sábado, 16 de maio de 2020

Como desmontar demagogia bolsonarista de whatsapp?

*texto bolsonarista de whatsapp criticado está em anexo no final, para quem tiver paciência.

Chega a ser enfadonho, a esta altura, termos de ler, nós, os verdadeiros esmagados nesta combinação rara de epidemia  e recessão mundial galopando para uma depressão, a demagogia ser destilada com ar tão hipócrita e descomprometido.

É ainda mais desprezível um texto cuja citação final é de ninguém mais, ninguém menos que "Bob Fields", ou Roberto Campos, o ministro do planejamento do general Castelo Branco.

Admiradores de ditadores e autocratas, ou aqueles que os adulam, com ou sem pagamento, sempre encontram o caminho de deixar sua marca. Nem que seja apenas implícita.

Não faria muito sentido despender linhas e mais linhas perguntando ao preocupadíssimo Sr. Felipe se Roberto Campos, economista ministro da Ditadura Civil-militar brasileira responsável por milhares de mortos, desaparecidos e torturados, que tanto o inspira, se indigna com tanta ênfase com a condição alimentar e de trabalho dos trabalhadores durante a ditadura.

Veríamos tamanho cuidado do senhor Bob com aqueles que perderam a vida ou foram torturados, humilhados, demitidos e exilados? Veríamos seu apoio magnânimo diante de trabalhadores, com salários corroídos pelo arrocho (você sabe o que é isto, caro Felipe?) em greve, lutando pelo pão?

E ao autor disto, que tenta chamar de texto, citando tão orgulhosamente personagem obscuro da história brasileira? Importou a vida dos que ficaram pelo caminho, assim como hoje, em valas comuns, por não aceitarem o domínio e CONTROLE unilateral sob suas vidas exercido por velhacos generais que nunca foram eleitos por ninguém?

Não. Na realidade não importam. Assim como a vida dos trabalhadores de hoje também não importam a eles.

Nas letras de Felipe Fiamenghi, todas as estatísticas servem a uma mesma e só senhora: a demagogia protofascista.

Como a melhor forma de se defender é antecipar o mais óbvio ataque, o ilustre autor já trata de dizer, lá pelas tantas, após bradar as miseráveis condições de vida do povo: "não sou fascista... Só porque defendo acabar com a quarentena".

Vestido de paladino da liberdade, agita no ar a óbvia pobreza que acomete o povo brasileiro. Cartada velha. Ele acha mesmo que os fascistas nunca tentaram isto?

Ataca as influenciadoras digitais e patricinhas de classe média (a maioria delas, inclusive, fazem parte do clube nada seleto do Bolsonarismo), isoladas com dinheiro do papai enquanto os trabalhadores se expõe ao vírus, usando contradições reais, para escapar do fundamental.

Chega até a jogar ao ar os dados das milhares de mortes por essa fantasmagórica entidade chamada "violência urbana".

Um professor de jornalismo ou relações públicas não teria feito um texto melhor exemplificando o uso da hipocrisia e demagogia. Isto é quase uma obra prima do gênero!

Felipe não menciona que estamos no país em que morre um preto a cada 23 minutos. Em que as polícias militares matam jovens pretos nas periferias como moscas, jogando seus corpos em córregos.

Matam quando vão pegar comida; matam quando estão com guarda chuva nas mãos, quando estão com furadeiras, matam quando empinam pipa, matam adolescentes quando não recebem onarrego, fuzilam com 250 tiros carros com pretos, somem com Amarildos, Douglas, arrastam Cláudias...

Soubesse a proporção destes assassinatos, em nome desse pretexto genocida e falso para o controle social e racial chamado "guerra às drogas", Felipe tiraria o foco dos problemas "da violência urbana".

Afinal, é o que ele, como bolsonarista inconfundível, quer. Só que a violência só contra o peão.

Consciencioso, doutor Felipe, indignado (SIC), grita aos ventos contra a quarentena, ferramenta da "torre de marfim", ou seja, das dondocas que a usam para o fim sádico de, enquanto descansam, terem o enorme prazer de ver suas empregadas, faxineiros, porteiros e todos estes milhões "da classe C, D, E", tendo de sair para trabalhar e lhes servir, se amontoando nos ônibus e disseminando a infecção.

É inegável, é claro, que isto corresponda a realidade. Existem milhões de burgueses que agem exatamente desta forma, isolados em suas quarentenas místicas e sendo servidos por seus serviçais assalariados, a famosa "classe trabalhadora" (pra usar um termo historicamente mais preciso do que estas siglas de gabinete burguês).

Ocorre que, como tudo que venha dessa gente bolsonarista, o cheiro da hipocrisia é inconfundível.

Pra notar, basta procurar as dezenas de histórias de empregadas infectadas por patrões que as obrigaram a trabalhar, muitos deles, vejam só, bolsonaristas como Felipe, hoje indignados com a quarentena, com a diminuição dos lucros, com essa "histeria" e que, peguem o pulo, não entendem que "diminuir o PIB aumenta mortalidade". Ou quem trouxe da Europa o vírus foi o povão que Guedes humilha ao dizer que não tem nem que viajar de avião?

É isto mesmo! Este alpinista social, travestido de "redator de whatsapp", busca te convencer, sem falar diretamente, que mais vale o número de mortes com a infecção descontrolada, ou seja, sem qualquer quarentena, do que a que "pode vir" com a queda do PIB, ou seja, da riqueza interna do país.

E quem ele usa para justificar? A universidade de Chicago. Que coincidência! Não seria Paulo Guedes o ministro da justiça aquele que se chama de "Chicago Boy"?

Que este "Chicago Boy" tenha entregue um Brasil estagnado, com recordes de desemprego e trabalho informal, que tenha ACABADO COM A APOSENTADORIA do povo, destruído as relações de trabalho, imposto a lei de terceirização total, ou seja, destruído as condições de vida e trabalho, obrigado o peão a literalmente trabalhar até morrer velho, em 2019 e agora nos leve de cabeça para uma recessão economica, nenhuma palavra.

Onde está a mágica Felipe? Afinal, Guedes é "quem manda" na economia.

Ocorre que tanto Guedes quanto Felipe não dão a mínima para a sua vida - ou morte - de peão.

Os brasileiros estão de frente com a pior pandemia em 100 anos. As condições socioeconômicas já prenunciavam que por aqui tudo seria muito mais grave.

Favelas, salários baixíssimos, 50% do país sem esgoto, 60 milhões de pessoas endividadas. Façamos uma pergunta: tudo isso surgiu com a Pandemia? Veio do nada?

Só um abobalhado pode falar que criou 800 mil empregos (se denunciando como agente de Bolsonaro ao usar o "nós") diante da realidade brasileira.

Estes canalhas, pagos para falar como papagaios e enganar o povo, não mencionam que o Brasil JÁ era, antes da epidemia, o país em que 104 milhões de pessoas viviam com 413 reais por mês; em que 11 milhões de pessoas vivem com 51 reais por mês!!!; em que 13 milhões estavam desempregados, 5 milhões desalentados e 40 milhões na informalidade, ou seja, vivendo de bicos ou desempregados estão e estavam já cerca de 58 milhões de brasileiros (o que deve ser maior, já que estes são dados do governo).

Este país já era aquele em que o 1% mais rico, esta parcela na qual ou se enquadra ou busca se enquadrar Felipe, ganha 34 vezes mais do que os 105 milhões mais pobres. Não é uma,nem duas. 34 vezes.

Sofrerá amarga decepcão aquele que buscar encontrar tamanha indignação com a miséria e as condições dos trabalhadores e sobre isto antes desta data.

Esta indignação é apenas um teatro para esconder dois objetivos simples:

- Dar munição a Bolsonaro na briga ELEITORAL com os não menos asquerosos governadores, como Dória e Witzel.

- Forçar a barra para afrouxar a quarentena e obrigar o povo, esse mesmo com quem ele diz se preocupar por ser "obrigado" a ir para as ruas pois " não tem poupança", a trabalhar e continuar gerando lucro aos patrões.

Este tipo de sicofanta (pesquisa lá o que é isso Felipe) realiza todo um baile escrito, veste uma roupa de defensor do povo (como todo populista de direita) para dizer uma coisa muito simples: ele é contra a quarentena e quer o fim das "restrições autoritárias" para as pessoas circularem e trabalharem.

Não cabe nestas poucas linhas entrar na também absurda política dos governadores. Os trabalhadores tem de entender que isto é uma briga de patrões, burgueses, usando nossas vidas como armas eleitorais. Quem não dá a mínima para nós são todos eles, Felipe se, bolsonarista, Guedes e Dorias.

De toda forma é preciso salientar: Felipe, junto de Caio Coppola e tipos afins, fazem parte do grupelho bolsonarista que exige o fim de qualquer quarentena quando o Brasil, OFICIALMENTE, tem 250 mil infectados e 13,5 mil mortos pelo Covid19.

Coppola é particularmente asqueroso: dizia, há um mês, com risinho apodrecido no rosto e pressionando para acabar com qualquer isolamento, naquele circo que chamam de debate na CNN Brasil, que o máximo que haveria no Brasil seriam "8 mil mortes".

Estamos em 13 mil. Façam este número de mortes e infectados vezes 15, que corresponde ao número de casos não identificados, já que Bolsonaro, Coppola Felipe e sua turma se recusam a usar recursos para testar a população.

Temos então a verdade nua e crua: o Brasil tem entre 1,5 milhão e 4,4 milhões de infectados e dezenas de milhares de mortes, direta ou indiretamente (por falta de leitos para doenças "normais" que também exigem UTI), por conta da epidemia.

E exigem que acabemos com qualquer quarentena! Que todos, não só os que forem essenciais para o combate a epidemia, todos, circulem, passem, peguem, morram com o vírus. Só não mexam com o lucro e o PIB!

Falam que o povo é obrigado a trabalhar! Mas...obrigado por quem cara pálida? Pela "vontade"? Ou será pela fome? Ou pelas dívidas? Ou será pelos patrões?

Bancos, empresas e patrões foram salvos no primeiro dia desta crise. O governo entregou - respire - 1,3 TRILHÕES de reais aos Bancos para "emprestar barato". Sabe o que fizeram? aumentaram os juros!

As grandes empresas foram ISENTAS de impostos federais e sob matérias primas compradas no exterior. Sabe o que fizeram? Demitiram aos milhões!

E o que o governo fez? Exigiu acabar com as demissões? Exigiu que os lucros e reservas pagassem os salários dos trabalhadores? Não! Aprovou CORTE e SUSPENSÃO de salário e contratos.

Enquanto isso, ao "povao" Bolsonaro e os cândidos candidatos a puxa-saco como Felipe ofereceram o que? 200 reais que, depois de muito tempo, viraram 600. Não precisamos dizer que nem esta migalha  chegou a todos brasileiros que precisam. O governo está há um mês segurando e não solta a segunda parcela.

Ah… então são "obrigados" por alguém em alguma situação não é mesmo senhor Felipe?

Estivesse preocupado com o povo, este desprezível senhor não usaria sua condição de miséria para espalhar mentiras e enganações, para servir ao seu senhor miliciano.

Estaria exigindo que TODOS trabalhadores tivessem direito a um salário digno, do Dieese, lá pela casa dos 4 mil reais (afinal, é o que este órgão OFICIAL, governamental, diz que é o mínimo para uma família ter uma vida digna) para ficarem em casa até a epidemia estar controlada. Dinheiro existe! Cobrem as dívidas dos bancos com o INSS, confisquem os lucros dos grandes grupos empresariais, taxem as grandes fortunas e dividendos!

A vida está abaixo dos lucros?

Exigiria que se construíssem milhares de leitos e se estatizasse os leitos de hospitais privados, muitos vazios enquanto nos públicos se morre no corredor.

Estaria exigindo que todo hospital sobrassem e em cada esquina houvesse distribuição de máscaras, gel, luvas.

Exigiria que num país em que todas as indústrias operam com Ociosidade recorde de 50%, ou seja, produzindo METADE do que tem capacidade, se reorganizassem para combater o virus.

64 fábricas de automóveis no país produzem até 5 milhões de carros por ano. Mas não precisamos de carros.

Quantos milhões de respiradores poderiam produzir? E quantas  centenas de milhões de máscaras e luvas?

Com todas estas condições, os trabalhadores poderiam ficar em casa.

Não seriam obrigados por nada.

E os patrões seguiriam seu berreiro enquanto veríamos a velocidade da epidemia diminuir, o sistema de saúde não colapsar e termos atendimento a todos.

Não é está quarentena a que temos. É esta a que devemos lutar para ter. Mas antes algum isolamento do que nenhum. Ao menos tempos condições de exigir condições para mantê-lo.

Exigir seu fim total é exigir algo ao redor de 2 milhões ou mais de mortes, com caixão lacrado, covas comuns e sem velório, ou mais. A maioria delas preta e pobre.

Quem é o canalha e quem defende o povo nesta história?

Estariam os governadores, com negligência parecida, tão longes de Felipes e Bolsonaros?

A questão aqui é que, não raramente, surge uma figura burguesa - e mais ainda entre estes fascistas hipócritas - tentando explorar politicamente a miséria do trabalhador.

O povo precisa saber e devemos dizer com todas as letras quais são os amigos e inimigos do povo.

E os piores inimigos são os deste tipo: fingindo indignação e solidariedade, conduzem a massa para o abate, com o único e sórdido objetivo de "salvar a economia", "salvar o PIB", ou seja, sugar seu sangue, peão, e salvar os lucros e privilégios deles, em seus bunkers, casas na praia, só vendo o quando caiu  ou subiu sua margem de lucro.
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As classes C, D e E somam 199 MILHÕES de brasileiros. É gente que não tem fundo de reserva, não tem poupança. São pais e mães de família que, todos os dias, têm que sair pra trabalhar (formal ou informalmente), pra comprar a comida do dia seguinte.
Não têm esteira na sala, não têm dinheiro para telas e tintas, não têm pacote de streaming e não podem se dar ao luxo de pedir comida por aplicativo. Cozinham em casa, levam marmita para o trabalho. Restaurante é luxo, para datas comemorativas.

Na "Torre de Marfim", tudo é diferente. Os "intelectuais" vivem em seus próprios mundos, desvinculados destas preocupações práticas do dia a dia. "Fiquem em casa", eles dizem, enquanto se exercitam em suas salas, onde caberiam dois apartamentos populares.

São preocupadíssimos com o "social" e defendem, com afinco, a esquerda populista; mas estão há tanto tempo sem cumprimentar o porteiro, sem olhar na cara do garçom, sem dar um bom dia para o manobrista, que esqueceram que trabalhador também é gente.
Se lembrassem, provavelmente a ilustríssima jornalista não taxaria como "antissociais" aqueles que estão lhe proporcionando o conforto do isolamento. Suas telas, tintas e encomendas de comida não chegaram sozinhas à sua casa. O lixo que ela produz também não vai embora caminhando; nem a energia elétrica, para aproveitar sua Netflix e fazer funcionar sua esteira, é gerada através de mágica.

O descolamento da realidade não é exclusividade da entrevistadora do "Roda Vida". Quem não se lembra, há poucos dias, daquela atriz global, no Instagram, pedindo para que seus seguidores ficassem em casa, enquanto, ao fundo, sua empregada doméstica trabalhava?

O grande problema é que essas pessoas, que não fazem o próprio supermercado, que não sabem quanto custa encher o carrinho para a compra do mês, são as "influenciadoras das massas".
Postam em suas redes que "dinheiro não vale mais do que a vida", enquanto bebem vinhos finos e comem canapés; ignorando o fato que a fome também mata (e mais do que o vírus).

Defender a quarentena, agora, é "cool". E qualquer um que discorde é um "fascista", que não valoriza o próximo. O estranho é que estes "intelectuais" ficaram em silêncio por mais de uma década, quando 166 brasileiros, em média, morriam todos os dias, vítimas da violência urbana. Defendiam fervorosamente, aliás, o desarmamento civil; tirando do povo a única chance de defesa, enquanto eram escoltados por seguranças armados.

Ignoram, também, a estimativa de que 50.000 pessoas, em nosso país, estão tendo seus diagnósticos de câncer atrasados pela pandemia. Uma doença que, sabidamente, tem no diagnóstico precoce um fator determinante para a cura.

Desconhecem, ou fingem desconhecer estudos de institutos sérios, como University of Chicago, Oxford, Sorbonne, London City Hall e U.S Bureau of Economic Analysis, que relatam a causalidade entre queda do PIB e aumento de mortes. Não por acaso, nos países mais desenvolvidos a expectativa de vida é tão maior.

A dura custas, em 2019, criamos 800.000 novos empregos. Em 30 dias, extinguimos 9 milhões; que se somarão aos 11 milhões de desempregados que já tínhamos. 20% dos brasileiros em idade produtiva estão fora do mercado. Isso se traduz em um aumento exponencial de violência urbana, violência doméstica, alcoolismo, uso de drogas, depressão, suicídios, doenças cardíacas, entre tantas outras consequências letais.

Estes "comunicadores", que aplaudem o totalitarismo dos prefeitos e governadores contra o povo, são os mesmos que berrariam mais do que bezerros desmamados, se o governo sequer cogitasse a possibilidade de restringir a liberdade de imprensa.
Não se iludam que estão preocupados com o bem estar de qualquer pessoa, senão deles próprios. As "medidas sanitárias", que tanto apoiam, há muito já deixaram de ser uma questão de saúde e se transformaram em uma questão de CONTROLE.

LAVEM AS MÃOS E ABRAM OS OLHOS.

Felipe Fiamenghi - 14/05/2020

"É divertidíssima a esquizofrenia de nossos artistas e intelectuais de esquerda: admiram o socialismo de Fidel Castro, mas adoram também três coisas que só o capitalismo sabe dar - bons cachês em moeda forte; ausência de censura e consumismo burguês; trata-se de filhos de Marx numa transa adúltera com a Coca-Cola."
(CAMPOS, Roberto)


terça-feira, 5 de maio de 2020

Como um Brasil socialista poderia combater o Corona-Vírus?




No dia 25 de fevereiro registramos o primeiro caso de corona-vírus, marcando o início da chegada da epidemia a terras brasileiras.

Nestes pouco mais de dois meses, a situação mundial mudou muito, com medidas de isolamento social, queda abrupta da atividade econômica e disseminação rápida do vírus ao redor do mundo.

Conhecido por sua alta taxa de infecção, o vírus migrou de seu epicentro inicial na China, que conteve sua transmissão com medidas agressivas de testagem e quarentena, rumando para Europa e finalmente chegando ao atual epicentro nos Estados Unidos, alcançando a marca oficial de mais de um milhão de infectados em terras estadunidenses e três milhões no mundo.

Por se tratar de um vírus que contamina pelo ar e de pessoa a pessoa, numa situação em que não existem ainda nem vacinas nem tratamentos comprovados, as únicas armas eficazes contra o vírus são a testagem e o isolamento social.

Os testes, se realizados aos milhões e com centenas de milhares todos os dias, como feito no Vietnam, Coréia do Sul e China, permitem que se identifiquem os focos de contaminação e as cadeias de transmissão, controlando os infectados e aqueles com que conviveram, permitindo que o surto seja monitorado. Isto permite que o isolamento seja feito com precisão e, assim, da forma mais eficaz, isolando infectados e impedindo que a disseminação se dê de forma descontrolada.

Juntas, estas medidas permitem que ganhemos tempo para surgimento de vacinas e tratamentos e impedem que o sistema de saúde entre colapso, ou seja, que um número enorme de pessoas adoeçam ao mesmo tempo e, assim, falte leitos e atendimento a todos que precisem.

Na contramão de tais medidas, vemos nosso país alcançar recordes no que diz respeito ao vírus: Somos o país com a maior taxa de infecção entre países pesquisados no mundo (cada infectado transmite para, em média, 3 pessoas); com um dos menores números de testes realizados (dados oficiais apontam que realizamos no total 132 mil testes, o equivalente ao que o Reino Unido testa em um dia) e com uma das maiores subnotificações, ou seja, diferença entre números oficiais e números reais ( 9 em cada 10 casos não são detectados).

Todo este cenário projeta a sombra de um número entre 1 e 2 milhões de mortos por decorrência direta do Covid19, sem levar em conta as mortes indiretas por outras complicações, causadas pelo colapso do sistema de saúde.

Desnecessário dizer que a maior parte destas serão de trabalhadores, pobres, moradores das periferias, por conta das dificuldades de acesso a serviços de saúde, condições sanitárias e condições socioeconômicas. As pesquisas recentes demonstram claramente: o vírus foi trazido pelos mais ricos e hoje os que morrem e adoecem já são os mais pobres.

Neste cenário, confusão e dúvida surgem na população, incentivadas pelo governo de genocidas que atualmente preside o país, através da figura de Bolsonaro. Todo tipo de mentiras e minimização da realidade da doença são feitos, levando a população a embarcar no “carro da morte” da doença.

Não que os governadores estejam fazendo diferente. A disputa entre eles é meramente eleitoral e política feita em cima de cadáveres.
Todos eles cedem a pressão dos empresários, industriais e banqueiros brasileiros que diziam, há algumas semanas, que iriam morrer apenas “7 mil” e que “a economia não pode parar”, exigindo que os trabalhadores voltassem a  trabalhar, se amontando nos locais de trabalho e
transportes, acelerando a infecção.

Juntos, Bolsonaro e os governadores parecem apostar numa ação genocida clara: subnotificar o número de infectados e mortos, afinal, se não há testes, não aparecem novos casos, logo, podem dizer que “a situação não é tão ruim” e pressionar para “tudo voltar ao normal”, jogando o povo nos braços do vírus.

Por outro lado, não apenas salários foram cortados, contratos foram suspensos e milhares de demissões aconteceram; nem sequer a miséria de 600 reais chegou a todos que precisam. Já aos bancos, 1,3 trilhões em auxílio foram entregues na primeira semana.

Dessa forma o que aconteceu era inevitável: No final de abril, incentivados pelas mentiras de que o vírus seria uma “gripezinha”, a curva de propagação cresceu tanto quanto diminuiu o isolamento social e qualquer possibilidade de abertura sumiu do horizonte. Pelo contrário, o que vislumbramos agora é o chamado “lockdown”, ou seja, a obrigatoriedade de isolamento total.
Ainda assim, o ritmo das coisas aponta que seremos o próximo epicentro da doença, com o sistema de saúde colapsando neste próximo mês, sendo um dos países em que o vírus causará mais estragos e mortes.

Mas precisaria ser assim? Não existiria uma outra forma de organizar as coisas?

Temos de chamar o problema pelo nome
Em tempos de crise fica evidente a falência da forma de organizar a economia e a sociedade que nos domina, chamada de capitalismo.
O Brasil é a prova viva disto.

Todas as particularidades da vida social, política e econômica brasileira apontavam que seríamos um dos mais afetados. Um país com 104 milhões vivendo com 413 reais por mês, com 57 milhões de trabalhadores ou na informalidade ou no desalento/desemprego, com cerca de metade dos brasileiros sem acesso a esgoto, 13 milhões vivendo em favelas e alto número de pessoas vivendo em casas pequenas e aglomeradas, não poderia ver outro resultado.

Entretanto, a preparação e ação dos governos dos patrões não teve nunca o objetivo de proteger os mais pobres e vulneráveis. Pelo contrário: suas ações todas foram para proteger as grandes empresas e grandes bancos, enquanto fazem chantagem com o trabalhador.
“Ou aceita corte de salários, ou são demissões em massa”; “Ou aceita as reformas, ou não tem dinheiro para auxílio” e, assim, seguem as filas enormes, ajudando na infecção, de trabalhadores sem sustento esperando 600 reais ou muitos voltando a vender coisas nas ruas, trens e ônibus, como única fonte de sustento da maioria de trabalhadores informais.

Já aos bancos foram dados trilhões e às grandes empresas isenções de imposto sob matérias primas importadas, isenção de pagamento de INSS, isenção de impostos, possibilidade de demitir sem pagar rescisão contratual ou FGTS, etc.

Nem mesmo as pequenas empresas foram ajudadas. Assim como com os trabalhadores, os governos ofereceram um belo “presente de grego”: “Não tem salário ou verba pra tocar a pequena empresa? Ora, faça um empréstimo!”.
Com isto beneficiam os grandes bancos e já deixam claro o legado da epidemia aos que sobreviverem: todos endividados, trabalhando ou funcionando para pagar juros aos bancos.
Vale dizer, inclusive, que ao invés de baixar, os bancos aumentaram seus juros, fazendo chegarmos a mais de 60 milhões de negativados e um terço de endividados no Brasil.

A realidade é simples: sem salário não existe como o peão manter isolamento. Sem ele e sem testes não existe como saber a situação da epidemia ou controla-la. E o preço a se pagar já aparece: pobres e periféricos mortos, enterrados sem atestado de óbito, sem velório e em valas comuns.

Parece que para estes, esse preço é tranquilo de ser pago. O nome dos nossos inimigos é o capitalismo e seus donos são os grandes capitalistas.

E num “Brasil Comunista”, como seriam as coisas?


Não é difícil perceber que no capitalismo tudo se produz movido por um interesse: o lucro. Não são as necessidades humanas que importam aqui. Apenas aquelas que podem gerar lucro.

Da mesma forma, o que domina na produção de bens e serviços é a “anarquia”. Não existe plano comum de o que e quanto será produzido. Tudo é decidido de acordo com a lucratividade por pouquíssimos – e riquíssimos - bancos e fundos de investimento, muitos deles estrangeiros, que controlam as grandes indústrias e são donos das terras e grandes serviços. Por isso fomos, em geral, pegos de surpresa, sem estoques para lidar com a pandemia.

O comunismo e socialismo tem sido falsificados e distorcidos para servir de espantalho que assusta uma população pobre já amedrontada pelas difíceis condições de vida. Para essa “malhação do judas” se unem empresários, bolsonaristas, pastores e todo tipo de explorador da miséria do povo. E porque fazem isto?

Não será porque são estas ideias que oferecem uma resposta que beneficia o povo e, assim, ameaça a concentração de riqueza que estes arrancam deste povo?

Por exemplo:
Hoje no Brasil não faltam apenas testes, apesar de universidades como USP e Unicamp terem desenvolvido métodos de produção baratos e rápidos, tornando possível sejam produzidos nacionalmente e em massa. Também os chamados “EPI’’s”, como luvas, máscaras, coletes, são escassos, como cerca de 50% dos médicos denunciam. A quantidade de respiradores, essenciais para manter vivos os que desenvolvem falta de ar, é enorme também.

Num Brasil socialista, o Estado, que só poderia sair de uma revolução feita pelos debaixo, trabalhadores e pobres das cidades e interior, tomaria o controle de toda a grande propriedade.

Não, não estamos falando da sua escova de dente ou seu Iphone e também não falamos da sua lojinha de capinhas de celular ou o bar da esquina. Falamos das grandes mineradoras, das grandes porções de terra nas mãos de multinacionais, das fábricas de veículos, dos grandes bancos e seu capital e das gigantes redes de comércio.

Hoje, em meio a crise epidêmica, temos um cenário inacreditável: a capacidade ociosa, ou seja, a capacidade de produção da grande indústria brasileira que não é usada, é a maior em 20 anos!
O setor de produção de veículos conta com 65 fábricas e, nestes meses, 64 ou pararam ou usam menos de 1/3 da capacidade produtiva. Estas fábricas juntas podem produzir 5 milhões de carros em um ano!
Porque raios não são reorganizadas para produzir em massa milhões de respiradores baratos como os, também, pesquisados pelas Universidades?

O setor de vestuário teve uma queda vertiginosa na produção, usando hoje apenas 25% da sua capacidade produtiva! Justamente as fabricas que podem fazer aventais, coletes, máscaras, luvas aos milhões, sem grandes transformações em sua estrutura de produção estão paradas, como se não houvesse necessidade destes bens!

Num Brasil socialista, as necessidades da população seriam o motor da economia e a “anarquia” não dominaria a produção:
- Nessa situação todas as mineradoras colocariam sua extração a serviço não de exportar para lucro, mas de buscar insumos necessários a produção de bens industrializados para combater o vírus.
- As grandes porções de terra produziriam alimentos vendidos barato nas cidades e produziriam em massa bens agrícolas e insumos necessários a indústria de combate ao vírus.  
- Todas as grandes fábricas automotivas e de vestuário seriam reorganizadas para produzir milhões de respiradores e centenas de milhões de luvas, máscaras e aventais.
- Controlando o sistema financeiro, bancos e o crédito, o Estado não endividaria sua população em meio a ameaça de morte: Ofereceria crédito barato para os pequenos negócios essenciais continuarem funcionando e subsidiaria com salários dignos os trabalhadores para que pudessem ficar em isolamento o tempo necessário.
- Todos os grandes complexos hospitalares seriam colocados a disposição do público, com leitos privados sendo estatizados e colocados a serviço das necessidades coletivas.
- Com o monopólio do comércio exterior nas mãos do Estado socialista, os bilhões que viessem do comércio internacional seriam colocados a serviço do plano: Dezenas de milhares de leitos de UTI seriam produzidos, bilhões seriam investidos na pesquisa de tratamentos sérios, vacinas e equipamentos de proteção e respiradores.

Tudo isto, é claro, só poderia vir de uma sociedade socialista construída e controlada pela forma mais democrática já vista pela humanidade:
A auto-organização direta, composta por representantes eleitos e revogáveis diretamente pelos trabalhadores e pobres em cada local de trabalho, nos bairros e cidades, algo totalmente diferente desta democracia falsa, que é uma democracia para os ricos e uma ditadura para os pobres, em que dominam os empresários através dos “políticos profissionais’ que só defendem os seus interesses econômicos.

Seria também distinta, é claro, de modelos socialistas anteriores que, por suas particularidades, degeneraram e se transformaram em ditaduras burocráticas, nas quais o poder político dos trabalhadores foi tomado por uma casta social que usa a bandeira comunista para confundir e manter seus privilégios materiais.

Organizados desta forma, os trabalhadores teriam as ferramentas diretas para atuar politicamente, controlar seus representantes e seriam capazes de definir com clareza suas necessidades, as quais seriam as bases do plano econômico de combate a crise e manutenção de suas vidas.

Num Brasil Socialista, haveria democracia e - porque não? – muitos partidos para os trabalhadores debaterem as melhores políticas para a crise, em base a uma sociedade em que a grande propriedade privada, a acumulação de capital e a grande exploração do trabalho alheio fossem proibidas.
Neste cenário, é claro, diriam aqueles patrões que trouxeram a doença ao país e hoje se escondem em suas casas na praia, condomínios e bunkers: “Seria uma ditadura para nós!”.

Precisamente. E pela primeira vez na América do Sul, veríamos um governo das maiorias trabalhadoras, trilhando o caminho da transição ao socialismo e, com isto, lançando uma nova onda de transformações revolucionárias nos demais países do mundo, rumando para a sociedade comunista, sem classes.

Ao responder isto, os capitalistas nos dão uma ótima lição: Da mesma forma como  compreendem o que seria uma ditadura da maioria trabalhadora contra eles, uma minoria exploradora do trabalho alheio, temos de compreender o que é e a necessidade de nos libertar desta atual ditadura de patrões, maquiada e protegida.

É só isto o que nos impede de abrir as portas para um novo mundo. E este mundo, nesta crise, se mostra não apenas possível, mas absolutamente necessário.


Fontes:
 https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2020-04/coronavirus-pesquisa-mostra-que-50-dos-medicos-acusam-falta-de-epi

https://oglobo.globo.com/economia/com-coronavirus-industria-tem-maior-nivel-de-ociosidade-em-quase-20-anos-24409871

https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/03/nove-em-cada-dez-casos-de-covid-19-nao-sao-detectados-no-brasil-diz-estudo.shtml

https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/05/04/endividamento-se-acentua-e-pode-ser-um-dos-legados-da-crise-do-coronavirus.ghtml

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52509734



sexta-feira, 24 de abril de 2020

Queimando fusível.

Apertaram o botão pra queimar o miliciano. Barragem da Globo e "frente única" da mídia burguesa.
A esquerda vai embarcar sem nenhuma delimitação, vai vender a queda de Bolsonaro por alguma via, como vitória, ajudando o teatro (ela mesma nem compreende ou finge pra se manter segura); Mourão assume como a cara da moderação (o cara que curte um Ulstra e a "democracia que começou em 64") contra o "mal de todos os males" Bolsonaro.
Moro, que aparece como "incorruptível", o paladino da lava jato, vai aparecer no multishow, gnt, entrevista, carreata, daqui até 2022 dois anos de campanha eleitoral.
Mourão lá em cima, Bozo enterrado, esperam dar um "reboot" no sistema.

Agora voltou tudo ao normal, tá gente? Não tem mais o maldoso mor, só os canalhas invisíveis ou pouco conhecidos que estavam com ele até agora.

O plano fundamental: quebrar a organização do trabalhador, diminuir o preço do trabalho (reformas trabalhista e previdenciaria, ataque ao direito do trabalho) e ampliar a subordinação da economia brasileira primarizada aos interesses gringos (exporta soja e importa máquinas). São business, afinal. Fazer o país atrativo para a superexploração das multinacionais, quebrando a renda e vida dos peões e oferecendo carne barata no mercado. Se comprometem a nao tentar nenhum passo industrializa te autônomo: a gente vende baba e compra maquinário, tá tio Sam? Tudo a pleno vapor.

Em 2022, "nos braços do povo", o grande defensor da lava jato, redimido de qualquer mancha causada por intercepts, pega a taça do "moderado" mourão e, assim, esperam que essa enorme crise de representatividade e legitimidade das instituições, que vem desde 2013, tenha enfraquecido. Reboot completo. Exploração ampliada e renovada.

Tudo isso em cima de cadáveres e valas comuns.
E tem gente que nem vai se ligar que, no fim, todo esse processo foi, é e seguirá sendo tutelado pela força das armas (como sempre, mas nesse caso, de forma evidente) do exército e demais forças. Não existe espaço pra oposição não domesticada e satisfeita com o banquinho da minoria.

Vão passar a renovação da lei antiterrorismo e monitoramento (que já tá rolando em SP) agressivo nas redes sociais e provedores de internet (um dos projetos exige CPF pra ter rede social e programa do governo pra monitorar cada acesso de cada provedor de internet). Monitoramento e arapongagem voltada a qualquer mexida de músculo nas periferias, sindicatos e locais de trabalho.

E qualquer ilusao nessa "democracia" ou "estado de direito", que nunca chegou aos pobres e explorados, vai ser mais danosa e criminosa pros interesses do povo do que tem sido.
A república tutelada de 88 gerou a ditadura velada de 2020 em diante.

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/04/ala-militar-se-ve-traida-e-discute-se-segue-com-bolsonaro.shtml

terça-feira, 21 de abril de 2020

O nó histórico dos trabalhadores na epidemia


A epidemia avança.
Longe de proteção e auxílio, o que encontramos é um Estado que não testa, logo, não tem, nem oferece clareza sobre qual é o real número de infectados e mortos e cujas medidas todas se encaminham a transferir verbas trilionárias para bancos, endividar pequenas e médias empresas e trabalhadores e avançar em reformas vendidas como "incentivo a gerar empregos", mas que são preparação para o novo normal da superexploração do trabalho. 

Governos que regulamentam a superexploração enquanto nem sequer entregam o vale miséria prometido de 600 reais aos trabalhadores desesperados. O resultado vemos: bairros nobres com menos mortes e pobres com hospitais lotados e mortes cada vez maiores.

Sem saídas,  lutamos como podemos. Entregadores de aplicativo fazem manifestações pelas ruas das cidades por equipamentos de proteção e remuneração digna, trabalhadores do telemarketing se rebelam contra sua determinação como essenciais (ao lucro ou ao combate ao vírus?), desempregados e informais nas favelas buscam sua autoorganização e se viram na base do "nós por nós". 

Paraisópolis guia esse caminho, com milhares de trabalhadores organizando suas ruas e necessidades sanitárias e alimentares na favela. Os "presidentes de rua" materializam essa ação autoorganizada e direta.

Não existe solução para esta crise, em suas dimensões econômica e sanitária, pelas mãos destes governos e da elite burguesa.

Ainda que aparentem disputar, governadores, congresso e Bolsonaro, convergem no fundamental: aproveitam a subnotificação causada pelo acobertamento e falta de testes para manter a exploração absurda dos trabalhadores, manter a máquina econômica girando mesmo que isso signifique infecção em massa e resgates trilionários aos bancos e grandes grupos. 

Não fosse isto, no Epicentro da Pandemia em São Paulo, Covas e Dória, marketeiros profissionais, não estariam mantendo toda indústria funcionando e, na última semana, não permitiriam que igrejas e lojas comerciais de diversos tipos estivessem abrindo. 

O isolamento social, a única forma de proteger a população do vírus enquanto não houver vacina e tratamento, está por um fio: sem salário para ficarem em casa, com a pressão de bolsonaro diminuindo a gravidade dos fatos e com os patrões pressionando pelo fim do isolamento, cai o índice de isolamento (devidamente monitorado pela inédita quebra generalizada de sigilo de informações de localização pelas operadoras de celular para o Estado, medida autoritária que vai seguir depois disto tudo)

Estamos num nó histórico.

A consciência de classes dos debaixo, extremamente atrasada, não avança caso não existam exemplos de novas formas de organização, impulsionados pela situação econômica. 
Por outro lado, as novas formas de organização (que aparecem embrionariamente em paraisopolis, entregadores de app, luta nos call centers) não conseguem se generalizar e avançar para patamares políticos, acima das explosões espontâneas de luta pelas condições mínimas, se a consciência de classe dos trabalhadores não avançar.

A situação de desagregação econômica exige ações de solidariedade e compromissos mútuos entre empregados e desempregados (e hoje entre as diversas subcategorias de trabalhadores).

Hoje por hoje, no entanto, as grandes centrais sindicais como CUT, CTB, Força, junto de seus partidos, se fecham em suas redomas e se resumem a dois tipos de ação: teatro parlamentar e falatório de internet. 

De nenhuma maneira, e nisso estão acompanhados das organizações de esquerda menores, se ligam aos trabalhadores citados, que se rebelam em meio a este absurdo. Patrões demitem milhões, cortam salários em 70%, nada os leva a fazer nada além de notas de repúdio.

Não é que apenas não organizam nada, nenhuma ação, nem mesmo de caridade ou entrega de alimentos para os trabalhadores desempregados e informais, absolutamente desesperados nessa situação. 

É que não movem um dedo sequer para criar estes laços mútuos de solidariedade entre empregados e desempregados. Entregam assim dezenas de milhões no colo da extrema direita bolsonarista e suas mentiras

E porque isto seria importante?

Além do evidente sentido de auxílio básico por organizações de trabalhadores para aqueles sem qualquer alternativa, tendo de escolher entre a fome e a infecção, há um aspecto estratégico incontornável:
Os debaixo só vão encontrar uma solução e gestão para essa crise sanitária e econômica quando e na medida em que formarem uma UNIDADE dos debaixo, explorados, trabalhadores.

Só esta unidade tem força e interessa a todos nós sofrendo o grosso da crise, em sangue e suor. Se depender da elite economica, seremos apenas buchas de canhão, números em planilhas fazendo a conta engordar, enterrados em valas comuns como no Equador, Itália ou Nova York.

Aproveitar a experiência citada nestas lutas pontuais, generalizar os métodos de Paraisópolis (imaginemos a escola de guerra e o avanço de consciência entre nós peões com as fábricas formando "presidentes de seção", quebradas formando "presidentes de rua", call center formando "presidentes de sala de operação", etc) apontam para um projeto de poder, uma forma de sociedade distinta e para organismos concretos sob os quais poderia se basear a ação e organização dos debaixo. 

Essa luta seria de início pela manutenção das condições de saúde e alimentação nas empresas que funcionam, nos bairros, nas quebradas. 
Mas inevitavelmente  entraria no caminho político, pois iria provocar reações agressivas do poder estatal e para-estatal. 

Imaginem o desespero das frações da burguesia com uma explosão de autoorganização nas quebradas, locais de trabalho e fábricas? Imaginem se estes "presidentes" passam a se organizar juntos, tirar ações conjuntas, exigir reivindicações juntos, impor ações, organizar as fábricas para produzir bens contra o vírus, tomar prédios para que os sem casa se protejam, começar a questionar a base da sociedade: a propriedade burguesa acima da vida operária? Isso é intolerável para o comando capitalista.

Ensinaria muito a um nascente corpo de direção dos trabalhadores.
Levaria a implantação desigual em cada lugar (num bairro sem trafico seria de um jeito, num com tráfico de outro, com milícias de outro), a necessidade de manobras e desvios, a muita organização e solidariedade. 

De toda forma, sem sombra de dúvida faria avançar duas coisas fundamentais: a consciência de classe e o protagonismo da classe trabalhadora na gestão da crise, por meio de gerir a sua vida durante ela e buscar atender os seus interesses sem a mediação desse organismo que NÃO o serve: o Estado burgues, que só serve aos patrões, como essa crise está provando dia a dia. 

E esse caminho seria fundamental para cortar o nó e também materializar de uma frente única na ação, por parte de toda esquerda, retomando os laços quase inexistentes dessa com a multidão de explorados. Nesse espaço a disputa dos revolucionários seria dura, mas enormemente instrutiva, formadora para seus quadros e para todos trabalhadores.

Apenas uma unidade dos debaixo, trabalhadores, desempregados, pobres sem renda e favelados, poderia apontar para uma gestão da crise que preserve suas vidas e, nessa luta, conduza inevitavelmente para um outro projeto de sociedade e vida.

Fora disso, o que sobra, no entanto, é teatro parlamentar e imobilismo sindical que, com o passar dos dias e da gravidade da situação, tendem a ficar para trás e dar lugar as explosões espontâneas dos oprimidos. 

Tudo reside, então, na capacidade dos e das que se reivindicam revolucionárias se prepararem para fomentarem, ajudarem a organizar, se somarem e conduzirem este tipo de ação por uma outra forma de sociedade. 

Nesse caminho, abandonar os "salva vidas" do sistema é imprescindível. Não há reforma duradoura nesse sistema. O Estado de "direito" é uma fábula que nunca chegou, menos ainda agora, aos trabalhadores e pobres. O caminho se aponta em cada uma das lutas que surgem para a superação desse sistema e regime político.

É preciso, no momento preciso, organização e ação.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

O Darwinismo social como política de Estado nos tempos de Corona

O Darwinismo social como política de Estado nos tempos de Corona

O Darwinismo social, esse conjunto de idéias arcaicas, baseadas numa tentativa de transpor conceitos da biologia ao mundo social, de "sobrevivência do mais apto", sempre serviu a justificação de políticas em que as populações mais pobres, os trabalhadores, eram o foco principal e vulnerável.

Tal idéia defendia que determinadas pessoas possuiriam características biológicas e, importante, sociais, as quais as fariam superiores, sendo assim, mais aptas a sobrevivência. O controle demográfico, ou seja, da quantidade e distribuição da população, deveria e se daria dessa forma.

Uma sociedade dos mais aptos então deveria ser fomentada através de políticas públicas.

Não espanta que tal idéia, absurda e reacionária, tenha sido base para Eugenia (manipulação e superioridade de determinados genes humanos), o fascismo e o nazismo.

Numa sociedade dividida em classes, divisão esta que os governantes burgueses tratam de sempre maquiar e negar, o Darwinismo social não é nada além de genocídio e extermínio, orientado pela classe dos indivíduos.

Hoje, dia 2 de abril, com as bolsas de valores em alta puxada pela trégua anunciada entre EUA e Rússia em relação a produção e o preço do barril de petróleo, trégua nada banal e que revela a profundidade da crise econômica provocada pelo vírus que não permite uma aventura comercial com prejuízos orçamentários a todos países, notícias escabrosas tomam os jornais:

No Brasil, já pelos 20 dias de paralisação parcial por conta do Vírus, não existe um sistema unificado e uma orientação central para a notificação dos casos confirmados, infectados e suspeitos de infecção por Corona Vírus.

Os principais jornais do país, após pressão de enfermeiros, vazamento de documentos orientando a não notificação e alerta de médicos, demonstram que a subnotificação é GIGANTESCA e generalizada no país. Em alguns casos e cidades, para cada caso confirmado são 15, 20 e até 40 casos não notificados.

Seguem, no entanto, governos e mídias, divulgando os nitidamente falsos números de apenas 6 mil infectados e 204 mortos até o momento.
Centenas de valas são cavadas nos cemitérios já abarrotados, carros frigoríficos alugados para transporte de corpos, enterros sem velório, sepultamento sem atestado de óbito e, assim, caminhamos para um descontrole completo da epidemia no Brasil.

Pelo planalto, o testa de ferro miliciano, apoiado e/ou orientado por parcelas importantes dos empresários, banqueiros e, com ênfase necessária, militares, continua a minimização da epidemia e força, por todas as vias, o afrouxamento do isolamento social.

Seja pelo pronunciamento irresponsável, pela deturpação da fala do presidente da OMS (organização mundial de saúde), pelo atraso da liberação da indispensável e miserável ajuda de 600 reais, por suas andanças nos comércios, incentivando o desrespeito a quarentena e o povo a se arriscar e contaminar, todos seus atos são para que "a economia" se coloque acima das vidas.

A subnotificação é, no entanto, a base real e criminosa para esta política que orienta as forças dominantes na política.

Não se enganem os que pensam que os governadores, com Dória e seu marketing a frente, divergem e exercem pressão contra esta política. Não apenas seguem abertas fábricas, diversos comércios, callcenters, serviços que nunca foram declarados essenciais mas agora são, como muitos, dentre eles com mais ênfase Dória, bateram palmas para a MP do corte de salários e suspensão de contratos aprovada ontem.

Sem que a massa de trabalhadores tenha clareza do enorme número de infectados, na casa das dezenas de milhares segundo projeções, além do número muito maior de mortes que não são notificadas por Corona, fica muito fácil manipular a opinião pública e forçar a exposição da base da pirâmide social a contaminação.

A partir daí, o Darwinismo opera segundo a lógica.
Os que tiverem a sorte de seu sistema imunológico resistir e algum recurso para se proteger/isolar por algum tempo, sobreviverão; os que não tiverem, infelizmente, morrerão e, muito provavelmente, sem velório, abraço ou despedida, nem sequer serão contabilizados nas estatísticas de mortos pelo vírus.

Isso, óbvio, não se aplica aos da estirpe de Justus, dono do Madero ou qualquer figurão executivo empresarial ou estatal. Em seus bunkers, iates e mansões, apenas despacham, a distância, para que os criados lhes tragam alimentos, enquanto acompanham o andamento de seus rendimentos e lucros.

Não é preciso, porém nunca é muito, lembrar que vivemos em um país em que 104 milhões (a metade da população) vive com 413 reais, com mais de 12 milhões de desempregados e 40 milhões de informais.

Desse "caldo", é claro, que a proporção daqueles em condições de serem "aptos", nesta seleção nada natural, será muito menor do que neste topo parasitário e assassino, onde reside a elite econômica do país.

Sem testagem massiva, identificando os focos de disseminação, os contaminados e aqueles suspeitos em seu círculo de convivência, com uma quarentena rígida garantida com salários pagos a todos trabalhadores para que fiquem em casa com sustento, não há nenhuma saída séria contra o vírus. E empresários e governos sabem disto.

Impressiona, no entanto, o papel desempenhado pelos sindicatos e as esquerdas, sejam as liberais, sejam as ditas revolucionárias e até mesmo a centro esquerda social liberal, que caracteriza o PT.
Estão de quarentena imóveis.

Com os trabalhadores, literalmente, sendo sacrificados em praça pública, com demagógicas medidas de "proteção ao emprego", que na verdade são alívio de custos e proteção ao lucro do patrão, com cortes de 70% nos salários, demissões em massa e assédio generalizado para o peão ir ao trabalho, o que fazem estes "representantes do povo"?

A maior central sindical do país, a CUT, paralisada, não organiza uma ação, nem a mais mínima...
Não tem uma campanha de doação de cestas básicas sequer em seu site.
A dita oposição parlamentar negocia no covil de cobras, a câmara de deputados, pela aprovação do "vale miséria", muito abaixo das mínimas necessidades de uma família e, quando muito, pedem encarecidamente para que Bolsonaro renuncie.

Nenhuma greve geral, nenhuma tentativa para que aqueles mais afetados, os peões, opinem e tenham protagonismo na gestão desta crise, para que não sejam buchas de canhão, é feita.

Enquanto isto, o vírus, trazido pelo governo e parte dos viajados membros da alta classe média e burguesia, começa a penetrar as fronteiras das periferias, favelas e fazer vítimas entre pessoas que, amontoadas em 5 pessoas em um cômodo e cozinha, não possuem água, saneamento e tem de se arriscar com o vírus pois sabem que a morte é certa.

Neste Malthusianismo revisitado, não há recursos para pagar os salários dos trabalhadores para que fiquem em quarentena, mas há bilhões para dar aos bancos, para que, com este dinheiro público, emprestem, endividem o povo e pequenas empresas e, assim, lucrem com juros.

Também é preciso cortar salários, mas mexer em um centavo que seja no lucro acumulado, graças ao trabalho do peão, nos caixas das grandes empresas e bancos, isso já é impossível.

O Darwinismo social que acontece diante de nossos olhos é um dos crimes mais inomináveis que a elite econômica, com a cumplicidade da grande mídia burguesa e dos governos cometem contra o próprio povo.

Um levante dos debaixo, greves selvagens contra o corte de salários, pelo confisco dos lucros, paralisações gerais pela isenção de cobranças de contas, pela indexação dos salários a inflação, para que subindo preços suba o salário, estas são a única via de abrir esta caixa preta de informações, para que saibamos a gravidade dos fatos e, assim, arranquemos, de quem fez fortunas a nossas custas, os recursos para sobrevivermos, nós e nossos parentes.

Ou isto ou, entre demagógicas medidas de quarentena meia-boca e dados falsos, veremos milhões de mortes, com caixões lacrados, dados escondidos e lágrimas distanciadas.

sexta-feira, 27 de março de 2020

Trump, Bolsonaro e os patrões jogam poker com a morte: nossas vidas são as fichas.



Após o escabroso pronunciamento do grão-miliciano ocupando o Planalto, as mídias internacionais se ocupam de duas notícias, aparentemente contraditórias, mas incontornáveis.

Os EUA superam o número de casos da Europa e China e se consolida como o novo Epicentro da disseminação descontrolada de Corona, com mais de 50 mil casos  e 700 mortes confirmadas.

Ao mesmo tempo, o chefe dos psicopatas ultraneoliberais, Trump, pressiona para que os EUA "voltem ao trabalho" até a páscoa, ou seja, daqui 15 dias, apostando na mesma narrativa asquerosa de Bolsonaro.

Narrativa essa, baseada em mentir, desinformar e chantagear. Algo que, para os acostumados aos ofícios das milícias e do "big business" estadunidense, é especialidade da casa.

Mentem quando dizem que os únicos em risco são os idosos e portadores de doenças crônicas e que apenas eles devem ser "tirados de circulação".
A infecção de jovens pode e leva muitos deles a necessidade de UTI's e respiradores, o que causa a sobrecarga no sistema de saúde e pode levar os médicos a trágica "escolha de Sofia", ou seja, a ter de decidir tratar uma vida jovem e sacrificar a vida idosa, pela falta de equipamentos.
Os jovens, inclusive, podem piorar e muito esse cenário pois, sendo em muitos casos assintomáticos, disseminam a doença sem saber e pioram o cenário do contágio.

Desinformam quando, além destas mentiras, minimizam a capacidade de infecção do vírus e o período de tempo após o qual será possível voltar a normalidade. Para se ter uma idéia, para o Ebola, cujo surto explodiu nos países da África Ocidental em 2014/2015, só foi possível obter uma vacina em 2019, 4 anos depois!
As vacinas atualmente testadas levarão não menos do que 14 meses para serem liberadas e, por enquanto, não existe nenhum tratamento para o Covid19. Tudo depende, então, da capacidade imunológica de cada adoecido e do sistema de saúde de apoiá-la.

Chantageiam, assim, os trabalhadores com uma lógica aparentemente impecável: Se a economia e produção pararem, o número de mortes causado pela (anterior e inevitável) crise econômica será maior do que as mortes pelos vírus ou os salvos pela quarentena.

Logo, qual sua solução mágica?
Os trabalhadores devem fazer (mais) esse sacrifício e se arriscar/infectar para retomar a produção e, assim, aceitar que essa "gripezinha" será algo entre matar apenas uns 7 mil ou apenas aqueles velhos e doentes que já morreriam em breve, de qualquer forma.

Essa foi a tentativa da cidade de Milão, na Itália, que após algumas semanas mantendo tudo aberto em meio a Pandemia, seguindo as orientações de outro psicopata, viu a completa sobrecarga de seu sistema de saúde e mais de 4 mil mortos.

Trump e Bolsonaro, é claro, são figuras públicas a serviço dos verdadeiros donos do negócio, os banqueiros, industriais e grandes magnatas que pressionam por essa abertura e "retorno a normalidade".

Vivemos um tempo em que Bancos, empresas, donos de restaurantes e lojas comerciais, tentam convencer o povo de que eles devem aceitar correr o risco de se infectar voltando ao trabalho, arriscando a vida de seus entes queridos para manter a economia capitalista. Ou isto ou a suposta "fome inevitável".

Esse Malthusianismo revisitado, a serviço de uma política de Darwinismo social (sobrevivência de quem tiver muitos recursos econômicos e sorte biológica ) mostra, num retorno frequente as referências do século 19, o abismo imensurável de interesses e de vida entre a elite econômica burguesa e a maioria do povo explorado por ela.

A burguesia é completamente divorciada, não tem nada em comum, nenhuma empatia e relação que não seja a de superexploração com a massa trabalhadora.

Com um resgate de 1,5 trilhões feito pelo Banco Central para os bancos, dinheiro (público) este que vão usar para emprestar para as famílias e empresas quebradas, lucrando muito com juros das dívidas no meio desta crise, querem convencer que não há recursos!

Com o lucro de 81,5 bilhões arrancados do povo pelos maiores bancos em 2019, sem falar nas bilionárias isenções e renúncias fiscais dadas a empresas e Bancos, querem, ainda assim, dizer que não há recursos para bancar a vida dos trabalhadores em quarentena!

O presidente do Banco do Brasil, chega a dizer, num país em que bancos e empresas devem 500 bilhões em impostos ao INSS e a receita federal, que é um erro atribuir "valor infinito" a vida.

A combinação da crise econômica e sanitária permite aos trabalhadores entender claramente que um sistema econômico que, cotidianamente despreza o papel do trabalhador e valoriza o patrão/empresário como gerador de riqueza, ao ser atingido por uma crise epidêmica se encontra absolutamente despreparado, sem estoques de máscaras, respiradores, álcool, tendo de paralisar todas suas atividades e, chegando ao limite, tem apelar com mentiras imorais àqueles mesmos trabalhadores que se arrisquem para manter os lucros fluindo, não serve, faliu, explodiu.

Disto podemos tirar duas enormes lições históricas:

O trabalho segue sendo a fonte que gera a riqueza. Sem o trabalhador produzindo, bens e serviços, não existe riqueza. E é nisto que reside a maior força social e coletiva da humanidade, a força dos trabalhadores. Com ela eles podem e devem definir como organizar a sociedade, a economia e a política para atender os seus interesses, os da maioria que tudo produz.
Inclusive a de derrubar TODO este sistema econômico (junto de seus mandantes no Estado e nas empresas) e construir um que lhes interesse e acabe com a exploração e a dominação do lucro sobre a vida.
A consciência de classe é a única saída para responder ao principal problema brasileiro e mundial: os antagonismos sociais de classe.

A segunda lição é a de que existe a luta de classes e o abismo existente entre os interesses e a vida da elite econômica burguesa e da maioria do povo trabalhador é tão grande que eles preferem contar corpos de peões a contar cifras mais baixas de lucro.

Número de corpos estes, é claro, maquiados, como todos os governos no Brasil tem feito, subnotificando  infectados e mortos por Covid19 (a cada caso, são 15 não notificados), despreparando a população, num flagrante crime a humanidade.

Se ensaia a abertura da porteira e, frente a frente com a morte, não a deles mas a nossa, frações da burguesia e seus papagaios na figura de Trump e Bolsonaro, se preparam para expor milhões, através da mentira, ao vírus, ampliando a disseminação. Jogam piscinas de gasolina no fogo.

Jogam nossas vidas como fichas, apenas para ganhar alguma sobrevida política (enquanto sonham com a reeleição cada vez mais incerta) ou, quem sabe, uma saída com danos reduzidos. Nossas vidas estão abaixo de suas pretensões de poder.

No Brasil, em live com governadores, Bolsonaro solta os cachorros no, não menos hipócrita, Dória.
Entre as ofensas visando as eleições de 2022 (sua real preocupação), um gesto dá o sinal dos próximos capítulos: Mourão ri e faz negativo com a cabeça, como quem diz "cê tá achando que fica até 2022?".

Não é segredo algum que Bolsonaro não foi o filho pródigo. Com Alckmin naufragando, tiveram de engolir o olavista.

Mas há oportunidade melhor para lavar a cara dessa corrupta e podre democracia dos ricos, do que colocar, no meio da crise, um general (supostamente) "sensato", colocando o exército para "salvar a pátria" e reabilitar a confiança nas instituições? Tudo, claro mantendo os trilhões aos bancos e migalhas aos pobres, como a miséria dos 600 reais, prometidos pra tentar apaziguar o povo.

Esta, sem dúvida, é a saída mais estável que as elites podem desejar. E nesse jogo, Bolsonaro já não é mais do que um morto vivo. Com sorte, pode sair sem ir preso ou com alguma garantia de imunidade aos crimes dos filhos.

Numa democracia real, um governo dos trabalhadores, seria tratado como o que é, junto dos apoiadores patrões: genocidas e eugenistas sociais, criminosos contra a humanidade.

terça-feira, 24 de março de 2020

Notas urgentes e essenciais sobre a situação da epidemia até aqui.



1- Está mais do que confirmada a política estatal de subnotificação. Anunciam 1891 casos, mas médicos, especialistas e coordenadores de saúde na linha de frente apontam que este número é de 11 a 15 casos não notificados para cada infectado confirmado. Desse modo, estaríamos na casa dos 28 mil infectados.

2- Esta política de subnotificação está ligada a falta de testes e a estratégia de combate escolhida pelos governadores e pelo governo federal. Suas diferenças são meras disputas eleitorais; no fundamental todos estão escolhendo a mesma política: Ao invés da supressão, escolheram a mitigação como forma de combate ao vírus.

3 - Supressão foi a medida realizada pelos chineses e coreanos do sul e consiste em travar a cadeia de transmissão do vírus impondo uma quarentena rígida e testando pessoas com sintomas e qualquer um que se aproximou delas. Na Coreia e China essa foi a medida capaz de barrar o surto e reduzir drasticamente novos casos e mortes. "Mitigação" é a medida que estava sendo realizada na Itália e, inicialmente, na Inglaterra, que consiste em não suprimir a cadeia, mas dificultar um pouco a disseminação e gerar imunidade com a infecção da maioria da população. Após estudos de universidades inglesas, ficou comprovado que esta estratégia levaria a 520 mil mortos em 3 meses e a sobrecarga do sistema de saúde, assim como na Itália. Hoje, os ingleses deram "um cavalo de pau" e assumiram a estratégia da supressão, ou seja, acabar com a transmissão fechando cidades, impondo quarentena e realizando testes.

4 - A subnotificação tem tudo a ver com a escolha dos governadores e, antes de tudo, Dória e Bolsonaro que, enquanto fingem se oporem, atuam juntos para manter as cadeiras produtivas em funcionamento.

5 - Trabalhadores precarizados em telemarketing são declarados essenciais; segue o funcionamento de indústrias, com milhares de operários, de TODOS OS RAMOS; construção civil, obras públicas, estradas, transporte de todos tipos de cargas seguem funcionando.

6 - Isso demonstra que, por debaixo do bate boca oportunista de Doria e Bolsonaro, com o governador de SP claramente buscando (como marketeiro que é) se diferenciar de Bolsonaro para criar uma falsa impressão de que luta contra o vírus e assim se localizar melhor na disputa eleitoral, está a realidade: essa FALSA OPOSIÇÃO esconde que ambos cedem as pressões das empresas, dos ruralistas, dos bancos, das igrejas, dos industriais e das bolsas para NÃO parar a produção e garantir os lucros fluindo, mesmo que as custas de vidas de trabalhadores. Aqui, a fração comercial da burguesia é a que decidiram que vai pagar a maior parcela do bolo, já que teve seus negócios fechados.

7 - Tudo fica claro com as medidas tomadas: enquanto países chamados "socialistas", mesmo sem ser, como Venezuela e El Salvador, isentam cobranças de água, luz, gás, aluguéis e se comprometem a pagar salarios de empregados públicos e privados enquanto durar a quarentena, para realmente suprimir a disseminação, no Brasil, as medidas beneficiam apenas as empresas, seus lucros e, principalmente, os bancos: 68 bilhões entregues pelo Banco Central (ou seja, dinheiro público) aos bancos privados para que emprestem e criem mais dívida no povo; isenção de impostos federais, facilitação de compra de matérias primas e, recentemente, a medida provisória que permite (mesmo após revogar o ponto específico) suspender contratos e salários do trabalhador. Aos trabalhadores apenas se prometeu o chamado "vale miséria", de 200 reais, num país cujo salário mínimo deveria ser, para uma vida digna, de 4500 reais.

8 - Coagidos a trabalhar, tendo de escolher entre se endividar/morrer de fome ou contrair o vírus e espalhá-lo, o ultraneoliberalismo brasileiro (e mundial) mostra, através das figuras sádicas dos figurões e de cada pequeno patrão, que este sistema econômico e social capitalista ultrapassou há tempos o limite da racionalidade e não pode servir mais a humanidade e as necessidades do povo; pelo contrário, quanto mais ele dura, mais sacrifícios, fome, miséria e doenças são impostas aqueles que vivem mês a mês de salário, produzem tudo mas sem ter a chance de guardar nenhuma economia que lhe permita sobreviver nestas situações gravíssimas. O lucro impede a vida.

9 - Centenas de leitos sendo construídos não é, necessariamente, um sinal de "boa atitude" neste combate. Fazem justamente porque sua estratégia conta com a sobrecarga do sistema de saúde, com a não testagem dos suspeitos, em suma, contam com a morte de dezenas ou centenas de milhares (se não for pior).

10 - Os trabalhadores PRECISAM abrir os olhos e entender que não é um problema de falta de recursos.
Apenas o Itaú lucrou 28 bilhões de reais em 2019. As empresas e bancos devem mais de 500 bilhões de reais de impostos ao INSS (vulgo roubo do que deveriam contribuir a previdência ). Se fosse instaurado um imposto sob lucros, dividendos e grandes fortunas seria possível obter mais de 275 bilhões de reais. Para se ter ideia, para o "vale miséria" Guedes propôs apenas 15 bilhões.

11- Quantos hospitais poderiam ser feitos? Quantos milhões de trabalhadores formais e informais, desempregados e empregados, poderiam receber salários para ficar em quarentena? Quantas máscaras, testes, álcool, poderiam ser distribuídos? Quanto se paga em sangue para se manter a lógica do lucro acima de tudo? E quem paga?

12 - Precisamos agir rápido. Estamos as portas de uma catástrofe que pode vitimar mais de um milhão de pessoas, por Covid19 ou outras doenças por falta de Uti's. Os trabalhadores precisam realizar a pressão e luta por todas as vias possíveis e seguras, digitais e reais, para que a gestão dessa crise não seja paga com seu sangue. Para que haja ISENÇÃO de cobranças por pelo menos 4 meses, pagamento de salários, quarentena real e rígida e distribuição de proteção a todos.  Só assim o vírus será parado.

13- Essa responsabilidade é de todos nós, mas aquelas categorias com mais força tem um papel histórico central para impor nossa decisão. Ferroviários e Metrôviários, operários da indústria, motoristas de ônibus, caminhoneiros, precisam decretar greve e funcionamento apenas para necessidades essenciais de combate ao vírus. Transporte de utensílios médico-hospitalares, de profissionais no combate ao vírus e produção destes utensílios. Qualquer outro serviço deve ser totalmente interrompido. Se o Estado não permitir ou fizer, que os próprios trabalhadores se organizem e façam. Esse movimento é o único capaz de acabar com o assédio e coação para que trabalhadores NÃO ESSENCIAIS sigam circulando e contraindo o vírus.

A hora é agora. Nossa vida já mudou. Resta apontar, nas idéias e nos atos, para o mundo que queremos que surja dessa catástrofe. E ele precisa ser coletivo, socializado e planejado. O oposto desse capitalismo podre e em decomposição.