A “tempestade perfeita” continua.
As condições da economia, do regime político, das instituições, partidos e
políticos, o padrão de vida e dos empregos tem se degenerado cada vez mais com o turbilhão de acontecimentos que lançaram
o país no olho de um furacão cujos ventos mais fortes podem ainda estar por
vir.
Com fissuras mais visíveis entre suas frações diante da aventura pelo
impeachment, a classe dominante burguesa continua, no entanto, unificada ao
redor do ajuste fiscal, desferindo um ataque “de classe” contra a juventude, os
trabalhadores e o povo pobre.
Do outro lado, a crise tem sido paga com cortes de direitos, demissões e
“reformas” que cobram na carne do trabalhador o preço para manter os lucros capitalistas
estáveis.
A esquerda segue fragmentada continua fundamentalmente impotente, sem conseguir
barrar este “ataque de classe” com uma
“resposta da classe operária” contra a ofensiva burguesa.
Diante disto, se coloca a questão: como construir uma saída dos trabalhadores?
A situação atual se desenvolve mais rapidamente do que a
esquerda
É necessário, para se orientar, que tenhamos um método científico. Este,
para nós marxistas, é o materialismo dialético e parte da relação combinada,
entre a situação objetiva (a situação da economia, as condições materiais das
classes sociais e suas relações mútuas) e subjetiva (como a política dos
partidos dos trabalhadores, as crises políticas do regime, as greves,
ocupações, lutas, o “estado de ânimo” das massas e como julgam as instituições,
etc).
Hoje, no Brasil, a situação objetiva, da economia, é gravíssima. O recuo
recorde de 4,5% do PIB, ), é expressão da queda das exportações dos gêneros
primários, queda da produção industrial, más safras e seca, com o Dólar Alto
encarecendo produção interna e compra de produtos com componentes importados,
grande parte das famílias brasileiras endividadas, etc. Tudo isto é alavancado
pela desaceleração da China (principal parceiro comercial e que compra
commoditties do Brasil), a queda do preço do petróleo afetando a PetroBrás, a
crise inflacionária e produtiva na Argentina, tudo apontando a um ciclo de
queda e “retração” econômica que nem os analistas burgueses sabem prever até
quando pode durar.
Os setores empresariais, banqueiros e “financeiros” respondem de uma forma: com
unificação.
Assim, pressionam um governo debilitado
do PT e unificam todas as alas e partidos, apesar da crise política, a impor um
duro corte de direitos, gastos sociais, demissões (que este ano tem sido em
média 10 mil por mês) para manter seus lucros. É por isto que em meio a crise se
paga religiosamente 42% do orçamento para a dívida pública (cujos donos são uma
minoria de banqueiros e fundos estrangeiros) e os bancos privados como Itaú e
Bradesco lucram recordes.
A crise econômica e a ação dos capitalistas corroem o padrão de vida do
trabalhador, e encontram seu par perfeito na profunda crise política. O escândalo do caso
“Lava Jato” envolvendo todos os partidos tradicionais (PSDB, PSD, PP, PMDB, PT)
se aprofunda cada dia mais e decompõe a legitimidade dos políticos, seus
partidos e, inclusive, de instituições.
É
generalizado o sentimento de desencanto e indignação com a política.
Se, no entanto, o grito de “são todos ladrões” é hegemônico, quem mais perdeu
neste escândalo foi o PT: além de ver uma enxurrada de votos “anti-PT” em 2014,
o que quase o tirou da presidência e diminuiu suas bancadas, está agora no centro da trama do Impeachment.
Suas rupturas, formais e “informais” (na consciência de trabalhadores que o
consideravam “menos pior”) são cada vez mais claras.
Este é apenas um lado deste processo de “crise de legitimidade” da política.
Outra expressão, que provavelmente voltará com força em 2016, é o enorme número
de votos nulos e abstenções nas últimas eleições. No Rio de Janeiro, estes
foram maiores do que a quantidade de votos do governador eleito. Tal fenômeno é
expressão desta crise de “legitimidade” e aponta para a crise de
“representação” do povo.
Neste cenário, a esquerda legal, como PSOL, PCO, PCB e PSTU, além da esquerda,
não legalizada (como MRT, MNN, etc), apesar do resultado pontual de Luciana
genro, tem encontrado ínfima expressividade eleitoral e social.
No terreno da “luta de classes” (que não é nosso foco detalhar aqui) a esquerda
tem se polarizado: por um lado uma posição “propagandista”, com propostas e
“bandeiras” gerais pouco aplicáveis e dificuldades para dar “exemplos”
sindicais que possam se generalizar e, por outro, em que está PSOL, que tem se
atrelado cada vez mais a política governista, o que fará com que não seja nenhuma
alternativa para massas e se atrelem cada vez mais ao regime.
A novidade da luta de classes veio de casos como a luta dos estudantes secundaristas
que neste fim de ano tomaram as escolas derrotando o “feudo” do PSDB em São
Paulo e a luta dos professores no Sudeste que, no entanto, foram exemplos muito
“espalhados” e que não tem representado uma ação unificada contra a crise.
É tempo de “ação política”
Esta crise gravíssima acelera o “ritmo” da luta de classes.
A cada dia que passa, a burguesia ataca
os trabalhadores não mais como “frações”.Não é mais o Bradesco (apenas)
atacando seus bancários, a Ford demitindo seus metalúrgicos, a SEARA demitindo
seus operários, etc. A classe dominante busca unificar esforços para que não
seja ela que pague pela crise e usa o Estado para isto.
Os sindicatos, em sua maioria infestados pela praga da burocracia sindical que
vende greves e negocia traições (como se demonstrou no caso recente da barganha
entre Força sindical e a empresa UTC), estão diante de um momento de defensiva.
Não apenas podem perder membros como, graças aos acordos entre burocratas e
patrões, vão perder a efetividade para responder a tarefas cada vez maiores
(luta contra legislações que prejudiquem os trabalhadores, milhares de
demissões, redução de salários, etc).
A crise de legitimidade e de representatividade, que também atinge os
sindicatos,
abre um espaço político (e
eleitoral) que poderá ser preenchido por uma futura reorganização sindical e
política. É de olho neste espaço que a REDE de Marina tenta ser “alternativa
de centro esquerda” e diversos setores burgueses planejam a formação de novos
partidos.
A reorganização é uma possibilidade já observável no horizonte próximo, na
medida em que há a aguda crise de representatividade e a decadência da
legitimidade da política tradicional, além de rupturas cada vez maiores com o
PT, o maior “freio” das últimas décadas.
Esta situação exige uma “ação política”, que é a generalização da ação
econômica, de “classe trabalhadora contra classe burguesa”, por parte dos
sindicatos e dos trabalhadores.
Estes serão cada vez mais empurrados a “ação política”, que se aponta cada vez
mais não contra “setores” específicos da burguesia, mas contra toda a classe
dominante organizada no Estado.
O que isto significa? Que a cada dia que passa se coloca mais a necessidade de
que os trabalhadores tenham uma ferramenta política unificada e que seus
sindicatos, em ligação com esta, tenham uma ação unificada e “de classe” contra
a unidade burguesa.
Em duas frases:
está na ordem do dia
lutar por um partido sem patrões e sindicatos sem burocratas.
Não se pode esperar que o ritmo de
evolução das organizações da esquerda seja tão rápido quanto o da situação de
crise. Não será. É um fato objetivo que não podemos mudar.
No entanto, por pequena que seja a esquerda e poucos que sejam os ativistas
independentes, diante de um processo de reorganização estes podem ser uma poderosa
“vanguarda” capaz de influenciá-lo.
Uma nova organização de trabalhadores, aberta a todas as tendências da
esquerda, que tenha em seus estatutos a obrigatoriedade de ser formado por trabalhadores
que não explorem o trabalho de outros (cujos detalhes “sociológicos” poderíamos
observar), enraizada principalmente nos locais de trabalho, mas também de
estudo, universidades, etc,
responde a
uma necessidade objetiva da situação do Brasil.
Trotsky, ao abordar o tema da formação deste tipo de partido (que ele chamava
de “Partido Operário Independente) nos EUA na década de 30, dizia que “esta
necessidade objetiva encontrará sua expressão subjetiva nas cabeças dos
operários, especialmente se nós os ajudamos”. Hoje, também, não se trata de
esperar algum “fato” surgir, mas de agir audazmente para construir tal
perspectiva, ajudando a classe.
Além disto: “agitar” a idéia deste
“partido
sem patrões” seria formidável para, ao mesmo tempo, a esquerda varrer dos
sindicatos as burocracias sindicais, lutando pela bandeira de “sindicatos sem
burocratas” e criando uma ponte para que o projeto revolucionário chegue a
setores mais amplos da classe.
É claro, nesta formulação, setores reformistas, carreiristas, oportunistas e
mesmo infiltrados teriam chance de entrar para tomar as rédeas do processo.
Ainda assim, o caráter deste partido, assim como a validade desta idéia, só se
pode comprovar na prática. Desde o início, no entanto, nós revolucionários
deveríamos defendê-lo em combinação inseparável com um programa revolucionário
(em minha opinião estatização dos recursos estratégicos, bancos e grandes
empresas, reajuste salarial de acordo com a inflação, divisão das horas de
trabalho entre todos os desempregados, enfim o que chamamos de “ programa
transitório” apresentado pelos trotskystas) que apresentaríamos diante dos
trabalhadores; estes, então, diante dos demais programas, decidirão por que
caminho seguir.
Não há motivos para sermos céticos. Uma proposta de tamanha audácia, caso se
implemente pela ação decidida da esquerda unificada, criaria condições férteis
para as propostas revolucionárias e poderiam encontrar um caminho mais curto
para a formar a futura organização revolucionária necessária para os
trabalhadores arrancarem o poder das mãos da burguesia.
Uma onda de entusiasmo se levantaria! Toda a energia de desprezo pela suja
política tradicional encontraria uma válvula de escape positiva. Os
revolucionários, além de ajudar a construir uma arma necessária contra a
unificação burguesa, teríamos a chance de encontrar nossa classe em luta a lutar para demonstrar a superioridade de nossas propostas.
A esquerda não pode se esquivar da questão fundamental
Há na esquerda diferentes visões sobre
como responder a crise, sobretudo após a abertura do processo do impeachment.
O PSOL, apesar de posicionamentos de tendências internas que, como o PCB
defendem a abstrata “luta independente por direitos”, fala da luta contra
ajustes mas, na prática, está numa frente política chamada “Povo sem medo” com
a CUT, CTB e setores governistas.
O objetivo desta é dar apoio “crítico” ao governo Dilma contra o impeachment,
ou seja, no momento de maior crise do PT, a organização que dizia ser uma
“alternativa” na prática opta por se tornar uma muleta, uma linha auxiliar,
criando ilusão neste governo repressor como “menos pior”.
O PSTU, por outro lado, “agita”, por um lado, a idéia de erguer uma Greve geral
contra os cortes num tom “propagandista”, ou seja, distante de qualquer chance
de ocorrer devido as burocracias sindicais e, por outro, a idéia de “eleições
gerais” para que, em suas palavras “
o povo possa trocar todo mundo, se quiser. O que não dá para
aceitar é que qualquer um desses que estão aí hoje governem”.
Já o MRT (Movimento revolucionário de trabalhadores), defende
a idéia de que a bandeira mais “correta” é a de uma “Assembléia constituinte”
imposta pela “ação das massas” que discuta todos os problemas do país e
reformule sua estrutura de cima a baixo.
O que todas estas posições tem em comum? Elas se esquivam do problema
fundamental que é o fato objetivo de a classe não ter uma organização política “com
autoridade” para resistir a esta ofensiva burguesa.
Ora, a greve geral é o momento em que os interesses particulares das categorias
se “elevam” e atingem o patamar da luta pelo interesse de toda a classe. Sem
uma articulação política e sindical que tenha
autoridade reconhecida pelos trabalhadores, isto é uma bandeira
vazia.
O mesmo vale para eleições gerais: não tem qualquer significado, pois estes que
aí governam são apenas a “cara atual” da política capitalista dos partidos
tradicionais. Se ocorressem eleições as caras mudariam, mas política seria a
mesma.
Por outro lado, apesar de responder a uma necessidade correta, a de reformular
toda a estrutura política, econômica e social do país (hoje a serviço dos
magnatas capitalistas), a bandeira de “Assembléia Constituinte”, sem uma
articulação sindical que permita unificar os trabalhadores, por um lado e sem
uma organização, um partido com autoridade, que canalize politicamente a
insatisfação generalizada da classe trabalhadora é, no mínimo propagandista e
perigosa.
Uma assembléia constituinte na frágil situação da esquerda não seria o momento
de avanço de grandes propostas de estatização de recursos naturais ou para que
todo político receba o salário de uma professora. Seria a do avanço de normas
atrasadas que poderiam retroceder direitos arrancados pela constituinte de
1988, justamente porque o consenso entre “os de cima” (que tem dinheiro e
presença geográfica para ser maioria esmagadora numa constituinte hoje) é o de
que é preciso “menos social e mais neoliberal”, com privatizações e ataques a
direitos.
Assim, enquanto a esquerda não responder ao problema da reorganização política
e sindical necessária, este arco-íris de propostas não sairá do “propagandismo”.
De nossa parte, acreditamos que um primeiro passo seria a construção unificada
entre os partidos da esquerda em luta e os ativistas independentes de um
encontro nacional, composto por delegados eleitos por assembléias nos locais de
trabalho.
Neste encontro, além de se propor um plano democrático de luta contra os
cortes, buscando greves unificadas, etc, poderíamos iniciar o debate e a
agitação pela construção de um “partido de trabalhadores, sem patrões”. Este
passo unificado poderia “viralizar” na consciência dos trabalhadores que buscam
uma alternativa para a crise.
Assim, teríamos uma ação (sem ingenuidade: difícil e que nos daria enorme trabalho
diante das diferenças dentro da esquerda, a luta contra a burocracia e a
influência dos partidos tradicionais) consciente para dar uma alternativa aos
trabalhadores neste espaço político, sindical e social que se abre com a crise
e, ai sim, chances de ter uma alternativa ao impeachment e rumar para propostas
mais audazes como a de uma Assembléia Constituinte.
Lembremos: Em política não existe vácuo. A questão é quem – e com que política-
irá ocupá-lo.