida aos interesses econômicos das grandes “potências” capitalistas, demonstrando o caráter de uma semi-colônia – que detém, em tese, “autonomia política”, mas a cada passo esta submetida e controlada economicamente-, a questão dos transportes no Brasil sempre esteve atrelada aos interesses do lucro, de costas para as necessidades humanas.

É só a partir do início do século vinte, durante a República Velha, ou seja, quase um século e meio após o “advento” da revolução industrial, que se dá a largada efetiva aos transportes a vapor. Neste momento os governos Brasileiros, com o objetivo de garantir um escoamento ao café, naquele momento o motor da economia, decidem aprofundar a expansão ferroviária, garantindo esta tarefa, em grande parte ao capital estrangeiro.

Somente a partir daí é que se pode falar de um sistema ferroviário relevante, no Brasil que. Foram criadas importantes ferrovias – posteriormente abandonadas- como a Sorocabana, a Cia Paulista de Estradas de Ferro e consolidadas outras de grande importância econômica, como a São Paulo Railway. Estas, em ligação com o projeto das elites, cumpriram um importante papel para o crescimento da produção agrícola e industrial.

Com a entrada em cena de Vargas - em 30 - e o estabelecimento do Estado Novo, iniciou-se a priorização do setor rodoviário, começando o processo de precarização das ferrovias que, progressivamente, ao longo dos anos, não apenas perderam milhares de quilômetros de extensão, como tiveram companhias e trens sucateados ao limite.

O oposto ocorreu nas Grandes nações capitalistas, nas quais o transporte ferroviário e metroviário e, até, hidroviário, se desenvolveram de maneira prioritária.
Em países como os EUA, hoje em dia, as ferrovias são responsáveis por cerca de 40% do transporte da produção; em Paris, o metrô possui 213 Km e mais de 300 estações; em Londres, são 408 Km e em Nova York mais de 468 estações.

Já no Brasil, até 1940, havia 35 mil quilômetros de ferrovias, reduzidos drasticamente a 28 mil nos dias atuais. Quanto ao transporte metroviário, tomando o de São Paulo - o maior e mais utilizado- como exemplo, chegamos aos números de meros 74 quilômetros e 64 estações, ou seja, muito abaixo dos números das grandes nações capitalistas, apesar de nossa grande população urbana. A maior parte do transporte é feita através de cerca de 1 milhão de quilômetros de rodovias por carros, ônibus e caminhões.

Tudo isto tem uma explicação que não foge a lógica predatória do lucro.
Com o Golpe de 64 e a ditadura militar, a priorização do transporte rodoviário aprofundou-se firmemente. Não apenas as rodovias passaram a ser o meio mais utilizado e financiado, como, igualmente, o “incentivo” ao transporte individual avançou como nunca.
Isto não se deu por coincidência. Foi no período da Ditadura militar - financiada e planejada pelos EUA – convivendo e colaborando amistosamente com a repressão, assassinatos e torturas, que houve o maior crescimento e consolidação das grandes Multinacionais do setor automobilístico.

Uma das primeiras medidas tomadas pela ditadura militar foi a revogação da “Lei de remessas de Lucros”, instituída sob o governo de João Goulart, que restringia a transferência de lucros obtidos por empresas estrangeiras no Brasil, para seus países de origem. A quebra desta lei, simbólica e concretamente, demonstrava a que interesses servia a Ditadura Brasileira, abrindo as portas ao boom das indústrias automobilísticas, como Volkswagen, Ford e Chevrolet.

Este processo marcou o papel deste setor no Brasil que é, ainda hoje, o quinto maior mercado automobilístico do mundo, o que determina o forte peso político das grandes montadoras nas decisões atuais dos governos e explica a insuficiência do transporte público.

Ao vislumbrar este “panorama”, percebemos um pouco das raízes das dificuldades que enfrentamos para barrar os “poucos” 20 centavos.
O que, no entanto, está por trás deles é toda a estrutura do transporte brasileiro que, como vimos, nunca foi pensada para os interesses do povo.

Isto determinou que mesmo o transporte massivo de pessoas (feito em grande parte por ônibus e em pequena medida por Metrô) nunca tivesse o objetivo de garantir o direito à cidade – para passeios, visitar bairros, ir ao parque, teatro, conhecer aonde se vive-mas, ao contrário, sempre tivesse o caráter de “transporte de massa”, destinado a trazer e levar os trabalhadores, para o trabalho, a fim de garantir a “engrenagem” urbana funcionando.
Outra marca fundamental é o sentido que adquiriu o transporte no Brasil como umamercadoria nas mãos de empresas e ônibus que determinam o trajeto, o número de ônibus, os horários de funcionamento e os custos de manutenção (pagos pelos governos), o que explica as altas tarifas e relações “íntimas” com grandes montadoras de ônibus, etc.

A opinião dos movimentos sociais e de parte da esquerda

Nossos inimigos, ficam cada vez mais claros: A privatização dos transportes; o papel político e econômico da indústria automobilística estrangeira; a submissão dos Governantes aos empresários.

Aqui voltamos à questão crucial que se apresenta hoje à juventude e aos trabalhadores. Que fazer?
Há, em diversos setores de movimentos sociais e grupos de esquerda, um debate acerca de qual deve ser nossa reivindicação diante dos transportes em geral e, mais ainda, após Junho.

De um lado, erguem-se propostas de “projetos de lei” possíveis, defendidos por grupos como o “Movimento Passe-livre/SP”, que tentam pensar um projeto por dentro do capitalismo e desta estrutura do transporte, propondo “reformá-la”.

O projeto “Tarifa Zero”, como ficou conhecido, é um projeto de lei que visa zerar as tarifas do transporte através da criação de um fundo social dos transportes (cuja verba viria de impostos à população), o pagamento às empresas por ônibus, ao invés de por passageiros transportados - como é feito hoje- e a formação de um “conselho municipal” para “consultar” a população.

Sobre o aspecto “viável”, os governantes sequer cogitam, seriamente, em SP, a possibilidade desta alternativa, com distintos argumentos de “sobrecarga financeira para o poder público” e toda a ladainha que inventam quando precisam se esquivar desta e de outras questões...

O que nos interessa é, no entanto, avaliar o conteúdo desta proposta. O problema não é apenas o fato de que ela desloca o eixo das expectativas das pessoas, em luta desde junho, da rua para o parlamento (que está caindo de podre e pouco disposto a dar uma resposta séria a nossas necessidades).

Um dos problemas fundamentais é que este projeto busca fazer com que o transporte seja integralmente pago através de impostos, dando subsídio estatal de 100% às empresas privadas¹ e criando um comitê, com empresários, governantes e usuários, para “fiscalizar melhor” o transporte.
Ou seja: Mantém a “estrutura” do transporte privatizado e seu lucro; mantém o custo do lucro nas costas do trabalhador; mantém o controle sobre o transporte nas mãos dos empresários e governantes; enfim, mantém toda a base para a corrupção dos milhões desviados, para o “não desenvolvimento” do transporte coletivo frente ao individual e para que o lucro , e não o povo, decida as prioridades.

Por outro lado, grupos da esquerda também formularam um programa para tentar dar resposta ao problema do transporte.

Dentre eles, talvez um dos que disputam com mais “fervor” esta questão seja o PSTU o que, no entanto, não significa necessariamente que seja coerente.

É muito difícil distinguir sua política central, dado que não há um texto recente em seu site, que trate deste tema, apenas pronunciamentos de “figuras”.
No entanto, o PSTU dirige a política de duas entidades importantes: O sindicato de Metroviários de SP e a ANEL (Assembléia nacional dos estudantes) cujos textos podemos acompanhar. Eles partem, em alguns de seus textos e discursos de uma análise muito parecida com a que expusemos, para, no entanto, discordar de si mesmos sobre qual deve ser a reivindicação de nossa luta.

Em metroviários, o PSTU discute “fim das privatizações e terceirizações, redução da tarifa, rumo à tarifa zero”, além de “Estatização Já” (presente em adesivos dos trabalhadores) e “passe livre”, sem fazer distinção, ou seja, para todos. http://www.metroviarios.org.br/site/images/cartaaberta/cartaaberta_130813.pdf

Já, na política da ANEL, ou seja, dos estudantes, defendem o “passe livre para todos os estudantes, desempregados e aposentados” através “da diminuição dos lucros das empresas do setor de transporte coletivo público” e que “devemos ter como horizonte um sistema de transporte público que não mais esteja voltado para o lucro”, pois, “A gratuidade no sistema coletivo de transporte da cidade para estudantes e desempregados pode ser o início desse processo.” http://anelonline.com/?p=1276

Fica clara a oposição existente entre as duas posições. Em trabalhadores, defendem o passe livre para todos e estatização, apesar de não ligarem ambas as questões; em estudantes defendem o passe livre restrito a estudantes, desempregados e aposentados, apontando este como “um primeiro passo” rumo ao “horizonte” de um transporte como um direito gratuito. Nesta relação, para o PSTU nacionalmente, a política dos estudantes é dominante.

Para além do fato de que precisam se decidir claramente, sob o risco de confundirem a si próprios e a quem influenciam, há sérios problemas nesta visão “dominante”.

Dada a estrutura dos transportes no Brasil, está claro  que devemos unificar forças para combater nossos inimigos.
A proposta do PSTU, no entanto, além de dividir as bandeiras levantadas por trabalhadores e a juventude, comete um grave erro:
Se apoiando no exemplo de cidades aonde há o passe livre, caem numa lógica de “etapas”, tipicamente reformista, apontando a “possível” conquista do passe-livre estudantil como um “passo” rumo ao “horizonte distante” do transporte gratuito para todos.

Ainda que no papel o PSTU coloque diversos argumentos corretos sobre o direito a cidade, questionamento ao lucro dos empresários, e até falem sobre a estatização, a saída que dão não responde ao problema, deixando para um “futuro melhor” a luta pelo direito de todos ao transporte gratuito.

Não fazem por ingenuidade ou confusão.
Partem de uma concepção de que não se deve lutar por uma reivindicação que responde a raiz dos problemas, mas que é preciso levantar, de pouco em pouco, o que é “mais atrativo no momento”, mesmo que parcial, e fazem isto, sobretudo, para buscar influenciar setores de estudantes.
Infelizmente, seus objetivos de autopromoção são contraditórios com a realidade de um país no qual mais de 60% vivem com menos de dois salários mínimos e não podem esperar o “horizonte” chegar.



A estatização como via do transporte para todos
Em ambas as visões descritas há uma oposição entre a luta pelo passe-livre e a luta pela estatização, o que, para nós não deve existir.

Acreditamos que, dada a estrutura do transporte no Brasil e as condições de vida do povo trabalhador, nossa luta deve ser a luta pela estatização dos transportes, sob controle dos trabalhadores e usuários, como forma de garantir o passe livre para todos.
Acreditamos na luta pelo transporte como um direito social, para todos, frente ao absurdo de sua privatização.

A única solução realista para garantir o passe livre geral é através de uma estrutura que elimine o lucro como prioridade, ou seja, que tire das mãos das empresas o transporte. É claro que se, ainda assim, seu controle permanece apenas nas mãos dos governantes, o que não vai faltar são escândalos de corrupção, como o que temos visto no caso do PSDB e os cartéis do metrô (empresa pública), desviando milhões.

Daí a necessidade de que o transporte seja controlado pelos trabalhadores (a partir de sindicatos, comitês, etc) que nele atuam e usuários que dele precisam, afinal, quem melhor do que nós para definir quais os trajetos, aonde investir e como expandir o transporte?

Em algumas cidades do País conseguiu-se o passe livre estudantil, como é o caso de Goiânia e Rio de Janeiro.
É evidente que estamos dispostos a conquistar o passe livre para estudantes,  desempregados e aposentados e é claro que esta é uma grande conquista dos lutadores.Não devemos ser contra uma reivindicação, se correta, porque é parcial.
O que colocamos, no entanto, é que estas conquistas devem ser arrancadas por dentro de uma luta mais profunda, que questione a estrutura do sistema de transportes.
Ao invés de restringir a luta pelo que magicamente dizemos ser “possível”, arrancamos o “possível” –determinado pela força da luta- lutando por uma reivindicação correta e profunda. Se venceremos, completamente, ou teremos conquistas parciais, só a luta pode dizer.

Se há uma coisa que Junho fez, foi deixar lições e não existe escola melhor do que a luta de classes. Junho não apenas conquistou os 20 centavos, como - e talvez seja este o fator mais perigoso para os capitalistas – educou milhões na idéia de que lutar é possível e de que devemos arrancar nossos direitos.

É daí que vem a pergunta que fazemos à esquerda: Como é possível, após este despertar político acreditar que há uma luta “para agora”, e uma luta “para um futuro”, no horizonte de dias melhores?

Se neste momento não levantarmos, corajosamente, a resposta que de fato golpeia o coração dos interesses capitalistas, o centro do problema dos transportes, quando o faremos? Que situação mais favorável teríamos para isto, do que mobilizações de junho e paralisações nacionais como o dia 11 de julho e 30 de agosto?
Um revolucionário russo, com alguma experiência na luta contra o capitalismo, certa vez disse que se há uma tarefa que revolucionários devem cumprir é a de fazer os trabalhadores“confiarem em suas próprias forças”. Para isto, não há atalhos; é preciso “dizer a verdade e chamar as coisas pelo seu nome”. Além disto, é necessário pensar um sistema de reivindicações que não apenas contribua para arrancar cada conquista desejada imediatamente, como para fazer a consciência avançar contra seus verdadeiros inimigos - os capitalistas, seus lucros e seu Estado- deixando lições que serão a semente de uma nova sociedade.
O que vimos em junho, depois de muito tempo, abriu as portas para avançar nestas questões.
Esta é a tarefa que a questão dos transportes suscita.

¹ - hoje, em SP, por exemplo, o usuário paga do bolso 70% e a Prefeitura 20%. Os empresários arcam com 10%.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Não negociamos nosso direito de lutar; isto seria o mesmo que negociar nossa respiração!


Novamente, passei, com a juventude ÀS RUAS, mais um ato contra o aumento da Tarifa. Não sem muito do já esperado desta democracia dos Ricos e suas "armas de diálogo" quentes e incisivas.

Digo por experiência que, nesta quinta, vivemos um dia de "exceção e sítio", como muitos outros que virão com a copa, as leis que proíbem- rasgando a constituição- o direito de greve, o direito de manifestação, a liberdade de expressão....

Não seria exagero dizer que esta foi uma das piores repressões à Juventude- senão a pior- da última década. Se forçássemos poderíamos dizer que desde a década de 80, ou desde o começo do fim da ditadura, não vemos tamanha ferocidade, dureza e "sanguinolência" da PM contra manifestantes.
Não é por menos.
Fica claro que esta é a gota d'água, num balde completamente cheio, para uma juventude desprovida de direitos a saúde, emprego, lazer, educação, moradia, enfim, ao futuro. A tarifa abusiva e absurda é mais um tijolo na exclusão completa de uma juventude do "Brasil potência", que de potência só tem o nome, os lucros aos grandes bancos, empresas, máfias- dentre elas a do transporte- e Eike's.

Para impedir que este "país dos sonhos" seja maculado pela imagem de baderneiros, manifestantes, gente "incivilizada" com os quais o PARTIDO DOS TRABALHADORES diz não se dispor a dialoga (mas aonde estão os trabalhadores, agora, senão presos ou detidos por estes senhores?), PT e PSDB se unem na santa aliança: "Não reduziremos. Este movimento pequeno, porém violento, deve renunciar a estratégia do terror". É claro, a Copa e os MEGAEVENTOS estão aí e isto garantirá muitos dólares (nenhum deles para os direitos da Juventude).

Ora, mas que possibilidade temos nós, meros 20 mil nas ruas, desarmados, com os olhos ardendo de gás, bomba, com as costas cansadas da corrida e balas de borracha, de causar um terror tão grande quanto a PM e seu efetivo de milhares de armas, bombas, carros, cães, cavalos e homens, com ou sem farda, que derrubam idosos, jornalistas, crianças, homens, mulheres, cachorros, o que vier na frente e for "seu inimigo? Esta foi a realidade de quinta, imposta pela Polícia que comemora em seu brasão de armas a ditadura militar e seu golpe...

Esta luta é por muito mais. Seguiremos e venceremos. Enquanto prenderem nossa juventude, trabalhadora, universitária, secundarista, pobre, da periferia (e agora não são os baderneiros de sempre, mas o povo trabalhador unido), não negociamos!

Não negociamos nosso direito de lutar; isto seria o mesmo que negociar nossa respiração. Esta jornada de lutas, estes protestos, esta energia não vista em anos na Juventude é a expressão da falência deste sistema de exploração, de baixos padrões de vida e altos padrões de exploração.
Se dizem que somos nada, pequenos, minúsculos, seremos grandes, corajosos, seremos e reivindicaremos TUDO!

Nesta luta, reforcei minha convicção socialista inabalável na humanidade: A cada caído, atingido, golpeado, surgiam diversos para levantar, jogar vinagre, proteger, fortalecer, cantar. A cada avanço da PM, os companheiros levantavam uma barricada, com vasos ou caçambas; lixos ou muretas, como dizia o poeta, na "luta de classes todas as armas são boas"  A cada bomba, seguiam-se os muito mais altos gritos e canticos da guerra; a guerra de uma juventude que demonstra que não se calará.

Avancemos em transformar esta numa verdadeira revolta dos trabalhadores e da juventude. Avancemos em derrubar os mitos decrépitos, sejam de antigos "(Partido dos) trabalhadores" hoje vendidos a grandes corporações, sejam de falsas esperanças numa democracia farsesca que prende e detém por portarmos vinagre (!!!).
Avancemos na derrubada do do aumento, na estatização do transporte sob controle dos trabalhadores e usuários (por sindicatos, associações, etc) e arranquemos nosso futuro das mãos de nossos carrascos.
A juventude turca e européia não só demonstra, com atos, resistência e luta, como já se manifestou em nossa defesa. Ora, porquê não nos indignarmos e mostrar que nossa luta é internacional? Se querem apagar nosso fogo com o fogo, então terão o INFERNO!

130 mil companheiros seguem nesta luta. Somos mais alguns destes e, com força e confiança, venceremos.

ÀS RUAS!

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Olhos azuis de fome


Tudo se passa como uma cena, daquelas insólitas que a cidade tarda mas sempre, vez ou outra, volta a impor a cada dia.
Terça a tarde, duas pessoas sentadas em cadeiras de madeira - aquelas vazadas que todo botequim tem- discutem sobre as mais diversas questões, sua saudade, a política nacional, os problemas corriqueiros que toda vida de jovens como eles, trabalhadores e estudantes, apresentam.

A conversa é um belo Zig Zag de relatos, risadas, histórias, que preenchem a tarde com uma sensação gostosa de estabilidade e “segurança”. É claro que, neste papo, tem um pouco de assunto desconfortável, afinal, na vida, se não tem algo que te pinica, quer dizer que algum problema mais profundo é o que te persegue. É só questão de tempo para aparecer.

Como se encontram no início da tarde, nenhum dos dois, uma garota e um jovem, puderam cumprir o ritual cotidiano biológico e, sobretudo, social de sentar-se a mesa e satisfazer aquela vontade fraca que começa logo cedo e vai progredindo até chegarmos a definir, ema lgum momento, como “fome”. É claro que esta não é uma sensação absolutamente insuportável. Está mais para um tic-tac que começa a tilintar quando se dá o horário de pagar os tributos ao ritual.

Como estavam fora de casa foram buscar algum lugar para comer. Nada muito caro ou espalhafatoso, afinal, num país como este, comer com alguma frequência um prato de 10 reais, para um trabalhador, já o torna quase um felizardo, já que com salários de 500 por mês e todo tipo de gambiarra que sofrem os trabalhadores por aí, comer fora todo dia é inviável.

Sentaram, então, num Bar de esquina, para ver se pediam algum PF (vulgo, prato feito) e foram atentidos por um cara, de avental, que lhes deu as opções. O prato do dia era Frango ensopado e Costela ao molho. Com a fome que começava a tilintar, o calor pré-cambriano e a pequena preguiça, decidiram sentar-se e comer ali mesmo.

O Boteco tinha algumas mesas lá dentro mas, como o calor era forte, decidiram ficar numa mesa fora, sentados nas cadeiras de madeira, com suas bolsas e tudo mais. A comida que chegou, em seguida, era pra não se por defeito: Salada, Carne, um refrigerante e o bom casal arroz e feijão.
De fato, nada espalhafatoso; um bom e velho PF a que, em tese, todos deveriam ter o direito.

Conversa vai, conversa vem, as questões que se discutem variam, desde as inimizades ácidas que se desenvolvem, até os planos de projetos, reflexões e idéias tão presentes em suas preocupações e então, eis que uma pausa inesperada aborda o casal e seu ritual.

Sua voz é muito fraca, saindo dos lábios que, com força, tentam irromper e se distinguir das profundas rugas, verdadeiras falésias faciais, que demonstram sua muita idade e experiência.
Esta expressão, recém distinguida, faz parte de um todo muito simples: Um charpe na cabeça, enrolado do topo ao pescoço, protege sua expressão e seus cabelos brancos e lhe dá a aparência de retirante. Nas mãos, algumas sacolas cheias de coisas. Nos ombros, uma pequena maleta pressiona suas costas, levemente torcidas a frente, como que se curvando. No corpo, um pequeno vestidinho, maltratado e todo dobrado. E, finalmente, acima destes lábios, se erguem as pálbebras que mostram dois olhos, azuis como o céu, estritamente contidos por uma expressão de dúvida, medo, vergonha e tristeza.

O casal interrompe o ritual a que se dispuseram e olham com atenção aquela senhora. Escutam, então, esta voz fraca lhes perguntar de maneira envergonhada: “Pode me dar o ossinho mocinha?”. O casal, ainda desnorteado, entende então que ela fala do osso do frango ensopado, já comido, que haviam pedido. A senhora mantém o olhar fixo ao casal, repetindo a pergunta com uma sugestão: “Pode ser só o
ossinho que tá bem, menina. A gente que já comeu coisa na rua, tá acostumado...”.

Aquela não era uma cena tão “alienígena”, nem na vida do casal, nem na vida de milhares de paulistanos. O que surpreendia, no entanto, era a idade e a expressão da senhora.
De imediato, impactados com a situação, a jovem trata de dizer a senhora que podia comer com o casal, havia sobrado muita comida, costela e frango, e não tinha problema algum. Separam a comida em um prato, pedem um garfo, arrumam uma cadeira para que se sentasse a mesa e pede para que ela se sente.

A senhora, como que numa reação instintiva, repete ao rapaz que “não precisa moço, os homem daí não vão gostar, pode me dar só a comida que eu vou embora...”, enquanto a jovem ajeita as coisas para ela se sentar.

A senhora, como que agradecida e espantada, frente ao prato de comida feito, retira uma sacola de sua bolsa, com uma latinha, talvez recém recolhida, inclina-se sobre a mesa pegando o prato e o garfo, afasta a cadeira na qual iria sentar e diz, com uma expressão triste e aguda, porém, agradecida, aos jovens:
“ Isto não está certo moça, não posso sentar, os homem não vão gostar. Eu como aqui mesmo” e termina colocando toda a comida na sacola plástica suja, pra seguir sua caminhada.

Os dois jovens, estarrecidos, nesse momento, insistem a senhora que se sente, de que não há problema e, quando esta despeja a comida na sacola, são tomados por uma sensação difícil de descrever, de tristeza mista com frustração e de profunda impotência enquanto olham aquela senhora, de, quem sabe, uns 70 ou 75 anos, abrir novamente seus olhos azuis, dar-lhes um sorriso que irrompe das rugas e andar, com a dificuldade de sua idade, rumo ao desencontro...

Esta é um cena que choca o casal. Ao olhar para a moça que está com ele, o jovem percebe que escorrem lágrimas de seus olhos, uma forma de solidariedade que não encontrou represas. Alguns minutos são tomados pelo silêncio que se impõe. São difíceis as conclusões do casal. Uma crueldade sem tamanho acabou de bater-lhes a porta.

A senhora, do início ao fim, tratou de manter os rituais com aquele casal ao qual, tão desesperadamente, pediu ajuda. Não podia, mesmo desesperada por algum alimento, incomodando a refeição de alguém, pedir algo além de um Osso, para comer. O ritual não permitiria.

Da mesma forma, sua expressão, seus olhos fechados, suas rugas profundas, suas costas curvadas, a forma envergonhada e inocente de abordar, perceberam mais tarde o casal, não vinham da biologia ou anatomia, mas da imposição cruel e fria do hábito da sujeição que, nesta sociedade capitalista degenerada e podre, são a especialidade da casa.

Pensaram o casal: “De onde veio esta senhora? Por quais infernos passou? Qual foi a tragédia de sua vida? Será que tem família?”, perguntas que, sabem, jamais encontrarão a resposta e que, a cada esquina, poderiam fazer a cada jovem, morador de rua, desencantados com a crua vida na cidade do capital.

A senhora, ao se negar a sentar, não apenas tinha certeza do quão inviolável é o Ritual no qual estavam os jovens, uma lição certamente ensinada a ela por um sem número de maníacos e degenerados, donos de bar, policiais, guardas civis, todos sádicos espancadores de mendigos, como sabia qual seu papel num ritual muito maior.

Este ritual é uma coisa chamada
luta de classes. Seu olhar, sua expressão, sua negação a sentar-se na mesa com os jovens, além do medo da reação de desconhecidos trogloditas, era a expressão de o quanto, em sua cabeça, ela se vê como um ser inferior, um animal destinado a comer ossos e guardar comida em sacos imundos, sendo que, para um ser como este, é um “pecado” sentar-se na mesa, em pé de igualdade, com qualquer um.

Muitos são os nomes que, certamente, esta senhora já recebeu, numa sociedade decomposta, cujas bases são as divisões de classes de seres: em sua juventude, certamente foi a vagabunda, a vadia, a louca; hoje em dia é apenas a velha moribunda, esperando o próximo osso e o próximo saco que salvará mais um dia de uma vida à deriva.

Perceberam, então, tomados por um misto de revolta e tristeza, que os olhos azuis da senhora expressavam, na verdade, uma profunda fome. Mas não apenas de comida. Seus olhos, contidos por um corpo enjaulado na submissão e preso pelas pálpebras insensíveis, estavam famintos. Famintos de vida. Famintos de Sonhos. Famintos de possibilidades. Famintos de uma vida que, sem poder fazer nada, foi-lhe tirada, escorreu por suas mãos e hoje, no fio da navalha, se resume a ossos e sacos.

Enquanto isto, regozijam-se a minoria de porcos imundos em salas suntuosas, preenchidos até o esôfago do mais nobre e novo quitute europeu, fazendo a festa, como parasitas desprezíveis, com o sangue de milhões de senhoras, jovens, trabalhadores, sugados até os ossos, pelos porcos capitalistas, banqueiros, burocratas e toda espécie de vermes que se intutulam “autoridades” responsáveis, nesta sociedade miserável.

Afinal, em último caso, se depender dos capitalistas, será este o resumo de todos os trabalhadores:
Ossos e sacolas. Senão os ossos de galinha, em sacolas, pra comer, que sejam os ossos de trabalhadores e do povo pobre, em sacolas, quando morrerem.

sábado, 4 de agosto de 2012

XI Congresso dos Estudantes da Usp: Um espaço para preparação e organização concretos!




J
á podemos dizer que 2012 é um ano decisivo, tanto pelo que foi quanto pelo que anuncia ser, dentro e fora da USP.

Neste ano, como continuidade da luta de 2011, contra o convênio PM/USP e a repressão, o método histórico de tratamento aos estudantes e trabalhadores na universidade, a reitoria segue seu projeto de desmantelar toda e qualquer resistência a seu projeto de elitização e privatização, avançando com os processos que tentam expulsar 70 estudantes, demitir toda a diretoria do sindicato de trabalhadores e já eliminou 8 estudantes, com seus arquivos, “dossiês”, espionagens e comissões processantes que acusam, julgam e punem, demonstrando o caráter autoritário e inquisitório de sua Política.

Não é novidade o fato de que na USP as decisões são tomadas por um conselho (CO) ultrareduzido de 300 professores privilegiados e um orgão de intervenção - a Reitoria-, que, baseada num estatuto de 1972, escrito por ideólogos da Ditadura Militar, tratam de garantir que todos os grandes grupos empresariais, interessados na pesquisa e desenvolvimento para seus lucros, possam ter seus objetivos alcançados, ao mesmo tempo em que tratam de calar a resistência que busca questionar o caráter cada vez mais elitista e privatista da Universidade.

Como contraponto a tudo isto, além do importante movimento de Greve e o comando de greve que se forjou junto das iniciativas de mobilização massivas durrante todos estes meses, se desenvolveu um importante movimento que, em consonância com o debate nacional sobre a ditadura, decidiu questionar, não apenas a Democracia na USP, mas o que resta da Ditadura militar , iniciativa que culminou na tentativa de construção de uma “Comissão da verdade USP” e o Fórum por democracia.

Ainda são iniciativas iniciais que, no entanto, assim como a própria Comissão nacional da Verdade ainda, não adentraram o fundamental: Como consequência da transição pactuada ,“no alto”, entre torturadores e os partidos dos trabalhadores que se levantavam em toda a década de 80, seguem como figuras marcantes desta nossa podre democracia a repressão, as mortes na periferia, a espionagem, a busca de neutralização dos “divergentes” e a impunidade dos assassinos que torturaram e mataram trabalhadores e militantes de esquerda nos 20 anos da ditadura.

Basta ver o número de escandalos envolvendo execuções policiais de negros e pobres na periferia; gravações de PM's atirando em pessoas algemadas e detidas; a repressão em favelas, bairros populares, manifestações, sejam de trabalhadores, sem teto ou estudantes; a formação de “mílícias do extermínio” acobertadas pelo governo e, por exemplo, a matança que a PM paulistana retomou, como em 2006, matando mais de 200 suspeitos desde janeiro e mais do que todas as polícias dos EUA desde 2007. Com estes dados, fica claro no que e aonde “vive” a ditadura.

É neste marco que se insere a conjuntura e a estrutura da USP. É esta lógica de repressão e demonização do “inimigo interno” construída pela ditadura que, neste momento, tentam demitir Diana Assunção, dirigente do SINTUSP, por apoiar a luta e ocupações estudantis no ano passado e expulsou Brandão, também dirigente, por lutar em defesa dos terceirizados.

Não se trata, assim, de uma situação fácil. Ainda menos se pensarmos que já começam com mais firmeza os discursos de Dilma e o governo, fazendo questão de dizer que o Brasil “não é uma ilha”que pode passar impecável pela crise e, mais importante, começam os ataques preparatórios, como a tentativa de demissão de 2 mil trabalhadores operários na GM de São José que segue em aberto e deixa claro em quem os grandes grupos capitalistas pretendem descontar a crise: nos trabalhadores e na juventude.

Com as soluções da crise mundial cada vez menos possíveis face ao “quebra-quebra” de estados na Europa, a crise começa a se exportar pela via da desaceleração da economia e neutralização de todas as medidas que antes ajudavam a manter, sobretudo no Brasil, algum crescimento que permitia alguma estabilidade gradual, agora já com fortes limites indicados.

O que isto tem a ver com a USP e o Congresso dos estudantes? Tudo a ver, tanto pelo papel histórico que o movimento estudantil e de trabalhadores cumpriu quanto pelas potencialidade que tem a desenvolver.

É preciso, neste XI congresso, diferentemente do que os companheiros a frente do PSOL fizerem em 2010 no X congresso e indicam fazer novamente, ter um claro objetivo de preparação, organização e resistência do M.E. para a avançar na Luta, de maneira não-elitista ou corporativista, para além dos muros da USP, buscando ganhar aliados e ser um pólo de resistência desde a universidade levantando as bandeiras das necessidades do povo trabalhador.

A resposta que temos de levantar deve passar por construir com convicção um movimento, que no futuro levante dos trabalhadores e estudantes, possa ressoar e servir de exemplo para a luta comum que travaremos, já por dentro da enorme crise que se aproxima. É neste sentido que ganha centralidade a luta por democracia na USP, tanto em relação ao Poder, quanto ao Acesso e à Permanência.
Somente aliando-nos com todos os trabalhadores - efetivos e terceirizados- e professores, juntamente com organizações populares e de trabalhadores de fora da USP, e impondo uma verdadeira Estatuinte livre e soberana, que pela via do voto universal (um por cabeça) dissolva o CO e a Reitoria e derrube o estatuto autoritário de 72, construindo sob eles uma estrutura de poder e estatuto democráticos, baseados nos 3 setores da maneira proporcional a como se distribuem na USP, ou seja, com maioria estudantil e ligada ao povo trabalhador, lutando pelo Fim do Vestibular e educação gratuita para todos e por moradia e permanência a todos que precisam, é que poderemos colocar a USP a serviço da maioria da população, demonstrar o Movimento Estudantil como sustentador das demandas e aliado do povo pobre, e, assim, livrar a USP dos parasitários membros da Família Rodas e Alckmin, sendo um exemplo de luta e organização.