segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Sobre "comoção seletiva" ou como gente de esquerda consegue perder oportunidades

Estou tentando entender qual é o objetivo dessa gente que tenta opor a solidariedade a "síria" e Mariana em MG contra Paris.
Ainda assim, encontro poucas respostas.
Muitas vezes pelo facebook e afins, é claro, nem toda opinião tem objetivos. Mas se tratando de gente de esquerda, organizada ou não, espera-se algum.
E é aqui que entra o problema: Opor a solidariedade contra um atentado absurdo e animalesco como o ocorrido em Paris ao que ocorre no oriente Médio não apenas é inútil, como é funcional aos que hoje tentam utilizar o atentado para justificar uma guerra ao terror.
Dizer "Isso que aconteceu na França é o que ocorre todos os dias em x, y ou z lugares!", "Isto é culpa dos Franceses que fazem isto em todo mundo", etc, é no mínimo uma imprecisão perigosa que dará aos verdadeiros imperialistas todas as armas para dizer que irão levar, então, "civilização e democracia" ao "povo bárbaro" destes países.
Pior. No plano das opiniões cotidianas é ridiculamente sectário tripudiar do alto de uma suposta iluminação politizada todos os milhões que se horrorizaram com o horrível atentado a Paris. É um atentado animalesco, absurdo e digno de uma organização medieval.
NÃO há oposição entre uma tragédia provocada pela ganância capitalista em MG, o caos instalado na Síria, Líbia e Iraque e o absurdo atentado do Estado Islâmico em Paris!
Se você é "revolucionário" ou até mesmo, minimamente de esquerda, deve usar todas estas oportunidades para dissecar as complexas situações nestes países, separar os imperialistas dos trabalhadores, opressores dos oprimidos, demonstrar para as pessoas DE FORA deste círculo, infelizmente, restrito, os interesses por detrás destas lamentáveis tragédias e propor uma solução DE CLASSE: para e dos oprimidos.
Entretanto, o que tenho visto é dizerem: "Ah, a França mereceu, afinal..." ou "Onde está a solidariedade pela Síria"?
Que justificativa é esta? Que França mereceu?
Por acaso foram fuzilados Hollande, Marine Le Pen e diretores das multinacionais Francesas nas ruas? Todos no Bataclan e nas esquinas eram burgueses? Ou quer dizer mesmo que qualquer francês, trabalhador, pequeno comerciante merece o que ocorreu?
E que solidariedade a Síria? A Assad, que fuzilava manifestações em 2011, contra o Estado islâmico? Ou a abstrata "bandeira" síria? Ou, por outro lado, aos curdos e refugiados? O que quer dizer isto?
Onde está a classe, o lado, a posição, na avaliação de vocês?
Enquanto dezenas de especialistas sobre geopolítica mutilam simplistamente a realidade e, exaltando-se com sua "enorme clareza política", tripudiam comoções populares, milhões seguem a trilha bem traçada do imperialismo de usar este fato para iniciar uma guerra por mais exploração e espoliação.
O objetivo, então, não parece ser esclarecer, politizar educar, direcionar todas as críticas ao inimigo mortal.
É só mais uma disputa que leva a tanta gente de esquerda a perder, mais uma vez, a oportunidade de entender que as pessoas SÃO contraditórias e não gozam da plena consciência de classe e política. É nosso trabalho limpar as mentiras capitalistas ditas todo santo dia.
Se acostumem, desçam do pedestal e mãos a obra.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

ENEM: Fruto da pressão ou enganação planejada? Ou: o jeito mais fácil para nos isolar das massas...

A linha entre viver numa seita, ser "sectário" ou se adaptar e achar que tudo são "vitórias" e ser, como dizemos, oportunista, é tênue, fina, difícil de se desenhar. O ENEM, como prova, segue sendo, em minha opinião, mais uma ferramenta.

Não uma ferramenta dos oprimidos, mas dos empresários, do seu Governo e dos capitalistas para restringir por um lado a Universidade, criando pólos de "elite" e, por outro, manter o "mercado de ensino" das universidades privadas dos t
ubarões do ensino. Milhões de jovens endividados e as crises e o drama anual do vestibular estão ai para provar isto: O ENEM, como a FUVEST é uma ferramenta de DISCRIMINAÇÃO SOCIAL, de segregação seletiva para os que vão entrar na Universidade pública.

Ainda assim, é enormemente sectário, num país cuja violência contra as mulheres é BRUTAL, com dezenas de casos ao dia, milhares de estupros anuais, não entender o que se expressou na atual prova.

É óbvio que os capitalistas e "governantes" vão querer sequestrar nossas lutas, tomar o lugar dos que as defendem e, sim, ao colocar o tema da violência da mulher na prova tentam cumprir este objetivo.
No entanto, há um lado, fundamental, que não se pode esquecer que é o de que isto expressa uma pressão da sociedade, de setores que lutam, mulheres combativas, estudantes, setores progressistas, revolucionárias, etc, que estão na base da sociedade, dando voz a opressão que milhões sofrem cotidianamente, criando então uma situação em que a burguesia é obrigada a pautar de algum modo este tema.

Por mais limitado que seja (e é!) a menção do tema no ENEM abre a possibilidade de um debate nacional, no qual nós, setores na base da sociedade temos de entrar de cabeça.
Exaltando o governo progressista ou a "prova esclarecida"? Claro que não! Mas sim, observando que esta foi uma menção arrancada com muito suor da luta cotidiana, cujas protagonistas são as mulheres e, ao lado delas, os homens que se colocam a construir a luta pela igualdade de gênero e que, afirmando a todo momentos o quanto este governo e estado burgueses são CONIVENTES COM AS MORTES, ESTUPROS, RETIRADA DE DIREITOS, MORTES POR ABORTO, QUE VENDEM DIREITOS DAS MULHERES A FUNDAMENTALISTAS FEUDAIS DA IGREJA, etc, é só pela organização desde a base da sociedade que apontaremos para uma solução de longo prazo para o problema da violência contra as mulheres.

A menção no ENEM não resolve o problema. Fato. Mas confortar-se nessa posição de apontar os limites é muito inofensivo e a esquerda tem de sair, mais do que nunca (agora que a crise bate na porta de cada brasileiro e a esquerda NÃO faz, infelizmente, diferença para resistir em lugar nenhum, na prática) desta inércia.

É preciso inverter o OBJETO da comemoração e entender que sim isto foi arrancado pela LUTA e que esta deve se aprofundar, para que não apenas o vestibular, a violência de gênero, mas todos estes mecanismos de dominação da sociedade capitalista acabem.

Grande parte do trabalho revolucionário é buscar saber qual o caminho para se chegar às massas. É preciso CONFLUIR com a empolgação de amplos setores para mostrar que a luta vai além do que se vê. Esta estrada é por uma nova vida.

Aqueles confortáveis em seus tronos de verdades auto-consumíveis, enquanto milhões de ouvidos tateiam em busca de uma orientação libertadora, sua desconstrução tão necessária, por um caminho que leve a construção de uma moral pessoal, coletiva e social e uma sociedade livre da opressão, a estes senhores sectários, o isolamento parece ser o destino certo, caso não mudem de curso a tempo, enquanto o que está em jogo é apenas uma questão de ENEM.

domingo, 4 de outubro de 2015

Coincidência cósmica

Eu não sei o que é o mundo além dos limites do mensurável
O mundo é isto; Uma grande coincidência cósmica
e talvez a única grande coisa que exista sobre ele, sua única grandeza real, seja o fato de que é uma enorme conjunção de coincidências 
que funcionam, se harmonizam, se articulam, ao longo de milhões de anos...
Ao menos é uma raridade para nossas pequenas capacidades de apreensão do que se passa em outros mundos, galáxias, planetas.
O mundo é um nada. Mas para nós, é um tudo. E ainda assim a história da humanidade tem sido a persistência em dividir-se e levá-lo a destruição...
Da humanidade não... a dos herdeiros do primeiro privilegiado, que cercou a primeira porção de terra, se armou pela primeira vez e matou em nome do abstrato "direito" e "propriedade"...
Estes herdeiros levam a todos nós a catástrofe.

Justo nós, que podíamos ascender as estrelas.... 

Sobre cafezinhos matinais e intimidades anônimas.


“Todo dia ela faz tudo sempre igual, se sacode as seis horas da manhã”....

É embalado neste ritmo que ele levanta.
Em seu caso, a música poderia ajustar seu relógio interno e apontar para cinco da manhã. Ainda assim, a idéia da rotina está ali, onipresente, como que transbordando dos fones de ouvido, retirando um pequeno sorriso sádico, como de quem tira um sarro de si mesmo por estar tão próximo da ficção, embalando o ritmo cadenciado do cotidiano.

As 5:35 põe o pé na estrada e começa o rito diário. Aqui, os lugares comuns são incontornáveis e fonte de controversa satisfação. No ponto as 5:40, dentro do ônibus as 5:50, na entrada da estação de metrô as 6:05, na plataforma as 6:07, não importa, o movimento se repete: Caminha, encontra um lugar, levanta a cabeça, faz a varredura.

Com ela, percebe rostos conhecidos, cuja intimidade se faz sentir pela comunhão sagrada do perpétuo repetir de ações; se entreolham. No começo olhares curiosos, como de uma criança tentando se reconhecer no espaço, se integrar ao ambiente, entender as intenções e gestos.

Após tantas repetições, da casca dura da apatia irrompe o tímido sorriso, um “bom dia” em seco, um balançar de cabeça, um estribido de proximidade e, novamente, um lampejo de satisfação controversa pulsa para fora da austera normalidade.

O destino impõe um ritmo de ser. O horário é implacável. Não se pode perder tempo com frivolidades gestuais. Há de adentrar ao fluxo, chegar no horário, postar-se apresentável, vestir a motivação – ou, melhor dito, a resistência- e começar sua parcela no empurra-empurra de engrenagens alienantes, na marcha do dia a dia.

De todo modo, não se pode escapar a biologia. O material ainda é - e sempre será- o que move os humanos, seja para as grandes ou pequenas realizações. Em seu caso, a realização é parar o estampido, que religiosamente dobra seu estômago as 6:35. Aquela escapadela, antes de tomar seu papel, é a solução.

Sobe a escada, olha o céu ainda turvo e iluminado lateralmente por um Sol que ainda não se mostra, sai pela entrada, olha as tabuas improvisadas por cima das quais se preparam tapiocas e cafezinhos por ambulantes cada dia mais numerosos - seria crise? – e entra na lanchonete.

Mal chega, dirige-se ao freezer, pega sua Coca e, ao virar, encontra o braço estendido do atendente que, sem sequer ser indagado já oferece o corriqueiro canudo, a empada no pratinho de plástico e o banco no qual por tantas vezes sentou, por vezes com um sorriso, outras com um bom dia e ainda outras com aquele familiar olhar apático. Tudo em ordem. Tudo como sempre. Tudo normalmente.

Não fosse o estranhamento não pensaria o quão significante é a situação. Pensa em quantos milhões de conexões e relações se estabelecem todos os dias, em todos locais de labuta, em tantas esquinas, avenidas, banquinhas, lanchonetes e, daí, quantas intimidades anônimas se formam assim, produto do cotidiano.

Sim, intimidades. Dois trabalhadores. Não sabem seus nomes, mas naquele instante, cotidianamente, no mesmo lugar, repetem o mesmo ritual e, neste, expressam uma intimidade, tímida, sem dúvida, mas que estabelece uma conexão em meio a fria normalidade e austeridade de São Paulo.

Ali, no pequeno instante da gentileza, o atendente expressa a intimidade de saber que tipo de comida, com que tipo de prato, em que lugar e que salgado ele prefere. A pergunta não se faz necessária.

Através da relação de troca, da compra e venda, este baluarte sagrado que media todas as relações e enrijece sensibilidades e sensações nesta sociedade de lucro, se estabelece a conexão. Tímida e frágil, é verdade, mas ainda assim uma relação.

Um reconhece o outro e, apesar de não saberem nada de si, sorriem, timidamente, pelo gesto de intimidade, que os localiza num mesmo espaço e numa mesma situação. Tal como plantas que brotam de um solo de rígido concreto, esta relação os faz se sentirem mutuamente percebidos, não tão invisíveis e objetificados pelas obrigações e o fluxo do cotidiano.

Afinal, no deserto subjetivo desta maquina de moer gente, o pequeno gesto é o gérmen de uma solidariedade, uma percepção mútua, de um pertencer ao mesmo lugar e, ao menos ali, tornar a presença de alguém real, distanciando, por milímetros que seja, a vida da fria e implacável exatidão dos números, das horas, dos valores e do lucro.

Talvez amanhã eles perguntem o nome um do outro... Ou talvez ai esteja o limite seguro que o cotidiano os permitirá chegar.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Suco Gástrico de mim:


Desço o busão como quem mastiga a própria angústia
fustigada entre tantas emoções, peço uma Pizza
engordurada, engrossada pela incerteza de amanhã
misturada com um suco de desgosto pela vida levada mecatrônica, icônica, inócua, que
se pensa uma mudança... na vida, na idéia, na história...
e engulo, apago, durmo. E só. Só.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Elogio ao que levanta

Levanta cedo. O amargor ainda fere a garganta, como um lembrete do que passou e ainda segue. É claro que é apenas mais um dia, apenas mais uma ação, apenas mais um momento, dentre tantos, que vêm e vão, que poderiam não ter nenhum sentido.

Depois de certas coisas, de tantas esperanças gritadas, a tensão presa na cabeça, de horas de pé, soando frio e esperando o resultado , depois de tudo o que se esperou e do que se sentiu parte, este não é um bom momento.
Um dia após o outro, diz o poeta, da rua e do livreto. Livreto que se encontra ali, naquela máquina automática de comprar idéias, muitas delas banais, por “apenas 2 reais quais quer livros”.

Levantar, as vezes, pode ser duro, se de tanta energia, se encontrou o desamparo, o vácuo da solidão, a casa sem móveis, a cabeça sem pressão, a luta sem vitória.
 É inevitável sentir que podia ter feito mais, pensado mais, agido mais, gritado mais, berrado, berrado, berrado!!!
No fundo, no entanto, a gente sabe que não é culpa nossa. E levanta.

 Pra qualquer um já é muito difícil. Levantar, então, já começa a ter um senso de responsabilidade. Não é aquela burocrática, de ter de levantar. Ainda que este não seja  ato o mais agradável, o mais empolgante, sequer comparável a alegria de um ‘Não tem arrego”, que vem dos rincões do dedão e extravasa como explosão nuclear da boca, ouvidos e narizes, a gente levante. Não é o suprasumo da vitória, mas é o preciso, pra nós e pra eles.

E eles são os desamparados, também. Mas não só. É qualquer um que levantou. Qualquer um que vai levantar. Qualquer um que pense em levantar.
Num mundo aonde os joelhos se ralam no dia a dia, as articulações encontram em seu exercício cotidiano o hábito do dobrar, levantar é um gesto de resistência, um gesto de luta, um espasmo da pressão, do ardor, do incêndio que nos toma e tomou.

Levanta e pega o instrumento. Idéias, palavras, pessoas, corredores, trilhos, catracas, sorrisos, lamentos, tristezas, impulsos e a luta. Um fluxo lhe toma, perante aquilo que foi e que, na cabeça de alguns ainda o é.

Levantar é só o começo. As vezes deitar. Veja bem, amigo, “deitar” e não se ajoelhar, render, prostrar, mas deitar, é mais difícil do que levantar.
O deitar é o reino das incertezas, das esperanças, do porvir. O deitar é o reino do futuro. Ao menos quando isto é possível. Mas não apenas do futuro, mas de um futuro preso ao passado, é um futuro que vem do passado, aonde o presente não aparece senão como via de possibilitar esta relação.

Esta, no entanto, amigo, não é a melhor forma de pensar. O futuro, é claro, contém o passado. Mas o que interessa é o presente. É nele, num fluxo incessante de transformação, que a gente faz acontecer. E levanta.

Aquele corredor, hoje cedo, que tomou de assalto, com a garganta amargurada, o peito pressionado, a cabeça no futuro, a angústia do passado, aquele pequeno gesto muda tudo. Mudou a nós, muda a ti, mudará muito mais.
Da angústia se faz a esperança, do rancor se faz o ódio, do prostrar se faz a chama. E Levanta.

Sabe amigo, esta estrada é só o começo, um passo de cada vez, uma chama acesa por hora, um berro lunaticamente escrupuloso solto na luta e uma cabeça no presente, construindo a mudança. Quantas quedas não virão? Mas quantas escarpadas escalaremos? Não temos motivos pra pessimismo. O futuro inextinguível a nós pertence.

Deita amigo; chora; pensa; prosta. Toma seu tempo. Mas não se esqueça. O presente é o caminho. E levanta.

Que ao levantar, um mundo se levanta com você. Porquê de caídos, nosso povo, classe e raça, nunca tiveram nada.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Robocop: Besteirol de Hollywood ou crítica ao militarismo dos EUA?


Estreou na última sexta-feira a refilmagem do clássico de ação e ficção científica, Robocop, que tomou as telas dos cinemas na década de 90, contando a história de Alex Murphy, um policial que, no original, após emboscada de uma gangue, tem quase a totalidade de seu corpo comprometido e fuzilado e é, então, encaminhado para uma “segunda vida” como o policial robótico do futuro, responsável pela segurança das Ruas de Detroit.

O filme, patrocinado pela Sony (grande multinacional japonesa), assinado por José Padilha (diretor de Tropa de elite 1 e 2) e tendo em posições chave da produção, mais quatro brasileiros, conta com figuras bastante conhecidas do cinema, como Samuel L. Jackson, Gary Oldman e tem, como todo produto de Hollywood o fim de entreter, com muito tiro, sangue e drama.
No entanto, mesmo esmagado pelas curtas margens da fome de lucro de Hollywood, o filme consegue não se manter preso apenas nisto e, na transição de uma cena a outra, de mudança de cenários, como base de justificativa para reviravoltas no enredo, se afasta da noção de besteirol e entra no trilho de importantes reflexões abertas pela situação mundial e em particular dos EUA, de hoje em dia.

O filme se inicia, numa escura e dramática cena protagonizada por Samuel L Jackson que, no melhor estilo “Brasil Urgente” ou “Cidade alerta”, se apresenta como Novak, o apresentador de um programa conservador de direita, que trata, aparentemente, de um único tema que é a crise de “segurança” que assola a vida dos Norte-americanos, levando, em suas palavras “vidas policiais e de famílias de bem”, no não tão distante ano de 2024.

Nos primeiros minutos, se apresenta o tipo de recurso que vai ser utilizado muitas vezes ao longo do filme, que é o de imagens e cenários curtos e sugestivos.
 Novak, discursando sobre a situação de calamidade de segurança nos EUA, apresenta aos telespectadores a alternativa, dada pelos Estados Unidos, para a pretensa “falta de segurança” no mundo. Esta solução é trazida pelo conglomerado industrial chamado Omnicorp, que, na prática, substituiu policiais e soldados por máquinas de guerra  de formato humano, engajadas em “proteger e executar” em distintas partes do mundo, a lei e a ordem.

Neste mesmo noticiário, repórteres correspondentes de Novak estão num dos locais pacificados buscando uma demonstração da efetividade e “tranqüilidade” garantida pelos robôs a população .
O local da ação é Teerã, capital do Irã, que atualmente é alvo de sanções e pressão militar e política dos EUA, por ser uma nação “não alinhada” no oriente-médio e , supostamente, ter iniciado o desenvolvimento de um programa nuclear com fins bélicos.
Aparentemente, este Irã do futuro foi ocupado pelas forças “pacificadoras” dos EUA que, segundo Novak e o General com o qual conversava ao longo do programa, aprenderam com Iraque, Afeganistão e Vietnam, e decidiram dar o passo além com os robôs, a fim de pacificá-lo, sem arriscar vidas norte americanas.

Numa cena que claramente serve como crítica a esta falsa serenidade, se apresenta uma família de iranianos discutindo para que um irmão mais velho não fosse fazer algo, enquanto seu irmão mais novo chora e se agita frente a decisão do irmão.
Com o corte da cena, se apresenta um grupo de jovens, com bombas amarradas no corpo, com o objetivo de, na frente das câmeras, mostrarem os robôs matando-os friamente, com seus sistemas automáticos de defesa. Ao longo da rua, os robôs mais humanóides batem de casa em casa para que os moradores se apresentem,  retirando famílias inteiras para demonstrar sua eficácia.

 O grupo de jovens, então, iniciam o ataque e são rapidamente dizimados pelos robôs em frente as câmeras. Nesta cena, o jovem mais novo, ao ver seu irmão e demais sendo mortos, sai de sua casa com uma faca em punho enfrentando um robô de 3 metros que, ao identificar o garoto, o executa friamente. Após esta cena, Novak corta a transmissão, por “razões de segurança” e, ao mesmo tempo, exalta a eficiência e segurança de sua equipe perguntando “porquê, então, em terras americanas não podemos usar estes Robôs?”.

O filme desenvolve uma linha paralela ao drama pessoal de Murphy  que, após investigar um mafioso com relações profundas com policiais dentro de seu distrito, tem seu carro explodido num atentado em Chicago e perde quase todo seu corpo, se tornando, por decisão da família, o projeto Robocop.              
Esta linha paralela é a tensão entre o presidente da Omnicorp, a grande responsável pela solução da crise de “segurança” em Teerã, Rio de Janeiro, Congo, e pelas vidas norte-americanas “salvas” e um senador chamado Dreyfus. Ambos estão numa queda de braço pela opinião pública quanto a se a emenda Dreyfus, que proíbe o uso de robôs nos EUA, deve ou não ser vetada.
O presidente da Omnicorp, que, apesar de dominar os mercados de grande parte do mundo, visa os possíveis bilhões em lucros com a conquista do mercado dos EUA, começa a disputa, no filme, perdendo frente aos argumentos de que um robô não poderia decidir sobre a vida ou morte de um humano.

Como solução a esta encruzilhada, percebe que o que a sociedade quer é que haja a mesma eficácia dos robôs, mas com um homem em seu “suposto” comando.
Daí, começam a procurar a candidatos ao projeto Robocop, dirigido por um cientista engajado em projetos de reconstituição robótica de membros, encontrando em Murphy e sua desesperada família os candidatos perfeitos.
Murphy, então, após a pressão da empresa sob sua família, desperta para a vida, novamente, como  Robocop, uma espécie de andróide que combina um corpo em sua maioria robótico, com apenas os sistemas respiratório e cerebral (além do rosto) orgânicos.


Em mais um corte de cena “crítico”, surge Murphy acordando numa espécie de laboratório, dentro do qual começa a ter um surto graças a sua nova condição robótica.
Desnorteado, começa a fugir, correndo rapidamente pelos corredores de uma gigantesca fábrica que vai, corredor após corredor, demonstrando ser um  gigantesco complexo industrial na China, dentro do qual evidencia-se uma enorme linha de montagem, com milhares de chineses em bancadas de produção e de  avental rosa, observando assustados o andróide que, ao pular os muros da fábrica, cai em cima de uma vasta plantação alagada de arroz trabalhada por camponeses, em frente ao complexo defendido por Robôs armados até os dentes.

Claramente uma referência ao banquete que os grandes monopólios capitalistas (como Apple, Samsung, etc) obtém com a baratíssima e super-explorada (e supervigiada) mão de obra operária chinesa que, trabalham em complexos industriais ultra avançados e convivem com a miséria e simplicidade da vida de outros milhões de camponeses no interior chinês.
O filme se desenvolve, então, como uma combinação da trama policial que cruza a vida de Murphy, buscando solucionar o crime que quase o matou, perpetrado por policiais e até uma chefe do seu distrito policial, e o tema político da emenda Dreyfus, que expressa a tensão entre o humano e a máquina.

 Numa das partes mais interessantes do filme, talvez, Robocop está em treinamento e competindo com um Robô quanto a eficácia em combate.
Vez após a outra, ele hesita frente a um criminoso que toma uma criança como refém, levando 3 segundos a mais para matá-lo, do que o robô. Isto abre uma crise entre os projetistas que, tendo de mostrar resultados, então, decidem atuar numa operação no cérebro de Robocop, com o objetivo de fazer o programa de computador convergir com a consciência do andróide, dando a ele a falsa impressão de que, enquanto combate, as decisões pragmáticas e frias do programa de computador seriam as suas decisões “pessoais”, como humano.  

 Impressões distintas são possíveis, no entanto, esta metáfora, no contexto da necessidade de eficácia, “eliminação” do criminoso e de “imposição da ordem”, parece fazer referência a atividade de policiais, segundo a concepção de Padilha que, programados “pelo sistema”, iludem-se quanto a suposta possibilidade de livre-arbítrio, sendo levados a tomar decisões pré-estabelecidas e, muitas vezes, repugnantes, como se fossem suas e se satisfazem com isto.

Esta seria uma retomada de seu argumento em “Tropa de elite 2”, no qual tenta demonstrar, com seu discurso anticorrupção, que, numa estrutura corrupta, que visa privilégios ou lucros, a ação individual e a noção de “livre arbítrio”, de “ser um bom policial”, etc, não teria qualquer chance de desenvolver-se pois se naturalizariam os “atos repugnantes”, sendo necessária uma limpeza desta estrutura, numa visão reformista e evolutiva, tanto das instituições repressivas, como a Polícia, quanto dos sistemas de governo no capitalismo, atrelados desde a medula e seu nascimento aos interesses das grandes corporações, empresas, máfias, etc, para os quais a repressão e polícia é indispensável.
Outra referência ao tema corrupção se dá quando, após descobrir  e prender os policiais e a chefe de polícia que tinham ligações com o mafioso que tentou matá-lo, Robocop é exaltado numa ação cirúrgica para o mercado, como a evolução do sistema, como uma força da lei “incorruptível”, que daria o passo que as máquinas sozinhas e a humanidade não conseguiu, girando a situação para que a emenda Dreyfus fosse revogada e os robôs fossem permitidos no terreno dos EUA.
Esta cena parece demonstrar um argumento do autor de como a direita, os jornais pastelões policiais e os grandes conglomerados capitalistas, podem e efetivamente, usam, temas como a corrupção, para atingirem seus objetivos privados.

Após a emenda Dreyfus ser revogada, o filme entra num ritmo muito mais veloz, com cenas de ação cruzando a tentativa da Omnicorp assassinar e fraudar a morte de Robocop, pois este começa a “fugir de seu propósito” após a investigação dentro da delegacia,  e a tentativa deste em prender o presidente da companhia.

 O desenvolvimento da trama, cruzado pelas situações citadas e o jornal sensacionalista de Novak, levam a que este jornal demonstre-se frequentemente atrelado aos interesses da grande companhia Omnicorp e a visão de “segurança” dada pelos EUA ao mundo.

 Ao longo do filme, este jornal expressa a tentativa dos grandes monopólios em mudar a maré da opinião pública e garantir a abertura do mercado dos EUA aos robôs, de modo a que a série de manobras que fazem, a manipulação e o discurso acidamente de direita, repressivo, leva, para quem vê o filme, a deslegitimação do programa, como se fosse quase um a sátira ou caricatura da realidade.

É interessante notar que, nas últimas frases do filme, que coincidem com um discurso de L Jackson sobre a segurança e a política dos EUA no mundo, é aonde se condensa e explicita mais claramente um dos objetivos que sutilmente vai cruzando o filme.

Neste discurso, Novak, após xingar aos palavrões e berros no melhor estilo Datena ou Alborghetti, a decisão do presidente em restabelecer a emenda Dreyfus, retomando a proibição de robôs, ironiza os “reclamões” que insinuam que a política dos EUA seriam uma espécie de “agressão imperialista”, devido a utilização de Drones (aviões não tripulados para ataque, em uso hoje no Iraque e Afeganistão)  e robôs e que estes deveriam parar de reclamar.

Numa finalização exaltada, sob o som de trompetes e com a bandeira dos EUA tremulando ao fundo, Novak diz que a “América, ainda é a maior nação do mundo” e merece ser protegida da melhor forma, numa referência a doutrina “messiânica” de um destino “especial” da nação estadunidense, que vigora nas concepções dos grandes capitalistas dirigentes do Governo dos EUA desde o pós 2ª Guerra.
 Após os atentados do 11de setembro, inclusive, tal doutrina ganha força se materializando na idéia de que os EUA devem espalhar o “bem” ao redor do mundo, idéia base da “guerra ao terror” e as invasões (por motivos econômicos e geopolíticos) de Iraque, Afeganistão e, agora, de todas as tensões com Irã, Coréia do Norte e das intervenções na Líbia.

Não se trata de um filme revolucionário, muito menos, sob as margens estreitas dos rios de dólares hollywodianos, consegue impor que este supere definitivamente os traços de besteirol com suas balas e sangue. Isto tudo existe, mas de longe, não é o que predomina na narrativa.

 O filme tem o mérito de, aos milhões, insinuar e colocar questões que tratam de temas cruciais mundialmente, que surgem com a decadência da hegemonia e dominação dos EUA no mundo. Após a Guerra do Iraque e Afeganistão, ficaram claros os custos políticos e humanos de uma ação imperialista visando a dominação econômica e política, sobretudo numa região turbulenta como o oriente médio. A crítica, sutil, desta ação está presente no filme.


A possibilidade de desenvolver-se uma crítica, por sutil que seja, por dentro de uma das maiores indústrias da nação imperialista, apesar de enfraquecida, mais forte do mundo, expressa, também, uma insatisfação interna da opinião pública, uma correlação de forças dentro dos EUA que com sua insatisfação crescente com as conclusões militares da doutrina “messiânica”, não apenas foi um elemento de pressão (combinado com a crise econômica e o rombo de gastos com as guerras) que levou a retirada parcial das tropas do Iraque, como se demonstrou um barril de pólvora que Obama decidiu não acender, quando da tentativa do governo em impor uma intervenção na Síria.


 A ridicularização, no programa de Novak, de que fariam agressões“ imperialistas” , na verdade, é a conclusão de toda uma construção sutil, que vai se desenvolvendo no filme e expressa um tema que aparece em diversas outros filmes, como, inclusive, o novo Superman, quando o homem de aço é vigiado pelo pentágono por um drone e o destrói, dizendo que “ Porquê me vigiam? Eu sou um americano”, ao que é respondido por um militar com um “precisamos ficar de olho”, numa referência, tanto a ação assassina dos Drones, quanto a espionagem militar e política desenfreada desenvolvida pelos EUA, dentro e fora de suas fronteiras.