Folheei algumas páginas daquele livro que estou pra terminar já há umas duas semanas.
O tempo escorre pelos dedos.
Tinha saído pra espairecer. Muita pressão. Muitos resultados esperados. Alguns frustrados, outros conquistados; aquela coisa banal que preenche a gangorra de qualquer um de nós.
Me sentei num dos bancos do parque. Alguns jovens nas mesas, outros dormindo nos bancos, duas moças que trabalham na limpeza sentadas numa mesa de pedra, entre sorrisos e pequenas falas, intercalam uma giradinha nas pétalas da pequena florzinha amarela que caiu da árvore sombreando o parque.
Me levanto e vou pra avenida.
Atravesso seu canteiro central e o farol fecha.
No entremeio do caminho, me cruzam velozes jovens, apressados com suas bicicletas, as vezes próprias, as vezes alugadas do Itaú.
Um deles, talvez por medo de eu cruzar muito rápido o cruzamento com a ciclovia, talvez apenas instintivamente, freia levemente e me olha.
Menos de um segundo.
Nossos olhos se desviam.
Após ele, bicicleta após bicicleta, jovens negros passam com seus grandes cascos de ifood. Empreendendo... às custas de si próprios, anônimos, apressados, exauridos e suando.
Chego a margem oposta. Imediatamente me vejo submergir na corrente humana que conduz o ritmo da calçada.
Olhares baixos, outros sorridentes para suas telas, alguns trabalhadores brincando entre si, esbarrões e desvios.
Me percebi de novo imerso em nós. Só por estar. Quem sabe tentando entender.
Quase em frente ao mercado percebo um rapaz. Negro, descalço, com as roupas um pouco sujas e um rosto avermelhado, talvez de sol, talvez de goró.
Olhei de novo.
Ele estava com um nunchaku na mão! Na porta do supermercado, a cada um que passava, girava o instrumento pra cima e pra baixo dos sovacos, girando rapidamente, como aqueles movimentos de kung Fu do Bruce Lee.
Cheguei mais perto, quase ombro a ombro. Olhei melhor.
Eu já tinha visto esse moleque!
Certa vez, naquele bar de esquina, eu e o Cléber estávamos na cerveja não me lembro mais qual número, ele parou e acabamos trocando idéia com ele. Entre uma história e outra, o mano disse que rimava, perguntou se eu rimava. Nos pegou, também, numa charada sobre um pato que não lembro agora. Um puta moleque esperto, inteligente, rápido e com carisma. Disse que queria uma grana pra voltar pra casa e que estava pra lançar um funk. Cantou pra nós. Aqueles bem putaria, tá ligado? Mas o moleque tinha todo o jeito, a entrega e a naturalidade do bagulho.
Agora estava ali, na porta do mercado, tentando trocar parcelas de seu talento inquantificável por, quem sabe, alguma ajuda alimentar pra seguir pro próximo dia.
Eu já estava na próxima esquina quando me perguntei porque não parei e fui cumprimentá-lo. Ele parecia meio desnorteado.
Olhei pros lados.
Ao redor dele se formava um vácuo. As pessoas nem olhavam.
Basicamente ao se aproximar daquele jovem negro e maltrapilho seus corpos, de tão condicionados, se afastavam e criavam uma distância. Cheguei a porta do metrô olhando essa cena.
Subitamente, sinto um esbarrão. Tiro o fone e olho. Um cara mal encarado me encara. Já não tô pra muita graça e pergunto:
- Que foi, tio? Ta loki?
- Cê que tá chapando aí. Tá na nóia maluco? Fica olhando mendigo porra, trombando com os outros...
Tô com um Beck no bolso. Meço a fita. Melhor deixar pra lá. Na fila da entrada, uma puta fila. Imagina o trem? Tenho de correr.
Foi só quando sentei, umas 10 estações depois, que lembrei do moleque e do seu nunchaku.
Submergi, mas desta vez nem percebi, na guerra da sobrevivência e do transporte urbanos.
Me perguntei depois se isso foi antes ou depois de perder o moleque de vista? As vezes, submergir em si, por estas bandas, acaba sendo automático...
quarta-feira, 22 de janeiro de 2020
sábado, 11 de janeiro de 2020
Hoje decidi falar de mim.
Hoje decidi falar de mim. Dessa incessante vontade de criar, propor, expor.
Nem todo dia estou de boa. Me empurro. Ando pela cidade, espero as flores e espinhos que encontro quando ando na multidão. Uma trombada no braço esquerdo; um soslaio incomodado; uma franzida de testa; aperto o passo, diminuo este.
Vez ou outra me presto ao papel estranho de entrar num bar só pra sentir como estão sentindo.
No meio do salão, olho pra esquerda. Na fila do banheiro, homens e mulheres de olhares baixos olham pra um nada, como se olhassem pra dentro de si. Não é raro um balbuciar indistinguível, daqueles que soltamos quando pensamos com nós mesmos.
Isso me provoca, me tira do conforto.
O dia a dia me ensina o conforto do sozinho, ainda assim, o passo me chama.
Talvez seja essa sensação de mistério insolúvel de não saber, nem poder saber, o que toma o coração e as idéias de toda essa turba. Ao menos não sem parecer um louco que, do nada, se preocupa com o que o outro pensa da vida.... Ou da morte.
E tem coisa mais interessante e reveladora do que saber a visão de mundo de alguém? Por mais simples que seja a resposta, muita coisa está envolvida.
Hoje, entre trombadas e passos me peguei pensando na vida. Pensei sobre seu fim. Não é um pensamento raro. Nosso hardware é feito pra nós afastar de tudo que ameace essa existência.
É a fórmula perfeita pra paranóia. E se hoje fosse o último? E se eu não pudesse viver o que planejei? Quantas narrativas como essas me cruzaram?
Olho o relógio. Já é quase meia noite. Vou carregar o bilhete. Operação negada para o usuário. Não tenho o que fazer. Será que o motô passa? Vou ter de dar migué?
Sei lá.
As vezes, uma vez vivo, o que importa é viver. E vivo, quero mudar.a mim e o mundo.
Quem sabe assim cada esbarrão me pareça menos vazio e insípido. Quem sabe esse encontro, único, me traga algo sobre nós além do choque. Quem sabe do choque surja o novo. E do comum e do banal, se veja a mais completa arte.
Aquela que percebemos num gesto simples do dia a dia.
Sem propósito, sem corolário. Apenas eu e minha continuidade, separados no tempo, juntos em essência, fluindo na história.
Nem todo dia estou de boa. Me empurro. Ando pela cidade, espero as flores e espinhos que encontro quando ando na multidão. Uma trombada no braço esquerdo; um soslaio incomodado; uma franzida de testa; aperto o passo, diminuo este.
Vez ou outra me presto ao papel estranho de entrar num bar só pra sentir como estão sentindo.
No meio do salão, olho pra esquerda. Na fila do banheiro, homens e mulheres de olhares baixos olham pra um nada, como se olhassem pra dentro de si. Não é raro um balbuciar indistinguível, daqueles que soltamos quando pensamos com nós mesmos.
Isso me provoca, me tira do conforto.
O dia a dia me ensina o conforto do sozinho, ainda assim, o passo me chama.
Talvez seja essa sensação de mistério insolúvel de não saber, nem poder saber, o que toma o coração e as idéias de toda essa turba. Ao menos não sem parecer um louco que, do nada, se preocupa com o que o outro pensa da vida.... Ou da morte.
E tem coisa mais interessante e reveladora do que saber a visão de mundo de alguém? Por mais simples que seja a resposta, muita coisa está envolvida.
Hoje, entre trombadas e passos me peguei pensando na vida. Pensei sobre seu fim. Não é um pensamento raro. Nosso hardware é feito pra nós afastar de tudo que ameace essa existência.
É a fórmula perfeita pra paranóia. E se hoje fosse o último? E se eu não pudesse viver o que planejei? Quantas narrativas como essas me cruzaram?
Olho o relógio. Já é quase meia noite. Vou carregar o bilhete. Operação negada para o usuário. Não tenho o que fazer. Será que o motô passa? Vou ter de dar migué?
Sei lá.
As vezes, uma vez vivo, o que importa é viver. E vivo, quero mudar.a mim e o mundo.
Quem sabe assim cada esbarrão me pareça menos vazio e insípido. Quem sabe esse encontro, único, me traga algo sobre nós além do choque. Quem sabe do choque surja o novo. E do comum e do banal, se veja a mais completa arte.
Aquela que percebemos num gesto simples do dia a dia.
Sem propósito, sem corolário. Apenas eu e minha continuidade, separados no tempo, juntos em essência, fluindo na história.
quinta-feira, 26 de dezembro de 2019
"Sedução confrontacional"
- Porra velho, cê só escreve sobre um tema! Parece xarope assim.
- Como assim, tio?!
- Como assim, tio?!
O gole desce um pouco mais amargo que o comum. O puto do Jonas começou com as psicanálises compulsórias dele. Foram só dois litrões, menos de meia hora pra ele parar a conversa no meio e dizer que tinha de ser sincero.
- É porra. Alguém tem que te dizer isto. Quando você fica postando e escrevendo desse jeito monotemático, a galera pode começar a pensar que é algum tipo de piração, neurose, uma coisa de doença mesmo, saca? Eu mesmo que não te vejo há um tempo...
Eu já tinha comentado com ele anos atrás - na última vez que nos vimos - que não gostava dessa merda.
Se tem algo pra me falar, me liga, manda um inbox, um direct, qualquer coisa porra. Essa mania de encarregado motivacional de escritório me deixa puto. O pior é que, cortando o papo da roda desse jeito, agora eu sou o centro das atenções. Respondo pra cortar:
Se tem algo pra me falar, me liga, manda um inbox, um direct, qualquer coisa porra. Essa mania de encarregado motivacional de escritório me deixa puto. O pior é que, cortando o papo da roda desse jeito, agora eu sou o centro das atenções. Respondo pra cortar:
- Ah tio, sério? Monotemático o que? Listando as merdas que o seu candidato tá fazendo na nossa vida com a ajudinha dos teus patrões?
- Aí velho! Não falei? Toda e qualquer coisa é motivo pra você começar a fazer malabares com estatística, cifra, notícia; botar na conta dos malvadões capitalistas. Tô te falando, essa lavagem cerebral que não te deixa ver. E ó, eu votei no Amoedo e anulei no segundo. Sou empreendedor; não tenho patrão. - replicou orgulhoso.
- Aí velho! Não falei? Toda e qualquer coisa é motivo pra você começar a fazer malabares com estatística, cifra, notícia; botar na conta dos malvadões capitalistas. Tô te falando, essa lavagem cerebral que não te deixa ver. E ó, eu votei no Amoedo e anulei no segundo. Sou empreendedor; não tenho patrão. - replicou orgulhoso.
O Jonas antes de ser anarco-capitalista, tinha sido headbanger e, antes disso, otaku. Não entendo como fomos pensar tão diferente...
Se bem que não posso falar muito porque também frequentei umas feiras de japonês.
Nesse caso, ambos sofremos na mesma barca do ostracismo social da época. Nunca fizemos um amigo nessas feiras e nem compramos nada. Dois fodidos da periferia que só iam lá pra jogar nos Playstation de graça, bater nos boys com aqueles cotonetes gigantes e tomar mupy de saquinho.
Compartilhamos o declínio e a glória do mupy de saquinho plástico, uma joia hoje perdida.
Se bem que não posso falar muito porque também frequentei umas feiras de japonês.
Nesse caso, ambos sofremos na mesma barca do ostracismo social da época. Nunca fizemos um amigo nessas feiras e nem compramos nada. Dois fodidos da periferia que só iam lá pra jogar nos Playstation de graça, bater nos boys com aqueles cotonetes gigantes e tomar mupy de saquinho.
Compartilhamos o declínio e a glória do mupy de saquinho plástico, uma joia hoje perdida.
Agora ele divide seu tempo entre ser coach de programação neurolinguística, psicólogo e microinvestidor na bolsa. “Sempre “pensando fora da caixinha”.
Disse que não foi nos atos do pato da FIESP porque achava a multidão um jeito muito atrasado de reivindicar. Outro dia me mandou uma petição para obrigatoriedade da implantação de canudos de papelão em todo território nacional. Não excluindo os de plástico, porque o livre mercado já iria fazer isso.
Disse que não foi nos atos do pato da FIESP porque achava a multidão um jeito muito atrasado de reivindicar. Outro dia me mandou uma petição para obrigatoriedade da implantação de canudos de papelão em todo território nacional. Não excluindo os de plástico, porque o livre mercado já iria fazer isso.
- Velho, eu já te falei que eu posso falar de qualquer coisa. Eu só me preocupo bastante com política. Acho que todos nós deveríamos, já que isso afeta em todos os sentidos as nossas vidas e --
- Páára tio!! - Exclamou me cortando. – Tá vendo, Júlia? Fala se não parece doido ficar retrucando sobre política? Cê precisa ter autocrítica, parar de ficar pregando...
- Páára tio!! - Exclamou me cortando. – Tá vendo, Júlia? Fala se não parece doido ficar retrucando sobre política? Cê precisa ter autocrítica, parar de ficar pregando...
Eu esqueci uma coisa importante. Parte das funções de coach do Jonas é ser “conselheiro amoroso”.
Dá dinheiro com os otários que pagam no desespero e status nesse mundinho dos Farialimers... Se a gente parar pra pensar, o Brasil tá avançado demais; até um charlatão tem seu saber organizado, né não?
Dá dinheiro com os otários que pagam no desespero e status nesse mundinho dos Farialimers... Se a gente parar pra pensar, o Brasil tá avançado demais; até um charlatão tem seu saber organizado, né não?
Uma vez ele me disse que era especializado em “sedução confrontacional”.
Perguntei “que porra é essa” e ele me respondeu que era uma tática pra seduzir por tabela, aumentando seus traços e diminuindo o de outros. Usavam de Maquiavel a Roberto Justus pra potencializar os equilíbrios de handcaps e vantagens emocionais entre os competidores. O objetivo era baixar os do adversário e deixa-lo mal pra ter espaço cognitivo e fazer todo seu brilho aparecer.
Perguntei “que porra é essa” e ele me respondeu que era uma tática pra seduzir por tabela, aumentando seus traços e diminuindo o de outros. Usavam de Maquiavel a Roberto Justus pra potencializar os equilíbrios de handcaps e vantagens emocionais entre os competidores. O objetivo era baixar os do adversário e deixa-lo mal pra ter espaço cognitivo e fazer todo seu brilho aparecer.
Acho que na real o Jonas fez pós-graduação em filha da putice, mesmo.
A Júlia colou com a Sílvia não faz nem dez minutos. Com um sorriso meio sem graça ela diz:
- Ah deixa ele, Jo. Acho superimportante ter essa visão engajada. Hoje em dia a gente parece que não tem mais direitos. A gente trabalha o mês inteiro e não consegue ter nada...
Aí eu percebi a jogada. Eu sou o mais novo degrau na escada do Jonas. A Júlia terminou não faz nem um mês. Isso é que é urubu oportunista!.
Respondi atencioso:
Respondi atencioso:
- Total, Ju. A vida só piora e quando reclamamos ou escrevemos algo somos “monotemáticos”. Mas só diz isso quem tá na boa...Vê só o Jonas. O cara é um Glitch Tabajara, vive de dar conselhos pra vida afetiva alheia, fez campanha envergonhada pro Bozo e acha que nós mortais temos de ficar felizes com a “abertura da economia” e o “compliance empresarial”. Os caras aprendem a repetir expressões compostas pra parecer que sabem do que falam.
Notei um sorriso de soslaio no lado esquerdo da boca. A testa do Jonas franziu.
- Ah! Falou o motorista de Uber! Olha Ju, ele não consegue tirar nem dois barão por mês e quer cantar de galo. Ce não tiver pra pagar essa breja eu te empresto viu, man? Hahaha.
- Acho que pisei no calo de alguém...
- Que calo o que, loko! E eu lá sou mulher? Só tenho calo na mão. Hahaha.
- Acho que pisei no calo de alguém...
- Que calo o que, loko! E eu lá sou mulher? Só tenho calo na mão. Hahaha.
De súbito, Júlia protestou:
- Nossa Jo! Como você tá machista!
- Machista não! Eu só reconheço as diferenças naturais entre os gêneros. Cê não vai vir com esse papo de machismo, né? Você também tá nesse negócio monotemático de ideologia de gênero?
- Não é isso, é que eu acho que não existe essa--
- E Laiá!!! Cês tão chato demais, gente! Achei que depois de anos de vocês ai presos nos namoros a gente ia se encontrar e falar da vida, aí cês me vem com essas besteiras de esquerdista? Ficaram solteiros e ficaram mais chatos! Hahaha. O lance é que já foi provado que a sociedade sempre foi patriarcal e o humano só funciona assim.
- Fontes? - Questionou Sílvia interrompendo a própria expressão boquiaberta.
- Oh, eu vou dar uma mijada, mas cara, tem um vídeo que vocês precisam ver. Tudo muito real, nada dessas coisas ideológicas de vocês. Cês conhecem o Olavo? – E levantou rápido para o banheiro.
- Machista não! Eu só reconheço as diferenças naturais entre os gêneros. Cê não vai vir com esse papo de machismo, né? Você também tá nesse negócio monotemático de ideologia de gênero?
- Não é isso, é que eu acho que não existe essa--
- E Laiá!!! Cês tão chato demais, gente! Achei que depois de anos de vocês ai presos nos namoros a gente ia se encontrar e falar da vida, aí cês me vem com essas besteiras de esquerdista? Ficaram solteiros e ficaram mais chatos! Hahaha. O lance é que já foi provado que a sociedade sempre foi patriarcal e o humano só funciona assim.
- Fontes? - Questionou Sílvia interrompendo a própria expressão boquiaberta.
- Oh, eu vou dar uma mijada, mas cara, tem um vídeo que vocês precisam ver. Tudo muito real, nada dessas coisas ideológicas de vocês. Cês conhecem o Olavo? – E levantou rápido para o banheiro.
Acho que percebendo o terreno, desistiu de tentar alguma coisa e decidiu por um pit stop. Olhei pra Júlia e pra Sílvia. O encontro de 3 olhos esbugalhados e bocas abertas falaram mais do que qualquer frase.
Não esperamos pelo Olavo. Porque, com certeza, não aguentaríamos até a terraplana.
Não esperamos pelo Olavo. Porque, com certeza, não aguentaríamos até a terraplana.
segunda-feira, 23 de dezembro de 2019
Detalhes
Se abre num instante.
Lá de fora o que chega primeiro é o
ronco do avião. As motos gritando seguem aos ouvidos na sequência.
É noite.
De frente pro teto um borrão preto,
uma escuridão contínua regularmente marcada por fileiras de luzes passando
pelos orifícios da janela de metal. Caminham de baixo pra cima conforme os
carros passam.
Percebo agora o quão afobado fui a
vida toda. Tantos detalhes passando despercebidos, cada um como uma assinatura
do momento, ganchos pra que as memórias mais tarde encontrem onde puxar e
trazer a lembrança viva ao espaço entre o que os olhos vêm e o que a mente
pensa.
Cada toque, cada aroma, cada imagem, tudo
podia ser aproveitado, quem sabe um pouco mais.
Um motor estaciona perto. A moto
buzina estridente, três vezes. Começa um murmúrio.
Tento destilar cada gota do momento, mental e real, deitado no escuro, focado no instante, pensando em onde estou. Faz tempo que não faço isto.
Tento destilar cada gota do momento, mental e real, deitado no escuro, focado no instante, pensando em onde estou. Faz tempo que não faço isto.
Dia destes veio outro daquele maldito
coração batendo forte. Não sei se é pelo salto muito grande que a minha cabeça
fez pro futuro, o beck mofado ou só outro dos espasmos das minhas feridas.
Não, não uma real; de um corte ou mordida de cachorro.
Uma daquelas que todos vamos acumulando na vida e que, vez ou outra, ardem e coçam pra caralho, por debaixo da pele e dentro da cabeça, deixando nossas frases e respostas meio aéreas ou simplesmente nos silenciando por umas horas ou dias.
Lá embaixo o murmúrio continua. Dou uma espiada pelas frestas. Dois caras. Já passam das 23:00. Um deles tá bem feliz. Tá contando uma história. Parece que saiu da cadeia hoje. Saidinha. Do outro lado da rua entre os prédios, da janela do apartamento do térreo, a velha da Dulce afasta um pouco a cortina branca de rendas na ponta e observa tudo. Ê véia que gosta de fofocar!
O escrutínio é severo e atento.
Volto a deitar.
Já faz uns 10 minutos que estou aqui. Nunca me ensinaram a meditar. Também nunca tive a paciência de ficar sentado pensando "em nada" pra o que? Nada!?
Será que era pra nada, mesmo? Bom. Li outro dia que a fita é deixar os pensamentos rolarem e só contemplar o que passa, enquanto você se fixa na respiração. Uma espécie de âncora pra te manter seguro e concentrado enquanto sua mente veleja livre.
Já faz uns 10 minutos que estou aqui. Nunca me ensinaram a meditar. Também nunca tive a paciência de ficar sentado pensando "em nada" pra o que? Nada!?
Será que era pra nada, mesmo? Bom. Li outro dia que a fita é deixar os pensamentos rolarem e só contemplar o que passa, enquanto você se fixa na respiração. Uma espécie de âncora pra te manter seguro e concentrado enquanto sua mente veleja livre.
Foi nessa onda que me peguei pensando
nisto. Estranho porque aqui, parece que estou numa terceira camada de toda essa
história. Como estou pensando nisto tudo se... estou vivendo isto tudo?
Percebo que, na realidade, cada fato e gesto se traduz em imagens na minha cabeça, formando camadas de pensamento diferentes.... Começo a velejar mais distante.
Percebo que, na realidade, cada fato e gesto se traduz em imagens na minha cabeça, formando camadas de pensamento diferentes.... Começo a velejar mais distante.
Quantos pequenos gestos realizados
displicentemente deram uma falsa impressão de mim? E aquela piada meio torta
que falei semana passada na mesa do bar? O povo ficou me olhando meio
desconcertado. Fizeram aquele "É..." condescendente... Quantos se
afastaram porque também não estavam prestando atenção o suficiente nos
detalhes? Nos meus detalhes? Quantos se importaram?
Quanta dor causei por isto? Quanto
deixei de observar no outro? Quantas vezes coloquei a minha grande imagem
idealizada do mundo passar por cima de tantos detalhes, ações, movimentos, expectativas
e desejos desses tantos que passaram por minha vida? E quantas vezes fui
esmagado por outros tratores de outros como eu?
O teto fica vermelho.
E então azul.
Minha âncora me recolhe. A regular intermitência azul-vermelho bate no céu obscuro de meu teto e atinge meus olhos, passando entrecortada pelos buraquinhos da janela. Um barulho alto começa. Um freio estridente corta o silêncio, como um prólogo.
E então azul.
Minha âncora me recolhe. A regular intermitência azul-vermelho bate no céu obscuro de meu teto e atinge meus olhos, passando entrecortada pelos buraquinhos da janela. Um barulho alto começa. Um freio estridente corta o silêncio, como um prólogo.
"Vai, filho da puta, nóia do caralho. Tá de volta?"
Passos apressados e portas se abrindo
ecoam pelos cubículos dos prédios.
Na rua entre eles os vermes gritam e xingam. O barulho de uma moto se espatifando no chão é inconfundível. A autoridade confiante parece irritadíssima.
Na rua entre eles os vermes gritam e xingam. O barulho de uma moto se espatifando no chão é inconfundível. A autoridade confiante parece irritadíssima.
"Tá com bom comportamento é? Não
falaram pra'queles troxas que na rua cê não se comporta? Animal igual você tem
de ficar enjaulado ou empalhado!"
Volto pras frestas.
Risos e gargalhadas, de uns 4 PM's,
são brevemente interrompidos pelo cara da moto. "Eu to de saidinha senhor,
não faço mais nada disso, agora lá dentro vou até na igre--" Um soco
interrompe a frase.
O amigo dá um passo pra trás e é advertido: "Não foge não filho da puta, senão cê some junto".
O amigo dá um passo pra trás e é advertido: "Não foge não filho da puta, senão cê some junto".
Começa uma sessão de espancamento de
frente pra todas as casas. O maluco na moto e o muleque na porta já estão no
chão. Ele tem família, mas parece que não tem ninguém em casa hoje.
Não posso ficar aqui. Que que eu vou fazer? Porra, se eu ficar parado eu sou só mais um cusão. Pelo menos filmar, né?!! É meu direito! Esses putos não podem vir aqui e tacar o terror desse jeito! É dia 23 de dezembro, porra!
Vou pra janela da área de serviço.
Vejo rapidamente os outros dormitórios. Como uma cascata, algumas luzes
distantes, tipo as de uma cozinha nos fundos ligando pra iluminar a sala,
começam a ascender. A Dulce já abriu a cortina e a janela. De onde ela olha não
conseguem vê-la, mas ela parece vê-los bem.
Entre cassetetes e chutes o moleque do portão berra que são trabalhadores; recebe uma bota entre os dentes. Não tenho certeza, mas acho que vi um dente cair na poça de sangue mal iluminada que ele cuspiu no chão.
O da saidinha não tá com melhor sorte. Três espancam chutando e dando cacetadas no coitado. Estão todos rindo, apontando, xingando.
Que que eu faço porra??
Logo atrás deles, no meio da rua, pararam a viatura. Corri pra cozinha e peguei meu celular. Essa porra de resolução não chega até lá. A janela tá meio entreaberta, se eu for até ela e esticar o braço... Não, porra! Quase me viram! Será que não vão marcar minha mãe? E a Letícia? É seu direito, caralho! Vai lá, tira uma foto!
O borbulhar mental se resolve e meio que alcança uma forma consensual: tiro uma foto, meio torto, semi-agachado, olhando, com a cabeça atrás da parte fosca da janela, a tela do celular no espaço entreaberto.
Peguei a porra do número em cima da viatura! Os moleques tão cuspindo muito sangue. Já devem estar apanhando há uns 6 ou 7 minutos.
As janelas começam a se abrir. O conflito interno de cada um parece ir se resolvendo pouco a pouco, tão mais rápido quanto mais dura a tortura na rua.
Entre cassetetes e chutes o moleque do portão berra que são trabalhadores; recebe uma bota entre os dentes. Não tenho certeza, mas acho que vi um dente cair na poça de sangue mal iluminada que ele cuspiu no chão.
O da saidinha não tá com melhor sorte. Três espancam chutando e dando cacetadas no coitado. Estão todos rindo, apontando, xingando.
Que que eu faço porra??
Logo atrás deles, no meio da rua, pararam a viatura. Corri pra cozinha e peguei meu celular. Essa porra de resolução não chega até lá. A janela tá meio entreaberta, se eu for até ela e esticar o braço... Não, porra! Quase me viram! Será que não vão marcar minha mãe? E a Letícia? É seu direito, caralho! Vai lá, tira uma foto!
O borbulhar mental se resolve e meio que alcança uma forma consensual: tiro uma foto, meio torto, semi-agachado, olhando, com a cabeça atrás da parte fosca da janela, a tela do celular no espaço entreaberto.
Peguei a porra do número em cima da viatura! Os moleques tão cuspindo muito sangue. Já devem estar apanhando há uns 6 ou 7 minutos.
As janelas começam a se abrir. O conflito interno de cada um parece ir se resolvendo pouco a pouco, tão mais rápido quanto mais dura a tortura na rua.
“Vai matar os moleques, seus covarde!”
diz um grito anônimo rompendo a cena de horror. “É tudo trabalhador aqui, seus
coiso! Deixa eles!”.
O PM que desceu o carro primeiro vasculha os olhares. Seus dentes serrados e olhos esbugalhados dão uma feição estranha. Os cara tão vidrado.
Começa a berrar: “Se aqui só tem trabalhador, que que esse filho da puta tava fazendo quando pegamos ele vendendo na biqueira ali atrás? Cês são os culpados! Cês protegem esses filhos da puta e com a biqueira tão ganhando, né?! Quando voltam, voltam pro ninho! Quem falar demais vamo levar de testemunha e vai passar o Natal no DP!”
Ainda assim, mais e mais janelas continuam a ascender.
Agora mais cortinas brancas se afastam, tem até alguns com as janelas abertas, consigo ver algumas telas de celular. Os murmúrios começam a se tornar mais altos, agora vindo de todos os lados.
Os PM’s percebem. Os golpes escasseiam. Deve ter parecido uma eternidade pra'queles dois tomando tanta pancada. Os gemidos se transformam em tosses molhadas. Os xingamentos agora se chocam com força contra a rua.
“PÉ de porco! Cês não servem pra nada aqui!”; “Veio pegar a caixinha de natal e não recebeu, seu safado!”; “Isso é abuso, cês tão matando os menino!”.
Me encorajo:
Vão pra casa do caralho seus verme! O cara só tava conversando! Ninguém precisa de vocês aqui, seu lambe bota de patrão, hipócrita; é quase dia 24 de dezembro porra; olha o tanto de sangue que cê tá arrancando de quem não fez nada pra você; olha as crianças vendo tudo, as velhinhas... cês tem orgulho do que fazem???!!
O primeiro PM a sair do carro para, levanta a cabeça e me olha na janela.
Não diz nada.
Apenas olha, em um intervalo não muito longo, mas particularmente expressivo.
Uns três segundos.
Não consigo ver nenhuma mudança em sua expressão, já séria, pelo que ocorre. Só percebo um leve apertar de olhos, como quem tenta ver melhor algo.
Começa a olhar para as outras janelas e pros caras no chão.
Rapidamente ele vira e começa a dar ordens pros outros PM’s.
Dois deles puxam e levantam o da saidinha. Nem falam nada pro moleque no chão, cuspindo sangue. Abrem o porta-malas da barca e jogam o primeiro. Um deles pega a moto e dá a partida.
Todos dentro, as luzes da viatura param. Ela sai e a moto vai atrás.
O moleque no chão levanta a cabeça ensanguentada, todo ofegante. Dulce já tá abrindo a porta com uma toalha na mão, falando algo pra ele.
Assim, do nada, para a cena.
As luzes começam a se apagar, janelas rangendo se fecham, portas batem, os murmúrios diminuem. Já passa da meia noite. Olhando a rua, agora vazia e silenciosa, levanto a cabeça e observo o horizonte, onde vejo a linha que os prédios da Paulista formam.
Tô com sede.
Bebo um copo de água.
Não to no clima de colocar vídeo ou ler nada. Vou pra cama.
Deitado, penso sobre por onde velejei antes disso. Detalhes. Pensava em detalhes.
O número da viatura me vem a cabeça. O rosto do saidinha. Os olhos apertados do verme.
O que vou fazer com todos estes detalhes?
O PM que desceu o carro primeiro vasculha os olhares. Seus dentes serrados e olhos esbugalhados dão uma feição estranha. Os cara tão vidrado.
Começa a berrar: “Se aqui só tem trabalhador, que que esse filho da puta tava fazendo quando pegamos ele vendendo na biqueira ali atrás? Cês são os culpados! Cês protegem esses filhos da puta e com a biqueira tão ganhando, né?! Quando voltam, voltam pro ninho! Quem falar demais vamo levar de testemunha e vai passar o Natal no DP!”
Ainda assim, mais e mais janelas continuam a ascender.
Agora mais cortinas brancas se afastam, tem até alguns com as janelas abertas, consigo ver algumas telas de celular. Os murmúrios começam a se tornar mais altos, agora vindo de todos os lados.
Os PM’s percebem. Os golpes escasseiam. Deve ter parecido uma eternidade pra'queles dois tomando tanta pancada. Os gemidos se transformam em tosses molhadas. Os xingamentos agora se chocam com força contra a rua.
“PÉ de porco! Cês não servem pra nada aqui!”; “Veio pegar a caixinha de natal e não recebeu, seu safado!”; “Isso é abuso, cês tão matando os menino!”.
Me encorajo:
Vão pra casa do caralho seus verme! O cara só tava conversando! Ninguém precisa de vocês aqui, seu lambe bota de patrão, hipócrita; é quase dia 24 de dezembro porra; olha o tanto de sangue que cê tá arrancando de quem não fez nada pra você; olha as crianças vendo tudo, as velhinhas... cês tem orgulho do que fazem???!!
O primeiro PM a sair do carro para, levanta a cabeça e me olha na janela.
Não diz nada.
Apenas olha, em um intervalo não muito longo, mas particularmente expressivo.
Uns três segundos.
Não consigo ver nenhuma mudança em sua expressão, já séria, pelo que ocorre. Só percebo um leve apertar de olhos, como quem tenta ver melhor algo.
Começa a olhar para as outras janelas e pros caras no chão.
Rapidamente ele vira e começa a dar ordens pros outros PM’s.
Dois deles puxam e levantam o da saidinha. Nem falam nada pro moleque no chão, cuspindo sangue. Abrem o porta-malas da barca e jogam o primeiro. Um deles pega a moto e dá a partida.
Todos dentro, as luzes da viatura param. Ela sai e a moto vai atrás.
O moleque no chão levanta a cabeça ensanguentada, todo ofegante. Dulce já tá abrindo a porta com uma toalha na mão, falando algo pra ele.
Assim, do nada, para a cena.
As luzes começam a se apagar, janelas rangendo se fecham, portas batem, os murmúrios diminuem. Já passa da meia noite. Olhando a rua, agora vazia e silenciosa, levanto a cabeça e observo o horizonte, onde vejo a linha que os prédios da Paulista formam.
Tô com sede.
Bebo um copo de água.
Não to no clima de colocar vídeo ou ler nada. Vou pra cama.
Deitado, penso sobre por onde velejei antes disso. Detalhes. Pensava em detalhes.
O número da viatura me vem a cabeça. O rosto do saidinha. Os olhos apertados do verme.
O que vou fazer com todos estes detalhes?
sexta-feira, 8 de novembro de 2019
STF nega prisão em segunda instância: Liberdade... Mas pra quem?
É sempre um "anti-climax" tratar fria e objetivamente da política em momentos de euforia como este.
O jogo de velocidades entre as alas burguesas envolvendo a liberdade de Lula se acirrou hoje.
Em todas as manchetes há chamadas sobre quais as possibilidades dele, solto, se candidatar; senadores e deputados afirmando que pautarão, as pressas, a mudança da legislação sobre a possibilidade de prisão já em segunda instância; euforia na bolha "progressista" petista e semipetista; polvorosa na bolha bolsonarista e conservadora.
Lembremos: o STF, uma casta social de juízes vitalícios que não foram eleitos por ninguém, decidiu, por margem apertada de 6 a 5, que, segundo a constituição, para prender, só depois de todos os recursos a justiça.
Não deixaram, é claro, a porta fechada para que "o legislativo possa exercer seu direito de modificar a legislação", com o adendo do Jardineiro Paraguaio, Alexandre de Moraes, de que cabe ao juiz do caso analisar o caráter "cautelar" da prisão.
Piada pronta. Num país em que 41% dos presos são preventivos, ou seja, nem julgamento em primeira instância tiveram, alguém acredita que todos estes serão soltos?
Graças a "lei de drogas" de 2006, em que o PT, junto dos atuais desafetos e outrora aliados do centrão, MDB e até de Bolsonaro no PP, ajudou a transformar o Brasil no terceiro maior contingente carcerário do país, a política de drogas se transformou em política de CONTENÇÃO social e terror de Estado contra a população pobre e trabalhadora brasileira: a maioria negra.
Acreditar nessa decisão é o equivalente a acreditar que o aristocrático STF, presidido por Tóffoli, que num dia beija as mãos dos generais, legitima o impeachment e as reformas trabalhista e da previdência contra o povo e, no outro, diz, indignadíssimo, que "todos sabemos que quase metade dos presos no Brasil nem julgados foram", se tornou a principal arma contra a política das elites desde pelo menos a abolição!
Ou seja, que são as armas contra si mesmos!
Porque é isso meus amigos. A atual lei de drogas nada mais é do que a continuidade da lei da vadiagem: um pretexto usado para amedrontar e tirar de circulação todos os "elementos" negros e proletários que, após a abolição, não viram nem cheio de REFORMA AGRÁRIA, como nos, para tais juízes, invejáveis países civilizados europeus.
E sem terra pra plantar e moradia, como os negros iriam se abrigar e alimentar? Voltando a exploração dos mesmos senhores de escravos.
Uma política de gestão da miséria, da superexploração e da pobreza, vistas em quaisquer quebradas do país, através da repressão e violência
Eis aí a história dos últimos 130 anos, em que a superexploração do corpo do trabalhador e da trabalhadora negra, inclusive pelas mesmas famílias de senhores de escravos, são a continuidade da abolição mais tardia da história da humanidade, o que marca o Brasil até hoje.
É pensando nisso que, apesar da decisão do STF, alas inteiras do Senado e da Câmara aceleram seu carrinhos para tentar, antes da saída ou da anulação da condenação de Lula no caso do triplex (falam em iniciar as decisões na CCJ do senado na semana que vem), mudar a legislação para permitir esta prisão antes de todos os recursos.
Assim a ala lavajato-bolsonarismo, unida neste caso, mata dois coelhos: impede que seja enfraquecida com o "retorno do mártir" e mantém o projeto estratégico de eliminar qualquer contradição que os impeça de seguir o encarceramento ilegal, ilegítimo e imoral, dos negros no país, tentando convencer a elite em debandada de que "eles mostram serviço".
Por outro lado, há forças em movimento abaixo da superfície que a euforia não permite ver.
O conjunto do consórcio burguês em ação (comercial, latifundiário, rentista, banqueiro, industrial, gringo) fez o que fez desde 2014 para destruir o antigo pacto que significou a constituição de 88.
Dela só restam escombros. As relações de trabalho foram destruídas e substituídas pela precarização, terceirização e informalidade. A população mais pobre vai, estatisticamente, morrer contribuindo sem aposentadoria. A superexploração é base de taxas recordes de lucro para os bancos e para as grandes empresas industriais que ainda estão por aqui.
Por outro lado, o Brasil encara uma das maiores desindustrializações da história, vê toda uma camada de centenas de milhares de "empreendedores" falindo e voltando ao trabalho assalariado e assume sua vocação na nova divisão internacional do trabalho: o de ser uma semicolônia de exportações de produtos primários e só: ferro, petróleo, milho e soja. Nenhum país possui qualquer autonomia política desse modo.
Existem, no entanto, evidentes insatisfações com Bolsonaro e seu projeto de totalitarismo populista de direita e, se der, diretamente fascista, com sua declaração como "generalíssimo".
Ele nunca foi o filho pródigo. Esse se chamava Alckmin mas, apesar de dezenas de partidos e minutos na TV em seu apoio em 2018, não foi convidado nem para o banquete principal.
Bozo, então, teve de ser engolido, com seus métodos de gângster e suas tramóias corruptas, pelo menos até cumprir o máximo dos interesses do consórcio burguês.
Ocorre que esse tempo já passou após a aprovação das reformas e seu apoio popular, como demonstram as pesquisas, e nas elites, como demonstram os escândalos de Mariele e o fiasco da venda do Pré-sal, se corrói em praça pública.
A corrida de velocidades, distante do que as mentes ingênuas podem pensar - e não há erro maior do que a ingenuidade, na política -, que pode permitir a soltura de Lula e o retorno de seus direitos eleitorais caso tenha sua condenação anulada no caso do triplex, também pelo STF, vai ser definida pelas movimentações de interesses da burguesia e da disputa entre as alas da burguêsia dos EUA.
Com Trump enfraquecido, os democratas e o "deep state" Yankee, junto de um setor da burguesia brasileira podem chegar a conclusão, como é o que indica, de que esse nível de polarização é imprevisível e perigoso no Brasil.
Lula pode ser escolhido como o artífice de uma nova etapa de conciliação de classes, vendida como "vitória popular", que vai lavar a cara do STF (que até aqui sambou na cara da constituição e apoiou de temer a Bolsonaro contra os direitos do povo), "dar um ar" para o regime político carcomido e, ainda assim, seguir trabalhando com os mesmos interesses das elites, principalmente a estadunidense.
A prova de fogo? Saindo, Lula vai lutar para revogar TODAS as reformas que destroem nossa vida ou para eleger os seus? Uma vez no poder, dirá que "não pode se revogar porque o senado e o congresso não querem"? Quer jogo melhor?
Lava as mãos, como a CUT e os sindicatos fizeram até agora, permite o retrocesso geral, diz que "é o que dá", retorna o toma lá da cá, o presidencialismo de coalizão com MDB e afins e, no final, negocia um lugar no novo regime que surgiu do golpe de 2016, em troca de pacificar, através da emoção e da lembrança, por alguns anos, a massa de miseráveis brasileiros.
Tudo sem tocar em nada do "PF" burguês, ou seja, os direitos trabalhistas ,empregos e a aposentadoria, arrancados pra obterem mais lucro e transferirem dinheiro pra pagar a dívida pública mentirosa com os bancos
Esse é o retrato não tão distante do Brasil e da abrangência do debate de hoje.
Assim, a liberdade virá pra quem? Nosso país, nosso povo mais pobre, nossas quebradas, nossa juventude, estarão livres?
Nem toda euforia se justifica...
domingo, 20 de outubro de 2019
Revoltas na América latina e crise no Brasil: o que é ser de esquerda e socialista?
Até 2013 é possível dizer que, diante da massa de trabalhadores e mesmo de seu
setor mais ativo politicamente, a chamada “vanguarda”, era muito confusa a
definição do que chamamos “esquerda”.
Como resposta a piora de vida obtida pelos governos neoliberais da direita anteriores a Lula, milhões de brasileiros projetaram suas expectativas na eleição vitoriosa para presidente, pela primeira vez na história, de um candidato do PT.
O teto de um “projeto de país”, se assim podemos chamar a conjunção amorfa de expectativas populares, estava contido na fórmula PTista de avanço gradual das condições de vida baseado no consumo e medidas assistenciais.
Para isso, o crédito barato, controle inflacionário e cambio flutuante, o “tripé macroeconômico” do neoliberalismo, eram a política econômica num período muito especial de nossa história: o boom das commoditties, com a enorme quantidade e o alto valor de mercado dos bens primários (soja, minério de ferro, petróleo cru, cana, etc) vendidos principalmente para a China.
Com suas altíssimas taxas de crescimento, chegando a dois dígitos, num período de quase três décadas seguidas, a China arrastou o Brasil e o protegeu dos primeiros efeitos da enorme crise econômica mundial aberta em 2008.
Tal bonança momentânea esteve por trás do crescimento nos dois mandatos de Lula e na maior parte do governo Dilma até 2013.
Esta conjuntura, se beneficiou os mais pobres através de programas de transferência de renda, como o “Bolsa Família” e a ampliação do acesso da juventude mais pobre as universidades através do PROUNI e FIES, também tornou a vida dos grandes monopólios empresariais e bancos muito melhores, com lucros recordes de bilhões, muito além do gasto nestes programas sociais.
Os efeitos práticos dessa fórmula já são bem conhecidos e são a base da força PTista no período:
A conciliação entre trabalhadores e magnatas realizada pelo PT num momento econômico favorável aparecia aos milhões de trabalhadores como um plano esperto e bem sucedido, sendo o efeito mais marcante do crédito barato e dos programas assistenciais a formação de uma base eleitoral sólida que, acreditando na gradual melhora de vida, conduzia todas as energias e expectativas de resolução dos problemas para dentro do Estado e seus ministérios, instituições e programas.
Vimos uma diminuição das lutas até 2012 em todo o país e o PT, longe de se definir como “esquerda”, adorava se posicionar como “de centro”, vendendo a imagem de um administrador “mais humano” do neoliberalismo e do capitalismo.
O ano de 2013, no entanto, pode ser definido como o marco em que aparecem os limites mais claros a esse cenário de bonança, coincidente com a desaceleração do crescimento chinês.
Este ano, marca a abertura do processo de fissura social que explode na luta contra as o aumento das passagens, botando as “massas” no centro do jogo político, ainda que sem muita forma, englobando de trabalhadores a membros da classe média, todos descontentes com o alto custo de vida nas cidades e, em seguida, com as medidas de austeridade que, a partir de 2014, começam a ser tomadas pelo PT como forma de responder a crise graças a perda de impulso dado pelas exportações internacionais.
De lá para cá sabemos bem como se deu o processo de manipulação midiática e organização do consórcio empresarial nacional e estrangeiro, cujos pontos marcantes são o golpe institucional contra Dilma, como forma de tirar o PT do caminho, acelerar os ataques e, é claro, obter as joias da coroa, a reforma trabalhista e da previdência.
De 2015 até hoje, como mostra a análise da série histórica da PNAD a desigualdade brasileira cresce ininterruptamente, num processo de desagregação econômica flagrante: o PIB caiu 8% na soma dos anos de 2015 e 2016 e nos anos seguintes estagnou, dando sinais de que haverá nova queda em 2019.
Os dados socioeconômicos¹ já são conhecidos e sentidos, com metade de todos os trabalhadores na informalidade(!),14 milhões de desempregados e uma realidade em que o 1% mais rico ganha uma renda 34 vezes maior (!!) do que os 50% mais pobres, cuja renda não passa de 820 reais mensais.
Do “Brasil Potência”, com a promessa de crescimento gradual para todos, chegamos ao país que mais concentra renda no 1% mais rico no mundo (!!!).
O problema da concentração de renda está na base do principal problema brasileiro, muito maior do que a corrupção: a desigualdade econômica.
A concentração de renda brasileira não é um problema novo e é resultado do fato de que o Brasil historicamente, na divisão internacional do trabalho ocupa o papel de “semicolônia”, cujo papel é suprir as grandes metrópoles capitalistas com seus insumos e importar, a preços muito mais altos, todo o maquinário, tecnologia e produtos industrializados delas.
Sendo assim, tem sua economia dominada pelos grandes bancos que são aqueles que possuem o capital necessário, concentrado através de juros absurdos, para se investir, seja na agricultura ou nas indústrias que existem no país.
A atual crise levou, até 2017, ao fechamento de mais de 350 mil empresas, dentre estas, obviamente, a maior parte de pequenos negócios (99% com até 9 funcionários)², levando a maior concentração da produção e serviços nas mãos dos poucos monopólios internacionais, igualmente controlados, é claro, pelos bancos dos quais dependem para obter capital e investir.
A classe média e pequena-burguesia, que arriscava seu pouco capital quebrou aos milhões e o sonho do Brasil “empreendedor” parece cada vez mais sepultado; o que, de alguma forma, explica ao mesmo tempo o ódio deste setor ao PT - que, no entanto, lhes havia prometido bons e graduais ventos para sempre - e seu apoio entusiasmado, que já começa a esvaziar, a Bolsonaro, que prometeu acabar com “tudo isso” e obter algum crescimento mágico.
A concentração de renda é a expressão social e econômica de um modelo de acumulação de riqueza que, por sua vez, depende fundamentalmente do principal problema do capitalismo para os trabalhadores, que deveria ser o centro do combate de algo chamado de “esquerda”: a exploração do trabalho, ou seja, o conhecido mecanismo através do qual a minoria de patrões toma a maior parte da riqueza gerada pelo trabalho ("mais valia ou mais valor") de cada trabalhador sem pagar nada por isto, apenas pagando um salário cujo valor é muito menor do que a riqueza gerada por ele.
E é aqui que a crise, apesar de seus efeitos agravantes do ponto de vista social, econômico e, inclusive, psicológico para nossa geração, nos oferece uma oportunidade única: a de dar nome ao que se chama de “esquerda” e, assim, entender seus projetos (ou a falta deles) para o país.
Num momento de melhores condições econômicas e esperanças de melhoria gradual, ou seja, todo o período de formação (no caso dos mais jovens) e um longo período de atuação (no caso dos mais velhos) das atuais lideranças dos partidos socialistas brasileiros, como PSOL, PSTU, PCB e outros menores, era muito difícil se observar os efeitos práticos e as diferenças práticas das posições políticas, posicionamentos e propostas entre tais grupos.
Com as energias populares desviadas para dentro do Estado burguês, esperando uma resolução de seus problemas “por cima”, grande parte dos trabalhadores e pobres nem sequer sabiam da existência de tais organizações, sendo um período de muita pressão a que estas se adaptassem a gritar aos quatro ventos, sem muito efeito, esmagadas pelo peso da ilusão PTista.
Tal escola não foi muito boa pois, quando a situação deu um giro e, desde 2013, encontramos um país em convulsão e polarizado, com uma recessão profunda, estes partidos se encontraram sem ligações, sem projeto e sem respostas claras para a profunda piora da vida, dos trabalhos (informais, terceirizados, uberizados, desestruturados, intermitentes) e da renda da maioria da população.
O que é ser então de esquerda e, mais enigmático ainda, “socialista” no Brasil de 2019?
A resposta a esta pergunta está, inevitavelmente, na resposta que tais grupos dão (ou não dão) ao problema da base de acumulação de capitais, ou seja, a exploração do trabalho, e, assim, ao problema do Poder no Brasil.
Recentemente, tomou a atenção de toda a América latina a enorme revolta dos trabalhadores, camponeses e indígenas do Equador, contra as medidas de austeridade de seu governo, que nada mais eram do que exigências do FMI para emprestar dinheiro.
Vivemos, neste exato momento, uma onda de revolta popular no Chile, cuja gravidade levou ao governo capitalista de Piñera a determinar o absurdo “estado de emergência”, buscando impedir o direito de expressão, organização e reunião em toda cidade de Santiago, colocando mais de 10 mil militares nas ruas para intimidar o povo que se revolta, pula catracas, toma estações e apedreja multinacionais que lucram bilhões enquanto pioram a vida da maioria.
Estes dois exemplos tem em comum o fato de que os trabalhadores, cansados e já esmagados por uma vida dura, sem saber se conseguirão terminar o mês pagando suas contas, se viram diante de mais “faca na carne” e decidiram tomar os destinos e rumos da política e economia em suas mãos: tomando as ruas, praças, empresas e estações e gritando que não aceitarão serem mais esmagadas.
Esta “ação direta” das massas corresponde a um sinal dos tempos para toda a América Latina diante de uma crise mundial que se avizinha e uma vida que só piora. Já figuram nas manifestações chilenas algo muito parecido com o que se dizia em 2013 no Brasil, de que os atos “não são só por 20 centavos”, mas também por moradia, saúde, educação, contra a lata dos combustíveis, das tarifas, etc.
Sem projeto e direção, no entanto, tais revoltas podem ser desviadas ou se esvaziar.
Ocorre que as atuais organizações da esquerda continuam em seu caminho distante de uma resposta revolucionária, a única eficaz contra a exploração do trabalho e, portanto, contra o capitalismo e seus efeitos.
O problema não é apenas que o PSOL abandonou, de conjunto, qualquer agitação de idéias que apontem para o fim da exploração do trabalho, defendendo a propriedade coletiva de todas as grandes empresas, monopólios e bancos. Tampouco que não mencionem como objetivos a nacionalização de todos os bancos e seus capitais, como forma de acabar com o controle destes sobre tudo o que é produzido e no que se investe no país.
Também não é apenas o fato de que o PSTU mantém uma fraseologia de “revolução”, enquanto atuam em seus sindicatos vendo demissões (metrô, Embraer, GM), fechamento de fábricas (Embraer), sem fazer ou dar qualquer exemplo de luta ou, como vários dos menores grupos, nem sequer tem influência e relação com a massa de trabalhadores e seus trabalhos precários.
O ponto fundamental do problema é que não apenas tais organizações estão isoladas da maioria dos trabalhadores, como suas ações não se preparam para se ligar a estes e nem aos trabalhadores para o necessário choque contra o Estado e suas “forças fáticas”, como a polícia e o judiciário, quando as explosões acontecerem, novamente, no Brasil.
Em poucas palavras, as organizações ditas “de esquerda” e “socialistas”, adaptadas a vida na “democracia burguesa”, seguem conduzindo todas as esperanças dos poucos setores populares que influenciam para o Estado, sua Justiça e suas instituições, sem nem sequer buscar se ligar aos trabalhadores mais explorados, onde residem as energias mais explosivas.
Como explicar que num país de 14 milhões de desempregados, não existe uma ação comum das organizações para organizar e ajudar, seja com cursos, doação de alimentos, criação de espaços de organização comum entre empregados e desempregados, nada, para retomar a consciência de classe de que “trabalhador luta por trabalhador”?
O projeto máximo que apontam - no caso do PSOL - é a eleição de mais parlamentares não para acabar com a exploração do trabalho e, assim, com a concentração e renda, base da acumulação de capital e da desigualdade, mas para “civilizar”, “suavizar” ou “humanizar” a esta, até, talvez, o que considerem níveis mais “toleráveis” dessa exploração.
Nos casos como do PSTU e demais grupos, a ausência de projeto sério é substituída por frases que chamam “rebeliões socialistas”, sem a menor condição e preparação.
Uma revolução é, por definição, um giro brusco que muda tudo, todas as formas das pessoas se relacionarem entre si, de realizar as trocas, a distribuição dos bens produzidos, como estes bens são produzidos na sociedade, enfim, uma alteração no modo de produção da economia e da sociedade.
O momento crucial e a coroação de uma Revolução é a insurreição.
Quando a “energia” dos trabalhadores e oprimidos, não mais como levantes difusos e espontâneos, mas organizadamente, se dirige ao poder e o arranca das mãos de seu antigo dono (em nosso caso, a burguesia e suas instituições) inaugurando a construção de uma nova sociedade.
Exemplos históricos são abundantes e, neles, uma coisa é certa: a insurreição é um ato prático.
Ela demanda preparação, apoio das maiorias do povo, planejamento, tomada de posições (literalmente pontos econômica e estrategicamente relevantes da cidade) enfim, estratégia e, esta, se desenvolve da estratégia de poder organizada bem antes de ser visível o momento possível de uma insurreição.
Sem isto, motins, levantes e revoltas acontecerão como sempre na história da humanidade, mas não haverá solução, tanto para o problema da exploração do trabalho, a base da desigualdade sob o capitalismo, nem para qual nova sociedade colocar no lugar do capitalismo.
Nossa esquerda partidária atual está, teórica e praticamente, muito distante de oferecer respostas e, de sua atual posição, não oferece mais do que performances teatrais parlamentares e sindicais que tem em comum o abandono, na prática, da luta pela superação do capitalismo.
A cada novo levante como no Chile e no Equador, se coloca a questão do Poder, de “quem manda na cidade”, na fábrica, nas terras, no país, em suma, coloca-se a questão de projeto de sociedade nas mentes de todos os que assistem e participam.
Estas oportunidades são únicas para os revolucionários responderem com suas idéias e práticas que a melhoria de vida não pode vir com a administração do capitalismo, que a riqueza numa ponta significa pobreza na outra.
São as chances de obterem influência e, junto dos trabalhadores, a classe social que produz tudo, construírem uma organização que se aproxime mais e mais da influência e organização necessárias para, no momento decisivo, realizarem a insurreição e a tomada do poder, que dará início a um novo governo das maiorias e ao fim do capitalismo no Brasil e, assim, em outros países do mundo.
Quanto mais hegemônica e alastrada for a influência dos trabalhadores revolucionários, menor será a resistência e, assim, violência dos atuais “concentradores de renda”, tornando a revolução o menos violenta possível, algo desejável por qualquer marxista.
Maiores serão, também, as energias para construir a nova sociedade e um governo democrático de representantes sem privilégios salariais, revogáveis, eleitos e controlados diretamente pelo povo, realizar a industrialização, a universalização do acesso a educação, saúde, moradia, transporte e alimentação e, enfim, construir um projeto de país e de mundo que, conforme outras revoluções eclodam em outros países, somem a solidariedade dos trabalhadores de todos os países para enterrar de vez este sistema de exploração.
Este é um projeto que demanda uma construção através da estratégia revolucionária mencionada. Quando, no entanto, se diz em voz alta, se percebe a distância entre este caminho e o trilhado pela “estratégia” das atuais organizações ditas “socialistas”.
Certamente, no entanto, assim como é muito mais fácil diferenciar na prática as atuais organizações quando o “calor” dos acontecimentos pressionam nossas vidas, também será inevitável que rupturas e fusões ocorram sob a pressão dos erros e becos sem saídas nos quais estas entraram.
Seus militantes refletirão, com a honestidade exigida pelos tempos, o porquê de suas ações terem pouco ou nenhum efeito e, uma vez mais, os mais revolucionários, dentro e fora destes partidos, encontrarão seu caminho.
Enquanto existir exploração haverá luta. E enquanto há luta, há chance de vitória. Desde que a preparemos.
¹https://exame.abril.com.br/economia/1-mais-rico-ganha-34-vezes-mais-do-que-a-metade-mais-pobre-diz-ibge/?fbclid=IwAR0IpHciBVGfFXmX95tfW6sxybGuPLx4LbVxKJuXbU3UQ_BsSlnV1RZfzDI
²https://noticias.r7.com/economia/brasil-fecha-mais-empresas-do-que-abre-pelo-4-ano-seguido-diz-ibge-17102019
Como resposta a piora de vida obtida pelos governos neoliberais da direita anteriores a Lula, milhões de brasileiros projetaram suas expectativas na eleição vitoriosa para presidente, pela primeira vez na história, de um candidato do PT.
O teto de um “projeto de país”, se assim podemos chamar a conjunção amorfa de expectativas populares, estava contido na fórmula PTista de avanço gradual das condições de vida baseado no consumo e medidas assistenciais.
Para isso, o crédito barato, controle inflacionário e cambio flutuante, o “tripé macroeconômico” do neoliberalismo, eram a política econômica num período muito especial de nossa história: o boom das commoditties, com a enorme quantidade e o alto valor de mercado dos bens primários (soja, minério de ferro, petróleo cru, cana, etc) vendidos principalmente para a China.
Com suas altíssimas taxas de crescimento, chegando a dois dígitos, num período de quase três décadas seguidas, a China arrastou o Brasil e o protegeu dos primeiros efeitos da enorme crise econômica mundial aberta em 2008.
Tal bonança momentânea esteve por trás do crescimento nos dois mandatos de Lula e na maior parte do governo Dilma até 2013.
Esta conjuntura, se beneficiou os mais pobres através de programas de transferência de renda, como o “Bolsa Família” e a ampliação do acesso da juventude mais pobre as universidades através do PROUNI e FIES, também tornou a vida dos grandes monopólios empresariais e bancos muito melhores, com lucros recordes de bilhões, muito além do gasto nestes programas sociais.
Os efeitos práticos dessa fórmula já são bem conhecidos e são a base da força PTista no período:
A conciliação entre trabalhadores e magnatas realizada pelo PT num momento econômico favorável aparecia aos milhões de trabalhadores como um plano esperto e bem sucedido, sendo o efeito mais marcante do crédito barato e dos programas assistenciais a formação de uma base eleitoral sólida que, acreditando na gradual melhora de vida, conduzia todas as energias e expectativas de resolução dos problemas para dentro do Estado e seus ministérios, instituições e programas.
Vimos uma diminuição das lutas até 2012 em todo o país e o PT, longe de se definir como “esquerda”, adorava se posicionar como “de centro”, vendendo a imagem de um administrador “mais humano” do neoliberalismo e do capitalismo.
O ano de 2013, no entanto, pode ser definido como o marco em que aparecem os limites mais claros a esse cenário de bonança, coincidente com a desaceleração do crescimento chinês.
Este ano, marca a abertura do processo de fissura social que explode na luta contra as o aumento das passagens, botando as “massas” no centro do jogo político, ainda que sem muita forma, englobando de trabalhadores a membros da classe média, todos descontentes com o alto custo de vida nas cidades e, em seguida, com as medidas de austeridade que, a partir de 2014, começam a ser tomadas pelo PT como forma de responder a crise graças a perda de impulso dado pelas exportações internacionais.
De lá para cá sabemos bem como se deu o processo de manipulação midiática e organização do consórcio empresarial nacional e estrangeiro, cujos pontos marcantes são o golpe institucional contra Dilma, como forma de tirar o PT do caminho, acelerar os ataques e, é claro, obter as joias da coroa, a reforma trabalhista e da previdência.
De 2015 até hoje, como mostra a análise da série histórica da PNAD a desigualdade brasileira cresce ininterruptamente, num processo de desagregação econômica flagrante: o PIB caiu 8% na soma dos anos de 2015 e 2016 e nos anos seguintes estagnou, dando sinais de que haverá nova queda em 2019.
Os dados socioeconômicos¹ já são conhecidos e sentidos, com metade de todos os trabalhadores na informalidade(!),14 milhões de desempregados e uma realidade em que o 1% mais rico ganha uma renda 34 vezes maior (!!) do que os 50% mais pobres, cuja renda não passa de 820 reais mensais.
Do “Brasil Potência”, com a promessa de crescimento gradual para todos, chegamos ao país que mais concentra renda no 1% mais rico no mundo (!!!).
O problema da concentração de renda está na base do principal problema brasileiro, muito maior do que a corrupção: a desigualdade econômica.
A concentração de renda brasileira não é um problema novo e é resultado do fato de que o Brasil historicamente, na divisão internacional do trabalho ocupa o papel de “semicolônia”, cujo papel é suprir as grandes metrópoles capitalistas com seus insumos e importar, a preços muito mais altos, todo o maquinário, tecnologia e produtos industrializados delas.
Sendo assim, tem sua economia dominada pelos grandes bancos que são aqueles que possuem o capital necessário, concentrado através de juros absurdos, para se investir, seja na agricultura ou nas indústrias que existem no país.
A atual crise levou, até 2017, ao fechamento de mais de 350 mil empresas, dentre estas, obviamente, a maior parte de pequenos negócios (99% com até 9 funcionários)², levando a maior concentração da produção e serviços nas mãos dos poucos monopólios internacionais, igualmente controlados, é claro, pelos bancos dos quais dependem para obter capital e investir.
A classe média e pequena-burguesia, que arriscava seu pouco capital quebrou aos milhões e o sonho do Brasil “empreendedor” parece cada vez mais sepultado; o que, de alguma forma, explica ao mesmo tempo o ódio deste setor ao PT - que, no entanto, lhes havia prometido bons e graduais ventos para sempre - e seu apoio entusiasmado, que já começa a esvaziar, a Bolsonaro, que prometeu acabar com “tudo isso” e obter algum crescimento mágico.
A concentração de renda é a expressão social e econômica de um modelo de acumulação de riqueza que, por sua vez, depende fundamentalmente do principal problema do capitalismo para os trabalhadores, que deveria ser o centro do combate de algo chamado de “esquerda”: a exploração do trabalho, ou seja, o conhecido mecanismo através do qual a minoria de patrões toma a maior parte da riqueza gerada pelo trabalho ("mais valia ou mais valor") de cada trabalhador sem pagar nada por isto, apenas pagando um salário cujo valor é muito menor do que a riqueza gerada por ele.
E é aqui que a crise, apesar de seus efeitos agravantes do ponto de vista social, econômico e, inclusive, psicológico para nossa geração, nos oferece uma oportunidade única: a de dar nome ao que se chama de “esquerda” e, assim, entender seus projetos (ou a falta deles) para o país.
Num momento de melhores condições econômicas e esperanças de melhoria gradual, ou seja, todo o período de formação (no caso dos mais jovens) e um longo período de atuação (no caso dos mais velhos) das atuais lideranças dos partidos socialistas brasileiros, como PSOL, PSTU, PCB e outros menores, era muito difícil se observar os efeitos práticos e as diferenças práticas das posições políticas, posicionamentos e propostas entre tais grupos.
Com as energias populares desviadas para dentro do Estado burguês, esperando uma resolução de seus problemas “por cima”, grande parte dos trabalhadores e pobres nem sequer sabiam da existência de tais organizações, sendo um período de muita pressão a que estas se adaptassem a gritar aos quatro ventos, sem muito efeito, esmagadas pelo peso da ilusão PTista.
Tal escola não foi muito boa pois, quando a situação deu um giro e, desde 2013, encontramos um país em convulsão e polarizado, com uma recessão profunda, estes partidos se encontraram sem ligações, sem projeto e sem respostas claras para a profunda piora da vida, dos trabalhos (informais, terceirizados, uberizados, desestruturados, intermitentes) e da renda da maioria da população.
O que é ser então de esquerda e, mais enigmático ainda, “socialista” no Brasil de 2019?
A resposta a esta pergunta está, inevitavelmente, na resposta que tais grupos dão (ou não dão) ao problema da base de acumulação de capitais, ou seja, a exploração do trabalho, e, assim, ao problema do Poder no Brasil.
Recentemente, tomou a atenção de toda a América latina a enorme revolta dos trabalhadores, camponeses e indígenas do Equador, contra as medidas de austeridade de seu governo, que nada mais eram do que exigências do FMI para emprestar dinheiro.
Vivemos, neste exato momento, uma onda de revolta popular no Chile, cuja gravidade levou ao governo capitalista de Piñera a determinar o absurdo “estado de emergência”, buscando impedir o direito de expressão, organização e reunião em toda cidade de Santiago, colocando mais de 10 mil militares nas ruas para intimidar o povo que se revolta, pula catracas, toma estações e apedreja multinacionais que lucram bilhões enquanto pioram a vida da maioria.
Estes dois exemplos tem em comum o fato de que os trabalhadores, cansados e já esmagados por uma vida dura, sem saber se conseguirão terminar o mês pagando suas contas, se viram diante de mais “faca na carne” e decidiram tomar os destinos e rumos da política e economia em suas mãos: tomando as ruas, praças, empresas e estações e gritando que não aceitarão serem mais esmagadas.
Esta “ação direta” das massas corresponde a um sinal dos tempos para toda a América Latina diante de uma crise mundial que se avizinha e uma vida que só piora. Já figuram nas manifestações chilenas algo muito parecido com o que se dizia em 2013 no Brasil, de que os atos “não são só por 20 centavos”, mas também por moradia, saúde, educação, contra a lata dos combustíveis, das tarifas, etc.
Sem projeto e direção, no entanto, tais revoltas podem ser desviadas ou se esvaziar.
Ocorre que as atuais organizações da esquerda continuam em seu caminho distante de uma resposta revolucionária, a única eficaz contra a exploração do trabalho e, portanto, contra o capitalismo e seus efeitos.
O problema não é apenas que o PSOL abandonou, de conjunto, qualquer agitação de idéias que apontem para o fim da exploração do trabalho, defendendo a propriedade coletiva de todas as grandes empresas, monopólios e bancos. Tampouco que não mencionem como objetivos a nacionalização de todos os bancos e seus capitais, como forma de acabar com o controle destes sobre tudo o que é produzido e no que se investe no país.
Também não é apenas o fato de que o PSTU mantém uma fraseologia de “revolução”, enquanto atuam em seus sindicatos vendo demissões (metrô, Embraer, GM), fechamento de fábricas (Embraer), sem fazer ou dar qualquer exemplo de luta ou, como vários dos menores grupos, nem sequer tem influência e relação com a massa de trabalhadores e seus trabalhos precários.
O ponto fundamental do problema é que não apenas tais organizações estão isoladas da maioria dos trabalhadores, como suas ações não se preparam para se ligar a estes e nem aos trabalhadores para o necessário choque contra o Estado e suas “forças fáticas”, como a polícia e o judiciário, quando as explosões acontecerem, novamente, no Brasil.
Em poucas palavras, as organizações ditas “de esquerda” e “socialistas”, adaptadas a vida na “democracia burguesa”, seguem conduzindo todas as esperanças dos poucos setores populares que influenciam para o Estado, sua Justiça e suas instituições, sem nem sequer buscar se ligar aos trabalhadores mais explorados, onde residem as energias mais explosivas.
Como explicar que num país de 14 milhões de desempregados, não existe uma ação comum das organizações para organizar e ajudar, seja com cursos, doação de alimentos, criação de espaços de organização comum entre empregados e desempregados, nada, para retomar a consciência de classe de que “trabalhador luta por trabalhador”?
O projeto máximo que apontam - no caso do PSOL - é a eleição de mais parlamentares não para acabar com a exploração do trabalho e, assim, com a concentração e renda, base da acumulação de capital e da desigualdade, mas para “civilizar”, “suavizar” ou “humanizar” a esta, até, talvez, o que considerem níveis mais “toleráveis” dessa exploração.
Nos casos como do PSTU e demais grupos, a ausência de projeto sério é substituída por frases que chamam “rebeliões socialistas”, sem a menor condição e preparação.
Uma revolução é, por definição, um giro brusco que muda tudo, todas as formas das pessoas se relacionarem entre si, de realizar as trocas, a distribuição dos bens produzidos, como estes bens são produzidos na sociedade, enfim, uma alteração no modo de produção da economia e da sociedade.
O momento crucial e a coroação de uma Revolução é a insurreição.
Quando a “energia” dos trabalhadores e oprimidos, não mais como levantes difusos e espontâneos, mas organizadamente, se dirige ao poder e o arranca das mãos de seu antigo dono (em nosso caso, a burguesia e suas instituições) inaugurando a construção de uma nova sociedade.
Exemplos históricos são abundantes e, neles, uma coisa é certa: a insurreição é um ato prático.
Ela demanda preparação, apoio das maiorias do povo, planejamento, tomada de posições (literalmente pontos econômica e estrategicamente relevantes da cidade) enfim, estratégia e, esta, se desenvolve da estratégia de poder organizada bem antes de ser visível o momento possível de uma insurreição.
Sem isto, motins, levantes e revoltas acontecerão como sempre na história da humanidade, mas não haverá solução, tanto para o problema da exploração do trabalho, a base da desigualdade sob o capitalismo, nem para qual nova sociedade colocar no lugar do capitalismo.
Nossa esquerda partidária atual está, teórica e praticamente, muito distante de oferecer respostas e, de sua atual posição, não oferece mais do que performances teatrais parlamentares e sindicais que tem em comum o abandono, na prática, da luta pela superação do capitalismo.
A cada novo levante como no Chile e no Equador, se coloca a questão do Poder, de “quem manda na cidade”, na fábrica, nas terras, no país, em suma, coloca-se a questão de projeto de sociedade nas mentes de todos os que assistem e participam.
Estas oportunidades são únicas para os revolucionários responderem com suas idéias e práticas que a melhoria de vida não pode vir com a administração do capitalismo, que a riqueza numa ponta significa pobreza na outra.
São as chances de obterem influência e, junto dos trabalhadores, a classe social que produz tudo, construírem uma organização que se aproxime mais e mais da influência e organização necessárias para, no momento decisivo, realizarem a insurreição e a tomada do poder, que dará início a um novo governo das maiorias e ao fim do capitalismo no Brasil e, assim, em outros países do mundo.
Quanto mais hegemônica e alastrada for a influência dos trabalhadores revolucionários, menor será a resistência e, assim, violência dos atuais “concentradores de renda”, tornando a revolução o menos violenta possível, algo desejável por qualquer marxista.
Maiores serão, também, as energias para construir a nova sociedade e um governo democrático de representantes sem privilégios salariais, revogáveis, eleitos e controlados diretamente pelo povo, realizar a industrialização, a universalização do acesso a educação, saúde, moradia, transporte e alimentação e, enfim, construir um projeto de país e de mundo que, conforme outras revoluções eclodam em outros países, somem a solidariedade dos trabalhadores de todos os países para enterrar de vez este sistema de exploração.
Este é um projeto que demanda uma construção através da estratégia revolucionária mencionada. Quando, no entanto, se diz em voz alta, se percebe a distância entre este caminho e o trilhado pela “estratégia” das atuais organizações ditas “socialistas”.
Certamente, no entanto, assim como é muito mais fácil diferenciar na prática as atuais organizações quando o “calor” dos acontecimentos pressionam nossas vidas, também será inevitável que rupturas e fusões ocorram sob a pressão dos erros e becos sem saídas nos quais estas entraram.
Seus militantes refletirão, com a honestidade exigida pelos tempos, o porquê de suas ações terem pouco ou nenhum efeito e, uma vez mais, os mais revolucionários, dentro e fora destes partidos, encontrarão seu caminho.
Enquanto existir exploração haverá luta. E enquanto há luta, há chance de vitória. Desde que a preparemos.
¹https://exame.abril.com.br/economia/1-mais-rico-ganha-34-vezes-mais-do-que-a-metade-mais-pobre-diz-ibge/?fbclid=IwAR0IpHciBVGfFXmX95tfW6sxybGuPLx4LbVxKJuXbU3UQ_BsSlnV1RZfzDI
²https://noticias.r7.com/economia/brasil-fecha-mais-empresas-do-que-abre-pelo-4-ano-seguido-diz-ibge-17102019
terça-feira, 24 de setembro de 2019
Não somos cegos nem estúpidos! Ainda essa de Lula Livre?
A crítica da piora das condições de vida do povo trabalhador hoje só pode vir através da crítica da experiencia do PT em seus governos federais.
Verdade seja dita: o PT é um partido social liberal, de centro ou centro-direita que, nos 14 anos em que governou o país não realizou NENHUMA reforma estrutural relevante que lhe justificasse ser definido como "de esquerda" ou tendo um "projeto nacional de desenvolvimento".
- Reforma agrária? Nada. Agronegócio e venda de commoditties eram carro chefe com a amiga Katia Abreu.
--Reforma No Exército? General Heleno comandou as tropas do estupro e crimes de guerra do Brasil no Haiti, os torturadores e criminosos de Estado militares e civis da ditadura morreram velhos e gordos sem punição, os clubes militares seguiram suas semiprovocações saudosistas homenageando torturadores como Ulstra.
- Reforma midiática? As mesmas famílias regionais continuaram a comandar a mesma estrutura de rádio e TV em seus Estados e os grandes grupos seguiram recebendo milhões de verbas estatais, sem nenhuma regulação ou democratização midiática.
- Reforma tributária? O PT se recusou a acabar com a insenção de imposto sob os dividendos empresariais mantendo o país como um com a estrutura tributária das mais regressivas e penalizadoras contra os pobres do planeta.
Pelo contrário, o PT aplicou o neoliberalismo, com "concessões" que eram verdadeiras privatizações de ferrovias, estradas, aeroportos, fomento aos monopólios da educação privada, uma explosão de cargos terceirizados, menos remunerados, mais sujeitos a abusos por parte das empresas e com dificuldades adicionais de organização, sindicatos pelegos e inseguranças jurídicas.
Também garantiram a aprovação da lei de drogas, de 2006, por Lula, responsável pelo aumento vertiginoso das prisões de jovens negros e periféricos no país e uma das bases da atual guerra as drogas que é o pretexto do controle social através do genocídio do jovem preto no Brasil.
Da mesma forma, sem pestanejar manteve a entrega religiosa de quase metade do orçamento para pagar juros da dívida pública a meia dúzia de bancos, enviou tropas para massacrar a população do Haiti e, no fringir dos ovos, quando os mestres do mercado financeiro anunciaram a chegada da crise, em 2014, e Dilma se viu diante de um dilema e tomou sua fatídica decisão:
Embarcou na austeridade e colocou Joaquin Levy (esse mesmo que Bolsonaro colocou no comando do BNDES e depois demitiu) como ministro da economia. O resultado? Corte de 30% das verbas de universidades federais, cortes no fies e prouni, dificuldades para acessar o seguro desemprego e uma agenda de cortes contra o povo.
A experiência, no entanto, foi interrompida com o golpe que derrubou Dilma e colocou Temer para fazer o serviço sujo mais rápido em 2016.
Hoje, o #LULALIVRE significa a concretização da estratégia PTista de culto a personalidade de Lula que, apesar de realmente estar preso injustamente, visa apenas a manutenção de uma sobrevivência eleitoral e, assim, material, psicológica e financeira de uma burocracia profissional PTista.
Ora, fossem outros os interesses - os do povo, por exemplo - as reformas que lançaram a miséria de volta as cabeças dos miseráveis teriam encarado forte resistência de PT e seus parceiros sindicais da CUT e CTB. Mas não
A reforma trabalhista passou tranquilamente e com ela se levaram milhões de empregos e se lançaram dezenas de milhões no desemprego e trabalho informal.
Sem falar na perda da remuneração pelos feriados e fins de semana e a aprovação da reforma da previdência que acabou com a aposentadoria, na prática, para a maioria dos brasileiros tudo sem nada além de atos teatrais, palanques eleitorais e encenações parlamentares.
A política de crédito barato e de pequenas concessões sociais, com grandes lucros a bancos e monopólios industriais, eram o sonho prometido PTista.
Voltam, após a interrupção, como luzes em meio ao pesadelo bolsonarista.
Acontece que esta política, combinada com a "coexistência pacífica" com os grandes magnatas e políticos burgueses, a velha conciliação de classes, degenerou também e há tempos com o PT e hoje não é possível num cenário de recessão mundial que se avizinha.
O fato de Lula estar preso injustamente não significa necessariamente que a bandeira de Lula Livre seja a que melhor responde as necessidades de luta dos brasileiros hoje. Na realidade é bastante o oposto.
O povo precisa de organização. De ação como um só corpo. Para isso ele precisa criar suas ferramentas críticas a todo o processo passado e que apontem para um corpo de idéias e um programa político para transformar o Brasil.
Hoje por hoje, a direção do PT, já acostumada as frivolidades da vida burguesa e dos ritos parlamentares, usam o Lula Livre como forma de conduzir uma base eleitoral para as urnas e, assim, a sua ressurreição, ou quem sabe, apenas sobrevivência, em 2020 e 2022, caso ocorram eleições.
Isto é uma forma de "domesticar" a esquerda, sendo o PSOL sua mais disciplinada cobaia, evitando, assim, que surjam alternativas a sua esquerda que compliquem seu plano eleitoral e eleitoreiro (que, julgam que dará certo, desde que um ou outro protofascista do bolsonarismo não decida realizar aventuras autoritárias mais abertas.)
Nem mesmo essa direção quis libertar Lula com mobilização popular quando esse se entregou para dar início a epopéia eleitoral e nunca sequer ligar sua liberdade a luta contra as reformas.
Calculo político simples, arranjo bem maquiado, essa é hoje a essência da política PTista, que surfa a experiência interrompida que uma parcela dos trabalhadores e da classe média fazia com o PT.
No Brasil dos assassinatos de Ágatha, perdemos o direito a digressão e a distração. É mais do que a hora de tomarmos vergonha na cara e olharmos a realidade passada de maneira crítica, como condição para preparar o futuro.
O oportunismo e a defesa de privilégios, sejam os da ganância, sejam os da preguiça (aquela que prefere nos manter nos confortos do autoengano) são as forças motrizes daqueles que, hoje, maquiados de revolucionários, atuam como advogados petistas sem entender que o Brasil necessita de um ressurgimento político e que esse se dá em choque frontal com o PT.
Na luta contra o protofascismo que se avizinha mais e mais das pretensões hegemonistas e autoritárias de uma ditadura, esta sim, possivelmente fascista, as coisas tem de se chamar pelos seus nomes.
Os trabalhadores brasileiros precisam debater o que existe muito claro em suas vidas e que é o verdadeiro grande problema do Brasil: a desigualdade econômica abismal provocada por uma luta de classes escancarada!
E nesta, atualmente nos encontramos em uma guerra que a burguesia desfere para a base da pirâmide social aceitar viver menos, com menos salários, com mais exploração e repressão: um novo pacto social.
Contra esta necropolítica, realizada por entreguistas e falsos moralistas, capitalistas e rentistas degenerados de todo tipo
não existe outra linguagem que a Revolução. E para quem concilia, esta é uma palavra proibida.
Que nossa geração e estas que se aproximam descubram, (h)a tempo, as virtudes da transgressão das tradições e do profano na luta de classes e na luta de idéias.
Não é apenas Bolsonaro que se tornou um mito canônico.
E não é só ele o obstáculo para uma compreensão e consciência de classe coletiva, organizada e baseada na ação direta dos debaixo, no Brasil.
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