sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Viver na Periferia é uma treta!


 Viver na periferia é treta.

Hoje em dia é comum a hipocrisia alastrada.
Afinal, aquilo que o sistema mais produz e que, invariavelmente, põe em questão a sua própria existência, quando não pode ser mais negado, deve ser integrado.
É assim com o capitalismo. E não há nada que ele mais produza que a pobreza, as periferias, os rincões segregados e os indivíduos expropriados, sugados, atomizados, isolados, desprovidos de si mesmos.
Houve um tempo em que ser periférico, ou seja, trabalhador, morador dos indesejáveis, porém necessários, bairros de escravos assalariados, era um motivo de humilhação aberta, de sorrisos amarelados, de desqualificação moral e profissional. Falava-se nos corredores, agia-se nas salas de RH, erguiam-se barreiras sem pudores. O CEP e sobrenome limitavam abertamente.
Isso mudou. Uma das características marcantes da sociedade da troca de valores (ou dos valores de troca) é sua elasticidade. Até arrebentar, o elástico social, a cola social hipócrita do capitalismo ainda terá de ser confrontada por uma tensão sem trégua, nem precedentes. Não é o caso, atualmente.
Hoje, as fronteiras do consumo abarcaram a periferia. O CEP e sobrenome impedem promoções, contratações, acessos a mestrados, universidades, oportunidades, de forma maquiada, geralmente detrás de alguma razão muda.
As classes médias e os filhos da burguesia se apropriam, consomem as gírias, vestimentas, trejeitos, produção cultural da periferia e geram seus legítimos híbridos sociais.
Nada disso é novo. Ao longo da história destes últimos séculos, a validação social da cultura do peão e sua mercantilização tem sido a regra. Blues, rock, rap, funk, jazz...
A escala e os resultados, no entanto, distoam.
"Favela no topo; a favela venceu; pretos no topo; progresso pra firma", são os jargões da moda há bons anos.
A peneira tem seus grãos. Estes, exasperados com seu aparente brilhantismo, atuam, con$cientes ou não, engrossando o discurso: "queremos representatividade, nosso lugar de fala, basta acreditar".
A periferia e a consciência dos peões nos guettos maquiados são inundados de desejos de grandiosidade, posses, ostentação, destaque moral e financeiro.
Todas variações do mesmo discurso da ilusão, a velha mentira liberal da Meritocracia.
Drones cortam os céus acima de morros com casas empilhadas entrecortadas por becos e vielas estreitas. Edições perspicazes tratam de captar o belo pôr do sol da aglomeração humana.
A favela é transformada em patrimônio nacional, "diferencial comparativo" do turismo, atrativo para fotos, tours, caminhadas e, a depender do bom contato, de dia ou de noite, como boa fonte dos tão consumidos aditivos morais que ocupam papel nada desprezível na cartela do consumo pequenoburguês.
É claro que o esgoto a céu aberto não aparece nos spots publicitários.
É sempre uma bela tomada de uma serra de Mata Atlântica, praia do Rio de Janeiro, quando não de crianças correndo em ruas de terra, senhorinhas caminhando sorridentes, trabalhadores precarizados alegres, fazendo alguma entrega ou serviço enquanto acenam para a câmera.
O velho mito do "brasileiro cordial" elevado a monumento cultural para o conforto do cliente.
As tomadas agem em tempo futuro. O tempo do desejo. O desejo que as classes médias tem de expiar um remorso social herdado. De sair de suas estruturas regradas e sentirem um pouco daquela realidade que, ainda que dura, não deve ser tão amarga afinal.
Não será difícil para a emissora encontrar algum abobalhado que, com trejeitos embrutecidos ou simpatia injustificada, fale sobre como na periferia não existem "só coisas ruins", como é um lugar de "gente boa, apenas esperando uma oportunidade", "de cultura, arte e criatividade", ou seja, um ponto turístico desejável - e até invejável - para o cartel de viagens e experiências dos privilegiados.
Gringos, de dentro e fora do país (porque se existe uma Jaboticaba brasileira é esta figura do estrangeiro em sua própria terra natal, divorciado da realidade) afluirão feito ribeirão para as favelas, periferias, pancadões, mostrando em seus stories a consciência empreendedora, a criatividade econômica do povão, sua resiliência, essa palavra que age como tempero para a exploração.
Fotos, miçangas, milhares ou milhões de horas de conversas, vídeos do youtube e relatos serão erigidos para falar da doce hospitalidade dos pobres brasileiros, tão sofridos, mas tão gentis e batalhadores.
Assim se ergue o produto cultural, o nicho de consumo, perfeito para o Capital.
Toda a situação é muito sofrida, é claro, mas não deve acabar, sob pena de não suprir a demanda turística por "sentir a realidade" desse povo guerreiro.
A empatia, o sentir a dor do outro, não é nada além de um artigo a ser apropriado, um Produto a suprir uma necessidade, até que essa se faça presente novamente.
E sempre haverão pobres para suprir a ânsia por superioridade moral e chacoalhar a crise de identidade da playboyzada.
Ocorre que na periferia viver é uma treta.
Ninguém pára a tiazinha sorridente do spot para saber o que ela comeu no dia anterior.
Ninguém se importa se um bairro de periferia tem esgoto a céu aberto, ruas esburacadas, nenhum aparelho publico a não ser as incursões policiais, um posto de saúde superlotado ou uma escola caindo aos pedaços, tudo a 200 metros do bairro bacana da classe média, equipado com todas as comodidades da vida contemporânea.
Quando os poucos privilegiados, que chegam a obter algum lugar à mesa da patronal, eles mesmos se tornando patrões, falam sobre "a favela no topo" ou " a favela venceu", ajudando a criar e manter o consumo do produto Quebrada, estão, de certa forma, certos.
O topo é isso mesmo. E chegando lá, a favela venceu de que forma?
Pelo macarrão com salsicha e, quando há sorte, feijão, que comem milhões de brasileiros trabalhadores?
Pela violência policial, invasões domiciliares, execuções, que tornam ficções ridículas as garantias de "liberdade de expressão, de reunião, de pensamento, inviolabilidade do lar"?
Pelos trabalhos precários em aplicativos, pela informalidade, pelos idosos vendendo panos de prato no farol, sorvete nas ruas, muambas no centro?
No vagar cotidiano daqueles que ainda não desistiram de procurar emprego e se humilham pedindo para o motorista deixar entrar por trás no busão, pois não tem grana da passagem?
Na realidade de milhões se pobres se acotovelando, amontoados em barracos ou casas precárias?
No individualismo e na competição brutalizada, fonte de mortes por banalidades todos os dias?
Na desorganização e despolitização ena inexistência de um norte coletivo devido a luta feroz para poder sobreviver até o próximo mês?
No fundamentalismo evangélico alienante e intolerante, que transforma jovens em cordeiros fiéis da própria exploração?
Na tirania da lei do mais forte, presente e dominante em todas as quebradas?
Não.... Esta realidade não faz parte das fronteiras do consumo. Estes bastidores inconvenientes são colocados de lado ou, quando muito, mencionados com alguma frase condescendente sobre superação.
Esta amarga realidade é, inclusive, exaltada como a fonte geradora dos "gênios periféricos".
De fato, quando chegam as figuras da "elite periférica", autoexaltadas como gênios únicos, ao "topo", aos mesaninos da "high society", estão, em certo sentido, certos. O topo é assim mesmo, o terreno da hipocrisia.
É claro, nem tão alto, pois os andares superiores seguem para os herdeiros das dinastias aristocráticas, escravocratas, que lhes proscrevem o acesso às maravilhas da vida burguesa bilionária.
E sabe o mais surreal nisso tudo? Uma vez ali, a revolta que os toma não é a limitação do acesso de 9 em cada 10 pretos, pobres e perifericos, a esse topo. Não é a trilha de crânios pisoteados pavimentando uma vida confortável para poucos.
É, justamente, a de não poderem, eles mesmos, os gênios, acessar tais espaços.
Brigarão raivosamente, arrastando a simpatia de parte dos explorados, por mais espaço, pela integração na sociedade de exploração, pelo seu direito de obter a auto-estima de ser um grande capitalista.
Seus ídolos não são os revolucionarios, mas os que jogam melhor o jogo. Seus sonhos não são coletivos, mas orbitam seus umbigos inflados. Seu horizonte é apenas seu, os outros "que lutem".
Não, a periferia não é o lar das virtudes humanas. E eu tô farto dessa cantiga burguesa.
Enquanto tento me concentrar para escrever este texto, a vizinha liga o Malafaia, as nove e meia da manhã, no máximo. Entre gritos de louvores em línguas, num legítimo surto psicótico, manda seus filhos, crianças de menos de 6 anos, à merda enquanto lavam o quintal cheio de bosta dos cachorros. A bosta que eles ainda não comeram, por falta de ração. Abrupta, berra pelo mais velho - "filho da puta" - e chuta o cachorro com o focinho enfiado nas fezes. Em seguida começa a cantoria insana novamente.
O marido, bêbado ou drogado, chega à porta de casa e manda o mais velho escorraçado chamar "a puta da sua mãe" e trazer a chave. Entra. Começam a se xingar - "puta, nóia" - e ouço batidas na parede, choros, berros. A vizinhança calada. Os passarinhos capturados pelo drogado cantam, como querendo fugir desse inferno.
O bêbado sai tropeçando pro BBB da quebrada: a boca, o bar ou o bico. Deixa a merda do portão aberto. Os cachorros esfomeados sobem minha escada e começam a fuçar meu portão, tentando pegar a ração dos gatos, logo à frente.
Mais acima, um moleque, tatuado, óculos lupa, moto CG, bate a porta e, aos berros, expulsa uma menina com uma criança no colo. Outra criança sai correndo de dentro da casa, com uma faca na mão. O moleque xinga a mulher, que berra impropérios no mesmo tom. Uma mulher desce correndo e chamando o nome do cara. É sua mãe. Mulher e mãe tem o mesmo destino na boca do néscio: "Vão tomar no cú, vão cuidar da vida de vocês, leva essa criança pra sua casa, sua puta".
Topo? Eu quero é dinamitar esse prédio, porra.
*
Este é o primeiro texto do projeto chamado "Prosas proscritas".

quarta-feira, 17 de março de 2021

O que mais é preciso pra percebermos que isso é uma GUERRA?

 


O que mais é preciso pra percebermos que isso é uma GUERRA?

Vasculho mentalmente as opções de como começar um texto em meio a esta situação. O esforço, excruciante, é totalmente em vão.

Me somo a triste turba de colegas e amigos que já não conseguem nem acompanhar os jornais, nem pensar em outra coisa.

Por vezes 3000 mortos por dia, noutras os recordes de 649 pessoas mortas em SP, ainda outra a taxa de uma morte a cada 2 minutos nesta cidade. Informações rodopiantes que pressionam o peito e engolem qualquer traço de esperança que possa surgir num futuro "estável" nestas terras.

Abrir os jornais é para tanto dar de cara com este absurdo, quanto uma fonte de surrealidade diária.

É absolutamente desconcertante assistir as declarações destes asnos vestidos de generais ou do criminoso presidencial. Ao mesmo tempo, é repugnante a vagarosidade incompreensível, a lerdeza, a pompa e etiqueta enjoativas, com que a mídia patronal de Globo, CNN, record e afins discutem os "equívocos" presidenciais e os "excessos da classe política".

Como se o ritmo da epidemia fosse um detalhe e não estivéssemos num país cujos hospitais NÃO TEM MAIS VAGA, colapsaram. Como se os enredos pessoais no Brasil não estivessem sendo encerrados a taxas de 3 mil por dia. Como se 10 aviões boiengs ou 250 boates Kiss não estivessem ocorrendo todos os dias. A vida, já sem muito sentido intrínseco, inerente, em si mesmo, deixou de ter qualquer significado. Virou uma ocorrência, um acidente, que “se eu tenho, tô no lucro”.

Não há outro nome para isto. E eu já cansei de dizer qual é. Guerra, luta de classes, genocídio, tudo isso contempla mas não expressa o sentimento.
A classe dominante de nossos tempos, os patrões, não é uma classe uniforme, homogênea. Ela (ou melhor, suas frações) se unifica, com todas as disputas que existem entre si, quando tem de enganar aqueles que domina. As duas ferramentas que ela tem são a enganação ou a repressão. Hoje, combina as duas.

Mantém a peãozada no cabresto dos transportes lotados e mantém TUDO aberto (veja que fabricas, telemarketings, todo tipo de estabelecimento produtivo segue aberto, mesmo na tal "fase vermelha"). Se não trabalhar, não come. Entenda: se não trabalhar MESMO QUE POSSA SE INFECTAR, não permito sua existência. E assim a turba caminha feito gado para o abate.

Se passar fome e decidir agir nas brechas, furtar, roubar ou vender mercadorias ilegais, já sabe: a segunda mão entra em cena. Repressão, prisão forjada, assassinato, espancamento. A vida vale pouquíssimo, em geral, por aqui. Menos ainda agora. Se não te matarem nas voltinhas dadas no camburão da Blazer, tossem na tua cara pra você morrer na tranca. 40% dos presos nem julgados foi no Brasil. Entende? Ser preso, hoje, é também pena de morte.

Como consolo aos "bons cordeiros da sociedade" mostram seu olhar paternal responsável e proclamam suas "restrições" mentirosas e farsescas, pensadas pra passar uma sensação de segurança e controle, não servem de nada. Fase vermelha. Igreja, culto, role, festa clandestina, fábricas, transporte lotado, tudo aberto das 5h as 20h. O covid, respeitoso respeitador natural das regras sociais humanas, aguarda e espreita para começar seu massacre após tal poderosa restrição.

O mundo natural e o Covid estão, desde março de 2020 na ofensiva, se adaptando, ficando mais letal e transmissível, pouco se importando com as disputas mundanas e de classe entre os humanos. Nestas, ainda temos de viver com a desesperança insuportável de uma disputa entre o genocida gourmet e o genocida tiozão de boteco.

Uns falando contra máscara e vacina, outros sorrindo debaixo de sua máscara enquanto mandam batalhões e batalhões de trabalhadores, aos milhares, se aglomerarem pelo sacrifício ao deus Lucro($). Por detrás, o que lhes importa? Quem vai governar sob a pilha de ossos daqui 2 anos, em 2023. Essa é a verdade sobre Dória e Bolsonaro.

A esta altura, qualquer um, já aturdido, pediria por uma pausa no texto pra, quem sabe, olhar uma luz no fim do túnel.

É triste pensar nossa atual situação pelos olhos da história. Nossa colonização já começou como um empreendimento comercial, uma enorme empresa agrícola colonial voltada para proteger as novas posses portuguesas e ajudar a sua nascente burguesia, fundida a aristocracia, em sua disputa com os holandeses.

Por aqui o problema do povoamento sempre esteve ligado ao problema da mão de obra. Uma vez esgotadas as fontes nativas, por outro genocídio de proporções similares, se resolveu o problema com o sequestro de pretos africanos por 3 séculos. Como a produtividade do trabalho se impunha de maneira tirânica e o capitalismo chegava a sua fase de expansão mundial, o trabalho negro compulsório era substituído pelo semi-compulsório e, mais a frente, pelo de pobres trabalhadores de origem européia.

Essa herança cultural, histórica e social, deixou marcas profundas, vistas na enorme violência de classe cometida contra os pobres e trabalhadores. O sinhô virou sinhô patrão, nos diria Graciliano Ramos. E essa posição, mantida por séculos, maquiada e reforçada, tem raízes psicológicas profundas. Não é coincidência o culto a ascensão social e mobilidade através da ideia farsesca de meritocracia. Não é acaso o culto ao patrão, a defesa selvagem da propriedade, o individualismo e enorme agressividade em busca “do lugar ao sol” nestas terras. As ideias dominantes são as ideias da classe dominante.

E esta nossa classe dominante, com as transformações que teve ao longo dos séculos, nas idas e vindas da luta de classes, com as quais aprendeu, manteve bem as bases de suas ideias.
Também por isto não é de se espantar que hoje lidemos com movimentos antivacinas, atos contra lockdown, empresários falando que “o povo deve se sacrificar pela economia (deles)”. São as ideias que dominam.

De onde se esperaria uma saída, da ilustre e auto-definida “esquerda”, não se vê nada. A história dos respiros recentes dos trabalhadores também não é muito animadora. Veja, não é que não tenham existido ações de milhares, de massas, coletivas. Existiram. No entanto, a história destes levantamentos se deu sempre por dentro das margens estreitas desta tradição de dominação.

 Todos os grandes respiros de trabalhadores se deram ao redor de figuras messiânicas, quase (quando não diretamente) religiosas, incorporando a ideia de que guiariam as massas despossuídas a sua redenção e melhoria gradual da vida. Prestes, o trabalhismo de Jango, o PT e Lula. Isso sem mencionar Getúlio Vargas que, sendo o provável pai desta construção, não tinha a intenção de dar nenhum respiro, mas organizar o cortejo: domesticar a revolta popular e fazê-la rodar nos trilhos da ordem.

E todas, sem exceção, conduziram a traição e posterior piora de vida das massas trabalhadoras. O PCB e o trabalhismo traíram aceitando, sem luta, a ditadura, o PT e Lula pactuaram com os generais e entraram nesta democracia fajuta e, uma vez nela, governaram com os herdeiros diretos (Paulo Maluf, PP (onde Bolsonaro esteve durante todo o governo Lula), PMDB, todo tipo de fisiológico do centrão, depois, Joaquin Levy, Bradesco, Itaú, etc, etc).

Hoje, lendo o jornal, vejo na matéria ao lado que o centro do debate político é a Vendetta de Lula contra Moro e sua “habilidade única” de articular aliados para 2022. Um deles, leio atônito, Delfim Netto, o ministro da Ditadura Militar, que, sendo um vaso tão ruim, nem na epidemia quebra. Pt e PCdoB, grande parte da "esquerda" brasileira e comandantes de duas das maiores centrais sindicais do País, CUT e CTB, agitam, não as fábricas e empresas com greves, mas redes sociais, com memes. PSOL se apressa a dizer que é “lulalá” em 2022 e que, até lá, “vamos resistir”. Ciro balbucia algum egocentrismo. O centrão se esparrama em verbas. O STF se lambuza em nuttela e permite aos militares e Bolsonaro seu teatro. Vacinação 10 vezes mais lenta do que necessário. Vírus mais letal. A primeira ou segunda maior cidade da América latina COLAPSADA, vendo seus mortos aglomerados em contêineres.

Sinto uma pontada no estômago. Qualquer sintoma que tenho me vem a enxurrada de matérias na cabeça. Me transporto mentalmente para um leito de UTI. Ora como médico, ora como paciente. Sinto o impulso de ver o oxímetro, de medir a temperatura. Está tudo bem.

Mas não está tudo bem. Um país que aceita 3 mil (de novo: TRÊS MIL)[DE NOVO: TRÊS MIL PESSOAS, DEZENAS DE MILHARES DE HISTÓRIAS APAGADAS POR DIA(!!!!!)] sem revolta, sem alarde, sem fúria, não está NADA bem. Uma sociedade que aceita ser massacrada deste modo, é doente.

Mais precisamente, NÓS trabalhadores que aceitamos que nossas organizações e representantes tenham a INDECÊNCIA de falar em votos nessa situação; que tenham a postura ARQUEROSA de dedicar esforços pra fazer teatro no parlamento ao invés de lutar COM TUDO POR UM LOCKDOWN, que seja mantido CONFISCANDO dinheiro que EXISTE nos lucros dos Bancos e das empresas; estão PROFUNDAMENTE doentes, entorpecidos, abatidos e desconectados da própria realidade.

O Brasil não é só inovador no mundo natural, formando novas variantes letais de Coronavirus.

No plano Social o Brasil apresenta ao planeta e à História suas mais tenebrosas criações: No lugar da luta de classes, o MASSACRE DE CLASSE e a Reificação absoluta.

Queria ter algo mais gritante e expressivo do que um Caps Lock. Não tenho. E menos ainda um final textual de mais impacto. Se assim o quiser, faça como eu: Leia os jornais.

sábado, 21 de novembro de 2020

O dia em que a urna parou

 O DIA EM QUE A URNA PAROU



O quanto é necessário pra ser a gota d'água? Pra derramar o balde de insatisfação, desespero, sofrimento e raiva?


As vezes é sou um vídeo. Mas não um vídeo qualquer. João Alberto foi espancado até a morte, no Rio Grande do Sul, por seguranças da rede bilionária de supermercados, Carrefour. Um dos espancadores possuía o "know How" do ofício genocida: era um policial militar. 


Um dia antes do dia da consciência negra. 


No dia seguinte, o vice presidente do país, General Mourão, afirma, "com toda tranquilidade", que não existe racismo no Brasil. Detrás de todo o aparato estatal que as quatro estrelas lhe proporciona, tripudia, com tranquilidade, de mais esta morte banal.


Tão banal quanto a de Cláudia, João Victor, Douglas, a menina Ágatha e tantos e tantos outros e outras, cujas características unitárias são evidentes: pobres, trabalhadores e pretos.


Talvez instigados pela hiperconexão contemporânea, que liga instantânea e cotidianamente nossa realidade racista às notícias dos protestos contínuos desde a morte de George Floyd, em diversos Estados dos EUA, ou simplesmente já fartos de tanta espera e sujeição, parte das manifestações no dia da consciência negra radicalizaram-se. 


Chutaram o pau, a barraca e as promessas de "pesos e contra-medidas" moderadores da democracia dos ricos e se lançaram a queimar e depredar lojas da rede, aparentemente, intangível, Carrefour. 


Cenas lindas de ódio, indignação e raiva circulam a internet, trazendo algum alento e esperança de que, enfim, as coisas podem mudar.


Nas eleições, o recado também foi claro, a quem quiser, é claro, extrapolar o autoengano e ver: 30% dos brasileiros no país e 40% dos paulistanos não votaram em ninguém. Uma cifra enorme, que acompanha a série histórica de crescimento das abstenções, nulos e brancos. 


O significado é nítido: mergulhados na luta pela sobrevivência, esmagados pela exploração econômica e cansados das mentiras de uma falsa igualdade política, massas de milhões de brasileiros dão seu grito mudo, demonstrando a crise de representatividade e legitimidade do regime democrático liberal. 


Não surpreendem, no entanto, as narrativas que se seguem no mal chamado "campo progressista", esse conjunto difuso e vazio composto por aqueles "representantes do povo" sempre dispostos a surfar a insatisfação popular para, neutralizando-a, conduzi-la a votos que lhes garantam seus privilégios e acesso aos cargos de gestores do capitalismo.


Para um destes representantes, sempre o mais descarado porta voz do oportunismo eleitoreiro, todo esse quebra quebra deve ser apurado. 


Maringoni, quase pedindo a prisão dos que quebram as lojas, afirma ser muito estranho nas vésperas da eleição tamanha revolta e que isso deve estar a serviço de desestabilizar as candidaturas Boulos e Manuela D'Ávila, candidatos a São Paulo e Porto Alegre pelo PSOL.


Nada de novo. Em 2013/14 estes representantes foram na mesma linha da política já conhecida de dividir e conquistar: "os atos são pacíficos até que são 'infiltrados' por Black blocs violentos e terroristas". 


Isto no Brasil.

Ora, quem em sã consciência poderia esperar uma revolta desse tipo após mais uma morte banal? E ainda logo antes das eleições? Só pode ser a direita! E mesmo se não for, são os inconsequentes, sectarios, violentos, tresloucados, estes que tem de ficar no ostracismo social, bem longe de nossas vidas. Justo aqui? 50 milhões de informais, 15 milhões desempregados, centenas de milhares de mortos pelo vírus, dezenas de milhões de pessoas vivendo na extrema pobreza e fome... É ruim, mas não é pra tanto... Será que só isso é a motivação pra quebrar umas vidraças e queimar uns Elma Chips? Desconfiam e pedem apuração...


A conclusão é que, atrapalhando os pacíficos, devem ser expulsos e denunciados, ou seja, "com a gente lidem com a política, com eles, com a polícia". 


Não importa que morram de fome. Não importa que sofram no desemprego. Não importa que percam pais, mães, filhos, tios, avós para o vírus (aliás, LOCKDOWN pra salvar vida de peão, pra essa gente que quer votos do empresariado "progressista", nem pensar!). 


Não importa nem que estes sejam os próximos a morrerem espancados, fuzilados, estuprados, executados, na porta de mercados, nos becos dos morros, nas periferias e nas ruas, pelo Estado e o Para-Estado.


Como não podem entender que vencer uma prefeitura está acima disso? Como podem sucumbir a tamanha irracionalidade e raiva?


Vivemos em mundos divorciados e cindidos. 

A epidemia elevou está conclusão a quem quiser ver. 

Para uns, tudo se trata de conduzir o ódio popular para as vias institucionais, para a vida política oficial,  o sufrágio e a legitimação do regime político (e seus objetivos materiais pessoais). 


Não é surpreendente que tenha sido em governo destes senhores que a lei de drogas (2006), responsável por prender milhares de milhares de jovens negros com pequenas quantidades de droga ou muitas vezes sem nada, nos autos forjados, tenha sido aprovada como concessão as elites temerosas de uma revolta preta. 


O fato é que estes não querem mudar nada. O teto da proposta destes "amigos do povo" é se proporem governo com uma cara de esquerda para, uma vez lá, governarem, com uma cara de centro, junto de todos partidos de direita que queiram compor a "governabilidade", dando todos os benefícios e privilégios aos ricos burgueses, aprovando suas leis draconianas (de drogas de 2006, antiterrorismo, etc) e, no caminho, engrossando suas pretensa biografias de estadistas aburguesados. 


A mudança, no entanto, está do outro lado. Está na chama que arde. Dentro do Carrefour e no coração de cada preto e branco pobre e trabalhador que começa a perder a paciência e que, da indignação inssurreta com esta morte nada banal, passa a enxergar o que importa, além do teatro eleitoral. 


Desta compreensão, podem surgir os frutos mais valiosos da luta de classes. Aqueles e aquelas que entendem que tudo tem a ver com o poder. E o poder, este centauro, só se impõe pelo consenso ou pela ameaça ou uso da força. 


E para chegar ao poder, das ações radicalizadas e impacientes, virão conclusões radicalizadas sobre que força é necessária para obter o poder real e que sociedade e  regime político NOVOS queremos. 


Disto, pacientemente, cada preto e preta, trabalhador e trabalhadora, desprezando o teatro patronal, essa forma de domesticar a insatisfação em uma urna eletrônica, com promessas de um futuro que nunca chega, construirá uma nova sociedade, das cinzas de tudo - e todos - que tem de queimar para isso. 


Que os canalhas oportunistas esperneiem. Um saque, uma queima, um quebra quebra é muito pouco perto da conta que nos devem. 


Nós queremos mais. 

Quereremos a tua alma, Capital.

sábado, 27 de junho de 2020

Elegia a dona Maria

Elegia a dona Maria.

Quando chegamos aqui, muito antes da interdição, dona Maria nos recebeu desconfiada.
Do alto dos seus 90 anos, deve ter visto muita coisa. Passamos pelo portão e soltamos aquele bom dia de passagem, escoltados pela cabecinha idosa que seguia nossos passos até o final do corredor, balbuciando algo que não conseguimos entender.

No fundo, uma família, daquelas sisudas, estranhas, tipicamente disfuncional, pronta - e desejosa - pra foder alguém.

Não tinha nenhum luxo, mas encontramos nosso cantinho num dos 4 cômodos espremidos entre casas, tentando decifrar, como em toda mudança, os sinais dos arredores.

A família, estranhíssima, era dirigida por uma mulher, cabisbaixa, silenciosa, mas sempre atenta e observadora. Passava, dia após dia, por nosso portão sem falar nada. Quando, insistentes, lançávamos um tímido cumprimento, o soslaio ou silêncio reativo eram o máximo que alcançávamos. Deixamos de cultivar aquela postura padrão de cordialidade e se instalaria, nos meses seguintes, uma justificada beligerância silenciosa.

Triste. Ainda mais porque, na defensiva, não notaríamos a tempo que aqueles olhares, dessa vez não dos fundos, mas da frente, baixinhos e atentos, de Dona Maria, eram a expressão de um fio de apego a vida, uma curiosidade serena que se agarra ao fio de vitalidade, como de quem quer saber, entender, conhecer e até cuidar do outro.

Só fomos entender quando, lá pela quinta ou sexta passada ao lado da casa da frente, escoltados pela mirada penetrante, dona Maria nos chamou e ofereceu um bolinho, delicioso, recém comprado, provavelmente com o pouco dinheirinho que lhe restava para sobreviver ao fim destas 9 décadas.

Isso desarmou nosso estado. Conversávamos a cada nova passada, víamos o jardinzinho bem cuidado, as dezenas de plantas de diferentes espécies, regadas com esmero por aquelas mãos enrrugadas e atenciosas e trocamos bolinhos nos fins de tarde. Nos falava dos cocôs dos gatos da vizinha da frente, das plantinhas, da sua dor nas pernas, de suas caminhadas pelo bairro, sempre muito apressadamente, no corredorzinho que ligava nossas moradas. Nos levou uma vez um frango assado, delicioso, que tratamos de responder a altura, com um bolo de cenoura com cobertura de chocolate, que recebeu com aquele sorriso esforçado de portuguesa, com seus olhos espremidos entre as rugas volumosas.

Percebemos que, daquele gesto, quase uma relíquia comportamental esquecida, de carinho e troca, de um tempo passado, um tributo de amizade, Dona Maria queria viver, sentir-se viva e, assim, via sua vida através do outro, neste caso nós, estranhos, aos quais ela estava disposta a estender as mãos, mesmo que não tivesse muito a oferecer.

Em certo momento, a família dos fundos começou uma mudança. Foram para a casa do terreno ao lado lá na frente. O único que se comunicava conosco, o pai, mais velho, com feições trabalhadoras e uma fala que se desenrolava meio que sorrindo, meio envergonhada. Vivia tomando esporros da mulher, seguidas de um silêncio e da saída do filho mais velho e da filha do meio, ambos já jovens adultos. Vez ou outra víamos o caçula, quieto e retraído, correndo pra lá e pra cá no quintal dos fundos e, nos dias de mudança, passando, sempre curioso, nos olhando pela portinha de casa. Quando percebíamos que nos observava, ele corria derrepente, desviando o olhar. Devíamos ser pintados pela mulher como algum tipo muito estranho de seres humanos, o que, naturalmente, iria despertar a curiosidade e o receio naquele moleque.

A casa do fundo ficou vaga, o silêncio mais presente, mas sempre ainda podíamos contar com o olhar atento e as conversinhas agradáveis de dona Maria. Com o tempo, nossa hostilidade foi diminuindo e se tornando um conforto seguro, do qual tanto precisávamos.

Vez ou outra, como não podia ficar só, vinha à casa de dona Maria uma mulher, também mais velha, lá pelos seus 60 anos, limpar e cuidar dela. Fomos descobrir depois que era sua filha. Ouvíamos o som do aspirador, sentíamos os cheiros da comida nos domingos e começamos a ser cumprimentados também pela filha sempre que passávamos pelo corredorzinho. Era uma pessoa sorridente, bem humorada, mas com um que meio estranho, distante, até meio melancólico.

Foi numa noite. Não lembro se num fim de semana ou num dia normal.

Ouvimos na porta de casa nos chamarem. A filha, num ritmo lento e estranho, nos dizia que precisava de ajuda. Dissemos olá e perguntamos se estava tudo bem.
Dona Maria tinha caído nos degraus da frente de sua casa.

Corremos pra meter uma bermuda e roupas, abrimos o portão apressados e fomos pelo corredor. Já era noite.
Na porta de casa, dona Maria estava lá, de costas no chão, com metade da cabeça no jardim e os pés encostados no primeiro degrau.

Tomamos um susto enorme. Estabilizamos sua cabeça, seguramos firme seu corpo e fomos levantando pouco a pouco. Ela balbuciava, com seu sotaque português, alguma coisa sobre o portão frouxo, sua filha ser irresponsável, dor nas costas e outras coisas indicerníveis.

A levantamos pouco a pouco e fomos entrando por sua casa. Nunca estivemos lá. Era uma casa de vó, com armários de cozinha azuis, mesinha no centro de pernas de metal, com pisos que lembravam minha casa na infância.

A colocamos sentada. Nos pediu uma pomada em seu quarto. Lá vimos uma foto bonita, preto e branco, não sei se dela ou da filha, em cima da cômoda.
Nos pedia para passar a pomada em suas costas, que bateram no chão e ver se estava sangrando sua cabeça.

Fizemos com cuidado e vimos que não estava. Durante todo o tempo em que estivemos lá, quase uns 20 minutos, a filha desapareceu.

Acalmamos nossa velhinha, passamos mais pomadas, tranquilizamos e a colocamos no sofá. A filha, então, retornou. Teimosa, dona Maria ouviu dizermos pra ela ir ao hospital, já que uma queda, nesta idade, é séria. Não quis ir de imediato, mas parecia estar disposta. Queria dormir. Nos deu um abraço e, antes de sair, falamos com a filha pra levá-la, nem que no outro dia.
Nos falava sobre a teimosia da mãe, explicou por cima que ela tinha escorregado e agradeceu.
Ficamos preocupados.

Essa seria a última vez que veríamos dona Maria.

Algumas semanas depois, fomos saber que sofrera outra queda, desta vez dentro de casa. A filha nos contou, numa das passadas pelo corredor, que estava no hospital. Não tinha ido quando da primeira queda e, após a segunda, sentia fortes dores de cabeça.
Até perguntamos se estava recebendo visitas - e se estivesse gostaríamos de vê-la - mas não quisemos insistir, já que a família provavelmente estava ocupando todos os horários.

Daí pra frente tudo foi ficando mais estranho. A cada nova passada pelo corredor, um bom dia sorridente e formal, agora da filha. Nas primeiras vezes perguntávamos como estava Maria, ao que nos respondia que estava internada, mas que não ia visitá-la há dias. Achamos muito estranho a combinação.

Com o passar dos dias, fomos percebendo que estávamos sendo evitados. Não mais aparecia na janela e, com as semanas passando, dona Maria não voltava e não tínhamos mais notícia. Supusemos o pior.

Pior este confirmado quando, numa das passadas de corredor, ouvimos, de rabo de ouvido, a filha contar para a mulher da família, agora no terreno da frente, sobre o falecimento de Dona Maria. Ficamos tristes. Por tudo. Por não saber, não ter como ajudar, não ter sido avisados…
Mas não havia o que fazer.

Pouco tempo depois, se abateu a interdição. Preocupados com nossa própria segurança, organizávamos os meses que se seguiriam, buscando comprar e organizar nossa própria vida.
Num destes dias de preparação, ouvimos uma discussão na casa da frente. Era um homem, nervoso, gritando aparentemente com a filha e dizendo que ela deveria sair da casa o quanto antes. Não entendemos bem.

Nos dias seguintes, percebemos alguma movimentação entre a casa da frente e a de trás, mas, ocupados como estávamos e ainda trabalhando, não entendemos de início. Estranhamos quando, depois de um tempo, percebemos a casa de Dona Maria vazia.

Seguimos em nossa interdição, dia após dia, morte após morte, ansiedade atrás de ansiedade, sem saber quando acabaria.

Após algumas semanas começamos a ouvir alguns barulhos estranhos vindos da casa dos fundos.
Estranhos, já que não havia luzes nem ruídos muitos altos.

Foi apenas após 3 meses de reclusão que percebemos o que acontecia. Nos fundos, víamos a filha, vez ou outra, espiar pelo corredor, quando entrávamos e saíamos. De alguma forma estava vivendo lá, sozinha, sem luz e isolada.

Quando percebeu que a víamos, começou a sair. Achamos de início que para trabalhar, mas percebemos que os horários batiam com o do bom prato da região. Nas poucas vezes que cruzávamos, nos sorria e dava bom dia, sem tocar no assunto de dona Maria ou de sua própria condição. Mais semanas se passaram.

Num fim de semana qualquer foi quando percebemos, de fato, o que se passava. Ao sair de casa, alguns homens entraram no corredor pra ver as casas e, ao chega na casa dos fundos, falavam alto com alguém no telefone que havia ali um cadeado. Tentar tirá-lo, antes de tentar arrancar alguma coisa de nós que, de fato, sequer sabíamos de nada. Foram embora.

A filha provavelmente estava, nos seus 60 anos, pelo menos 3 meses ocupando a casa e sobrevivendo como podia.
Não tardou a tragédia a retornar.
Numa manhã comum, um homem batia em nossa porta. Saímos pra ver e perguntar o que queriam. Já conhecíamos o tipo.

Se identificou como policial e começou um interrogatório incisivo sobre quem morava ali. De pronto, já que não somos afeitos a colaborar ou se submeter a estes tipos, fincamos em vozes firmes que não sabíamos de nada e que nós apenas morávamos ali. Ligue a imobiliária e procure saber.

Ao perceber nossa firmeza, baixou o tom e balbuciou alguma banalidade sobre os perigos de ocupantes, terminando  a nos dizer que estavam ele e sua delegacia a "disposição" caso percebêssemos algo estranho. Foi embora, mas não antes de quebrar o cadeado e jogar todos os poucos bens na casa dos fundos no meio do corredor.

Mais a noite, ouvimos outra voz. Era a filha, em prantos, dizendo que o pior tinha acontecido. Não estava bem. Falava versões contraditórias sobre os motivos, que sequer sabia quando sua mãe falecera, sobre a família que abandonara, como não podia voltar para sua cidade natal.

Não tínhamos como ajudá-la muito. Oferecemos um dinheiro para passagem ou um hotel para descansar e preparar seu retorno ou pedir ajuda a algum amigo e familiar. Nos agradeceu muito, mas disse que iria para a rodoviária, ver o que fazer.

Tão rápido quanto tudo ocorreu, ela se foi, deixando suas panelas, um quadro de Santa Terezinha e um colchão, ensopado da chuva que tomou na noite em que ficou exposto.

Semana passada, uns pedreiros entraram no corredor. Arrancaram todas plantinhas, ensacaram os pertences, jogaram na frente do portão lá fora e por fim, cimentaram o outrora chão, tão nutritivo e que recebera tanto cuidado de Maria. Só restou o quadro, espremido num canto de parede.
A família, atenta a tudo, depois disso se trancou. Vez ou outra o menino aparece numa janela embaçada, sumindo quando é visto.

O corredor voltou a ficar vazio.
E agora ninguém mais espia nossa entrada.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

A volta dos que não foram.

O sentimento de angústia é uma entidade familiar dos brasileiros há uns bons anos.
Em particular para aquela pequena franja de trabalhadores que, pelas casualidades da vida, tiveram contato com os meios intelectuais de esquerda e que buscam interpretar uma saída para todo o beco histórico - ou talvez seja melhor chamar de poço - em que nos encontramos. 

Entre os trabalhadores mais distantes desse privilégio, a realidade se apresenta como uma sucessão de decepções, sem saída. 

Para uma geração mais antiga - aquela que viveu os anos "dourados" da luta operária dos 70 e 80 - tudo passou rápido demais de uma esperança de melhoria de vida gradual, concretizada pelas promessas da chegada do PT ao poder nas eleições de 2002, a um desmoronamento vertiginoso das condições de existência, de 2016 para cá. 

A reestruturação completa das relações de trabalho, colocando o país de forma aprofundada na trilha do novo mundo do trabalho, em que trabalhos com direitos são a exceção e a regra são os cargos precarizados, intermitentes, informais e sem direitos, com baixíssimos salários, diminuindo drasticamente o preço da força de trabalho brasileira; o fim trágico do direito, para a atual e futuras gerações, ao mínimo mecanismo de solidariedade concretizado na aposentadoria; o enorme desemprego estrutural e permanente; todos estes cenários impensáveis durante os anos de governos PTistas, surgem como uma realidade  amarga.

Alterações históricas gravíssimas das relações entre as classes acontecem diante de trabalhadores que, golpeados pelas consequências históricas de uma reestruturação preventiva constante do capitalismo, mal percebem com clareza como se dá sua fragmentação, se enfraquece sua força objetiva na produção, se dividem suas formas de viver e ver o mundo e como, em suma, são divididos e conquistados.

A profundidade da derrota histórica do fim dos Estados que, por burocratizados que fossem, eram a expressão histórica e um fio de continuidade de um outro mundo possível, uma outra forma de relações sociais e produtivas criado pelos debaixo, atinge em cheio a estes trabalhadores.

A desmoralização, o hedonismo, os vícios descontrolados, o crime, o suicídio, a fuga, todos fenômenos humanos e sociais presentes em geral na história, são amplificados e tornados vias de vazão de uma profunda angústia social. Está instalado um profundo mal estar que se agrava dia após dia. 

Todos sabem que nada está certo, mas ninguém acha que algo vá mudar. Ou que possa mudar.

A atomização, o individualismo e a prostração são os sinais do adoecimento social dos oprimidos - e também das classes médias - contemporâneos , cuja única realização de sociabilidade é através do consumo e sua ostentação.
Assim, não surpreendem as filas em shoppings em meio a maior epidemia do século.

Como consequência, se produz um retrocesso organizativo, ideológico e da consciência de classe profundos, base desta angústia e sentimento de beco sem saída. 

Se perde a realização do potencial unificador de uma identidade de classe explorada contra uma minoria exploradora, inescrupulosa e parasitária, se dissolvendo no profundo mecanismo divisor das subjetividades dos, nem tão outrora assim, chamados proletários.

Ressurgem as caricaturas infantilizadas que, tal como espantalhos, auxiliam no processo de confusão e desmoralização planejadas dos debaixo.

A velha tática de demonização do dito comunismo, dos "vermelhos" autoritários, sádicos e abortistas encobre os verdadeiros sádicos, parasitas e autoritários no exercício de um poder voltado a, numa fase de decadência capitalista, uma concentração de capitais, de riqueza, nunca antes vista nas mãos dos mega bilionários. 

Qualquer ficção de democracia é pisoteada pela realidade de um país capitalista atrasado como o Brasil, onde 104 milhões vivem com 413 reais e 68 milhões sobrevivem de alguma maneira na informalidade ou desempregados, todos estes bombeando riqueza sugada por uma minoria de bilionários gozando paraíso terreno, em cima de cadáveres de 50 mil mortes (até agora e em dados oficiais), evitáveis, por Covid19. 

Esta angústia conduziu milhões de uma enorme crise de representatividade, com eleições atrás de eleições de aumento em votos nulos e abstenções, para a demagogia "antisistêmica" prometida por Bolsonaro e sua gangue de protofascistas.

Uma vez enterrada a esperança vendida pelo PT graças aos tempos excepcionais de crescimento econômico, sugada para dentro do Estado e de seus programas sociais, o caminho da destruição econômica na colônia, exigido pelos países imperialistas, pegou estes proletarios desprevenidos. 

Imperialistas? Um termo tão século 20... Com consequências tão presentes no século 21. 

Nossa economia, dependente e submetida em todo o fundamental, é retalhada e reorganizada de acordo com os planos dos grandes monopólios estrangeiros. 

Programas sociais cancelados, recursos cortados, Petrobrás é afundada, Embraer quase entregue aos estadunidenses, globalplayers da construção destroçados, grandes exportadores de carnes absorvidos pelos capitais gringos. E no fundamental, seguimos exportadores de bens agrícolas, minerais e de pecuária, enquanto fazemos valor fluir para as metrópoles comprando todos bens industriais e tecnológicos que  vendem. Uma semicolônia, formalmente independente, na prática com sua administração controlada pelos estrangeiros.

Do vampiresco Temer, só se produziu tragédias, num regime ainda mais carcomido, fruto de mais um golpe de Estado realizado por frações burguesas que cansaram de esperar e decidiram governar diretamente, sem gerentes vermelhos, atendendo as ordens de Washington e cia.

Sempre projetando sua sombra sinistra, por 13 anos debaixo das asas dessa progressismo avermelhado petista, militares mantiveram sua parte no banquete. Isentos dos efeitos das reformas, sugando vorazmente os recursos públicos através de pensões , soldos, auxílios e penduricalhos, a nova república foi um bom negócio. 

Trocaram incertas consequências da politização dos trabalhadores, tão perigosa para os interesses empresariais, nos anos 80, por alguns anos de trégua e "banho maria". 

Perdoadas, por lei, as atrocidades cometidas, se tratava de corroer a memória histórica, pouco a pouco, sob as asas daqueles contra os quais combateram na época das guerrilhas e greves. 

Voltam a falar abertamente em revolução de 64 como marco democrático e demonstram, após 40 anos, a tutela em sua forma mais plena, acenando com um pretenso papel moderador militar, cuja fonte, não surpreendente, não é o voto, mas o monopólio das armas. 

Tal como um russo inteligentíssimo diria, afora o poder, tudo é ilusão.

E os fardados brasileiros, estes sim legítimos mamadores das tetas do Estado e, também, de uns biquinhos estrangeiros mais ao norte, nunca se deixaram iludir. 

Em momentos chave, atenderam ao chamado da nação, ou mais propriamente de FHC, para acabar com a baderna dos operários da CSN. 

Nunca fugiram a luta de aplicar, com esmero e dedicação, a ordem democrática materializada na novíssima lei de drogas de 2006, esta atualização da Lei da vadiagem contra os pretos nos fins do século 19, aprovada pelos progressistas Ptistas e mantida pelos reacionários de todas as cores, sempre que convocados aos morros e favelas. 

Como é preciso "mexer os músculos", cumpriram seu dever cívico democrático de levar a civilização ao barbarizado Haiti, destroçado por tragédias naturais e sociais, novamente seguindo as orientações da ONU/EUA e com a condescendência dos progressistas da estrela vermelha. 

Uma verdadeira "escola de guerra" de abate de civis, infiltração psicológica, ocupação militar e, ocasionalmente, um pouco da boa e velha degeneração moral tão familiar as casernas e ao alto oficialato de qualquer Estado Burguês. Afinal, como manter ativo, em tempos de paz, o espírito de combate das tropas sem uma chacina aqui, uma troca de alimentos por sexo oral ali, um estupro e execução acolá....?

Os "filhos de caxias", então, eternos injustiçados, eram novamente convocados a seu papel moderador,  eternos mantenedores da paz, cumprindo seu dever nos eventos históricos - de corrupção e sucção de recursos - da copa de 2014, olimpíadas de 2016 e, por fim, na malfadada, porém bem vendida, intervenção militar de 2018, no RJ. 

Respaldados pelos instrumentos normativos da modernidade condensados na lei antiterrorismo aprovada por, vejam que surpresa, novamente os progressistas vermelhos (talvez objetivando eliminar alguma célula da Al Qaeda em terras Tupiniquins, jamais imaginando ser essa uma arma contra o povo), puderam enfim aplicar as lições da escola haitiana para impedir a decadência e desintegração em sua terra natal.

Heleno, Braga Netto, Villas boas, Luiz Eduardo Ramos são todos criaturas do pacto de 79, este desvio da progressão de lutas populares, uma trégua resultante da covardia e traição, da lei de anistia e da escola do Haiti, uma ocupação imoral e assassina, pensada para arrancar daquele povo qualquer idéia de emancipação, vendida como "missão de paz" pelos "democratas" pequeno burgueses brasileiros.

No governo que se gaba de ter "feito história", encontraram refúgio em Lula e Dilma, os quais fizeram mesmo história pela covardia de 13 anos no poder sem realizar nenhuma reforma séria, seja na estrutura militar, tributária, agrária e por aí vai… 

Os torturadores que não morreram, de velhos, em seus condomínios de praia, tiveram tempo o suficiente para conspirar - e ensinar - com liberdade total de ação.

Em Bolsonaro encontraram a janela de oportunidade para a redenção, a chance de, enfim, limparem suas fardas, com boas ações de falsificação histórica, do sangue derramado e, reeditando a repetitiva história brasileira de assaltos militares ao poder travestidos de "moderação", posar como os guardiões da democracia.

Para isso, auxiliados pelos pupilos da nova geração, tão tacanhos quanto seus mestres, contam com as armas da modernidade e o expertise dos papais do norte. 

Lotam os escalões governamentais de militares, impõe e articulam projetos de lei de vigilância digital total, com CPF em redes sociais e monitoramento permanente de navegação pelo governo através dos provedores de internet e, por fim, deixam claro que em sua democracia, quem fala por último são as armas. 

Tomam o poder de fato.

O oxímoro brincalhão ganha corpo em toda a história da nova república, uma democracia de fachada, tutelada pelos milicos sempre a espreita, mantida por uma guerra civil maquiada contra pretos e pobres, num regime político democrático fictício, que pinta uma falsa igualdade formal de todos perante a lei para maquiar uma sociedade dividida entre explorados e exploradores, onde a única realidade é a desigualdade real diante da propriedade e da legalidade burguesas, capitalistas.

Obviamente, um regime que é embelezado pelos bonitos discursos da "ouvidoria do capital", esta nova velha esquerda no comando da maioria de organizações como PSOL e Cia, sempre pronta a conduzir a indignação esporádica e inevitável do povo para promessas de "civilizar a exploração", bastando que "votem em nós". 

Os militares disseram que foram, mas, derrepente, voltaram; já são o poder.

Contra a ilusão democratista ingênua e estúpida quando sai das bocas oportunistas dos progressistas de vermelho desbotado ou amarelo solar sorridente ensinam que o poder, a única realidade de fato, não emana dos votos do sufrágio, desta abstração de soberania popular, mas das armas, da força e da propriedade. Como sempre foi e sempre será até o fim de todo poder.

Parte do balanço histórico ainda precisa ser feito e é na profundidade das consequências das decisões tomadas ao longo destes anos que encontraremos os nós dos dilemas atuais.

O abandono do pensamento estratégico voltado para eliminar o poder do capital e erguer um novo, dos explorados, conduziu nossa esquerda, de outrora e de agora, a um duplo caminho: a adaptação e integração total ao Estado, as regras do jogo e a legalidade e propriedade burguesas, sobrando apenas o papel de administrar a exploração abandonando a própria definição como esquerda, como no caso PTista; ou a uma existência de nicho, baseada nas classes médias e camadas superiores de trabalhadores com direitos, impotente, romântica, ingênua e domesticada pelas mesmas regras do jogo.

Uma esquerda sistêmica que, longe de negar o sistema, faz parte da dissidência planejada e controlada, que reafirma sua existência: uma espécie de encontro recorrente de Neo com o arquiteto da Matrix, pra usar um exemplo cinematográfico pop.

Divorciadas da maioria dos trabalhadores em todos os campos, do organizativo e ideológico ao vocabular, pisoteados como ideologia de uma elite numa bolha, as idéias revolucionárias tem uma longa e difícil caminhada para retornar ao caminho da vida real e material dos oprimidos.

Hoje são, no entanto, mais do que nunca, urgentes e necessárias.
A destruição da vida, a miséria, fome e genocídio são ocasiões presentes e dissolvidas num cotidiano de apatia e desmoralização, de negação de reconhecimento da própria condição de dominados.

Retomar a história de tantos como nós, que há algumas décadas apenas ousaram tomar seus destinos - bem como suas fábricas, terras e empresas - de forma prática, em suas mãos, realizando ações independentes dos exploradores, diretas, buscando criar um novo mundo e uma nova sociedade, é uma necessidade histórica, a condição cada vez mais evidente para a sobrevivência humana. 

Nas condições da periferia do capitalismo, este papo soa utópico, irreal, romântico. A barbaridade cotidiana é tão mais presente que a mera idéia de uma ação coletiva capaz de cessá-la soa ridícula e pouco realista. 

O que a história ensina, no entanto, é que grandes tragédias históricas promovem grandes questões existenciais e, mais do que nunca, a crise sem precedentes de uma economia em depressão e uma epidemia mortal colocam para nossa geração e as próximas a maior delas, a questão do futuro.

Toda grande questão receberá uma resposta, cedo ou tarde. 

Sabem disso aqueles que se antecipam, como nossos realistas militares, criando diques de contenção contra a revolta daqueles que, hoje por hoje, esqueceram de sua força real e se debatem na luta pela sobrevivência, ainda atemorizados por um poder que lhes parece natural, invencível, imutável. E por isso que não tomaram o poder com tanques na rua. Não precisam jogar a realidade na cara daqueles que, por ora, não enxergam seu papel no espetáculo.

Todos grandes sistemas econômicos e sociais enfrentaram essa situação. 
O poder dos senhores de escravos, dos lordes feudais, dos monarcas absolutos, todos, em seu tempo, por vezes por séculos e até milênios, ostentaram sua infalibilidade e seu direito inquestionável a existência.
Todos, como todas obras humanas, caíram sob os pés das próprias contradições.

O próprio fato de estarmos hoje refletindo sobre isto, demonstra que as contradições existem e corroem, pouco a pouco, os pés de barro de um sistema cuja existência contradiz as necessidades humanas. 

Que produz alimentos para três planetas, mas condena bilhões a fome; que produz moradia suficiente para todos, mas impede que todos a tenham; que alcançou um nível técnico capaz de suprir a todos um nível médio elevado de vida, mas condena bilhões a miséria permanente.

Diferentes dos demais, no entanto, o capitalismo terá de ter seus pés decepados, como obra consciente, dando lugar a um sistema surgido de suas entranhas. 

E é está a única saída histórica, a única fonte de energia, entusiasmo e vontade, com a qual podem contar aqueles trabalhadores privilegiados por terem contato com a história da luta dos oprimidos. É está a realidade dura por detrás de todas as crises enfrentadas por todos explorados no planeta.

De nenhuma maneira é inevitável que vençamos. A história não segue uma linha reta. O feudalismo, por exemplo, foi a expressão de um retrocesso de mil anos (!!!) em muitos sentidos, em comparação ao que foi o sistema dos romanos em seu ápice. A barbárie e desintegração estão sempre espreitando. 

Acostumados a tratar seus inimigos pela via de simplificações e caricaturas, os capitalistas e seus enganadores profissionais tentam pintar os comunistas, indignados e revolucionários como incendiários, agentes do atraso, da barbárie e do caos. 

Ao contrário. 
É na forja fervente desta campanha permanente de mentiras, imersos na angústia de uma sociedade que grita por mudança, mas ainda não produziu as ferramentas do parto do novo, que a história nos lança seu desafio: ou os revolucionários conquistam seu direito a existência e, assim, destroem os freios que impedem o progresso da humanidade e a manutenção da civilização ou a angústia tornará mais e mais degenerada a face da sociedade humana, até uma nova desintegração.

Entre a distopia e a utopia, há um caminho.

A da ação consciente, que pressupõe uma atitude científica e séria, um compromisso total com a vida da maioria da humanidade, a busca pela transformação social, indo até onde os fatos e a história nos levam e enfrentando suas consequências e desafios.

No Brasil, o primeiro deles é ousar chamar as coisas pelo seu nome. Separar os trabalhadores de toda a influência dos patrões, de seus valores mentirosos, dessa cada vez mais falsa esperança de realização pessoal pelo enriquecimento, a mentira da meritocracia, mesmo quando esses valores são propagados por gente que vem debaixo, de onde viemos.

Denunciar a hipocrisia da democracia capitalista e liberal e pacientemente, traduzir a experiência histórica em cada uma das lutas atuais imediatas, da enorme maioria preta e trabalhadoras onde estão as energias mais explosivas capazes de mudar tudo, conduzindo a uma só conclusão: a necessidade de um novo poder, um Estado dos trabalhadores e explorados erguido em cima da destruição das instituições e da legalidade capitalistas, baseado na democracia direta e autoorganizada nos bairros fábricas e locais de trabalho.
Onde a necessidade humana seja o motor da sociedade. Está é a única saída coletiva para a maioria. 

Para isto, coragem, coragem e mais coragem são os requisitos para seguir dando exemplos que nos aproximem mais e mais do momento da ofensiva, nacional e internacional, pelo poder.

Eles voltaram, é certo.
Mas nós ainda não fomos.




quinta-feira, 18 de junho de 2020

Combinações incomuns: segue o plano de queimar o fusível Bolsonaro

A combinação de situações é muito incomum.
Prisão de sara winter e os idiotas performáticos do acampamento; avanço do STF na pressão de investigar as fake News nas eleições de 2018; agora
a prisão de Queiroz, estranhíssima, há um ano na casa do advogado de Bolsonaro; Weintraub caindo "pra cima'...

Já começam a vibrar as forças a esquerda no escritor político, na defesa do STF, soltar memes e compartilhar gracejos com membros do MBL... Tudo muito estranho.
A crise de representatividade e legitimidade do regime político diante da maioria da população, o verdadeiro centro da questão desde pelo menos 2013, é o que está em jogo (basta ver a série histórica das eleições e o aumento do número de votos nulo/brancos e não comparecimento como sintomas).

Quem mais ganha, num cenário de inexistência de oposição dos trabalhadores, com todas estas ações?
Quem se "reabilita"?

Conforme Bozo perde apoio nas pesquisas, os outrora afundados na lama governadores e congresso crescem. O STF, outrora negociador e que legitimou o golpe parlamentar em 2016, que aprovou o fim dos direitos trabalhistas e da aposentadoria com as reformas de 2017 pra cá, derrepente se tornando baluarte da defesa "da nação". O congresso, a exceção do centrão, junto dos governadores, são vendidos como "forças civilizatórias" diante da barbárie materializada pelo Bolsonaro.

O maniqueísmo é evidente e proposital. Existem forças políticas e econômicas, com os militares em destaque, que entendem a profundidade da crise economica e social que viemos tendo e que teremos, a maior da história, na próxima década.

Uma crise destas proporções coloca em risco a própria estabilidade institucional do país, pois torna cada vez mais claro as maiorias de trabalhadores que esta democracia é uma farsa.

A tragédia da reabertura diante da epidemia e a situação absolutamente miserável das condições de vida do peão (o índice oficial de desempregados saltou de 13 para 28 milhões de 3 meses para cá, com 40 milhões de informais, chegando a 68 milhões desempregados ou informais) tendem a jogar milhões de trabalhadores no caminho do choque com uma democracia que, detrás da igualdade formal de todos perante a lei, esconde a Desigualdade real de uma sociedade divida entre exploradores com direitos e explorados sem nenhum direito real, cujo papel é gerar montanhas de riqueza com seu trabalho, quando muito recebendo um salário muito inferior a esta riqueza gerada, que será sugada e apropriada por esta minoria.
Uma ditadura economica com maquiagem democrática mantida com vigilância digital total e repressão permanente aos bairros pobres e periféricos.

Neste cenário, faz toda a diferença que a "democracia" mostre sua "vitalidade" e puna aqueles já descartáveis, realizando a limpeza e mostrando seu caráter "civilizatório". Como se não fossem as mesmas forças que botaram bolsonaro onde esteve até cumprir todas as reformas exigidas pelo capital daqui e de fora.

Recompor a defesa desta democracia mentirosa e aumentar os índices de legitimidade das instituições diante das classes médias que ainda existem é fundamental pra segurar a onda de convulsões sociais que se avizinha. Dividir "impressões" em meio a crise.

A inexistência de uma ação independente dos trabalhadores, que deveria partir de lutar por condições de renda e existência para sobreviverem em isolamento na epidemia, é a grande carta que falta nesse baralho e, por não existir, permite a manipulação tão fluida e grotesca da realidade política, em benefício dos militares e empresários que, de 1979 para cá, nunca saíram do poder.

Do golpe institucional de 2016, passando pelas reformas (previdência e trabalhistas) que derrubaram o preço do trabalho no Brasil, até a reabilitação planejada das instituições burguesas (exército, congresso, senado e governadores, através da queima do fusível Bolsonaro) há um fio de continuidade muito nítido. Pensar com a cabeça do inimigo nós leva a concluir que esta é a linha mais benéfica a eles.

E tudo se passa com a colaboração voluntária da maioria da dita esquerda, com pouquíssimas vozes dissonantes.