sexta-feira, 22 de março de 2019

As "semi-estratégias" de Arcary e Pomar

Por Bof, demitido político do Metro de SP.
Segue a trágica e tortuosa trilha da esquerda que, ao menos em intenções, busca uma transformação revolucionária no Brasil.

Após meses de silêncio inacreditável dos debates, como durante a descarada tentativa de armar uma provocação civil-militar que desse início a uma guerra civil e/ou sublevação militar contra o Governo da Venezuela, neste último dia 20, no portal do grupo Resistência, do PSOL, se apresentou um debate em quatro artigos entre Valério Arcary, dirigente advindo do PSTU e que rompe em 2016 para formar as fileiras do PSOL e Valter Pomar, teórico da Articulação de Esquerda, dentro do PT.(https://esquerdaonline.com.br/2019/03/20/ha-duas-estrategias-em-disputa-na-oposicao-a-bolsonaro/)

O debate, em si, é de importância, menos pelas orientações e análises de conjuntura política, estas, de ambas as partes, como tentaremos demonstrar, equivocadas e distantes de uma ação e teoria socialistas, e mais pelo debate sobre “estratégia e tática”, diante do governo Bolsonaro em particular e, em geral, sobre aquelas que norteiam a ação dos socialistas.

Como critica corretamente Arcary, não é muita tradição de nossa esquerda o debate teórico e escrito. Desse modo, convocamos os companheiros e toda a esquerda a reflexão e diálogo..

A primeira nota de Valério é dedicada a explicar como, numa compreensão de estratégia corretamente apontada por Pomar como restritiva, existiriam duas estratégias em choque na oposição a Bolsonaro: a de PT e PDT, na figura de Ciro, e que, diante de tal polarização, o PT, dividido, teria como tarefa central de seu 7º congresso, escolher dentre elas.

Uma seria a de Ciro, que tenta ocupar o espaço de “centro-esquerda” hegemônico motivada por uma subestimação dos resultados das reformas de Guedes, do quanto Bolsonaro e seus afiliados poderiam desestruturar o “equilíbrio de poderes” e assim, fechar mais o regime político avançando num sentido autoritário de um bonapartismo militar, posição que buscaria esperar as eleições de 2022 e, assim, aproveitando o fraquejar do PT para deslocá-lo e assumir a liderança deste campo de “resistência”.

A outra seria aquela representada pelo PSOL que estaria comprometido em não esperar 2022 através de uma orientação que evite que a “derrota eleitoral se torne derrota social e histórica” (sic) e, como a situação é “reacionária”, a estratégia deve ser totalmente defensiva, impedindo que os ataques se implementem, travando-os para, se possível, passar a contraofensiva.  A via para isso? Uma frente única “das esquerdas”, inclusive o PT e uma “unidade de ação com todos os que quiserem lutar pelas liberdades democráticas ameaçadas. Conscienciosamente, Arcary não deixa de mencionar como, em algum caso excepcional, podemos até “tentar derrubar” Bolsonaro.

Tais posições combinam bem com a trajetória do embrião da atual resistência, o MAIS, tendência que rompeu e se transformou nos últimos anos num  representante da ala direita do PSOL, numa concepção de “defensiva” há pelo menos 3 anos, desde o impeachment.

Um revolucionário russo, sempre bom referencial para aqueles que atuam seriamente em construir uma ação revolucionária socialista, nos dizia que a teoria deve ser um guia para a ação.
Igualmente, deve estar ancorada numa análise lúcida da realidade dos fatos políticos, econômicos e sociais e, assim, dar corpo a estratégia e seu conjunto de táticas. Quando os erros deixam de ser “acidentes de percurso” mas passam a ser teorizados, o sinal vermelho da história precisa ser aceso. Tais desvios, por menores que pareçam, cobram quilômetros de distância na prática.

E é precisamente por aí que se mete Arcary, deixando o trabalho de Pomar, de polemizar ao redor do tema da estratégia socialista, de maneira abstrata, mas ainda assim eficaz, muito fácil.

Em qualquer ciência e ofício, tentar formular uma realidade para que ela se encaixe em seus planos, modelos ou objetivos é má empreitada. O resultado não pode ser eficaz pois não é coerente com a realidade.
Arcary afirma uma falsa polarização no campo oposicionista que, surpreendentemente embeleza não apenas o PDT e Ciro como, também, o PT, como se fosse uma organização de incautos, confusos e desestruturados.

Obviamente, seu objetivo é disputar um “naco” desta organização (ou pensar que o faz) através de uma operação previsível: dividir campos e forçar posicionamentos. A ferramenta para isto seria a caricatura de “frente única”. Entretanto, quando os campos estão mal definidos, não se pode ter esperança de sucesso.

Corretamente, o que Pomar responde é que o projeto de Ciro não é fruto de uma “desatenção” ou subestimação, mas de um projeto político, baseado num nacional-desenvolvimentismo “autoritário”.
A definição das intenções de Ciro são, aqui, corretas, nos parece, na medida em que, carecendo de uma classe burguesa nacional que desse impulso e lastro social  a este projeto, Ciro basearia suas pretensas ações na cooptação da classe trabalhadora e nem “engordar” burgueses nacionais, hipoteticamente, independentes (e onde é que surgiu uma burguesia independente no século 21, em países atrasados e periféricos como Brasil?)  e em choque com o imperialismo, seus bancos e empresas.

Arcary não menciona isto, o que é grave, na medida em que seu candidato - Boulos - e toda a ação do PSOL em grande parte do ano passado foi adaptada a uma farsa de frente amistosa e acrítica com o PDTista (além do PT), mesmo enquanto este discutia apoio eleitoral e parlamentar com o Centrão (vulgo, partidos fisiológicos de direita)e com o PDT embarcado na defesa de Rodrigo Maia, inequívoco burguês e golpista e além de ser favorável a negociação da reforma da previdência.

Ou seja, Ciro não é um “aliado” ou um “pólo” da oposição a Bolsonaro. Ciro tenta, com demagogia, desviar as já poucas energias da centro-esquerda para um projeto nacional-desenvolvimentista burguês, baseado na conciliação entre patrões e oprimidos.
O que isso quer dizer? Ciro já disse com todas as letras que quer ser o nexo de conciliação entre as forças do capital e do trabalho. Nada muito distante de um líder populista, conciliador, que não tem nenhuma perspectiva séria de transformação social. Seu objetivo é o poder e, uma vez dentro, conciliar, com quer que seja, até o Centrão, vendo o que dá, inclusive realizando ataques e golpes contra os trabalhadores. Por isto ele é contra esta reforma, mas é favorável a outros regimes de capitalização da previdência. Felizmente, ele é um general sem exército.
Ainda assim, um inimigo da perspectiva socialista e revolucionária cuja influência deve ser combatida e cujas características devem ser expostas claramente. Tais senhores não se dão as graças da “ingenuidade” diante de Bolsonaro.  

Por outro lado, movido por seu impulso de retratar uma realidade fértil a seus objetivos, Arcary embeleza a posição do PSOL, sem nenhuma autocrítica após uma das candidaturas mais desastrosas, coladas ao PT, com programa econômico fundamentalmente liberal, sem cara própria e com piores resultados da história, como foi a de Boulos, além de, literalmente, “passar um pano” para a direção do PT e das centrais sindicais.

Talvez movido por ideias de uma crise na cúpula decorrente da prisão de Lula e debates preparatórios ao 7º congresso, Arcary define a organização como polarizada entre estas duas “estratégias”, deixando de lado a óbvia linha política do PT de evitar o combate aberto, se demonstrando como oposição “responsável” e que joga “pelas regras do Jogo”, desde a queda de Dilma.

Após passar pelo impeachment, Temer e seu congelamento de gastos e reforma trabalhista, passando pela demonstração - traída - de disposição para a luta e greves gerais em 2017, a prisão de Lula e toda a maquinação burocrática, sequestro de votos, disparos ilegais de whatsapp, culminando na eleição de Bolsonaro e dos militares, tudo isso acontecendo sem nenhuma ação além da velha divisão de tarefas entre “teatro parlamentar e paralisia sindical” do PT e CUT, é preciso se tirar algumas conclusões, afinal!

A estratégia clara e hegemônica no PT, diante da conjuntura, é democrático-liberal, ou, em melhores termos, de reedição de uma espécie de “social-liberalismo”, como ficou explícito na plataforma de Haddad, administrando liberalmente o capitalismo enquanto dá pequeníssimas e frágeis concessões sociais e econômicas aos mais pobres, fortalecendo sua base eleitoral e se alçando a posição de conciliador do capital/trabalho. O PT tem esta diretriz em programa e prática e seu objetivo é seguir com ela até 2022, vendo o país sangrar para surgir, utopicamente, como “salvador da pátria”.

A votação em Rodrigo Maia, um dos implementadores das reformas de Bolsonaro, não oficial, mas na prática, para presidente da câmara, por diversos deputados do PT; a votação em massa do PT em Cauê Macris, o homem do PSDB de Dória, para a presidência da assembleia legislativa em SP; a completa paralisia das centrais sindicais como CUT e CTB (essa, para salvar o PCdoB da extinção, de mala e cuia no apoio a Maia), numa verdadeira trégua que deixou a reforma trabalhista passar, o teto de gastos se impor e deixará a da previdência acontecer, fora o estelionato eleitoral reeditado, chantageando milhões a votarem em Haddad para combater um fascismo que, ainda, não se viu e que, pelo que se vê, tem caminho livre e apoiado pelos parlamentares do PT, nas câmaras e assembleias; bem, tudo isto deveria ser prova suficiente de uma estratégia clara do PT.

Causa espanto, diante deste cenário, que um dirigente de décadas de Trotskysmo, em prol de uma operação tática (supostamente romper e aproximar bases do PT), distorça a realidade e trate de confundir a própria militância e setores de vanguarda dos trabalhadores com afirmações tão díspares com a realidade.

Os termos em que Arcary coloca a questão mostram, efetivamente, que sua concepção de estratégia (pelo menos diante de uma suposta situação reacionária)  não apenas é restritiva como tem como objetivo central “alcançável” recompor, sim, o regime democrático burguês.

Ou seja, qual seria o resultado de uma ação, a única possível já que a estratégia é “defensiva” em uma situação “reacionária”, focada em impedir que os retrocessos eleitorais virem sociais e históricos? Devemos seguir para onde? Para a recomposição de uma situação de “equilíbrio entre os poderes” ideal? Quando isto se materializou no Brasil? Nos anos de Lula? Ou antes, retomando a constituição esfacelada de 88?

Ao descolar a estratégia por um programa socialista, por uma auto-organização dos trabalhadores que dê origem a formas de luta que ultrapassem a  engessada estrutura sindical brasileira, que ponham de pé organismos de luta e democracia exercida diretamente pelos traballhadores e coloque a questão do poder e da classe em cada mobilização, articulando-as e criando estruturas de poder dos trabalhadores, Valério cai no possibilismo ao qual sua lógica defensiva o leva.
E este possibilismo, que silencia diante da trégua sindical das centrais e do PT, subestima a linha de Ciro e tenta alçar o PSOL, uma organização sem estratégia e sem inserção, a um papel polarizador que não existe, leva, de facto, a que a linha de Valério seja a de “salvar a democracia”, o colocando ao lado da direção burocrática e majoritária do PSOL e, blocando, é claro, com o discurso da direção do PT.

De que retrocesso social a ser impedido Arcary fala? Ou não temos já o teto de gastos e a reforma trabalhista que esfacela as relações de trabalho? O retrocesso já está aí!
O problema é que a estratégia “possibilista e defensiva” de Arcary se baseia numa concepção derrotista, antes da hora. Os ataques estão passando, a reforma da previdência está as portas, no entanto, a classe trabalhadora, apesar das traições, não está derrotada ainda. Como para Arcary ela já está desde 2016, não cabe lutar, mobilizar, articular alternativas a burocracia sindical, fomentar nas greves e lutas organismos de democracia direta... Apenas tentar impedir que o mal fique pior, lutar pelo horizonte democrático e só.

Para isso, a independência de classe, um componente estratégico clássico do marxismo revolucionário, também desce pelo ralo.
Por isto é possível fazer frentes com “todos” que queiram defender a democracia. Todos incluem o PSDB? PDT? PPS? PSB? Partidos burgueses em geral? E para isso, basta uma declaração de intenções?
Bem, as cartas e manifestos assinados, como as de fevereiro do ano passado por PSOL e muitas dessas organizações empresariais, mostraram bem o efeito que tem: confusão na vanguarda, continuidade dos acordões entre estes partidos burgueses e partidos do centrão, magnatas e latifundiários (Katia Abreu e Ciro estão ai pra mostrar) e apatia na classe trabalhadora.

A burguesia, de fato, mudou de estratégia e embarcou na linha de um neoliberalismo selvagem, a entrega do país e uma nova dinâmica voraz de exploração do trabalho. Não é possível que aceite um retorno ao padrão de conciliação anterior, ainda menos diante da ofensiva dos EUA na disputa com a China e da desaceleração econômica mundial.
É a hora do ataque e contra o ataque de classe não existe ferramenta eficaz que não seja os trabalhadores lutarem pelos seus próprios interesses, contra os patrões, magnatas e gringos.

Na nação atrasada e semicolônia que é o Brasil, não há arma realista que não seja a luta pelas bandeiras socialistas, até mesmo paras arrancar mínimas conquistas democráticas e de direitos dentro do terreno da democracia liberal burguesa.

Estratégia: Pra que serve, afinal?
Aqui voltamos a Pomar. É verdade que tal concepção de Valério restringe o alcance do termo estratégia. Também é verdade, no entanto, que é possível se ter estratégias para batalhas e “teatros de guerra” menos abrangentes.

Talvez uma forma mais precisa de definir estratégia seja a seguinte:
Ela é um plano geral que articula um conjunto de operações táticas isoladas, mas não desconectadas, cuja implementação levam a conquista de objetivos estratégicos.
No plano militar, é possível ter uma estratégia para uma batalha.
Esta, apesar de ter como objetivo estratégico central a vitória diante do inimigo, possui uma série de objetivos estratégicos parciais, cuja conquista se dá através das operações táticas. Nenhuma tática é estática.
A conquista destes objetivos precisa ser obtida na luta real e, como toda luta real, ajustes devem ser feitos em função das condições de suas forças, reações do inimigo, condições climáticas e de terreno imprevistas, enfim, qualquer estrategista sabe que, para se conquistar uma batalha é preciso se ter um plano, vias táticas de paulatinamente concretizar este plano e um olho acurado para realizar ajustes nas operações deste plano a tempo de não se perder de vista a possibilidade de vitória.

Um exemplo: Um exército menor pode enfrentar um exército maior e, diante das possibilidades de terreno e clima, manobrar seu exército em distintas porções menores, concentrando sua força principal em posição vantajosa, mais numerosa e escondida do inimigo. Estas porções menores podem ser mobilizadas em direção ao inimigo com o único objetivo de forçá-lo a se mover, provavelmente dividindo suas forças. A função destas porções menores é, neste sentido, defensiva, de ganhar tempo, dividir o exército maior e permitir que a manobra da porção principal, mais numerosa e concentrada, seja bem sucedida e rompa as linhas de frente do inimigo, fazendo-o recuar.

Esta é uma concepção de estratégia de batalha chamada “concentração de força/derrota em detalhe”, pois permite dissimular a ação, enganando o inimigo e atacando no momento certo com superioridade numérica, fazendo sua linha quebrar e permitindo perseguir as tropas em fuga, derrotando “no detalhe” um exército maior.

Esta explicação, talvez enfadonha, no entanto, mostra bem que, não apenas é possível uma estratégia, com todos os limites da analogia quando falamos de estratégia político-social, para batalhas menores (portanto, Arcary poderia estar falando sobre algo assim), quanto é não apenas possível, mas crucial, a articulação de fases (defensiva, contraofensiva, ofensiva) dentro de uma mesma estratégia de batalha (e aqui, Arcary se equivoca diante da absolutização de uma pretensa “estratégia defensiva”).

Diante de tamanha confusão, por um lado e de, aparentemente, uma intenção de Arcary criar uma realidade ideal polarizada que justifique suas ações (novamente o russo nos lembraria do erro de justificar as ações e não movê-las pela teoria), Pomar desenvolve uma espécie de “metalinguagem” sobre o tema, pegando, é claro, Arcary pela esquerda.

Em uma coisa, Valério acerta na réplica: não importa muito estar “a esquerda” de alguém num debate teórico abstrato. A teoria ganha concretude e validade, em sua implementação prática, através da dialética demonstrada da estratégia/tática.

Pomar, polemista experiente, soube observar as brechas da argumentação e Arcary e aproveitar para lembrá-lo que a estratégia socialista não se detém nos limites da democracia burguesa, que os socialistas sempre lutam pelo poder e que a linha de Arcary levaria a um horizonte de defesa da democracia burguesa, recompondo o status quo a uma situação ideal. Nada mais utópico e inaceitável pelos magnatas diante da ofensiva burguesa dos últimos anos. Ponto pra ele.

Mas seus pés, no entanto, não estão em terreno mais sólido dos que o de Arcary, afinal, sua crítica vale, igualmente, para si mesmo.

Pomar afirma tal como uma declaração de manual, correta em geral, que “O objetivo de longo prazo é uma sociedade comunista. Entre esta sociedade comunista e o ponto em que estamos, haverá um longo período histórico de transição. Esta transição é o socialismo. O ponto de partida da transição socialista é a conquista do poder, por parte da classe trabalhadora. A estratégia é, enquanto prática, o processo real através do qual a classe trabalhadora conquista o poder e, enquanto teoria, a definição acerca de qual é o caminho que nos leva a conquistar poder. Portanto, eu reservo a categoria estratégia para aquilo que diz respeito ao caminho para a conquista do poder.”.

Espanta ver, no entanto, que em nenhum momento dos dois textos, Valter aponte, como cobra de Arcary, “o caminho a ser percorrido”, o passo além. Chega ao ponto, inclusive, cometendo o mesmo erro de Arcary, de tentar produzir uma realidade que caiba nos seus esquemas ao afirmar que hoje se dá no PT um debate sobre quais caminhos levam ao socialismo.

Vindo de um representante de décadas no PT, igualmente causa espécie que censure um colega e ao mesmo tempo não responda minimamente o que exige sobrequal a relação que existe entre nossa luta contra o governo Bolsonaro, nossa luta pelo poder e nossa luta pelo socialismo?”

A articulação de esquerda, sabe-se, não goza de força hegemônica, portanto, não tem o poder de definir as linhas do PT. Mas a participação em uma estrutura pressupõe responsabilidade por ela.

E o PT tem sido não apenas uma organização “não-socialista” em termos gerais, mas diretamente antissocialista nos atos. Todas as operações táticas deste partido, nos últimos 17 anos (desde que entrou no governo federal) e antes no período de oposição leal dentro do regime, foram para integrar, cooptar e domesticar as energias e lutas dos trabalhadores e oprimidos.

Por dentro do governo se resolveriam os problemas sociais através de medidas e programas e toda luta seria nociva a este projeto de “progresso gradual e contínuo”. O ano de 2013,que fez tremer o projeto de conciliação, é até hoje demonizado pelos PTistas, pois teria se insurgido diante deste esquema e, claro, necessariamente, para eles, seria o início das ações da direita para derrubá-los.

Que isso é ladainha e que, diante da paralisia e grau zero de estratégia da esquerda não PTista e da completa integração do PT ao poder burguês, a mídia corporativa e a burguesia brasileira com ajuda dos EUA conseguiram desviar as energias, criando com parte destas os “caras pintadas” de classe média que derrubaram Dilma, convenhamos, não é preciso discorrer muito.
2013 não começou de direita. Começou espontaneamente contra o alto custo de vida e dos transportes.

Entretanto, devolvendo-lhe a pergunta: Quais são os caminhos que, de dentro do PT, levam ao socialismo, caro Pomar? De que maneira as operações táticas encampadas pelo seu partido vão de encontro as conquistas de objetivos estratégicos que nos aproximam da vitória diante do inimigo?

Pomar não responde.
O polemista tem a vantagem de erguer para si um objetivo a ser desestruturado e, teoricamente, desmontá-lo. Em termos abstratos e teóricos isto é possível. Mas a prática cobra a coerência dos exemplos e esta, infeliz ou felizmente, demonstra que a conivência de ditos “revolucionários” da Articulação de Esquerda, com a estratégia de passividade social, combinada com teatro e sobrevivência parlamentar e sindical, com a trégua sindical do PT, aponta para, este sim, a manutenção de um status quo idealizado e desta democracia dos ricos “conciliada” ou, no pior dos casos (o que é mais provável) apenas para a sobrevivência da estrutura burocrática PTista no novo pacto social muito mais selvagem que a burguesia prepara contra os trabalhadores.
O PT freia e combate o desenvolvimento de qualquer ação revolucionária entre os trabalhadores.

Aqui, Pomar e Arcary se unificam, cada um com seus erros.
Ambos silenciam sobre o papel das centrais sindicais e das organizações de esquerda diante de um país em que a reforma trabalhista aumentou para 32 milhões o trabalho informal, 13 milhões de desempregados e, só no ano passado, mais um milhão e meio no trabalho precário, terceirizado e/ou intermitente.

Como é possível falar de estratégia revolucionária sem pensar os “caminhos” da organização, conscientização e mobilização desta nova classe trabalhadora? Como é possível passar ao largo das centrais sindicais num debate de estratégias para a tomada do poder? Como é possível ignorar que a esquerda vira as costas ao sujeito histórico da revolução socialista?

Bem, Arcary tem o mérito de honestidade: Se salvaguarda numa suposta estratégia defensiva, cujo horizonte máximo é resistir e manter as coisas um pouco “menos piores”. Pomar, no entanto, se diverte, debatendo socialismo e estratégia em abstrato e colocando o estilo a frente. O recheio, afinal, como ele deu a senha, pouco importa.

Mas a nós, aí está o crucial.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Dá para sentir a densidade do ar aumentar nas cidades!



Com a divulgação das últimas pesquisas, Haddad, provavelmente motorizado pelo desespero ensejado pelos quase 30% de Bolso(naro), mostra uma ascensão explosiva chegando a casa dos 20%, sendo o foco do voto útil e o do espectro lulo-petista.

O Bozo parece estacionar por ali e, dia a dia, as manchetes se revezam entre projeções eleitorais, uma, ainda, forte exposição das declarações dele e das posições ultraneoliberais de Paulo Guedes (imagine impor um imposto de renda de 20% sob TODOS os brasileiros, sem nenhuma proporcionalidade) e notícias falando dos ânimos do mercado e migrações de apoio. Tudo ainda demonstra que a burguesia segue dividida.

O apoio a Bozo, que significaria unificar todos os inimigos contra o já desacreditado regime político e o establishment, aumenta, no entanto, com cada vez mais setores empresariais e gringos vendo nela uma "boa saída".

Ou seja, a política da destruição radical dos direitos dos trabalhadores, regressão efetiva dos direitos civis e diminuição do preço do trabalhador pela via radical do neoliberalismo privatizador de tudo. Isso tudo no caso de um "governo normal" Bolsonaro.

E é aí que entra o PT e Haddad.
Não existe, hoje, boom de venda de commoditties para a China. A maioria das famílias estão endividadas e milhões seguem no desemprego ou informalidade, ainda mais graças a reforma trabalhista. O ciclo econômico que possibilitou mais conciliação, o farsesco "ganha ganha", acabou lá em 2015.

A questão, hoje tomada como questão de vida ou morte nas bolhas virtuais, sobre quem vai ganhar, focada apenas no terreno da decisão eleitoral, é enganosa. O que importa é depois. Mas não muito depois; imediatamente depois.

Os militares e o judiciário, já absolutamente além de suas atribuições constitucionais, tutelam, vigiam, em última instância, ameaçam vetar a decisão destas eleições.

Dilma caiu porque o ritmo de implementação dos ataques e cortes de direitos, que ela começou em 2015 com Joaquin Levy do Bradesco no ministério da fazenda, parte deles impostos já por Temer, era lento demais.

Uma nova retomada da crise econômica mundial se avizinha, com a Argentina amargando mais de 8% de regressão do PIB, uma disputa interimperialista cada vez mais aberta entre os EUA e China, uma desindustrialização crescente e entrega dos bens nacionais brasileiros... Se opera uma reorganização de posições no tabuleiro econômico e pro Brasil resta a posição de vendedor de soja, petroleo cru e laranja.

Bem, com a tática de desvio das energias populares aberta desde o fim de 2013, era a janela de oportunidade histórica pra criar o problema e vender a solução.
Dilma caiu pra que os ataques fossem implementados mais rápido, como uma blitzkrieg econômica, para confundir e desmoralizar os trabalhadores, algo que Temer tentou com dedicação.

Haddad, o favorito para o segundo turno, unificando os votos
úteis de desespero aos da esfera lulopetista, caso vença, abrirá o momento de maior tensão que nossa geração já viveu em termos políticos, com pressão política e atuação aberta do empresariado, militares, judiciário com suas sanções e vetos a decisões dos demais poderes, pela implementação dos cortes e ajustes.

O PT e Haddad só voltam ao poder se fizerem uma meaculpa. Mas não uma mea culpa aos trabalhadores, por não ter taxado heranças e grandes fortunas, contrariado os monopólios e impedido fusões de bancos gigantescos, por ter, no início da crise, cortado na carne da educação, saúde, moradia e não na do empresariado.
Não.

Só voltam ao poder se fizerem a mea culpa de que não perceberam o "ânimo" do mercado que, exigente, deseja "reformas a todo vapor". Só assume o governo com uma nova forma de "carta ao povo brasileiro", se comprometendo com uma agenda de ajustes, cortes, reformas, todas próempresariais.
Para isto, a alta burguesia gringa e os bancos vigiarão com toda atenção os primeiros 6 meses de seu governo, período de governo em que se pode governar de maneira quase monárquica, editando medidas provisórias e decretos, reorganizando a estrutura ministerial e prioridades governamentais.

Nas ruas, a cada esquina preenchida de politização, dá pra sentir a densidade do ar aumentar, as respirações se prenderem, mil narrativas e prognósticos se acumularem.

Uma coisa é certa: O que começou em 2016, ou mais propriamente, com a politização e posterior desvio das energias de 2013, tem até os primeiros 6 meses para acabar.
O que está em jogo é o pacto social que as grandes burguesias estabelecerão para a vida econômica, social e cultural do país.

Haddad e o PT, assim, tentam se mostrar bons gerentes do capitalismo e suas vontades no Brasil.

Isso em caso de "governos normais".
Caso a tutela direta e, assim, a usurpação dos poderes democráticos constituídos não se demonstre a via que mais condiz com o ritmo dos "ajustes" demandados por esta entidade fantasmagórica "mercado".

Tão mais enganosa é, então, a interpretação de que nas eleições se prepara um fim. Com ela, ser abre o começo de uma nova e mais dura luta de classes, em um regime quase majoritariamente sem confiança popular. Um fio da navalha social.

Tão mais criminosa, igualmente, é a ação do PT, PCdoB, CUT e MST, além dos grupos minúsculos que se calam diante dela, com sua trégua sindical, aceitando todos os ataques, mantendo Temer no poder, como forma de mostrar que o PT é "leal" ao regime político.

A luta a ser travada, com os métodos da luta de classes, com mobilização, greves, ocupações, manifestações é a única condição para que não entremos num regime muito mais enrijecido de uma democracia tutelada como uma Turquia ou de uma ditadura aberta, imposta por "autogolpe" ou viúvos da ditadura de 64.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Demitidos de 2014 no metrô são readmitidos: Ninguém fica pra trás?

Neste dia 20 de junho, após 4 anos de sua demissão política, 37 metroviários demitidos durante a greve de 2014 em SP foram, enfim, reintegrados. O caso, após 4 anos de lentidão entre a primeira e segunda instâncias da Justiça, tão rápida para julgar casos de reintegração de posse contra trabalhadores em busca de moradia ou jovens negros, mesmo quando condenados por portar pinho sol, como Rafael Braga, se fechou com a comprovação de que as acusações eram infundadas e, assim, as demissões ilegais.

Todos se lembram de Alckmin em rede nacional anunciando dezenas de demissões no Metrô como resposta a greve da categoria que ocorria às portas da Copa do Mundo no Brasil.
Que Alckmin tenha usado de terrorismo político para acabar com uma greve legítima, garantida constitucionalmente e com apoio popular, denotando o caráter persecutório e, portanto, ilegal das demissões, pouco pareceu importar a esta justiça. Igualmente pouco parece importar que tenhamos o “legado” de uma das Copas mais corruptas da História, com denúncias de propina, compra de resultados e obras que após 4 anos ainda não foram completadas.
A justiça, como sempre, está do lado dos patrões. Ainda assim, é uma importante vitória parcial que 37 metroviários da linha de frente desta greve possam voltar a obter seu sustento ilegalmente arrancado e somar suas forças a luta, hoje em dia mais aguda ainda, contra a privatização e entrega do Metrô para grandes empresas ligadas ao PSDB.
O Papel do Metrô e a estratégia das organizações contra as demissões
O metrô de SP é uma empresa estratégica. Alckmin sabia, assim como todos os governos sabem, que seu potencial de “contagiar” mobilizações populares é enorme. A histórica greve geral ocorrida no dia 28 de Abril de 2017 demonstrou que o papel dos metroviários foi fundamental parando as vias de transporte e possibilitando outros milhões a aderirem ou a pressionarem seus sindicatos. Este papel só não foi maior graças as traições da burocracia sindical de PT e PCdoB, que impediram todas as demais tentativas de eclodir uma greve geral, no metrô e fora dele.
Seu papel econômico segue, no entanto, crucial, sendo capaz de dificultar decisivamente a própria “circulação” e produção capitalistas numa cidade central como São Paulo.
Contraditoriamente, vemos as ações das atuais organizações atuantes no movimento sindical do Metrô. Se de início ainda existiam setores de militantes independentes e também algumas organizações, como o atual MRT, que apontavam como saída para a reversão das demissões a continuidade da luta (seja durante a greve defendendo sua continuidade, apostando que Alckmin recuaria e reverteria as demissões, seja após, mostrando os limites de uma ação apenas jurídica), depois destes 4 anos, a ação de todos os grupos da categoria passou a de considerar esta luta como “perdida” e o que “dava” era seguir na estratégia jurídica.
PSTU e PSOL, a frente do sindicato naquele momento, desde o início embarcaram nesta linha de braços dados, apostando apenas na justiça, pois “não dava pra lutar”; as demais correntes, pouco a pouco, foram se adaptando a este marasmo e os independentes, com cada vezes menos espaço na estrutura sindical fechada, com assembléias sem praticamente nenhum espaço para suas propostas, viram o processo andar vagarosamente.
É verdade que decisões à época foram corretas. A decisão de aprovar em assembléia uma ajuda financeira para os 37, como forma de garantia de seu sustento enquanto se lutava pelo retorno, é uma delas.
O resultado desta, no entanto, se tornou contraditório na medida em que a luta, durante e depois da greve se apoiava, exclusivamente, numa ação jurídica, distanciada da base, do chão das estações e pátios.
Vez ou outra atos pequenos, mal organizados pelo sindicato, distantes da realidade cotidiana das bases (uma das reclamações mais comuns entre os metroviários) eram chamados, mas serviam muito mais como lembrete e “desencargo de consciência” do que como ferramentas reais de pressão sob o metrô.
Esta é a realidade que explica que, mesmo após perder em 2 instâncias na Justiça a diretoria do Metrô e o Governo só tenham aceitado acatar a decisão judicial quando perceberam que desrespeitá-la iria incorrer em mais custos.
Se apressaram, então, a propor um acordo que reintegrasse os demitidos, mas que, dentre outros problemas, tivesse como condição que estes, ao assinar, não poderiam processar a empresa por danos morais. Sem entrar no mérito de se o acordo era o melhor a se aceitar ou não, foram definitivamente reintegrados.
Entretanto esta adaptação total de todas as correntes ditas de esquerda e revolucionárias a uma ação exclusivamente na Justiça, que, como vemos todos os dias, é o terreno do inimigo e não julga casos de trabalhadores de forma justa, deixou importantes contradições.

Com o tempo passando, setores como PCdoB e PT, aproveitando-se do distanciamento desse tema da base e a inexistência de mobilização pela readmissão, passaram a tentar reverter o caso politicamente a seu favor.
Num famigerado áudio que circulou por whatsapp e na internet, um dirigente do PCdoB, chefe no metrô e diretor do sindicato – Godoy- dizia aos berros para seus colegas que “ia acabar a mamata” e que eles iriam para as bases pra cortar a ajuda destes demitidos, os quais “até podiam voltar, mas o metrô iria demitir de novo e eles iam ver a dor da perda outra vez”. Praticamente um plano para cortar o sustento e entregar a cabeça dos 37 numa bandeja para o metrô.
O argumento era simples, mentiroso e reacionário: a ajuda de custo era dada para militantes que usavam para seus partidos e eles iam “acabar com a mamata” impondo na diretoria o corte dos salários.
Felizmente, a reintegração veio antes. E a verdade era, também, bem evidente. Se apoiando na falta de clareza da base sob a condição dos demitidos e na desmobilização total da categoria, o PCdoB e PT tentavam aparecer como os “ honestos e melhores candidatos” a assumir a diretoria (tanto é que hoje são quase majoritários) e, de quebra, retaliavam os demais membros pertencentes aos outros partidos por não terem aceitado pagar o salário para um militante seu –Maruzan, demitido por uma ocorrência – SEM ter votado isto em nenhuma assembléia. Uma ação de canalhas milimetricamente pensada. Tanto os salários foram fundamentais para garantir os sustentos de 37 famílias, quanto não eram apenas militantes demitidos.
Privatização e 80 (ou mais) novas demissões; mesmos erros
Apesar de perder espaço para a burocracia sindical que diretamente traí dentro e fora do metrô e de amargar 4 anos de um embate com a justiça e o metrô pelo retorno de trabalhadores perseguidos, a esquerda parece não ter apreendido. Ou melhor: Não quer aprender.
Para chegar a esta conclusão não basta lembrar que nenhum partido hoje organizado no metrô denunciou o PCdoB ou exigiu que Godoy fosse expulso do sindicato pelo áudio a que nos referimos acima. Ou que o abandono de qualquer estratégia política e de ação (mobilização, continuidade ou eclosão da greve, construção na base desta perspectiva) lá atrás e em todos estes anos foi um dos responsáveis pela confusão da categoria em relação as demissões, pela incerteza de todos estes anos e pela absurda demora da reintegração.
Tampouco, basta lembrar que este “todo” é um dos responsáveis pelo retorno do PCdoB e seus métodos de gangsters pró-patrão ao sindicato. De 2017 para cá, o Governo tem buscado acelerar seu projeto de privatização. A linha 5 do capão redondo já está praticamente nas mãos de empresas privadas, diversas linhas da CPTM foram anunciadas como concessões e novas linhas do metrô também. Dentro da empresa pública, o patrimônio também é corroído: Máquinas de bilhetes, privatização de bilheterias na linha 2 Verde e ameaça de fazer o mesmo nas linhas 1 e 3 vermelha.
Esta ofensiva, naturalmente, não poderia vir sem ataques contra o que os patrões acham que são obstáculos: os empregados públicos. Sejam eles “excesso” de recurso humano, sejam eles ativistas, cipistas, militantes, todos estes são alvos da empresa.
Assim, neste cenário, a partir de 2017 o metrô começou uma nova onda de demissões que, até hoje, seguem ocorrendo nas estações, segurança e manutenção.
Utilizando uma avaliação de desempenho fraudulenta, realizada pelas costas dos trabalhadores, sem nenhuma transparência, por chefes indicados politicamente pela diretoria da empresa do metrô (cargos de confiança e não de carreira) a empresa já demitiu cerca de 80 metroviários.
Não se espante se você não ouviu falar sobre isto. Nenhuma organização ou o sindicato falam disto. No congresso de metroviários ocorrido em fevereiro, nas atuais campanhas salariais e depois dela nada se falou sobre estas demissões. Apesar de uma quantidade enorme, a estratégia de todas estas correntes segue sendo a mesma (e piorada): dizem que a “conjuntura está difícil” e enviam os que quiserem tentar voltar para o jurídico, enquanto sequer denunciam as demissões publicamente.

Não se trata aqui de desqualificar a iniciativa de ações judiciais. Todas as armas, na luta de classes são boas. Entretanto não apenas é gritante o completo abandono de 80 metroviários demitidos de forma fraudulenta, em uma empresa que nunca realizou demissões por avaliações, como é ensurdecedor o silêncio de todas as organizações ( PSTU, MRT, RESISTÊNCIA/PSOL, MÊS/PSOL, CST, UNIDOS PRA LUTAR, PT, PCdoB, etc).
Para os militantes trabalhadores classistas e os revolucionários, as ações jurídicas podem e devem ser utilizadas, mas sempre de forma acessória ao combate, auxiliando a ação na luta de classes com mobilizações, conscientização na base, greves, paralisações, atos, ações que efetivamente pressionam e demonstram a insatisfação coletiva da classe.
A esquerda atual, no entanto, apaga um princípio, a defesa dos que lutam, talvez por ceticismo, talvez por não querer se indispor com setores da base, talvez para manter seus cargos sindicais…
As lições, entretanto, ficam. Segue sendo crucial por de pé uma luta para que, realmente, “ninguém fique pra trás” e que o metrô seja pressionado a reverter todas as demissões ilegais e fraudulentas realizadas de 2017 para cá, baseadas numa avaliação falsa e com objetivos políticos.
Um chamado às organizações para que tomem esta tarefa está feito, apesar de improvável que se cumpra.
Enquanto isto os panfletos entregues para a população e os adesivos entregues para a categoria seguem dizendo: “Contra a privatização, por mais direitos”. Alguns demitidos, pensamos: “Quem vai lutar com vocês, quando souber que vocês não vão lutar por eles?”
O que fazer para que de fato ninguém fique pra tras?
Militantes sinceros de algumas correntes criticadas nesse artigo poderiam buscar nos responder: “a crítica dos companheiros pode até ser sincera, legítima, mas é irrealista, pois não considera o fato de que hoje não existe mobilização na base, que não é possível construir lutas efetivas contra as novas (mais de 80) demissões, e que então o único caminho é efetivamente o jurídico, etc,”; esse argumento, caso existisse, seria ingênuo, na boca dos mais sinceros e hipócrita, na dos mais conscientes. Seu erro está baseado em dois pressupostos equivocados: 1- de que a atual descrença da base da categoria na mobilização é um fato dado, exterior a atuação anterior das correntes, quando na verdade essa descrença relativa foi construída pela atuação política destes grupos que ali atuam, as direções tendo grande responsabilidade nessa passividade relativa (mesmo as que se reivindicam mais à esquerda e críticas a atual direção do sindicato); 2-que dada a atual descrença e passividade da base com as ações mais radicalizadas, o papel das direções que se reivindicam revolucionárias é se adaptar a esse sentimento da base e não se chocar com ele.
Os debates particulares numa categoria tão fundamental para uma estratégia revolucionária no Brasil, como é a categoria de metroviários de SP, transcendem as questões imediatas da categoria para ganharem aspectos mais gerais, sobre como devem atuar os revolucionários no movimento sindical. Frente a uma situação assim, de passividade da base frente a grandes ataques (admitindo momentaneamente que essa passividade é algo objetivo e exterior a atuação dos grupos que se reivindicam revolucionários que estão na categoria, para sermos condescendentes com eles por um momento) qual deveria ser o papel de uma direção classista e combativa que estivesse nessa categoria, se adaptar ou nadar contra a corrente?
Colocar a questão é já respondê-la, na verdade. É evidente que podem haver momentos em que as bases, desmoralizadas e derrotadas por direções burocráticas, não respondam e se comportem de forma passiva em relação a grandes ataques, como os que vemos agora com as mais de 80 demissões no metro no último ano.
Contudo, uma direção que se coloque como revolucionária não deve, evidentemente, se adaptar a esse sentimento na categoria. Se não encontra eco para sua política entre os trabalhadores, nada contra a corrente, permanece em minoria, buscando educar o setor mais ativo e consciente, visando fortalecê-lo e lhe dando coesão, para os conflitos futuros. Qualquer outra posição aparece como uma adaptação em busca de cargos sindicais e não a busca para construir um setor revolucionário entre os metroviários.
A importante vitória tática da readmissão por via judicial dos 37 demitidos na greve de 2014, assim, pode se tornar uma vitória de “Pirro”. A vitória tática aqui é fator importante dentro de uma estratégia de expansão da luta contra a privatização do metrô se ela é elemento para fortalecer a luta contra todos os ataques e demissões, mostrando que efetivamente “ninguém fica pra trás”./
No entanto, se a readmissão é forma de esconder os ataques e as novas demissões, ela é tática da direção do metrô para esconder os novos ataques (mais profundos) permitindo vitórias parciais da categoria. Infelizmente, parece que todas as correntes, grupos e partidos dentro do metrô se adaptam a segunda alternativa.

domingo, 17 de janeiro de 2016

“The walking dead”: série de terror ou reflexão sociológica?

Dentre as mais arrebatadoras séries do momento, “The Walking dead” (e a série especial “Fear the walking dead”), baseada na bem sucedida série em quadrinhos, conta a história de um grupo de sobreviventes em meio a um “apocalipse zumbi”.
Este grupo, sob a liderança do ex-sheriff Rick Grimes conta com personagens marcantes como jovem negra Michone, com sua espada samurai, e Daryl, um “caipira” do sul dos EUA. Ela se passa em um mundo que literalmente “acabou” diante de uma epidemia que transforma seres humanos, caso mordidos pelos “walkers”(zumbis), em mortos vivos e que reanima qualquer um que morra.

Na série, Rick acorda de um coma sofrido após uma operação policial em um hospital da cidade de Atlanta e dá de cara com uma verdadeira hecatombe: Enormes multidões de seres humanos decompostos, esmagados e destroçados em busca de qualquer fonte de carne, animal ou humana, para alimentar a fome insaciável que surge de seu despertar. Estes mortos-vivos são a “ameaça total” logo percebida por Rick que, ao longo da série, encontra familiares e novos companheiros caminhando por uma longa jornada de sobrevivência.

Até ai tudo indicaria um roteiro batido de Hollywood, capaz de tirar alguns sustos e muito entretenimento lucrativo para os grandes estúdios. Isto, é claro, não deixa de ser parte de seus objetivos principais, no entanto, a série vai muito além e provoca intencionalmente ou não uma interessante reflexão.

Uma das principais características das duas séries, explorada com habilidade pelos roteiristas e diretores e expressa com credibilidade pelos atores e atrizes, é o processo de embrutecimento dos personagens ao longo dos episódios e temporadas.

Estamos falando de um mundo onde as regras civilizatórias não cabem mais.
Neste mundo, todo e qualquer tipo de instituição, seja política, econômica ou até mesmo moral, foi ou completamente destroçada ou abalada decisivamente, pela rápida expansão dos zumbis. Milhões e milhões deles, contaminando novas pessoas e milhões de mortos retornando a vida destroçaram as bases da civilização e fizeram o governo estabelecido literalmente ruir por dentro, diante da incapacidade de parar a velocidade epidêmica.

Os episódios mostram indivíduos, anteriormente em uma vida confortável com acesso a serviços, água, energia elétrica, remédios e alimentos entrarem em choque diante da completa suspensão da civilização, tendo de conviver com um mundo de escassez (graças ao abandono de qualquer operação de energia elétrica, água, produção de alimentos massiva), brutal violência (diante da necessidade de se proteger da violência irrefreável da ameaça zumbi) e completa insegurança (seja diante dos zumbis ou dos, muito mais perigosos, vivos sobreviventes). É interessante como de “falantes personagens” os diálogos se escasseiam e chegam a por vezes grunhidos após 2 anos do apocalipse (tempo em que se passa a série principal).

Aqui se torna interessante a reflexão que suscita ao redor do “humano”.
Neste mundo, os mortos, apesar de serem a “ameaça total”, ou seja, aquela com que já se conta e impõe as regras de restrição de como se pode viver, não são os mais perigosos.  Na série, diante da queda do Estado, da Lei e da ameaça de uma força social e regras organizadas capazes de obrigarem os indivíduos a seguirem comportamentos e ações “socialmente aceitos”, os vivos são a ameaça mais perigosa.

Roubos, estupros e assassinatos, são ingredientes da trama, incitando a reflexão a quem assiste: “Então, em condições naturais e na ausência do Estado, seria o homem... naturalmente mau?”.

Tal questão, já formulada e apontada por filósofos como Thommas Hobbes é fruto de debates interessantíssimos na filosofia e sociologia, encontrando diversas respostas.

O marxismo, de onde tiramos nossa visão de mundo, mostrará que o homem é produto de suas condições sociais, materiais e históricas que são, por sua vez, em “ultima instância”, determinadas economicamente. A sua condição “material”, ou seja, a capacidade de produzir alimentos, construir suas moradia , em suma, de transformar a natureza em seu favor, determina os tipos de comportamento e visões de mundo que este ser humano, ou melhor, este grupo de humanos em sociedade e lozalizado na história, irá estabelecer.

Para Hobbes, o ser humano seria essencialmente mal. Para ele o homem não sabe e não quer viver em sociedade e a única forma que se encontrou para não se levar, como espécie, a “auto-extinção”, foi um “acordo” social em que se troca a liberdade pela segurança materializada na figura do Estado.
Este Estado seria o “Leviatã”, título de sua obra, que viria, materializando a idéia da ação coletiva em respeito ao acordo social, para punir os humanos que desrespeitassem as regras.

Apesar da série apontar, a primeira vista, para uma idéia “hobbesiana” do ser humano, a interpretação marxista tanto do homem quanto do Estado (como sendo nada mais  do que um “corpo de homens armados” que surge, necessariamente, da divisão social do trabalho) se expressa com mais força.

Na série o homem não é apresentado como essencialmente mal. Numa sociedade em que domina a escassez, estabelece-se uma espécie de “comunismo primitivo” (com todos compartilhando os poucos recursos, igualmente, sem distinção de classe e privilégios) em que o Estado deixa de existir e os sobreviventes se organizam em bandos os quais, por melhor que seja a ordem que possam impor, são apenas isto: um bando onde todos exercem as mesmas funções e se revezam no desempenho das tarefas.
Esta é a característica da maioria dos grupos e comunidades menores de “Walking dead”, que, no entanto, avançam para comunidades mais complexas, em que se desenvolvem certa divisão do trabalho, especialização de funções e até moeda para compra de produtos e serviços.

Mas em geral,  se dá um cenário de barbárie e que a condição material destes indivíduos isolados os leva a uma guerra sem fim contra a “ameaça total”, a uma coleta diária, “dia após dia”, de alimentos e água e a disputa freqüente e mortal entre os vivos sobreviventes pelos recursos e ruínas da civilização que caiu.

De maneira crua e quase caricaturesca, vemos como a economia, na visão exposta, determina as formas de lidar com a realidade e o relacionamento entre os vivos, embora os elementos culturais e ideológicos vez ou outra se mostrem (como arrependimentos, medos, hesitações e recusa de alguns personagens a matar) como espasmos de uma civilização que já se perdeu.

É aqui que se expressa o grande sentido de “walking dead” como uma série muito mais interessante do que um simples blockbuster de terror.

Nela o que está em foco é o debate  sobre o ser humano, um ser social, diante da barbárie. Qual a forma de organização social e econômica é necessária e desejável para a garantia de sua perpetuação enquanto espécie?

Esta pergunta estala em nossas mentes ao fim de cada novo episódio ou revista em quadrinhos. Seria uma democracia em que os líderes são eleitos? Ou uma ditadura em que este controla os homens barbarizados com mão de ferro? Ou um reinado, de um “novo” tipo de monarca, bondoso e admirado?  Ou ainda um regime de igualdade, produção coletiva e rotatividade de funções com líderes eleitos e planos coletivamente elaborados?

De fato, todos estes “tipos” se apresentam e são discutidos ao longo da série, nos dando uma riqueza de elementos para refletir não apenas esta improvável situação, mas para pensar situações já existentes.

Guerras e epidemias mortais quase incontroláveis (como as pestes negra e bulbônicas em seu tempo ou o Ebola recentemente) colocam, igualmente, em questão todas estas questões: Diante destas “ameaças totais”, que desorganizam a sociedade, impõe a doença, a morte e a fome, quais as formas sociais e a organização social seriam a melhor saída para garantir a segurança dos que sobrevivem?

É claro, em nossa sociedade, em que existem os privilégios de classe abundantes dos capitalistas e burgueses, mesmo diante de guerras e epidemias, são muito concretos e propiciam saídas enormemente mais eficazes.

Diferentemente de Walking dead, em que as classes desaparecem, nestas crises globais advindas das guerras e epidemias, os que viram “zumbis”, ou seja, aqueles a quem o destino já reservou a morte, são, em geral, os pobres e trabalhadores, explorados.

Longe de definir a série como produto sociológico e, menos ainda, marxista, é interessante refletir a partir dela 
(e esta preocupação certamente esteve na mente dos autores) os debates que tomaram a preocupação de filósofos há séculos e que ocupam a mente de milhões que pensam se é possível transformação de uma sociedade ameaçada por tantas “ameaças totais”.

Da forma como vemos, nossa “ameaça total” são os grandes magnatas capitalistas e sua tão sedenta quanto a fome dos zumbis, sede de lucro, que levam a todos nós, trabalhadores ainda vivos a um beco sem saída: Socialismo ou a barbárie selvagem.

sábado, 12 de dezembro de 2015

Carta à esquerda: Porque não uma nova organização dos trabalhadores?




A “tempestade perfeita” continua.
As condições da economia, do regime político, das instituições, partidos e políticos, o padrão de vida e dos empregos tem se degenerado cada vez mais  com o turbilhão de acontecimentos que lançaram o país no olho de um furacão cujos ventos mais fortes podem ainda estar por vir.

Com fissuras mais visíveis entre suas frações diante da aventura pelo impeachment, a classe dominante burguesa continua, no entanto, unificada ao redor do ajuste fiscal, desferindo um ataque “de classe” contra a juventude, os trabalhadores e o povo pobre.

Do outro lado, a crise tem sido paga com cortes de direitos, demissões e “reformas” que cobram na carne do trabalhador o preço para manter os lucros capitalistas estáveis.
A esquerda segue fragmentada continua fundamentalmente impotente, sem conseguir barrar este “ataque de classe”  com uma “resposta da classe operária” contra a ofensiva burguesa.

Diante disto, se coloca a questão: como construir uma saída dos trabalhadores?

A situação atual se desenvolve mais rapidamente do que a esquerda

É necessário, para se orientar, que tenhamos um método científico. Este, para nós marxistas, é o materialismo dialético e parte da relação combinada, entre a situação objetiva (a situação da economia, as condições materiais das classes sociais e suas relações mútuas) e subjetiva (como a política dos partidos dos trabalhadores, as crises políticas do regime, as greves, ocupações, lutas, o “estado de ânimo” das massas e como julgam as instituições, etc).

Hoje, no Brasil, a situação objetiva, da economia, é gravíssima. O recuo recorde de 4,5% do PIB, ), é expressão da queda das exportações dos gêneros primários, queda da produção industrial, más safras e seca, com o Dólar Alto encarecendo produção interna e compra de produtos com componentes importados, grande parte das famílias brasileiras endividadas, etc. Tudo isto é alavancado pela desaceleração da China (principal parceiro comercial e que compra commoditties do Brasil), a queda do preço do petróleo afetando a PetroBrás, a crise inflacionária e produtiva na Argentina, tudo apontando a um ciclo de queda e “retração” econômica que nem os analistas burgueses sabem prever até quando pode durar.

Os setores empresariais, banqueiros e “financeiros” respondem de uma forma: com unificação.
 Assim, pressionam um governo debilitado do PT e unificam todas as alas e partidos, apesar da crise política, a impor um duro corte de direitos, gastos sociais, demissões (que este ano tem sido em média 10 mil por mês) para manter seus lucros. É por isto que em meio a crise se paga religiosamente 42% do orçamento para a dívida pública (cujos donos são uma minoria de banqueiros e fundos estrangeiros) e os bancos privados como Itaú e Bradesco lucram recordes.

A crise econômica e a ação dos capitalistas corroem o padrão de vida do trabalhador, e encontram seu par perfeito na  profunda crise política. O escândalo do caso “Lava Jato” envolvendo todos os partidos tradicionais (PSDB, PSD, PP, PMDB, PT) se aprofunda cada dia mais e decompõe a legitimidade dos políticos, seus partidos e, inclusive, de instituições. É generalizado o sentimento de desencanto e indignação com a política.

Se, no entanto, o grito de “são todos ladrões” é hegemônico, quem mais perdeu neste escândalo foi o PT: além de ver uma enxurrada de votos “anti-PT” em 2014, o que quase o tirou da presidência e diminuiu suas bancadas,  está agora no centro da trama do Impeachment. Suas rupturas, formais e “informais” (na consciência de trabalhadores que o consideravam “menos pior”) são cada vez mais claras.

Este é apenas um lado deste processo de “crise de legitimidade” da política. Outra expressão, que provavelmente voltará com força em 2016, é o enorme número de votos nulos e abstenções nas últimas eleições. No Rio de Janeiro, estes foram maiores do que a quantidade de votos do governador eleito. Tal fenômeno é expressão desta crise de “legitimidade” e aponta para a crise de “representação” do povo.

Neste cenário, a esquerda legal, como PSOL, PCO, PCB e PSTU, além da esquerda, não legalizada (como MRT, MNN, etc), apesar do resultado pontual de Luciana genro, tem encontrado ínfima expressividade eleitoral e social.

No terreno da “luta de classes” (que não é nosso foco detalhar aqui) a esquerda tem se polarizado: por um lado uma posição “propagandista”, com propostas e “bandeiras” gerais pouco aplicáveis e dificuldades para dar “exemplos” sindicais que possam se generalizar e, por outro, em que está PSOL, que tem se atrelado cada vez mais a política governista, o que fará com que não seja nenhuma alternativa para massas e se atrelem cada vez mais ao regime.

A novidade da luta de classes veio de casos como a luta dos estudantes secundaristas que neste fim de ano tomaram as escolas derrotando o “feudo” do PSDB em São Paulo e a luta dos professores no Sudeste que, no entanto, foram exemplos muito “espalhados” e que não tem representado uma ação unificada contra a crise. 

É tempo de “ação política”


Esta crise gravíssima acelera o “ritmo” da luta de classes.
 A cada dia que passa, a burguesia ataca os trabalhadores não mais como “frações”.Não é mais o Bradesco (apenas) atacando seus bancários, a Ford demitindo seus metalúrgicos, a SEARA demitindo seus operários, etc. A classe dominante busca unificar esforços para que não seja ela que pague pela crise e usa o Estado para isto.

Os sindicatos, em sua maioria infestados pela praga da burocracia sindical que vende greves e negocia traições (como se demonstrou no caso recente da barganha entre Força sindical e a empresa UTC), estão diante de um momento de defensiva.
Não apenas podem perder membros como, graças aos acordos entre burocratas e patrões, vão perder a efetividade para responder a tarefas cada vez maiores (luta contra legislações que prejudiquem os trabalhadores, milhares de demissões, redução de salários, etc).

A crise de legitimidade e de representatividade, que também atinge os sindicatos, abre um espaço político (e eleitoral) que poderá ser preenchido por uma futura reorganização sindical e política. É de olho neste espaço que a REDE de Marina tenta ser “alternativa de centro esquerda” e diversos setores burgueses planejam a formação de novos partidos.

A reorganização é uma possibilidade já observável no horizonte próximo, na medida em que há a aguda crise de representatividade e a decadência da legitimidade da política tradicional, além de rupturas cada vez maiores com o PT, o maior “freio” das últimas décadas.

Esta situação exige uma “ação política”, que é a generalização da ação econômica, de “classe trabalhadora contra classe burguesa”, por parte dos sindicatos e dos trabalhadores.
Estes serão cada vez mais empurrados a “ação política”, que se aponta cada vez mais não contra “setores” específicos da burguesia, mas contra toda a classe dominante organizada no Estado.

O que isto significa? Que a cada dia que passa se coloca mais a necessidade de que os trabalhadores tenham uma ferramenta política unificada e que seus sindicatos, em ligação com esta, tenham uma ação unificada e “de classe” contra a unidade burguesa.
Em duas frases: está na ordem do dia lutar por um partido sem patrões e sindicatos sem burocratas.

 Não se pode esperar que o ritmo de evolução das organizações da esquerda seja tão rápido quanto o da situação de crise. Não será. É um fato objetivo que não podemos mudar.

No entanto, por pequena que seja a esquerda e poucos que sejam os ativistas independentes, diante de um processo de reorganização estes podem ser uma poderosa “vanguarda” capaz de influenciá-lo.

Uma nova organização de trabalhadores, aberta a todas as tendências da esquerda, que tenha em seus estatutos a obrigatoriedade de ser formado por trabalhadores que não explorem o trabalho de outros (cujos detalhes “sociológicos” poderíamos observar), enraizada principalmente nos locais de trabalho, mas também de estudo, universidades, etc, responde a uma necessidade objetiva da situação do Brasil.

Trotsky, ao abordar o tema da formação deste tipo de partido (que ele chamava de “Partido Operário Independente) nos EUA na década de 30, dizia que “esta necessidade objetiva encontrará sua expressão subjetiva nas cabeças dos operários, especialmente se nós os ajudamos”. Hoje, também, não se trata de esperar algum “fato” surgir, mas de agir audazmente para construir tal perspectiva, ajudando a classe.

Além disto: “agitar” a idéia deste “partido sem patrões” seria formidável para, ao mesmo tempo, a esquerda varrer dos sindicatos as burocracias sindicais, lutando pela bandeira de “sindicatos sem burocratas” e criando uma ponte para que o projeto revolucionário chegue a setores mais amplos da classe.

É claro, nesta formulação, setores reformistas, carreiristas, oportunistas e mesmo infiltrados teriam chance de entrar para tomar as rédeas do processo.

Ainda assim, o caráter deste partido, assim como a validade desta idéia, só se pode comprovar na prática. Desde o início, no entanto, nós revolucionários deveríamos defendê-lo em combinação inseparável com um programa revolucionário (em minha opinião estatização dos recursos estratégicos, bancos e grandes empresas, reajuste salarial de acordo com a inflação, divisão das horas de trabalho entre todos os desempregados, enfim o que chamamos de “ programa transitório” apresentado pelos trotskystas) que apresentaríamos diante dos trabalhadores; estes, então, diante dos demais programas, decidirão por que caminho seguir.

Não há motivos para sermos céticos. Uma proposta de tamanha audácia, caso se implemente pela ação decidida da esquerda unificada, criaria condições férteis para as propostas revolucionárias e poderiam encontrar um caminho mais curto para a formar a futura organização revolucionária necessária para os trabalhadores arrancarem o poder das mãos da burguesia.

Uma onda de entusiasmo se levantaria! Toda a energia de desprezo pela suja política tradicional encontraria uma válvula de escape positiva. Os revolucionários, além de ajudar a construir uma arma necessária contra a unificação burguesa, teríamos a chance de encontrar nossa classe em luta a lutar para demonstrar a superioridade de nossas propostas.

A esquerda não pode se esquivar da questão fundamental

Há  na esquerda diferentes visões sobre como responder a crise, sobretudo após a abertura do processo do impeachment.

O PSOL, apesar de posicionamentos de tendências internas que, como o PCB defendem a abstrata “luta independente por direitos”, fala da luta contra ajustes mas, na prática, está numa frente política chamada “Povo sem medo” com a CUT, CTB e setores governistas.
O objetivo desta é dar apoio “crítico” ao governo Dilma contra o impeachment, ou seja, no momento de maior crise do PT, a organização que dizia ser uma “alternativa” na prática opta por se tornar uma muleta, uma linha auxiliar, criando ilusão neste governo repressor como “menos pior”.

O PSTU, por outro lado, “agita”, por um lado, a idéia de erguer uma Greve geral contra os cortes num tom “propagandista”, ou seja, distante de qualquer chance de ocorrer devido as burocracias sindicais e, por outro, a idéia de “eleições gerais” para que, em suas palavras “o povo possa trocar todo mundo, se quiser. O que não dá para aceitar é que qualquer um desses que estão aí hoje governem”.

Já o MRT (Movimento revolucionário de trabalhadores), defende a idéia de que a bandeira mais “correta” é a de uma “Assembléia constituinte” imposta pela “ação das massas” que discuta todos os problemas do país e reformule sua estrutura de cima a baixo.

O que todas estas posições tem em comum? Elas se esquivam do problema fundamental que é o fato objetivo de a classe não ter uma organização política “com autoridade” para resistir a esta ofensiva burguesa.

Ora, a greve geral é o momento em que os interesses particulares das categorias se “elevam” e atingem o patamar da luta pelo interesse de toda a classe. Sem uma articulação política e sindical que tenha autoridade reconhecida pelos trabalhadores, isto é uma bandeira vazia.
O mesmo vale para eleições gerais: não tem qualquer significado, pois estes que aí governam são apenas a “cara atual” da política capitalista dos partidos tradicionais. Se ocorressem eleições as caras mudariam, mas política seria a mesma.

Por outro lado, apesar de responder a uma necessidade correta, a de reformular toda a estrutura política, econômica e social do país (hoje a serviço dos magnatas capitalistas), a bandeira de “Assembléia Constituinte”, sem uma articulação sindical que permita unificar os trabalhadores, por um lado e sem uma organização, um partido com autoridade, que canalize politicamente a insatisfação generalizada da classe trabalhadora é, no mínimo propagandista e perigosa.

Uma assembléia constituinte na frágil situação da esquerda não seria o momento de avanço de grandes propostas de estatização de recursos naturais ou para que todo político receba o salário de uma professora. Seria a do avanço de normas atrasadas que poderiam retroceder direitos arrancados pela constituinte de 1988, justamente porque o consenso entre “os de cima” (que tem dinheiro e presença geográfica para ser maioria esmagadora numa constituinte hoje) é o de que é preciso “menos social e mais neoliberal”, com privatizações e ataques a direitos.

Assim, enquanto a esquerda não responder ao problema da reorganização política e sindical necessária, este arco-íris de propostas não sairá do “propagandismo”.

De nossa parte, acreditamos que um primeiro passo seria a construção unificada entre os partidos da esquerda em luta e os ativistas independentes de um encontro nacional, composto por delegados eleitos por assembléias nos locais de trabalho.
Neste encontro, além de se propor um plano democrático de luta contra os cortes, buscando greves unificadas, etc, poderíamos iniciar o debate e a agitação pela construção de um “partido de trabalhadores, sem patrões”. Este passo unificado poderia “viralizar” na consciência dos trabalhadores que buscam uma alternativa para a crise.

Assim, teríamos uma ação (sem ingenuidade: difícil e que nos daria enorme trabalho diante das diferenças dentro da esquerda, a luta contra a burocracia e a influência dos partidos tradicionais) consciente para dar uma alternativa aos trabalhadores neste espaço político, sindical e social que se abre com a crise e, ai sim, chances de ter uma alternativa ao impeachment e rumar para propostas mais audazes como a de uma Assembléia Constituinte.
Lembremos: Em política não existe vácuo. A questão é quem – e com que política- irá ocupá-lo.