domingo, 30 de junho de 2019
Sobre as novas demissões no Metrô de SP e a política da diretoria do Sindicato
Já faz um ano e meio que estou demitido. Se se tratasse só de mim, apesar de difícil, seria menos grave. Mas são dezenas de Metroviários em SP demitidos desde 2017/2018 até hoje. Conheço alguns deles. Fomos demitidos numa onda de DEMISSÕES que já dura 2 anos e que o metrô quase nunca realizou no passado. Tinha até uma piada que pra "ser demitido do metrô tinha de se esforçar".
Bem, atualmente eles demitem por "baixa produtividade", ou seja, usando avaliações unilaterais de desempenho que a chefia usa, na pratica, pra impedir que trabalhadores façam concursos internos e pra perseguir política e pessoalmente. Hoje as coisas estão diferentes.
Ano passado escrevi diversos textos, relatos, polêmicas e até um escrito mais e fôlego propondo uma reflexão a todos grupos políticos (PSOL, MRT, PSTU, PCB, etc) na categoria sobre como o lema vindo da luta que TODOS DEMOS de 2014, "Ninguém fixa pra trás", não podia ser um chavão, mas que deveria ser um princípio e que, também possuía um profundo caráter estratégico prós trabalhadores no metrô e na cidade. Todos, por um ano e meio ignorados.
Enquanto alguns diretores faziam festa diante da readmissão (merecida, legítima e tardia) dos demitidos de 2014, estávamos sendo demitidos a dezenas e sem sequer ser respondidos. Ficamos pra trás.
80 é o último número que tive notícia em 2017/2018. Não é exagerado mencionar que todas estas demissões foram tratadas pela diretoria como casos individualizados, passíveis apenas de recursos administrativos e, no limite, de entrar na justiça burguesa, que, sabemos, muitas vezes não beneficia o trabalhador.
Não houve assembleia, não houve denúncia, não houve manifestação, não houve campanha, não houve nem sequer tentativa de organizar quem estava demitido pra tentar formar uma luta. Eu e todos demitidos sequer tivemos direito ao seguro desemprego e nosso sindicato não falou nada!
Do ponto de vista jurídico, a equipe de advogados do setor jurídico do sindicato é extremamente abnegada e disposta e deles só posso falar bem. Mas a diretoria política, eleita pela categoria, são outros 500 e, por isto, a cobrança é diferente.
Após dois anos em que a empresa do metrô usa de demissões baseadas em avaliações ilegítimas e feitas pra perseguir, retornam as demissões após a greve do 14 J, demissões contra as quais temos de lutar, é claro!
Todas elas, afinal, cumprem o papel de colocar os trabalhadores na defensiva, aterrorizar, enfraquecer e avançar com o plano da ala raivosa de Doria: privatizar o sistema metroviário e tornar um espaço para seus amigos lucrarem.
Contraditoriamente, a diretoria do sindicato, que não apenas não atuou verdadeiramente pra defender na ação política os demitidos até agora, hoje, diante da inescapável crise das novas demissões, divide estas demissões entre políticas e "não políticas", na prática dizendo que todas as realizadas antes, em 2018/2017, seriam baseadas em critérios legítimos, ainda que fossem injustas. Mas não são legítimos, são apenas uma forma de perseguição maquiada para o mesmo objetivo.
E a inação diante das demissões passadas mandou um recado e o Metrô concluiu: se demitir a conta gotas, com critérios pouco claros, é uma forma possível que não encontra resistência, então é possível seguir demitindo e avançar mais rápido na privatização.
A luta não dada desde 2017 cobra seus preços até hoje e explica a ofensiva da gestão Doria e das demissões, privatizações de bilheteria, etc.
É por isto que lutar pelos demitidos é, além de um princípio, uma questão estratégica para que a categoria siga lutando e, assim, resistindo e ajudando o conjunto da classe em suas manifestações e lutas mais amplas contra as reformas.
Uma derrota total dos metroviários (privatização e demissões) impacta e impactaria mais o conjunto dos trabalhadores de São Paulo.
Disso só se conclui que, diante das atuais demissões de 2019, não é possível seguir errando.
E pior. Se foi grave não realizar nenhuma ação política organizada em defesa dos demitidos de 2018/2017 (nem tentar organiza-los pra pensar ações), se se confirma que a diretoria pretende dividir entre "demissões políticas" as de 2019 e "não políticas" as anteriores, seremos, então, abandonados UMA SEGUNDA VEZ e pode-se dizer que traídos nessa defesa de um princípio fundamental (e do sustento dos demitidos em geral).
Eu, particularmente, fui demitido dois dias antes da greve de janeiro de 2018. Outros alguns dias depois.
Fui descobrir qual a justificativa de demissão da empresa, não no dia, mas 8 meses depois que eu entrei com o processo, mostrando que demitiram a mim e a tantos sem nenhuma justificativa e, depois, tentaram inventar alguma história pra dar base. Sigo lutando na justiça.
Mas o nosso terreno é o da luta direta da categoria, com nossa força unificada. É daí que vem nossas forças, como tantas greves jah mostraram.
Abrir mão disto e preferir ações jurídicas e conversas com o secretario do Doria é, novamente, o caminho da derrota.
É é por isso que não posso, como demitido, me calar diante das ações da diretoria. Dividir as demissões torna, inclusive, mais difícil lutar para reverter as demissões de 2019 agora.
Pelo fim das avaliações de desempenho e pela readmissão de TODOS metroviários demitidos de 2018 e 2019 que querem voltar e lutar por isto na justiça, sem separação entre "tipos de demissão"!
Por uma mobilização real e com diversas ações por isto!
Estas são as únicas bandeiras que podem nos fazer vencer e mandar um recado claro a chefia da empresa. Este é o marco zero de qualquer luta.
Porque quem vai lutar políticamente com o sindicato se perceber que, se demitido, não vai ser, políticamente, defendido?
segunda-feira, 3 de junho de 2019
Debate com Jones Manoel: sobre a Coréia do norte e confusões intencionais.
Recentemente nos deparamos, através do site da Editora Boitempo, com um texto - ou mais corretamente, uma apologia - em defesa do regime e estado de coisas vigentes na Republica Popular da Coréia, mais conhecida em terras ocidentais como Coréia do Norte.
Tal apresentação do esforço de Jones Manoel, youtuber e militante do PCB, pode soar polêmica e, com justiça, no decorrer do debate proposto por estas linhas, esperamos que seja, de fato, assim encarada.
Entre numerosas citações pirotécnicas, com o objetivo de dotar de credibilidade sua análise e um debate moral a frente no início, colocando em segundo plano a análise marxista das relações de produção, políticas e sociais existentes na República da Coréia, Jones resulta num stalinismo revisitado e condescendente com todas as contradições desta nação complexa e distante para a análise dos trabalhadores e revolucionários brasileiros.
Salta aos olhos a dedicação com que Jones, tecendo sua narrativa e conduzindo o leitor ao erro, tenta estabelecer a crítica tanto as pessoas em geral, como a esquerda em particular, utilizando uma linha acessória, moral e política, para isto.
Para o autor, o problema da visão dos marxistas brasileiros (e, mais amplamente, ocidentais) é que ela é deturpada e conduzida pelos, evidentemente influentes, monopólios midiáticos, que não apenas moldariam nossa desinformação sobre a Coréia do Norte como nos levariam ao “desencanto infantil” a partir do surgimento das primeiras dificuldades dos povos em “erguer sua libertação”.
Praticamente um terço de seu texto é gasto em citações, dados e cifras que, se esquivando as questões fundamentais, relatam não apenas o abandono moral, o desencanto de uma esquerda que não valorizaria a luta “nacional e anticolonial”, como a situação de dominação a que as pessoas em geral e os marxistas ocidentais em particular, estão sujeitos diante do controle do fluxo de informações exercido por 3 monopólios midiáticos dos EUA, Inglaterra e França.
Estabelecida sua base argumentativa (e, de certo modo, sua visão de que seus leitores seriam no melhor dos casos desinformados e, no pior, idiotas preguiçosos) Jones segue para a definição das condições de vida na Coréia do Norte.
Que o mercado de informações internacional, é monopolizado por estas quatro agências citadas (Associated Press, FrancePress, Reuters), não é nenhuma novidade.
No Brasil, a compreensão dos efeitos deletérios deste tipo de monopólio, em época em que a “pós-verdade” é uma arma política de massas na construção de falsas narrativas através de redes sociais, tem aumentado.
Além dos meios alternativos de fake News, os meios clássicos da burguesia Brasileira, como Globo, Estadão e Folha continuam firmes e moldam notícias ao sabor dos interesses burgueses aos quais se associam.
É, portanto, um fato que a República Popular da Coréia sofre uma campanha de desmoralização, demonização, falsificação enorme, como sempre foi o caso de toda e qualquer experiência revolucionária nos 170 anos de luta dos trabalhadores contra o capitalismo.
Certamente não é apenas (e prestemos atenção nesta palavra) por esta via que um trabalhador consciente e crítico e, mais ainda, um marxista revolucionário, vai buscar suas informações e, principalmente formar seu juízo.
Todavia, localizar a ojeriza de amplos setores populares e de uma maioria entre os marxistas revolucionários a uma entrega acrítica as informações dos monopólios ou a um suposto ocidentalismo abstrato que não reconhece as “particularidades” coreanas é de uma superficialidade e prepotência exageradas.
Em sua argumentação o aspecto histórico da formação do Estado da república coreana, os traços econômicos e a análise das relações de produção - o ABC para um marxista - são ignorados por Jones.
Resta apenas a apologia e o apelo a comoção diante dos dados sobre os, evidentemente, criminosos danos realizados pelo Imperialismo dos EUA, através do bloqueio econômico atual ou da guerra no passado.
Desse modo, é preciso dizer que existem, sim, opiniões embasadas, econômica, política e ideologicamente, por parte de marxistas, sobre o processo da Coréia e do que chamamos de Estados Operários Deformados.
Onde está e o que é a Coréia, afinal?
A República Popular da Coréia é um país isolado.
Esta é uma verdade incontornável que impõe, deste modo, uma cautela necessária para definições..
Se por um lado a campanha de desinformações possui seu peso específico e importante na construção de uma Coréia caricaturada e hostil, características próprias de sua formação política e ideologia exercem um papel importante neste isolamento.
A Coréia de 1910 até 1945 era parte, anexada, do império japonês. Apenas após o fim da segunda guerra mundial, com a derrota japonesa através da heróica luta do povo coreano, é que surgiria o que hoje conhecemos como a Coréia do Norte.
Num processo muito parecido, no entanto, com o ocorrido no Leste europeu (com a ocupação e expropriação das burguesias pelo exército vermelho da URSS em países como Estônia, Letônia e Lituânia) ou mesmo na Alemanha (com a divisão entre Berlim oriental e ocidental), após tentativas de reunificação terem falhado (mas terem seguido por décadas mesmo após a guerra), em 1948 a península Coreana foi "dividida" entre os EUA e a URSS, durante a guerra fria.
Um guerrilheiro chamado Kim IL Sung, com o apoio logístico e militar soviético e chinês, a frente da luta contra o sanguinário ditador imposto pelos EUA na Coreia do sul, Syngmann Ree, foi lançado ao poder.
Em 1950, após uma invasão do Norte diante da pressão das tropas dos EUA, maquiadas de tropas da ONU, estacionadas no sul, tem início a guerra da Coréia, um enorme conflito que só chegou a um impasse após a entrada das tropas chinesas em apoio ao norte, o que, por sua vez, levou a um armistício em 53, mas nunca a uma assinatura de fim da guerra.
O resultado deste processo, cujos pormenores não são nosso objetivo expor, foram, de fato, a eliminação de cerca de 30% da população, bombardeios, destruição de terras e fábricas e um bloqueio econômico feroz por parte dos EUA e das potencias capitalistas.
Por outro lado, no norte, a antiga burguesia foi expropriada, as fábricas, terras e meios de produção em geral foram estatizados e se estabeleceu um governo do Partido dos trabalhadores coreanos, o qual, até hoje, monopoliza o controle da “Frente democrática para a reconstrução da pátria”, com mais dois partidos. Toda representação política só pode se dar por esta frente.
A partir de 1955 o autoproclamado “líder supremo”, terminologia bastante comum aos autocratas dotados do beneplácito stalinista, começa a desenvolver a chamada “ideologia Juche” que em 1977, oficialmente, substitui o marxismo, sob todos os pontos de vista e, principalmente, o simbólico.
Saem quaisquer referências visuais ou intelectuais a Marx e Lênin – e até mesmo ao patrocinador, Stalin -, entra o culto a Kim Il Sung e sua família.
Isto inaugura o culto a personalidade – outra excrecência antimarxista inspirada no Stalinismo - que dura até hoje, baseado na doutrina da adoração aos líderes e em sua infalibilidade, ensinado como doutrina escolar desde a infância.
O Juche, como ideologia, por outro lado, se define como, literalmente, “autossuficiência” e, sendo assim, professa pela autossuficiência econômica e bélica, num país montanhoso em que apenas 15% das terras são fertéis (e ainda conta com um feroz bloqueio imperialista) para alimentar seus 26 milhões de cidadãos. Somado a ele, a ideologia “Songun” é imposta pelo filho do ditador original e define que “os militares vem antes de tudo”, estabelecendo as prioridades do regime.
Após o fim da URSS, em 91, a Coréia do Norte, num processo parecido com Cuba, sofre com os mesmos males sofridos pelas nações na esfera de influência – principalmente, econômica - da URSS, passando por uma grave crise de produção (vide sua dependência total da indústria e materiais da URSS) e apostando no fortalecimento do culto a personalidade e das forças militares como via de tentar manter o regime político de pé.
No início dos anos 2000 se inicia a implementação de medidas de economia de mercado (capitalistas) entre as duas Coréias para a criação das Zonas Econômicas especiais de Kaesong, Kumgang-San,Rajin e Shinuiju, próximas da zona militarizada de fronteira¹, divididas entre áreas de turismo e de produção industrial, onde estão mais de 124 empresas sul coreanas e 50 mil trabalhadores norte coreanos trabalham entregando seus salários ao Estado e recebendo uma fração minoritária deste².
Diante de tal explicação histórica e das principais definições sobre de onde vem e como se define a Coréia do norte, temos muito mais elementos pra definir o que é a República Popular.
Trotsky, o dirigente mais destacado da revolução russa ao lado de Lênin, dedicou especial atenção a deformação burocrática da URSS nos anos 30 em vários artigos e sua grande obra “a Revolução Traída” e, posteriormente, foi seguido por marxistas do pós guerra que aprofundaram suas análises sobre os processo de formação dos Estados Operários deformados decorrentes das ocupações do pós segunda guerra.
Para os marxistas, a definição do caráter de classe de um estado se dá de maneira científica, principalmente levando em conta um critério amplo: Como se produzem os produtos – e as riquezas - nesta sociedade? Ou seja, quais são as relações de produção deste estado?
Sob o capitalismo, nunca é redundante dizer, a anarquia domina a economia; tudo e todas as quantidades do que é produzido não vêm de um plano baseado nas necessidades das pessoas, mas no desejo de cada grande capitalista em aumentar seu lucro. Da mesma forma, no capitalismo, a classe dominante é a dos donos dos meios de produção, que com a força do SEU estado, controlam as terras, fábricas, ferramentas, matérias primas e obrigam a enorme maioria do povo, sem qualquer meiod e produção, a trabalhar vendendo sua força de trabalho.
Um Estado operário, então, para os marxistas e, claro, como consequência direta das posições do próprio Marx, é a antítese, o extremo oposto a este estado capitalista, que nada mais é do que uma cobertura, cujo objetivo é defender e articular os negócios dos grandes bancos, industriais e latifundiários.
Para eles, um Estado operário se define como aquele em que a propriedade é coletivizada, ou seja, a burguesia foi expropriada; em que a economia é planificada democraticamente pelos produtores segundo suas necessidades; em que o comércio exterior é monopolizado pelo Estado, ou seja, a economia do país não é refém das peripécias das grandes corporações. Estas são as bases econômicas de um estado de transição para o socialismo.
Tais idéias, para alguns membros da esquerda, podem parecer antiquadas, mas da ciência econômica não há escapatória.
As decisões econômicas são, apesar de ideólogos burgueses tentarem maquiar, políticas e seus efeitos também.
Um estado que não possui estas características não inicia a construção do socialismo, não porque não se queira, mas porque não existem condições econômicas para tal.
Esta é a via para suprir o Estado dos operários, construído pela revolução, do capital necessário para a industrialização e, assim, para criar a abundância, ou seja, o avanço das forças produtivas para deixar de produzir para o lucro e passar a produzir para garantir a necessidade das pessoas.
Fora destes critérios, fora da busca pela abundância e da libertação da necessidade imposta pela economia capitalista, ainda domina o mesmo mercado capitalista, a anarquia econômica, a divisão de classes entre donos dos meios e despojados dos meios de produção, patrões e operários, em essência, dominam os grandes magnatas da burguesia.
Diferentemente da própria Rússia, China e das nações do leste europeu, onde a restauração capitalista já ocorreu e o que existe é de um lado um Capitalismo de Estado feroz e de outro repúblicas liberais capitalistas semidemocráticas, felizmente, o caso da República Popular da Coréia não parece estar resolvido.
A Coréia do Norte, fruto da imposição das bases econômicas socialistas “por cima”, via apoio soviético e não como um processo que foi construído desde baixo, pelos trabalhadores organizados democraticamente, como foi o caso clássico da revolução Russa, é um Estado Operário Deformado, em que, apesar de ter se dado a expropriação da Burguesia e seguir com a maior parte do comércio monopolizado pelo Estado, nunca viu uma verdadeira planificação democrática da economia.
Pelo contrário, são notáveis os relatos, de direita e esquerda, de observadores presenciais de ambos os campos, sobre as inspeções que a burocracia do Partido dos trabalhadores da Coréia realiza nos campos e fábricas e que, de uma hora pra outra, reorganizam a produção segundos os interesses dos funcionários de alto escalão, sem qualquer meio de controle e participação dos trabalhadores nestas decisões.
Kim Jon Un, aliás, é conhecido por realizar estes giros bruscos, destinando, recentemente, milhares de trabalhadores para construir um complexo turístico de esqui, posteriormente paralisado, visto a falta de procura de turistas...
Também é comum, nestes relatos, a existência do que Jones chama, de maneira condescendente como “privilégios burocráticos”, que vão desde as viagens internacionais, até acesso a restaurantes, alimentação abundante, carros e resorts de luxo, pelos funcionários do governo, oficiais do exército e do alto escalão, demonstrando que, longe de serem “menores privilégios”, a economia da Coréia é monopolizada por uma casta burocrática que se ergue acima dos trabalhadores, gozando de direitos pagos com seu trabalho e que ela mesma veta a estes.
Mas e a política? A confusão intencional entre Regime Político e Estado
Jones parece não conseguir resistir a um traço particular de personalidade argumentativa. Sempre tenta antecipar os argumentos de seus opositores cometendo um “sincericídio”. É o caso de quando diz que “O leitor pode pensar que estou falando das conquistas sociais mas ocultando a dimensão política do país”.
Após passar boa parte de seu tópico em que deveria definir a Coréia do Norte (sem no entanto abordar em nenhuma linha suas condições econômicas e relações de produção, como se se tratassem de obviedades) exaltando conquistas sociais, Jones faz uma definição rigorosamente precisa do que está fazendo.
Algo claramente confirmado nas linhas seguintes, quando expõe de passagem e acriticamente a ideologia Juche, menciona um autor para argumentar que as instituições Norte-coreanas são republicanas, que por conta do bloqueio sofrem uma mentalidade de “bunker” e, por fim, rechaça, tão preguiçosamente quanto os que critica, quem define o regime político como um tipo de Stalinismo burocrático, negando inclusive o irrefutável culto a personalidade na Coréia.
Para fechar com chave de ouro, Jones invoca a Esfinge indecifrável que para os menos críticos pode servir de cala boca, sobre as particularidades da fusão do “confucionismo, cultura asiática e marxismo”, como escudo contra as vozes divergentes.
O fato é que no regime político da Coréia do Norte o fazer político é monopolizado por uma única frente – a “Frente democrática para a reconstrução da pátria” – e dentro dela pelo PTC.
As eleições existentes ocorrem a cada 5 anos e elegem a chamada “Assembléia Popular Soberana”, que se reúne apenas duas vezes ao ano e delega todas as prerrogativas do Legislativo e executivo – fundidos no país – a um Presidium.
Este, no entanto, muito mais reduzido e controlado pela alta cúpula da frente mencionada é votado indiretamente, ou seja, não pelo povo mas pela Assembléia e é o responsável por toda a tomada de decisões, a exceção dos dois dias por ano em que se reúne a assembleia.
De outro lado, o cargo mais importante, de fato, é o de Presidente da Comissão da defesa nacional da Coréia do Norte, cargo criado por Kim Jong IL em 1993 e ocupado por ele mesmo desde então até sua morte, quando foi “eleito” seu filho Kim Jon Um, o atual chefe supremo das forças militares do país e o detentor de todo o poder, de fato.
Sabemos que as formas políticas podem e, usualmente, servem aos interesses dos grupos dominantes. É por isto que não basta a análise formal, para os marxistas, mas a essência de seu funcionamento, os interesses de classe e de casta envolvidos em seu desenvolvimento.
É por isto, também, que deveria causar espanto que um intelectual que tem influência no debate da esquerda, nas redes sociais e se propõe a polêmica, trate o assunto neste nível de superficialidade e, pior, chegue a extremos como dizer que Ditadores sanguinários de países que nunca nem sequer chegaram próximos de iniciar a construção do socialismo, como Khadafi da Líbia, seriam “ditadores”, com aspas e tudo.
A forma política do regime Coreano é uma casca que busca erigir legitimidade para um regime, sim, ditatorial de partido único, em que existe censura, em que visitantes estrangeiros devem ser acompanhados o tempo todo e só ver o que foi cuidadosamente preparado para verem, onde vigora o monopólio do poder decisório por uma casta social, em que o líder supremo emana um culto a própria personalidade e define unilateralmente os rumos da nação, tudo isto dentro de um estado operário deformado, em que há planificação da economia, mas nunca existiu democracia operária, nunca existiu planificação democrática do que se produzir pelos trabalhadores e em que esta casta usufrui de privilégios pagos com o trabalho das massas.
Jones faz uma confusão consciente entre o que é um Regime Político e o que é um Estado, para, assim, coagir o leitor a um beco sem saída: Ou apoia os dois ou não apoia nenhum!
Esse tipo de manobra, essa sim, preguiçosa, no entanto, não é nova e daqui há alguns anos fará 100 anos.
E ela não tem outro nome que não seja Stalinismo, ou seja, uma maneira de pensar condescendente com as burocracias, que pensa o Estado em oposição e até “apesar” das massas, contanto que traga “conquistas sociais”.
Como uma boa visão stalinista, a máxima maquiavélica de “os fins justificam os meios” se aplica inteiramente. O problema é que, em se falando de marxismo revolucionário, há pelo menos 100 anos sabemos que existe uma profunda “interdependência entre os fins e meios”, ou seja, os fins e os meios não podem se contradizer, sob pena de degenerarem em qualquer coisa, menos em ação revolucionária.
Somos, sim, partidários de uma ditadura dos trabalhadores contra os burgueses sem nenhuma vergonha de dizer: uma ditadura de classe. Mas não somos, os marxistas, condescendentes com a degeneração desta quando usurpa o poder e a participação política da classe que deveria dirigir seu destino. Ainda vigora a máxima de Marx e não a de fidel: "“A EMANCIPAÇÃO DOS TRABALHADORES SERÁ OBRA DOS PRÓPRIOS TRABALHADORES."
E é a isto que Jones se dobra quando nos coage a defesa do regime norte-coreano como se isto significasse defender as conquistas sociais.
É preciso sim, nos últimos estados operários do mundo, como Cuba e a Coréia do norte, defender todas as conquistas sociais, inclusive contra as burocracias que hoje dominam o poder político! Estas conquistas não são frutos das particularidades destes países ou da benevolência das burocracias, mas da resistência dos trabalhadores e camponeses que as arrancaram da burguesia e as impedem de desaparecer.
Por outro lado, elas são frutos, também, de uma economia planificada e socializada, ou seja, superior a anarquia da produção capitalista, que obriga as burocracias, como condição de sua existência, a manter uma condição de vida minimamente digna caso contrário podem cair.
Diante destes Estados, as reflexões não são novas. Já na década de 30, diante da profunda burocratização construída pelo Stalinismo (a ala burocrática que tomou o partido comunista russo) na URSS, Trotsky e milhares de revolucionários da Oposição de Esquerda se colocaram a refletir a política para tentar resolver a situação e avançar nas conquistas sociais e econômicas do socialismo.
Do ponto de vista político, propunham uma saída muito clara: As bases econômicas do socialismo deveriam ser mantidas a todo custo. O fim da propriedade privada e o surgimento da propriedade coletivizada dos meios de produção, o fim da anarquia da produção e da sede de lucro da burguesia, eram um avanço rumo ao socialismo.
No entanto, o monopólio do poder político e das decisões por uma casta burocrática e privilegiada, especializada em “gerir a escassez” não apenas impedia o desenvolvimento do socialismo, como impedia o desenvolvimento da revolução mundial e, assim, levariam a restauração capitalista, ou seja, os próprios burocratas tenderiam a se tornar burgueses, a tomar os meios de produção para si e voltar a explorar o povo trabalhador e as riquezas geradas por seu trabalho. Tudo o que, infelizmente, se confirmou ao longo do século 20.
A saída? Apenas uma revolução política, que derrubasse a burocracia e colocasse de pé uma verdadeira democracia operária, onde a administração, as decisões e planejamento da produção fossem feitas pelos trabalhadores produtores, ou seja, pelos conselhos (sovietes) revitalizados.
Isto, no entanto, só faria sentido se a nação encontrasse seu caminho para a revolução mundial: As forças produtivas (terras, fábricas, maquinário, matérias primas, força de trabalho) socializadas de nenhuma nação poderiam sobreviver isoladas e sob a pressão dos países capitalistas.
Somar estas forças produtivas com as de outras nações, através de revoluções que começam nacionais, mas se unificam, não apenas é a única via de obter a abundância necessária para construir o socialismo: é a única forma de derrotar o capitalismo e libertar a humanidade da exploração do homem pelo homem.
Ou seja, É preciso sim defender as conquistas e a qualidade de vida dos trabalhadores e camponeses. Mas isto não se confunde com a defesa de um regime burocrático, ditatorial, baseado na censura e no monopólio decisório.
Sobre isto, sobre o internacionalismo revolucionário, algo presente em todo o marxismo revolucionário desde Marx, mas longe das reflexões dos stalinistas, como se pode perceber, Jones não fala rigorosamente nada.
O capitalismo é mundial, logo, a revolução deve ser mundial.
Não é nenhuma surpresa que Jones, sendo do PCB, tenha este tipo de visão stalinista.
O que surpreende, no entanto, é que tais visões ressoem não apenas em militantes marxistas em geral, mas, inclusive, encontrem o silêncio condescendente de parceiros da dita “nova esquerda” como Sabrina Fernandes, Humberto Martins, a própria boitempo, etc, em pleno século 21.
O autor reclama da preguiça dos detratores do regime norte coreano.
Paradoxalmente, em pleno 2019, diante de uma economia capitalista em crise, nunca antes tão centralizada nas mãos dos monopólios, em que só no Brasil 6 bilionários concentram a mesma riqueza do que 100 milhões de pessoas, Jones acredita ser possível uma revolução socialista “de características especiais” e estritamente nacional e não tira nenhum balanço de TODAS as experiências revolucionárias do século vinte, além de um argumento, este sim, bastante preguiçoso:
“Todo esse bloqueio do imperialismo gera deformações e certo nível de burocratização pouco agradável a alguém que defende uma democracia operária. Mas a prioridade quando o assunto é a Coreia Popular, é defender o país do imperialismo”
Agarrado a sua concepção stalinista, Jones segue usando as conquistas sociais do Estado Operário para coagir uma defesa do regime e lança a máxima de Fidel de que “Em uma fortaleza sitiada, toda dissidência é traição”, uma frase interessante para aqueles que, hoje, avançam a passos largos pra uma restauração capitalista das relações de produção em Cuba.
Que a história do único partido operário que chegou ao poder pela via da democracia operária (sovietes que organizavam trabalhadores), o partido Comunista da URSS, outrora partido bolchevique, tenha sido oposta a esta máxima, sendo um partido vivo, com agrupamentos e frações até 1921, nosso sagaz autor trata de esquecer.
Que a proibição de qualquer dissidência tenha se dado circunstancialmente em 21, num cenário de isolamento e guerra civil, mas com o objetivo de ser temporária e dar lugar a um “pluripartidarismo soviético” como defendiam Lênin, trotsky e tantos outros, apenas um detalhe.
Que inclusive a tomada do poder em 1917 tenha sido feita por dois partidos, os SR de esquerda (camponeses pobres) e os Bolcheviques, além de independentes, novamente vem o esquecimento... Que ajuda, é claro, sua máxima stalinista.
Certa vez, em 1919, em plena guerra civil na recém fundada URSS, um autor chamado Bukharin, que não pode ser acusado de Trotskysmo, escreveu junto de outro proeminente ccomunista, Preobrazhenky, um grande manual para ingressantes chamado “ABC do Comunismo”.
Neste manual, aceito e comemorado por todos os revolucionários da heroica geração que tomou o poder em 17, incluindo Lênin e Trotsky, seguindo a linha revolucionária construída desde Marx, afirmam a toda uma geração de novos membros do partido:
“A revolução comunista só poderá vencer se for uma revolução mundial. Se num país a classe operária toma conta do poder, mas nos outros, o proletariado permanece devotado ao capitalismo, esse país será finalmente estrangulado pelos Grandes Estados. De 1917 a 1919 todas as potências imperialistas tentaram estrangular a Rússia dos sovietes.(...)Não puderam porque sua situação interna era tal que deviam temer, elas também, ser derrubadas pelos seus próprios operários.(...) A ditadura proletária num país isolado está continuamente ameaçada se não encontra apoio entre os operários dos outros países. (...) Nesse país a organização econômica é muito difícil porque quase nada recebe do estrangeiro, está bloqueado de todos os lados”
A política de bloqueios, invasões e sanções sempre foi a política de todas as nações capitalistas contra a revolução operária, desde a Comuna de paris até nossos dias. Nunca houve nem haverá uma revolução que possa “construir livremente” - como parece desejar Jones - o socialismo, justamente porque nunca existirá o burguês que abrirá mão da supremacia social sem luta.
Por outro lado, seja em Marx a partir de sua análise da tendência do capitalismo em centralizar e concentrar riquezas em poucas mãos, seja em Lênin em sua análise da partilha do mundo pelo imperialismo e do domínio da economia e dos estados pelos trustes e monopólios, contra os quais qualquer revolução teria de se chocar até a derrota total do capitalismo, seja em Trotsky com sua teoria da revolução permanente, em que professa:
- “A revolução socialista não pode realizar-se nos quadros nacionais. Uma das principais causas da crise da sociedade burguesa reside no fato de as forças produtivas por ela engendradas tenderem a ultrapassar os limites do Estado nacional. Daí as guerras imperialistas, de um lado, e a utopia dos Estados Unidos burgueses da Europa, de outro lado. A revolução socialista começa no terreno nacional, desenvolve-se na arena internacional e termina na arena mundial. Por isso mesmo, a revolução socialista se converte em revolução permanente, no sentido novo e mais amplo do termo: só termina com o triunfo definitivo da nova sociedade em todo o nosso planeta.”,
em qualquer um destes, fica evidente o distanciamento de de uma visão marxista pelo autor.
No entanto, longe de um lapso, tal falta mostra a real concepção de Jones.
Uma concepção stalinista, baseada na lógica de “socialismo num país só” e, portanto, nada marxista. Infelizmente, vemos que não tirou balanços dos processos históricos de todo o século 20.
Verdade seja dita, tais erros já receberam o veredito da história repetidas vezes: Seja na restauração do capitalismo na Rússia, na China, na antiga Iugoslávia, no Vietnã, etc.
Seja, também, nas dezenas de revoluções traídas por conta da teoria e prática stalinista, nomeadamente a revolução chinesa de 25 a 27(em que os stalinistas obrigavam trabalhadores comunistas a serem dirigidos pelo partido dos burgueses nacionais de Chiang Kai Chek que, para Jones, tal como Khadaffi, talvez recebesse aspas quando chamado de “ditador”) a ascensão de Hitler ao poder em 33 (já que o stalinismo se negava a frentes únicas e dizia que os social democratas eram “social-fascistas” iguais ou piores que os nazistas), a ditadura civil militar de 64 (quando o PCB se recusou a resistir ao golpe e erguer uma greve geral, armar os trabalhadores e dividir os setores que estavam rompendo no exército, levando a sua ruptura partidária e o surgimento da Guerrilha, além da ditadura), durante os cordões industriais chilenos, durante a revolução espanhola de 30 a 39 (quando os stalinistas condicionavam enviar comida e armas apenas se houvesse o fim da tomada de terras e de fábricas, assim como de dissolução das milícias dos trabalhadores), durante a primavera de praga e um longuíssimo etc...
A principal questão eleita pelo autor para o socialismo no século 20, a de construir uma democracia operária superior durante um estado de guerra permanente, não está equivocada. O problema é que ela já teve sua resposta. E ela não veio, sob nenhum ponto de vista, do stalinismo. Pelo contrário, foi a preocupação fundamental de todos os maiores pensadores do marxismo e está ligada a revolução mundial.
Vemos então que sua visão, apesar de aparentemente “bem intencionada” não apenas passa, de fato, por cima do fundamental, como leva ao crime político de confundir a defesa dos trabalhadores com a defesa dos burocratas que usam suas conquistas para manter seus privilégios.
Como diria o velho Marx “o caminho ao inferno está pavimentado de boas intenções”.
Em política revolucionária, não é a comoção, mas as armas da crítica que nunca podem faltar a história. Desafortunadamente, não parece ser esta a preocupação do autor, vide este eleger como teoria guia de sua ação, aberta ou maquiada, o stalinismo, esta teoria da traição dos interesses dos trabalhadores.
Desse modo, vemos que a revolução da Coréia não segue firme em direção ao socialismo. Pelo contrário. Seguindo os passos de Jones ela pode até seguir firme...mas em direção a restauração do capitalismo.
1- https://pt.wikipedia.org/wiki/Zona_econ%C3%B3mica_especial#Coreia_do_Norte
2 https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2016/02/1738314-seul-suspendera-operacoes-em-parque-industrial-com-a-coreia-do-norte.shtml
quarta-feira, 22 de maio de 2019
E agora...?
Estava só comendo um pastel.
Vez ou outra pego o metrô, sem muito destino, terminando sempre na mesma esquina, ora cheia, ora vazia, como que esperando a vida se manifestar.
Promoção. Nove e noventa um caldo de cana e um pastel.
Espero, enquanto, em um dos ouvidos, soa um rap qualquer, daqueles que já decorei até o timbre do hihat. No outro, entra o corriqueiro "vai querer sua via?". Nego.
Mais uns minutos e a bomba de carne e massa frita com o refrigerante me são entregues. A coceira de sempre toma a atenção. O celular, como uma necessidade biológica, pede pra ser olhado.
Nada nas redes, nada de novo, apenas a mesma ânsia vazia.
Desço um degrau, miro uma mesa. No instante do movimento, um homem me observa e balança a cabeça em tom de cumprimento. Não sou tão carrancudo a ponto de ignorar.
Retribuo.
De fone de ouvido, o senhor me aborda na mesa, naco e pastel e gole de coca na garganta.
Engulo, puxo um lado do fone, como quem dá metade da atenção e o senhor começa a falar.
Edinei é um homem pra lá dos seus 60 anos. Calça jeans surrada, casaco de lã, cabelos brancos, olhos vidrados e expressão cansada. Na mão, uma sacola de plástico, daqueles verdes desbotados do mercado, cheia de alguma coisa.
Sua fala é rápida, decorada, cheia de informações.
Faz menos de um mês que uso óculos. Deve ser por isso que me abordou, já que, entre uma e outra rajada da propaganda de rua, ele me informa sobre o PH da água, como isso pode danificar as lentes, o estômago e, inclusive, prejudicar a visão. Água o mais alcalina possível é o ideal. Sardinha, pescado, alimentos que ajudam na melhoria da visão.
Em menos de 6 minutos já sei do que se trata. Tiro, por impulso e envolvimento, o outro fone.
Edinei está vendendo algo. Meu impulso de desempregado, claro, tenta esboçar reservas, mas ele continua.
Um gasto de energia grande somado a um acúmulo de informações, muitas delas muitos úteis sobre como conservar os óculos, melhorar a visão, mas ainda nada de me dizer o que ele está vendendo.
Me fala que veio de Ubatuba. Não tem nem 13 anos de contribuição, não se aposentou e tem, como era de se esperar, dois filhinhos pequenos. Não tomou café da manhã nem almoçou, só um salgado no estômago. Já são, afinal, seis da tarde. Ele deve estar mesmo com fome, seus olhos estão vidrados. Do outro lado, rappis, Uber eats, ifoods anônimos se amontoam numa esquina, eventualmente saindo disparados para alguma entrega.
Edinei, então, me fala sobre seu paninho.
Feito de fibra de carnaúba, vindo do Maranhão de caminhão numa viagem de quase dez dias, mais branco que papel, mais macio que algodão. Com cinco apertadas em cada lente e quinze movimentos circulares pra esquerda e direita seu óculos está e fica limpo, salvo eventuais acidentes, pelo dia todo. Nada de roupa, dedo ou detergente pra limpar.
Há algo de mágico na explicação dele. Mágico, metódico e sistemático. Ele se apegou ao que faz com muita gana, criando uma narrativa que instiga e não
dá sequer brechas pra você pensar, afinal, é a forma que encontrou pra sobreviver. Precisa bombardear o interlocutor com informações, dados, vantagens que, caso adquira, podem ser suas e garantir seus 20 reais, sendo que, destes, ele lucra apenas 7 ou 8. De que outro modo um ambulante, com mais de 60 anos, conseguiria a atenção e o tempo de alguém pra sobreviver na cidade do efêmero?
Decido comprar. Uma nota de dez dou em espécie e o resto passo no cartão.
Sim! Edinei não tem mochila, mas de alguma forma de dentro da sacola esverdeada lotada de panos e garrafinhas d'água, ele tira uma maquininha. Cada um faz o que pode....
Agradeço o pano e ele me dá a dica final: Se eu dividir o pano em 12 pedaços iguais e lavá-lo uma vez por ano em água filtrada, sem cloro, eles podem durar por 10, 20 ou até 30 anos. É a salvação das minhas lentes, coisa que a obsolescência programada de tudo no capitalismo jamais me proporcionou.
Pergunto seu nome, desejo boa sorte e ele me agradece dizendo que com os dez em dinheiro, ao menos, ele poderá levar um pão pra casa dele.
A desconfiança que qualquer paulistano pode ter, deixando o cartão numa maquininha de ambulante se esvazia quando vejo seu rosto ao se despedir.
Um sorriso de boca fechada, como quem reverencia com os olhos, uma caminhada para a esquina, uma olhada para um lado, para o outro, alguns segundos fixos olhando os entregadores, a franzida na testa como que se questionando "e agora?" e não vejo mais Edinei.
Uso o pano e não é que essa porra é incrível mesmo? Óculos limpo, visão menos turva, coração mais inquieto.
Quantos "e agora" surgem de quantos Edineis na terra da "ambulância" brasileira....?
terça-feira, 21 de maio de 2019
Afinal, é o capitalismo, estúpido! Ou sobre névoas e fumaças...
Eu fico impressionado como em pleno 2019, diante de um possível grande evento de extinção em massa de milhões de espécies, com o clima se deteriorando de maneira galopante tornando o planeta cada vez mais complicado para a vida em geral e a humana em particular, sem falar da falência completa do neoliberalismo e das economias de mercado, com a extrema direita avançando a passos largos, monarquias absolutistas apedrejando gays e mulheres em praça pública, apartheid de milhões de palestinos, desemprego, suicídios, miséria crescente no planeta, enfim, uma verdadeira distopia, NINGUÉM, nenhum ator político relevante se levanta para questionar, ainda que discursivamente, o sistema econômico capitalista! Nem se fala mais a palavra capitalismo!
Evocar o termo é como se a quem te olha você estivesse nos anos 80, 70 ou 60. Mas, desafortunadamente, é isto mesmo o que vivemos.
O CAPITALISMO. E piorado, em sua fase imperialista e financeira.
Com a mesma lógica de superprodução de mercadorias pra gerar lucro, gerando, assim, crises de excesso de produtos,, excesso de créditos, excesso de alimentos, enquanto, de outro lado, milhões morrem de fome, encontram a falência da inadimplência...
Com a mesma ANARQUIA econômica, onde tudo, quantidades e o que produzir, é decidido não pelas pessoas mas pelo que? Uns 7 ou 8 grandes trustes/monopólios, que produzem e disputam de acordo com suas taxas de lucro e não de acordo com um plano baseado na NECESSIDADE das PESSOAS.
Com o mesmo mecanismo de roubo fundamental, implementado através da jornada de trabalho e do avanço tecnológico, o tal roubo do trabalho excedente e da famigerada mais valia (ou mais valor), daquilo que o trabalhador gera e vai MUITO além do que recebe como salário (pense, por exemplo, num chapeiro do Macdonalds que, por dia, faz 100 sandubas de 20 reais cada gerando 40 mil no fim do mês e recebendo 1000 como salário). Tudo isto segue amplamente em amplos setores da economia e sociedade.
Entretando, tal questão é quase um tabu, seja nas conversas triviais entre pessoas ou, pior, na política "oficial", como se hoje fôssemos envolvidos em uma névoa mística que nos impede de pensar outra forma de fazer coisas muito simples:
- produzir coisas
- distribuir coisas
- nos relacionar solidária e fraternalmente.
Hoje, o capitalismo é um sistema que produz coisas, restringe e condiciona a distribuição destas pelo lucro e poder econômico de quem compra (não tem money? Não leva o honey) e divide a sociedade cada dia mais entre os que tem e os que não tem, os que exploram e são explorados, entre os que nada produzem e vivem de lucros e juros e os que tudo produzem, trabalham e vivem na miséria e dificuldade, em suma, entre os interessados na solidariedade e os interessados na exploração.
Não é difícil perceber que este sistema de coisas conduz nossa civilização e, antes disto, o país, a ruína. É daí que vem o aumento da criminalidade, das doenças, da fome, da falta de moradias, dos salários de fome, do embrutecimento, da deseducação, da discriminação.
Vejo amigos e gente jovem dando de ombro desinteressados, mas eu lhes pergunto: se não nós, esta geração, quem vai dar importância pra esse impulso que tanto nos trouxe de conquistas para os oprimidos e trabalhadores (eu, você, sua vó, minha tia, nossos pais) ao longo dos últimos 170 anos? Haverão muitas gerações mais, ainda?
Toda ação tem um custo. E a inação gera os maiores.
Uma das conquistas dos últimos 30 anos, dos grandes bancos e magnatas industriais, além de seus agentes políticos, foi afastar não apenas da política "oficial" como da vida das pessoas, qualquer idéia de que é possível mudar as coisas, transformar a vida, transformar as formas de se relacionar com a política, com a economia, com a produção de bens ou entre as pessoas.
É como se não houvesse alternativa além de "administrar o que está aí". Ou seja, enquanto os muito ricos seguem nadando na riqueza coletiva roubada, só é possível ver se dá pra tirar um pouquinho mais do que sobrar pro povo não morrer de fome.
Aqui, no país das maravilhas, já é como se o brasileiro, esta espécie única de homo sapiens, fosse incapaz de conceber um novo mundo, de mudar, de optar por grandes transformações, pelo basta numa sociedade fraturada, em que todos são inimigos de todos, todos precisam tirar vantagens de todos, uma sociedade em que a "lei de gerson" venceu pelas qualidades particulares deste exemplar espécime.
Não. Esta farsa, este individualismo, este banho de sangue na base social da pirâmide é construído, estimulado e mantido graças ao saque das riquezas nacionais, seja através da exploração direta dos trabalhadores (nas fábricas e produção ou pelos bancos), seja nos mecanismos de saque institucionais feitos pelos agentes políticos da burguesia (privatizações, juros infindáveis da dívida pública).
Um novo mundo precisa ser parido, mas ainda não há parteiros conscientes disto. Nesse "escuro-claro" surgem os monstros, já diria o herói Italiano. E como tem surgido nos últimos tempos...
Hoje, mais do que nunca, é preciso gritarmos forte por uma sociedade nova, fraternal, livre das amarras do lucro, onde tudo seja produzido pra suprir as NECESSIDADES das pessoas e não os lucros e interesses de um ou outro conglomerado de bancos e burgueses.
Questionar tudo, todos dogmas, toda a falsa normalidade, a farsa de administrar a bárbarie, a hipocrisia de um sistema que PRECISA dos pretos mortos, camponeses sem terra, operários sem trabalho, mulheres sem direitos, pra poder manter os privilégios de uma ínfima minoria, tudo isto é o mais elementar que podemos - e precisamos- fazer hoje.
Chega de reverências e ilusões. Você vive no mundo real. Na exploração real. E ele está em chamas. Resta saber se ainda há como apagá-las. E se há quem se disponha a tal ação.
Evocar o termo é como se a quem te olha você estivesse nos anos 80, 70 ou 60. Mas, desafortunadamente, é isto mesmo o que vivemos.
O CAPITALISMO. E piorado, em sua fase imperialista e financeira.
Com a mesma lógica de superprodução de mercadorias pra gerar lucro, gerando, assim, crises de excesso de produtos,, excesso de créditos, excesso de alimentos, enquanto, de outro lado, milhões morrem de fome, encontram a falência da inadimplência...
Com a mesma ANARQUIA econômica, onde tudo, quantidades e o que produzir, é decidido não pelas pessoas mas pelo que? Uns 7 ou 8 grandes trustes/monopólios, que produzem e disputam de acordo com suas taxas de lucro e não de acordo com um plano baseado na NECESSIDADE das PESSOAS.
Com o mesmo mecanismo de roubo fundamental, implementado através da jornada de trabalho e do avanço tecnológico, o tal roubo do trabalho excedente e da famigerada mais valia (ou mais valor), daquilo que o trabalhador gera e vai MUITO além do que recebe como salário (pense, por exemplo, num chapeiro do Macdonalds que, por dia, faz 100 sandubas de 20 reais cada gerando 40 mil no fim do mês e recebendo 1000 como salário). Tudo isto segue amplamente em amplos setores da economia e sociedade.
Entretando, tal questão é quase um tabu, seja nas conversas triviais entre pessoas ou, pior, na política "oficial", como se hoje fôssemos envolvidos em uma névoa mística que nos impede de pensar outra forma de fazer coisas muito simples:
- produzir coisas
- distribuir coisas
- nos relacionar solidária e fraternalmente.
Hoje, o capitalismo é um sistema que produz coisas, restringe e condiciona a distribuição destas pelo lucro e poder econômico de quem compra (não tem money? Não leva o honey) e divide a sociedade cada dia mais entre os que tem e os que não tem, os que exploram e são explorados, entre os que nada produzem e vivem de lucros e juros e os que tudo produzem, trabalham e vivem na miséria e dificuldade, em suma, entre os interessados na solidariedade e os interessados na exploração.
Não é difícil perceber que este sistema de coisas conduz nossa civilização e, antes disto, o país, a ruína. É daí que vem o aumento da criminalidade, das doenças, da fome, da falta de moradias, dos salários de fome, do embrutecimento, da deseducação, da discriminação.
Vejo amigos e gente jovem dando de ombro desinteressados, mas eu lhes pergunto: se não nós, esta geração, quem vai dar importância pra esse impulso que tanto nos trouxe de conquistas para os oprimidos e trabalhadores (eu, você, sua vó, minha tia, nossos pais) ao longo dos últimos 170 anos? Haverão muitas gerações mais, ainda?
Toda ação tem um custo. E a inação gera os maiores.
Uma das conquistas dos últimos 30 anos, dos grandes bancos e magnatas industriais, além de seus agentes políticos, foi afastar não apenas da política "oficial" como da vida das pessoas, qualquer idéia de que é possível mudar as coisas, transformar a vida, transformar as formas de se relacionar com a política, com a economia, com a produção de bens ou entre as pessoas.
É como se não houvesse alternativa além de "administrar o que está aí". Ou seja, enquanto os muito ricos seguem nadando na riqueza coletiva roubada, só é possível ver se dá pra tirar um pouquinho mais do que sobrar pro povo não morrer de fome.
Aqui, no país das maravilhas, já é como se o brasileiro, esta espécie única de homo sapiens, fosse incapaz de conceber um novo mundo, de mudar, de optar por grandes transformações, pelo basta numa sociedade fraturada, em que todos são inimigos de todos, todos precisam tirar vantagens de todos, uma sociedade em que a "lei de gerson" venceu pelas qualidades particulares deste exemplar espécime.
Não. Esta farsa, este individualismo, este banho de sangue na base social da pirâmide é construído, estimulado e mantido graças ao saque das riquezas nacionais, seja através da exploração direta dos trabalhadores (nas fábricas e produção ou pelos bancos), seja nos mecanismos de saque institucionais feitos pelos agentes políticos da burguesia (privatizações, juros infindáveis da dívida pública).
Um novo mundo precisa ser parido, mas ainda não há parteiros conscientes disto. Nesse "escuro-claro" surgem os monstros, já diria o herói Italiano. E como tem surgido nos últimos tempos...
Hoje, mais do que nunca, é preciso gritarmos forte por uma sociedade nova, fraternal, livre das amarras do lucro, onde tudo seja produzido pra suprir as NECESSIDADES das pessoas e não os lucros e interesses de um ou outro conglomerado de bancos e burgueses.
Questionar tudo, todos dogmas, toda a falsa normalidade, a farsa de administrar a bárbarie, a hipocrisia de um sistema que PRECISA dos pretos mortos, camponeses sem terra, operários sem trabalho, mulheres sem direitos, pra poder manter os privilégios de uma ínfima minoria, tudo isto é o mais elementar que podemos - e precisamos- fazer hoje.
Chega de reverências e ilusões. Você vive no mundo real. Na exploração real. E ele está em chamas. Resta saber se ainda há como apagá-las. E se há quem se disponha a tal ação.
terça-feira, 14 de maio de 2019
Paralisação do dia 15: As batalhas decisivas estão começando
A batalha pela educação que começará a se dar amanhã pode ser o prólogo de uma vitória contra a reforma da previdência.
Ao contrário do que alguns grupos de esquerda pensam e afinado com o espírito que os trabalhadores mostraram já em 2017 quando fizeram a greve geral de 45 milhões contra Temer e as reformas (energia esta traída pelos burocratas nos sindicatos e nos partidos adeptos da conciliação de classe e de olho em 2022) não estamos derrotados ou "na defensiva".
O momento das batalhas decisivas, que vão definir se entraremos numa situação política de maior fechamento do regime político, correndo risco de mergulhar em autoritarismos e ditaduras ou se iremos encontrar uma nova oportunidade (como a de 2013) de que um projeto político e de transformação de país e de mundo pela esquerda surja ou ganhe influência para representar a maioria dos oprimidos, está próximo.
Consequentemente, os destinos dos atores políticos em cena também está para mudar. O futuro de Bolsonaro depende do resultado do embate. O de Moro e seu salto para o STF, muito mais.
Uma aliança de ambos e pausa em sua bateção de cabeça, assim como entre as alas Olavetes, milicos e do STF, é esperada diante da reação popular. Se a mentira e tentativa de engano não servir, veremos a turba da repressão.
Deste lado, as centrais, partidos de esquerda e trabalhadores mais organizados apenas mostram sinais, porém, olham atentos para a mobilização da educação. Se essa for vitoriosa, uma injeção de ânimo pode fazer os trabalhadores atropelarem as direções pelegas e traidoras e um espaço novo de influência e força de um projeto de esquerda (também revolucionário) tende a se abrir.
Estas lutas podem decidir o destino de, pelo menos, os próximos 10 anos. E o consórcio burguês sabe disso. Por isto teme a ação popular. Nos preparemos e o passo adentrando neste momento começa amanhã.
Todos e todas aos atos e paralisações do dia 15 contra os cortes da educação!!!
segunda-feira, 22 de abril de 2019
A escalada autoritária e a resistência simulada
Ano passado quando me recusei a votar em Haddad, pois tenho, com alguns poucos, consciência de classe e sei muito bem que o PT e CUT, além de seus satélites, estavam levando a todos nós pra mais uma historica traição, me chamaram de louco, xarope, inconsequente....
Pois bem, 4 meses do Governo bolsonaro, que, caso ganhasse, seria a instauração imediata do fascismo no Brasil segundo os que faziam o escárnio.
Não, foi, é claro, a instauração do fascismo.Até agora, apesar da evidente necessidade, uma greve geral não saiu do papel e dos discursos fajutos. Terceirizados e intermitentes seguem precisando de representação e organização. A esquerda continua sua cantiga de ciranda esperando que em 2022 seja melhor...
Censura do STF, Força Nacional pra reprimir indígenas em Brasília, Governo que não apenas é ligado a maior mílícia do RJ como condecora militar que FUZILOU um pai e o carro com sua família com 80 tiros.
Mas vejam. Onde está Haddad e o PT agora? Em trégua, talvez não nas palavras, mas nos atos.
A história dá voltas e balanços precisam ser feitos. Assim se apreende e assim se luta.
Mas veja bem: com o fascismo não se discute e não se vence votando. Contra o fascismo a consciência de classe de trabalhador é a alma e o braço - ou algo que o valha - é a carne.
Até agora a CUT e o PT mantém sua mesma ladainha baseada na divisão de tarefas. Uns fazem o teatro parlamentar, outros seguram a peãozada, traem as greves, agridem quem for levar alguma outra idéia as assembléias.
A reforma trabalhista passou e o mercado pressiona pela previdência.
E do lado de lá? Do lado de lá a escalada autoritária se mantém.
Bate cabeça entre a burguesia e seus agentes, conflito entre os poderes, extrema direita em avanço, esquerda sem oferecer nenhuma alternativa e mendigando uma esperança em 2022...
O cenário é perigoso pois começa a se gestar um vácuo de poder a ser preenchido, um cargo de "salvador da pátria" revisitado, após a evidente fraude de Bolsonaro.
Não vamos chegar a 2022. Eles já disseram com todas as letras que vão acabar com a previdência e impor morte aos debaixo. Sem direito a palpite.
Lá atrás, quando alertamos que esse papo de "vira voto" pro Haddad contra o fascismo e pela "democracia" era oportunismo porque não dá pra criticar o fascismo sem criticar o capitalismo que dá luz a ele (e de quem o PT se alimentou bem por 13 anos), parecemos loucos.
Não votamos em Haddad não porque não nos preocupássemos com o fascismo. Mas justamente porque nos preocupamos e muito!
Víamos que com a vitória de Bolsonaro, apesar de não imediatamente, o caminho para um novo fascismo autoritário era possível. E que o PT não iria fazer nada contra para esperar as próximas eleições, como se essa extrema direita respeitasse minimamente qualquer uma destes instituições.
Dar mais confiança ao PT é o que está levando a confusão generalizada entre as pessoas de esquerda. Se é fascismo, porque não lutar? Quem são os inconsequentes e irresponsáveis agora?
Pois chegou a hora. A marcha está em andamento. O topo é almejado por camarilhas de golpistas especializados nesse tipo de coisa. Nós, para elas, somos apenas coadjuvantes manobráveis.
Isso se permitirmos. Pra mudar precisamos dar o primeiro passo e saber em quem NÃO confiar. Assim, o próximo passo é o que e como fazer.
sexta-feira, 22 de março de 2019
As "semi-estratégias" de Arcary e Pomar
Por Bof, demitido político do Metro de SP.
Segue a trágica e tortuosa trilha da esquerda que, ao menos em intenções, busca uma transformação revolucionária no Brasil.
Após meses de silêncio inacreditável dos debates, como durante a descarada tentativa de armar uma provocação civil-militar que desse início a uma guerra civil e/ou sublevação militar contra o Governo da Venezuela, neste último dia 20, no portal do grupo Resistência, do PSOL, se apresentou um debate em quatro artigos entre Valério Arcary, dirigente advindo do PSTU e que rompe em 2016 para formar as fileiras do PSOL e Valter Pomar, teórico da Articulação de Esquerda, dentro do PT.(https://esquerdaonline.com.br/2019/03/20/ha-duas-estrategias-em-disputa-na-oposicao-a-bolsonaro/)
O debate, em si, é de importância, menos pelas orientações e análises de conjuntura política, estas, de ambas as partes, como tentaremos demonstrar, equivocadas e distantes de uma ação e teoria socialistas, e mais pelo debate sobre “estratégia e tática”, diante do governo Bolsonaro em particular e, em geral, sobre aquelas que norteiam a ação dos socialistas.
Como critica corretamente Arcary, não é muita tradição de nossa esquerda o debate teórico e escrito. Desse modo, convocamos os companheiros e toda a esquerda a reflexão e diálogo..
A primeira nota de Valério é dedicada a explicar como, numa compreensão de estratégia corretamente apontada por Pomar como restritiva, existiriam duas estratégias em choque na oposição a Bolsonaro: a de PT e PDT, na figura de Ciro, e que, diante de tal polarização, o PT, dividido, teria como tarefa central de seu 7º congresso, escolher dentre elas.
Uma seria a de Ciro, que tenta ocupar o espaço de “centro-esquerda” hegemônico motivada por uma subestimação dos resultados das reformas de Guedes, do quanto Bolsonaro e seus afiliados poderiam desestruturar o “equilíbrio de poderes” e assim, fechar mais o regime político avançando num sentido autoritário de um bonapartismo militar, posição que buscaria esperar as eleições de 2022 e, assim, aproveitando o fraquejar do PT para deslocá-lo e assumir a liderança deste campo de “resistência”.
A outra seria aquela representada pelo PSOL que estaria comprometido em não esperar 2022 através de uma orientação que evite que a “derrota eleitoral se torne derrota social e histórica” (sic) e, como a situação é “reacionária”, a estratégia deve ser totalmente defensiva, impedindo que os ataques se implementem, travando-os para, se possível, passar a contraofensiva. A via para isso? Uma frente única “das esquerdas”, inclusive o PT e uma “unidade de ação com todos os que quiserem lutar pelas liberdades democráticas ameaçadas. Conscienciosamente, Arcary não deixa de mencionar como, em algum caso excepcional, podemos até “tentar derrubar” Bolsonaro.
Tais posições combinam bem com a trajetória do embrião da atual resistência, o MAIS, tendência que rompeu e se transformou nos últimos anos num representante da ala direita do PSOL, numa concepção de “defensiva” há pelo menos 3 anos, desde o impeachment.
Um revolucionário russo, sempre bom referencial para aqueles que atuam seriamente em construir uma ação revolucionária socialista, nos dizia que a teoria deve ser um guia para a ação.
Igualmente, deve estar ancorada numa análise lúcida da realidade dos fatos políticos, econômicos e sociais e, assim, dar corpo a estratégia e seu conjunto de táticas. Quando os erros deixam de ser “acidentes de percurso” mas passam a ser teorizados, o sinal vermelho da história precisa ser aceso. Tais desvios, por menores que pareçam, cobram quilômetros de distância na prática.
E é precisamente por aí que se mete Arcary, deixando o trabalho de Pomar, de polemizar ao redor do tema da estratégia socialista, de maneira abstrata, mas ainda assim eficaz, muito fácil.
Em qualquer ciência e ofício, tentar formular uma realidade para que ela se encaixe em seus planos, modelos ou objetivos é má empreitada. O resultado não pode ser eficaz pois não é coerente com a realidade.
Arcary afirma uma falsa polarização no campo oposicionista que, surpreendentemente embeleza não apenas o PDT e Ciro como, também, o PT, como se fosse uma organização de incautos, confusos e desestruturados.
Obviamente, seu objetivo é disputar um “naco” desta organização (ou pensar que o faz) através de uma operação previsível: dividir campos e forçar posicionamentos. A ferramenta para isto seria a caricatura de “frente única”. Entretanto, quando os campos estão mal definidos, não se pode ter esperança de sucesso.
Corretamente, o que Pomar responde é que o projeto de Ciro não é fruto de uma “desatenção” ou subestimação, mas de um projeto político, baseado num nacional-desenvolvimentismo “autoritário”.
A definição das intenções de Ciro são, aqui, corretas, nos parece, na medida em que, carecendo de uma classe burguesa nacional que desse impulso e lastro social a este projeto, Ciro basearia suas pretensas ações na cooptação da classe trabalhadora e nem “engordar” burgueses nacionais, hipoteticamente, independentes (e onde é que surgiu uma burguesia independente no século 21, em países atrasados e periféricos como Brasil?) e em choque com o imperialismo, seus bancos e empresas.
Arcary não menciona isto, o que é grave, na medida em que seu candidato - Boulos - e toda a ação do PSOL em grande parte do ano passado foi adaptada a uma farsa de frente amistosa e acrítica com o PDTista (além do PT), mesmo enquanto este discutia apoio eleitoral e parlamentar com o Centrão (vulgo, partidos fisiológicos de direita)e com o PDT embarcado na defesa de Rodrigo Maia, inequívoco burguês e golpista e além de ser favorável a negociação da reforma da previdência.
Ou seja, Ciro não é um “aliado” ou um “pólo” da oposição a Bolsonaro. Ciro tenta, com demagogia, desviar as já poucas energias da centro-esquerda para um projeto nacional-desenvolvimentista burguês, baseado na conciliação entre patrões e oprimidos.
O que isso quer dizer? Ciro já disse com todas as letras que quer ser o nexo de conciliação entre as forças do capital e do trabalho. Nada muito distante de um líder populista, conciliador, que não tem nenhuma perspectiva séria de transformação social. Seu objetivo é o poder e, uma vez dentro, conciliar, com quer que seja, até o Centrão, vendo o que dá, inclusive realizando ataques e golpes contra os trabalhadores. Por isto ele é contra esta reforma, mas é favorável a outros regimes de capitalização da previdência. Felizmente, ele é um general sem exército.
Ainda assim, um inimigo da perspectiva socialista e revolucionária cuja influência deve ser combatida e cujas características devem ser expostas claramente. Tais senhores não se dão as graças da “ingenuidade” diante de Bolsonaro.
Por outro lado, movido por seu impulso de retratar uma realidade fértil a seus objetivos, Arcary embeleza a posição do PSOL, sem nenhuma autocrítica após uma das candidaturas mais desastrosas, coladas ao PT, com programa econômico fundamentalmente liberal, sem cara própria e com piores resultados da história, como foi a de Boulos, além de, literalmente, “passar um pano” para a direção do PT e das centrais sindicais.
Talvez movido por ideias de uma crise na cúpula decorrente da prisão de Lula e debates preparatórios ao 7º congresso, Arcary define a organização como polarizada entre estas duas “estratégias”, deixando de lado a óbvia linha política do PT de evitar o combate aberto, se demonstrando como oposição “responsável” e que joga “pelas regras do Jogo”, desde a queda de Dilma.
Após passar pelo impeachment, Temer e seu congelamento de gastos e reforma trabalhista, passando pela demonstração - traída - de disposição para a luta e greves gerais em 2017, a prisão de Lula e toda a maquinação burocrática, sequestro de votos, disparos ilegais de whatsapp, culminando na eleição de Bolsonaro e dos militares, tudo isso acontecendo sem nenhuma ação além da velha divisão de tarefas entre “teatro parlamentar e paralisia sindical” do PT e CUT, é preciso se tirar algumas conclusões, afinal!
A estratégia clara e hegemônica no PT, diante da conjuntura, é democrático-liberal, ou, em melhores termos, de reedição de uma espécie de “social-liberalismo”, como ficou explícito na plataforma de Haddad, administrando liberalmente o capitalismo enquanto dá pequeníssimas e frágeis concessões sociais e econômicas aos mais pobres, fortalecendo sua base eleitoral e se alçando a posição de conciliador do capital/trabalho. O PT tem esta diretriz em programa e prática e seu objetivo é seguir com ela até 2022, vendo o país sangrar para surgir, utopicamente, como “salvador da pátria”.
A votação em Rodrigo Maia, um dos implementadores das reformas de Bolsonaro, não oficial, mas na prática, para presidente da câmara, por diversos deputados do PT; a votação em massa do PT em Cauê Macris, o homem do PSDB de Dória, para a presidência da assembleia legislativa em SP; a completa paralisia das centrais sindicais como CUT e CTB (essa, para salvar o PCdoB da extinção, de mala e cuia no apoio a Maia), numa verdadeira trégua que deixou a reforma trabalhista passar, o teto de gastos se impor e deixará a da previdência acontecer, fora o estelionato eleitoral reeditado, chantageando milhões a votarem em Haddad para combater um fascismo que, ainda, não se viu e que, pelo que se vê, tem caminho livre e apoiado pelos parlamentares do PT, nas câmaras e assembleias; bem, tudo isto deveria ser prova suficiente de uma estratégia clara do PT.
Causa espanto, diante deste cenário, que um dirigente de décadas de Trotskysmo, em prol de uma operação tática (supostamente romper e aproximar bases do PT), distorça a realidade e trate de confundir a própria militância e setores de vanguarda dos trabalhadores com afirmações tão díspares com a realidade.
Os termos em que Arcary coloca a questão mostram, efetivamente, que sua concepção de estratégia (pelo menos diante de uma suposta situação reacionária) não apenas é restritiva como tem como objetivo central “alcançável” recompor, sim, o regime democrático burguês.
Ou seja, qual seria o resultado de uma ação, a única possível já que a estratégia é “defensiva” em uma situação “reacionária”, focada em impedir que os retrocessos eleitorais virem sociais e históricos? Devemos seguir para onde? Para a recomposição de uma situação de “equilíbrio entre os poderes” ideal? Quando isto se materializou no Brasil? Nos anos de Lula? Ou antes, retomando a constituição esfacelada de 88?
Ao descolar a estratégia por um programa socialista, por uma auto-organização dos trabalhadores que dê origem a formas de luta que ultrapassem a engessada estrutura sindical brasileira, que ponham de pé organismos de luta e democracia exercida diretamente pelos traballhadores e coloque a questão do poder e da classe em cada mobilização, articulando-as e criando estruturas de poder dos trabalhadores, Valério cai no possibilismo ao qual sua lógica defensiva o leva.
E este possibilismo, que silencia diante da trégua sindical das centrais e do PT, subestima a linha de Ciro e tenta alçar o PSOL, uma organização sem estratégia e sem inserção, a um papel polarizador que não existe, leva, de facto, a que a linha de Valério seja a de “salvar a democracia”, o colocando ao lado da direção burocrática e majoritária do PSOL e, blocando, é claro, com o discurso da direção do PT.
De que retrocesso social a ser impedido Arcary fala? Ou não temos já o teto de gastos e a reforma trabalhista que esfacela as relações de trabalho? O retrocesso já está aí!
O problema é que a estratégia “possibilista e defensiva” de Arcary se baseia numa concepção derrotista, antes da hora. Os ataques estão passando, a reforma da previdência está as portas, no entanto, a classe trabalhadora, apesar das traições, não está derrotada ainda. Como para Arcary ela já está desde 2016, não cabe lutar, mobilizar, articular alternativas a burocracia sindical, fomentar nas greves e lutas organismos de democracia direta... Apenas tentar impedir que o mal fique pior, lutar pelo horizonte democrático e só.
Para isso, a independência de classe, um componente estratégico clássico do marxismo revolucionário, também desce pelo ralo.
Por isto é possível fazer frentes com “todos” que queiram defender a democracia. Todos incluem o PSDB? PDT? PPS? PSB? Partidos burgueses em geral? E para isso, basta uma declaração de intenções?
Bem, as cartas e manifestos assinados, como as de fevereiro do ano passado por PSOL e muitas dessas organizações empresariais, mostraram bem o efeito que tem: confusão na vanguarda, continuidade dos acordões entre estes partidos burgueses e partidos do centrão, magnatas e latifundiários (Katia Abreu e Ciro estão ai pra mostrar) e apatia na classe trabalhadora.
A burguesia, de fato, mudou de estratégia e embarcou na linha de um neoliberalismo selvagem, a entrega do país e uma nova dinâmica voraz de exploração do trabalho. Não é possível que aceite um retorno ao padrão de conciliação anterior, ainda menos diante da ofensiva dos EUA na disputa com a China e da desaceleração econômica mundial.
É a hora do ataque e contra o ataque de classe não existe ferramenta eficaz que não seja os trabalhadores lutarem pelos seus próprios interesses, contra os patrões, magnatas e gringos.
Na nação atrasada e semicolônia que é o Brasil, não há arma realista que não seja a luta pelas bandeiras socialistas, até mesmo paras arrancar mínimas conquistas democráticas e de direitos dentro do terreno da democracia liberal burguesa.
Estratégia: Pra que serve, afinal?
Aqui voltamos a Pomar. É verdade que tal concepção de Valério restringe o alcance do termo estratégia. Também é verdade, no entanto, que é possível se ter estratégias para batalhas e “teatros de guerra” menos abrangentes.
Talvez uma forma mais precisa de definir estratégia seja a seguinte:
Ela é um plano geral que articula um conjunto de operações táticas isoladas, mas não desconectadas, cuja implementação levam a conquista de objetivos estratégicos.
No plano militar, é possível ter uma estratégia para uma batalha.
Esta, apesar de ter como objetivo estratégico central a vitória diante do inimigo, possui uma série de objetivos estratégicos parciais, cuja conquista se dá através das operações táticas. Nenhuma tática é estática.
Após meses de silêncio inacreditável dos debates, como durante a descarada tentativa de armar uma provocação civil-militar que desse início a uma guerra civil e/ou sublevação militar contra o Governo da Venezuela, neste último dia 20, no portal do grupo Resistência, do PSOL, se apresentou um debate em quatro artigos entre Valério Arcary, dirigente advindo do PSTU e que rompe em 2016 para formar as fileiras do PSOL e Valter Pomar, teórico da Articulação de Esquerda, dentro do PT.(https://esquerdaonline.com.br/2019/03/20/ha-duas-estrategias-em-disputa-na-oposicao-a-bolsonaro/)
O debate, em si, é de importância, menos pelas orientações e análises de conjuntura política, estas, de ambas as partes, como tentaremos demonstrar, equivocadas e distantes de uma ação e teoria socialistas, e mais pelo debate sobre “estratégia e tática”, diante do governo Bolsonaro em particular e, em geral, sobre aquelas que norteiam a ação dos socialistas.
Como critica corretamente Arcary, não é muita tradição de nossa esquerda o debate teórico e escrito. Desse modo, convocamos os companheiros e toda a esquerda a reflexão e diálogo..
A primeira nota de Valério é dedicada a explicar como, numa compreensão de estratégia corretamente apontada por Pomar como restritiva, existiriam duas estratégias em choque na oposição a Bolsonaro: a de PT e PDT, na figura de Ciro, e que, diante de tal polarização, o PT, dividido, teria como tarefa central de seu 7º congresso, escolher dentre elas.
Uma seria a de Ciro, que tenta ocupar o espaço de “centro-esquerda” hegemônico motivada por uma subestimação dos resultados das reformas de Guedes, do quanto Bolsonaro e seus afiliados poderiam desestruturar o “equilíbrio de poderes” e assim, fechar mais o regime político avançando num sentido autoritário de um bonapartismo militar, posição que buscaria esperar as eleições de 2022 e, assim, aproveitando o fraquejar do PT para deslocá-lo e assumir a liderança deste campo de “resistência”.
A outra seria aquela representada pelo PSOL que estaria comprometido em não esperar 2022 através de uma orientação que evite que a “derrota eleitoral se torne derrota social e histórica” (sic) e, como a situação é “reacionária”, a estratégia deve ser totalmente defensiva, impedindo que os ataques se implementem, travando-os para, se possível, passar a contraofensiva. A via para isso? Uma frente única “das esquerdas”, inclusive o PT e uma “unidade de ação com todos os que quiserem lutar pelas liberdades democráticas ameaçadas. Conscienciosamente, Arcary não deixa de mencionar como, em algum caso excepcional, podemos até “tentar derrubar” Bolsonaro.
Tais posições combinam bem com a trajetória do embrião da atual resistência, o MAIS, tendência que rompeu e se transformou nos últimos anos num representante da ala direita do PSOL, numa concepção de “defensiva” há pelo menos 3 anos, desde o impeachment.
Um revolucionário russo, sempre bom referencial para aqueles que atuam seriamente em construir uma ação revolucionária socialista, nos dizia que a teoria deve ser um guia para a ação.
Igualmente, deve estar ancorada numa análise lúcida da realidade dos fatos políticos, econômicos e sociais e, assim, dar corpo a estratégia e seu conjunto de táticas. Quando os erros deixam de ser “acidentes de percurso” mas passam a ser teorizados, o sinal vermelho da história precisa ser aceso. Tais desvios, por menores que pareçam, cobram quilômetros de distância na prática.
E é precisamente por aí que se mete Arcary, deixando o trabalho de Pomar, de polemizar ao redor do tema da estratégia socialista, de maneira abstrata, mas ainda assim eficaz, muito fácil.
Em qualquer ciência e ofício, tentar formular uma realidade para que ela se encaixe em seus planos, modelos ou objetivos é má empreitada. O resultado não pode ser eficaz pois não é coerente com a realidade.
Arcary afirma uma falsa polarização no campo oposicionista que, surpreendentemente embeleza não apenas o PDT e Ciro como, também, o PT, como se fosse uma organização de incautos, confusos e desestruturados.
Obviamente, seu objetivo é disputar um “naco” desta organização (ou pensar que o faz) através de uma operação previsível: dividir campos e forçar posicionamentos. A ferramenta para isto seria a caricatura de “frente única”. Entretanto, quando os campos estão mal definidos, não se pode ter esperança de sucesso.
Corretamente, o que Pomar responde é que o projeto de Ciro não é fruto de uma “desatenção” ou subestimação, mas de um projeto político, baseado num nacional-desenvolvimentismo “autoritário”.
A definição das intenções de Ciro são, aqui, corretas, nos parece, na medida em que, carecendo de uma classe burguesa nacional que desse impulso e lastro social a este projeto, Ciro basearia suas pretensas ações na cooptação da classe trabalhadora e nem “engordar” burgueses nacionais, hipoteticamente, independentes (e onde é que surgiu uma burguesia independente no século 21, em países atrasados e periféricos como Brasil?) e em choque com o imperialismo, seus bancos e empresas.
Arcary não menciona isto, o que é grave, na medida em que seu candidato - Boulos - e toda a ação do PSOL em grande parte do ano passado foi adaptada a uma farsa de frente amistosa e acrítica com o PDTista (além do PT), mesmo enquanto este discutia apoio eleitoral e parlamentar com o Centrão (vulgo, partidos fisiológicos de direita)e com o PDT embarcado na defesa de Rodrigo Maia, inequívoco burguês e golpista e além de ser favorável a negociação da reforma da previdência.
Ou seja, Ciro não é um “aliado” ou um “pólo” da oposição a Bolsonaro. Ciro tenta, com demagogia, desviar as já poucas energias da centro-esquerda para um projeto nacional-desenvolvimentista burguês, baseado na conciliação entre patrões e oprimidos.
O que isso quer dizer? Ciro já disse com todas as letras que quer ser o nexo de conciliação entre as forças do capital e do trabalho. Nada muito distante de um líder populista, conciliador, que não tem nenhuma perspectiva séria de transformação social. Seu objetivo é o poder e, uma vez dentro, conciliar, com quer que seja, até o Centrão, vendo o que dá, inclusive realizando ataques e golpes contra os trabalhadores. Por isto ele é contra esta reforma, mas é favorável a outros regimes de capitalização da previdência. Felizmente, ele é um general sem exército.
Ainda assim, um inimigo da perspectiva socialista e revolucionária cuja influência deve ser combatida e cujas características devem ser expostas claramente. Tais senhores não se dão as graças da “ingenuidade” diante de Bolsonaro.
Por outro lado, movido por seu impulso de retratar uma realidade fértil a seus objetivos, Arcary embeleza a posição do PSOL, sem nenhuma autocrítica após uma das candidaturas mais desastrosas, coladas ao PT, com programa econômico fundamentalmente liberal, sem cara própria e com piores resultados da história, como foi a de Boulos, além de, literalmente, “passar um pano” para a direção do PT e das centrais sindicais.
Talvez movido por ideias de uma crise na cúpula decorrente da prisão de Lula e debates preparatórios ao 7º congresso, Arcary define a organização como polarizada entre estas duas “estratégias”, deixando de lado a óbvia linha política do PT de evitar o combate aberto, se demonstrando como oposição “responsável” e que joga “pelas regras do Jogo”, desde a queda de Dilma.
Após passar pelo impeachment, Temer e seu congelamento de gastos e reforma trabalhista, passando pela demonstração - traída - de disposição para a luta e greves gerais em 2017, a prisão de Lula e toda a maquinação burocrática, sequestro de votos, disparos ilegais de whatsapp, culminando na eleição de Bolsonaro e dos militares, tudo isso acontecendo sem nenhuma ação além da velha divisão de tarefas entre “teatro parlamentar e paralisia sindical” do PT e CUT, é preciso se tirar algumas conclusões, afinal!
A estratégia clara e hegemônica no PT, diante da conjuntura, é democrático-liberal, ou, em melhores termos, de reedição de uma espécie de “social-liberalismo”, como ficou explícito na plataforma de Haddad, administrando liberalmente o capitalismo enquanto dá pequeníssimas e frágeis concessões sociais e econômicas aos mais pobres, fortalecendo sua base eleitoral e se alçando a posição de conciliador do capital/trabalho. O PT tem esta diretriz em programa e prática e seu objetivo é seguir com ela até 2022, vendo o país sangrar para surgir, utopicamente, como “salvador da pátria”.
A votação em Rodrigo Maia, um dos implementadores das reformas de Bolsonaro, não oficial, mas na prática, para presidente da câmara, por diversos deputados do PT; a votação em massa do PT em Cauê Macris, o homem do PSDB de Dória, para a presidência da assembleia legislativa em SP; a completa paralisia das centrais sindicais como CUT e CTB (essa, para salvar o PCdoB da extinção, de mala e cuia no apoio a Maia), numa verdadeira trégua que deixou a reforma trabalhista passar, o teto de gastos se impor e deixará a da previdência acontecer, fora o estelionato eleitoral reeditado, chantageando milhões a votarem em Haddad para combater um fascismo que, ainda, não se viu e que, pelo que se vê, tem caminho livre e apoiado pelos parlamentares do PT, nas câmaras e assembleias; bem, tudo isto deveria ser prova suficiente de uma estratégia clara do PT.
Causa espanto, diante deste cenário, que um dirigente de décadas de Trotskysmo, em prol de uma operação tática (supostamente romper e aproximar bases do PT), distorça a realidade e trate de confundir a própria militância e setores de vanguarda dos trabalhadores com afirmações tão díspares com a realidade.
Os termos em que Arcary coloca a questão mostram, efetivamente, que sua concepção de estratégia (pelo menos diante de uma suposta situação reacionária) não apenas é restritiva como tem como objetivo central “alcançável” recompor, sim, o regime democrático burguês.
Ou seja, qual seria o resultado de uma ação, a única possível já que a estratégia é “defensiva” em uma situação “reacionária”, focada em impedir que os retrocessos eleitorais virem sociais e históricos? Devemos seguir para onde? Para a recomposição de uma situação de “equilíbrio entre os poderes” ideal? Quando isto se materializou no Brasil? Nos anos de Lula? Ou antes, retomando a constituição esfacelada de 88?
Ao descolar a estratégia por um programa socialista, por uma auto-organização dos trabalhadores que dê origem a formas de luta que ultrapassem a engessada estrutura sindical brasileira, que ponham de pé organismos de luta e democracia exercida diretamente pelos traballhadores e coloque a questão do poder e da classe em cada mobilização, articulando-as e criando estruturas de poder dos trabalhadores, Valério cai no possibilismo ao qual sua lógica defensiva o leva.
E este possibilismo, que silencia diante da trégua sindical das centrais e do PT, subestima a linha de Ciro e tenta alçar o PSOL, uma organização sem estratégia e sem inserção, a um papel polarizador que não existe, leva, de facto, a que a linha de Valério seja a de “salvar a democracia”, o colocando ao lado da direção burocrática e majoritária do PSOL e, blocando, é claro, com o discurso da direção do PT.
De que retrocesso social a ser impedido Arcary fala? Ou não temos já o teto de gastos e a reforma trabalhista que esfacela as relações de trabalho? O retrocesso já está aí!
O problema é que a estratégia “possibilista e defensiva” de Arcary se baseia numa concepção derrotista, antes da hora. Os ataques estão passando, a reforma da previdência está as portas, no entanto, a classe trabalhadora, apesar das traições, não está derrotada ainda. Como para Arcary ela já está desde 2016, não cabe lutar, mobilizar, articular alternativas a burocracia sindical, fomentar nas greves e lutas organismos de democracia direta... Apenas tentar impedir que o mal fique pior, lutar pelo horizonte democrático e só.
Para isso, a independência de classe, um componente estratégico clássico do marxismo revolucionário, também desce pelo ralo.
Por isto é possível fazer frentes com “todos” que queiram defender a democracia. Todos incluem o PSDB? PDT? PPS? PSB? Partidos burgueses em geral? E para isso, basta uma declaração de intenções?
Bem, as cartas e manifestos assinados, como as de fevereiro do ano passado por PSOL e muitas dessas organizações empresariais, mostraram bem o efeito que tem: confusão na vanguarda, continuidade dos acordões entre estes partidos burgueses e partidos do centrão, magnatas e latifundiários (Katia Abreu e Ciro estão ai pra mostrar) e apatia na classe trabalhadora.
A burguesia, de fato, mudou de estratégia e embarcou na linha de um neoliberalismo selvagem, a entrega do país e uma nova dinâmica voraz de exploração do trabalho. Não é possível que aceite um retorno ao padrão de conciliação anterior, ainda menos diante da ofensiva dos EUA na disputa com a China e da desaceleração econômica mundial.
É a hora do ataque e contra o ataque de classe não existe ferramenta eficaz que não seja os trabalhadores lutarem pelos seus próprios interesses, contra os patrões, magnatas e gringos.
Na nação atrasada e semicolônia que é o Brasil, não há arma realista que não seja a luta pelas bandeiras socialistas, até mesmo paras arrancar mínimas conquistas democráticas e de direitos dentro do terreno da democracia liberal burguesa.
Estratégia: Pra que serve, afinal?
Aqui voltamos a Pomar. É verdade que tal concepção de Valério restringe o alcance do termo estratégia. Também é verdade, no entanto, que é possível se ter estratégias para batalhas e “teatros de guerra” menos abrangentes.
Talvez uma forma mais precisa de definir estratégia seja a seguinte:
Ela é um plano geral que articula um conjunto de operações táticas isoladas, mas não desconectadas, cuja implementação levam a conquista de objetivos estratégicos.
No plano militar, é possível ter uma estratégia para uma batalha.
Esta, apesar de ter como objetivo estratégico central a vitória diante do inimigo, possui uma série de objetivos estratégicos parciais, cuja conquista se dá através das operações táticas. Nenhuma tática é estática.
A conquista destes objetivos precisa ser obtida na luta real e, como toda luta real, ajustes devem ser feitos em função das condições de suas forças, reações do inimigo, condições climáticas e de terreno imprevistas, enfim, qualquer estrategista sabe que, para se conquistar uma batalha é preciso se ter um plano, vias táticas de paulatinamente concretizar este plano e um olho acurado para realizar ajustes nas operações deste plano a tempo de não se perder de vista a possibilidade de vitória.
Um exemplo: Um exército menor pode enfrentar um exército maior e, diante das possibilidades de terreno e clima, manobrar seu exército em distintas porções menores, concentrando sua força principal em posição vantajosa, mais numerosa e escondida do inimigo. Estas porções menores podem ser mobilizadas em direção ao inimigo com o único objetivo de forçá-lo a se mover, provavelmente dividindo suas forças. A função destas porções menores é, neste sentido, defensiva, de ganhar tempo, dividir o exército maior e permitir que a manobra da porção principal, mais numerosa e concentrada, seja bem sucedida e rompa as linhas de frente do inimigo, fazendo-o recuar.
Um exemplo: Um exército menor pode enfrentar um exército maior e, diante das possibilidades de terreno e clima, manobrar seu exército em distintas porções menores, concentrando sua força principal em posição vantajosa, mais numerosa e escondida do inimigo. Estas porções menores podem ser mobilizadas em direção ao inimigo com o único objetivo de forçá-lo a se mover, provavelmente dividindo suas forças. A função destas porções menores é, neste sentido, defensiva, de ganhar tempo, dividir o exército maior e permitir que a manobra da porção principal, mais numerosa e concentrada, seja bem sucedida e rompa as linhas de frente do inimigo, fazendo-o recuar.
Esta é uma concepção de estratégia de batalha chamada “concentração de força/derrota em detalhe”, pois permite dissimular a ação, enganando o inimigo e atacando no momento certo com superioridade numérica, fazendo sua linha quebrar e permitindo perseguir as tropas em fuga, derrotando “no detalhe” um exército maior.
Esta explicação, talvez enfadonha, no entanto, mostra bem que, não apenas é possível uma estratégia, com todos os limites da analogia quando falamos de estratégia político-social, para batalhas menores (portanto, Arcary poderia estar falando sobre algo assim), quanto é não apenas possível, mas crucial, a articulação de fases (defensiva, contraofensiva, ofensiva) dentro de uma mesma estratégia de batalha (e aqui, Arcary se equivoca diante da absolutização de uma pretensa “estratégia defensiva”).
Diante de tamanha confusão, por um lado e de, aparentemente, uma intenção de Arcary criar uma realidade ideal polarizada que justifique suas ações (novamente o russo nos lembraria do erro de justificar as ações e não movê-las pela teoria), Pomar desenvolve uma espécie de “metalinguagem” sobre o tema, pegando, é claro, Arcary pela esquerda.
Em uma coisa, Valério acerta na réplica: não importa muito estar “a esquerda” de alguém num debate teórico abstrato. A teoria ganha concretude e validade, em sua implementação prática, através da dialética demonstrada da estratégia/tática.
Pomar, polemista experiente, soube observar as brechas da argumentação e Arcary e aproveitar para lembrá-lo que a estratégia socialista não se detém nos limites da democracia burguesa, que os socialistas sempre lutam pelo poder e que a linha de Arcary levaria a um horizonte de defesa da democracia burguesa, recompondo o status quo a uma situação ideal. Nada mais utópico e inaceitável pelos magnatas diante da ofensiva burguesa dos últimos anos. Ponto pra ele.
Mas seus pés, no entanto, não estão em terreno mais sólido dos que o de Arcary, afinal, sua crítica vale, igualmente, para si mesmo.
Pomar afirma tal como uma declaração de manual, correta em geral, que “O objetivo de longo prazo é uma sociedade comunista. Entre esta sociedade comunista e o ponto em que estamos, haverá um longo período histórico de transição. Esta transição é o socialismo. O ponto de partida da transição socialista é a conquista do poder, por parte da classe trabalhadora. A estratégia é, enquanto prática, o processo real através do qual a classe trabalhadora conquista o poder e, enquanto teoria, a definição acerca de qual é o caminho que nos leva a conquistar poder. Portanto, eu reservo a categoria estratégia para aquilo que diz respeito ao caminho para a conquista do poder.”.
Espanta ver, no entanto, que em nenhum momento dos dois textos, Valter aponte, como cobra de Arcary, “o caminho a ser percorrido”, o passo além. Chega ao ponto, inclusive, cometendo o mesmo erro de Arcary, de tentar produzir uma realidade que caiba nos seus esquemas ao afirmar que hoje se dá no PT um debate sobre quais caminhos levam ao socialismo.
Vindo de um representante de décadas no PT, igualmente causa espécie que censure um colega e ao mesmo tempo não responda minimamente o que exige sobre “qual a relação que existe entre nossa luta contra o governo Bolsonaro, nossa luta pelo poder e nossa luta pelo socialismo?”
A articulação de esquerda, sabe-se, não goza de força hegemônica, portanto, não tem o poder de definir as linhas do PT. Mas a participação em uma estrutura pressupõe responsabilidade por ela.
E o PT tem sido não apenas uma organização “não-socialista” em termos gerais, mas diretamente antissocialista nos atos. Todas as operações táticas deste partido, nos últimos 17 anos (desde que entrou no governo federal) e antes no período de oposição leal dentro do regime, foram para integrar, cooptar e domesticar as energias e lutas dos trabalhadores e oprimidos.
Por dentro do governo se resolveriam os problemas sociais através de medidas e programas e toda luta seria nociva a este projeto de “progresso gradual e contínuo”. O ano de 2013,que fez tremer o projeto de conciliação, é até hoje demonizado pelos PTistas, pois teria se insurgido diante deste esquema e, claro, necessariamente, para eles, seria o início das ações da direita para derrubá-los.
Que isso é ladainha e que, diante da paralisia e grau zero de estratégia da esquerda não PTista e da completa integração do PT ao poder burguês, a mídia corporativa e a burguesia brasileira com ajuda dos EUA conseguiram desviar as energias, criando com parte destas os “caras pintadas” de classe média que derrubaram Dilma, convenhamos, não é preciso discorrer muito.
2013 não começou de direita. Começou espontaneamente contra o alto custo de vida e dos transportes.
Entretanto, devolvendo-lhe a pergunta: Quais são os caminhos que, de dentro do PT, levam ao socialismo, caro Pomar? De que maneira as operações táticas encampadas pelo seu partido vão de encontro as conquistas de objetivos estratégicos que nos aproximam da vitória diante do inimigo?
Pomar não responde.
O polemista tem a vantagem de erguer para si um objetivo a ser desestruturado e, teoricamente, desmontá-lo. Em termos abstratos e teóricos isto é possível. Mas a prática cobra a coerência dos exemplos e esta, infeliz ou felizmente, demonstra que a conivência de ditos “revolucionários” da Articulação de Esquerda, com a estratégia de passividade social, combinada com teatro e sobrevivência parlamentar e sindical, com a trégua sindical do PT, aponta para, este sim, a manutenção de um status quo idealizado e desta democracia dos ricos “conciliada” ou, no pior dos casos (o que é mais provável) apenas para a sobrevivência da estrutura burocrática PTista no novo pacto social muito mais selvagem que a burguesia prepara contra os trabalhadores.
O PT freia e combate o desenvolvimento de qualquer ação revolucionária entre os trabalhadores.
Aqui, Pomar e Arcary se unificam, cada um com seus erros.
Ambos silenciam sobre o papel das centrais sindicais e das organizações de esquerda diante de um país em que a reforma trabalhista aumentou para 32 milhões o trabalho informal, 13 milhões de desempregados e, só no ano passado, mais um milhão e meio no trabalho precário, terceirizado e/ou intermitente.
Como é possível falar de estratégia revolucionária sem pensar os “caminhos” da organização, conscientização e mobilização desta nova classe trabalhadora? Como é possível passar ao largo das centrais sindicais num debate de estratégias para a tomada do poder? Como é possível ignorar que a esquerda vira as costas ao sujeito histórico da revolução socialista?
Bem, Arcary tem o mérito de honestidade: Se salvaguarda numa suposta estratégia defensiva, cujo horizonte máximo é resistir e manter as coisas um pouco “menos piores”. Pomar, no entanto, se diverte, debatendo socialismo e estratégia em abstrato e colocando o estilo a frente. O recheio, afinal, como ele deu a senha, pouco importa.
Mas a nós, aí está o crucial.
Esta explicação, talvez enfadonha, no entanto, mostra bem que, não apenas é possível uma estratégia, com todos os limites da analogia quando falamos de estratégia político-social, para batalhas menores (portanto, Arcary poderia estar falando sobre algo assim), quanto é não apenas possível, mas crucial, a articulação de fases (defensiva, contraofensiva, ofensiva) dentro de uma mesma estratégia de batalha (e aqui, Arcary se equivoca diante da absolutização de uma pretensa “estratégia defensiva”).
Diante de tamanha confusão, por um lado e de, aparentemente, uma intenção de Arcary criar uma realidade ideal polarizada que justifique suas ações (novamente o russo nos lembraria do erro de justificar as ações e não movê-las pela teoria), Pomar desenvolve uma espécie de “metalinguagem” sobre o tema, pegando, é claro, Arcary pela esquerda.
Em uma coisa, Valério acerta na réplica: não importa muito estar “a esquerda” de alguém num debate teórico abstrato. A teoria ganha concretude e validade, em sua implementação prática, através da dialética demonstrada da estratégia/tática.
Pomar, polemista experiente, soube observar as brechas da argumentação e Arcary e aproveitar para lembrá-lo que a estratégia socialista não se detém nos limites da democracia burguesa, que os socialistas sempre lutam pelo poder e que a linha de Arcary levaria a um horizonte de defesa da democracia burguesa, recompondo o status quo a uma situação ideal. Nada mais utópico e inaceitável pelos magnatas diante da ofensiva burguesa dos últimos anos. Ponto pra ele.
Mas seus pés, no entanto, não estão em terreno mais sólido dos que o de Arcary, afinal, sua crítica vale, igualmente, para si mesmo.
Pomar afirma tal como uma declaração de manual, correta em geral, que “O objetivo de longo prazo é uma sociedade comunista. Entre esta sociedade comunista e o ponto em que estamos, haverá um longo período histórico de transição. Esta transição é o socialismo. O ponto de partida da transição socialista é a conquista do poder, por parte da classe trabalhadora. A estratégia é, enquanto prática, o processo real através do qual a classe trabalhadora conquista o poder e, enquanto teoria, a definição acerca de qual é o caminho que nos leva a conquistar poder. Portanto, eu reservo a categoria estratégia para aquilo que diz respeito ao caminho para a conquista do poder.”.
Espanta ver, no entanto, que em nenhum momento dos dois textos, Valter aponte, como cobra de Arcary, “o caminho a ser percorrido”, o passo além. Chega ao ponto, inclusive, cometendo o mesmo erro de Arcary, de tentar produzir uma realidade que caiba nos seus esquemas ao afirmar que hoje se dá no PT um debate sobre quais caminhos levam ao socialismo.
Vindo de um representante de décadas no PT, igualmente causa espécie que censure um colega e ao mesmo tempo não responda minimamente o que exige sobre “qual a relação que existe entre nossa luta contra o governo Bolsonaro, nossa luta pelo poder e nossa luta pelo socialismo?”
A articulação de esquerda, sabe-se, não goza de força hegemônica, portanto, não tem o poder de definir as linhas do PT. Mas a participação em uma estrutura pressupõe responsabilidade por ela.
E o PT tem sido não apenas uma organização “não-socialista” em termos gerais, mas diretamente antissocialista nos atos. Todas as operações táticas deste partido, nos últimos 17 anos (desde que entrou no governo federal) e antes no período de oposição leal dentro do regime, foram para integrar, cooptar e domesticar as energias e lutas dos trabalhadores e oprimidos.
Por dentro do governo se resolveriam os problemas sociais através de medidas e programas e toda luta seria nociva a este projeto de “progresso gradual e contínuo”. O ano de 2013,que fez tremer o projeto de conciliação, é até hoje demonizado pelos PTistas, pois teria se insurgido diante deste esquema e, claro, necessariamente, para eles, seria o início das ações da direita para derrubá-los.
Que isso é ladainha e que, diante da paralisia e grau zero de estratégia da esquerda não PTista e da completa integração do PT ao poder burguês, a mídia corporativa e a burguesia brasileira com ajuda dos EUA conseguiram desviar as energias, criando com parte destas os “caras pintadas” de classe média que derrubaram Dilma, convenhamos, não é preciso discorrer muito.
2013 não começou de direita. Começou espontaneamente contra o alto custo de vida e dos transportes.
Entretanto, devolvendo-lhe a pergunta: Quais são os caminhos que, de dentro do PT, levam ao socialismo, caro Pomar? De que maneira as operações táticas encampadas pelo seu partido vão de encontro as conquistas de objetivos estratégicos que nos aproximam da vitória diante do inimigo?
Pomar não responde.
O polemista tem a vantagem de erguer para si um objetivo a ser desestruturado e, teoricamente, desmontá-lo. Em termos abstratos e teóricos isto é possível. Mas a prática cobra a coerência dos exemplos e esta, infeliz ou felizmente, demonstra que a conivência de ditos “revolucionários” da Articulação de Esquerda, com a estratégia de passividade social, combinada com teatro e sobrevivência parlamentar e sindical, com a trégua sindical do PT, aponta para, este sim, a manutenção de um status quo idealizado e desta democracia dos ricos “conciliada” ou, no pior dos casos (o que é mais provável) apenas para a sobrevivência da estrutura burocrática PTista no novo pacto social muito mais selvagem que a burguesia prepara contra os trabalhadores.
O PT freia e combate o desenvolvimento de qualquer ação revolucionária entre os trabalhadores.
Aqui, Pomar e Arcary se unificam, cada um com seus erros.
Ambos silenciam sobre o papel das centrais sindicais e das organizações de esquerda diante de um país em que a reforma trabalhista aumentou para 32 milhões o trabalho informal, 13 milhões de desempregados e, só no ano passado, mais um milhão e meio no trabalho precário, terceirizado e/ou intermitente.
Como é possível falar de estratégia revolucionária sem pensar os “caminhos” da organização, conscientização e mobilização desta nova classe trabalhadora? Como é possível passar ao largo das centrais sindicais num debate de estratégias para a tomada do poder? Como é possível ignorar que a esquerda vira as costas ao sujeito histórico da revolução socialista?
Bem, Arcary tem o mérito de honestidade: Se salvaguarda numa suposta estratégia defensiva, cujo horizonte máximo é resistir e manter as coisas um pouco “menos piores”. Pomar, no entanto, se diverte, debatendo socialismo e estratégia em abstrato e colocando o estilo a frente. O recheio, afinal, como ele deu a senha, pouco importa.
Mas a nós, aí está o crucial.
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