TRIM TRIM TRIM!
TRIM TRIM TRIM!
Eu nunca fui o melhor em alguma coisa
Deitei a cabeça no travesseiro e me indaguei incisivo. Digo eu porque, afinal, acredito que o que me vem à cabeça, ainda mais a essas horas da noite, só pode ter esta origem.
E é daí que se inicia o trajeto da insônia.
Eu achava bobagem aquelas cenas clichês de filmes e séries, em que o sujeito se debate na cama absorvido pelas sinuosas curvas de pensamento caótico, sempre no momento mais inoportuno do sono, revirando fatos do passado, ideias do futuro e angústias do presente. Eu também nunca dei muita bola pra esse papo de saúde mental. Afinal, somos criados para lidar com o externo.
A rigor, somos criados para sermos um apêndice da vida exterior, como ferramentas úteis que devem se segurar como puderem a um fio de saúde física e todo o resto se trata com o bom e velho “tem de aguentar”.
É curioso como, tantas vezes, me deparei com situações absolutamente elucidativas sobre o que é uma crise do pânico, um transtorno de ansiedade, gente borderline e toda essa sopa de letras sortidas que o capitalismo disponibilizou para nossa geração. Uma riqueza de transtornos, um mostruário de monstruosidades, toda essa parafernália que acomete os adoecidos são o subproduto histórico-social de uma vida expropriada, sugada de sentido, para nove décimos dos pobres diabos como eu.
Ainda assim, tudo me parecia apenas algo mais do que uma frouxidão moral, uma fraqueza de gente sem sorte. Isso, até eu ter a minha primeira crise de pânico.
Voltemos à insônia, no entanto.
Percorri escrupulosamente os cantos da minha vida em busca de confirmação ou refutação de afirmação tão taxativa.
Lembro bem da adolescência. Nunca tive o cabelo mais bonito. Ainda que tivesse um sorriso cativante e um porte um pouco acima da média, não podia competir com o cartel de oferecimentos da turma dos “populares”. Todas as pequenas características físicas e morais que pudessem me conferir algum destaque em uma época tão crítica e em que impera tão fortemente a crueldade, como a adolescência, eram contrabalanceadas pelo sobrenome pomposo, pela total 90 da Nike, os rolezinhos semanais no shopping e a noção de Status que a Bárbara poderia ter indo ao cinema com o filho do dono da papelaria.
O jovem da periferia ou, como alguns falavam em tom condescendente, “classe média baixa”, era algo entre o exótico e aquilo que deve ser evitado. Desnecessário dizer que, em se tratando de relações, esta não foi a melhor época para mim.
Nunca tirei as melhores notas, é verdade. História, Geografia, Sociologia, Português e Redação me encantavam, apesar de, nesta busca por identidade, não sugarem decisivamente minhas iniciativas e vontades.
Estava em algum lugar entre os nerds, aos quais atribuo, hoje, o mérito de terem visto com clareza e terem embarcado nos assuntos de seu interesse e os largados, aqueles que por seus motivos não tinham os meios nem se encantavam com nada do que era discutido ali. De conjunto, já é um privilégio ter a possibilidade dessa escolha num país assolado pelo semi-analfabetismo e pelas escolas caindo aos pedaços.
Isso me faz lembrar o futsal. Jogava na pista de taco e de cimento do salão do clube perto de casa. Não tinha nenhum campinho muito próximo e também me dava muita preguiça pensar em correr aquele campo inteiro enorme. Eu gostava de emoções concentradas, preâmbulos rápidos e jogadas ligeiras.
Mesmo ali, nunca fui o destaque. Havia dias em que chutava redondo, acertando até umas boas rebatidas de três-dedos, roubando uma bola na ala esquerda e fazendo um bom cruzamento, chegando a arrancar algum elogio do treinador. Em outros, era como se algo se apossasse de mim de forma que, a cada dificuldade específica, num dia específico, crescesse uma voz no fundo da minha mente, uma voz de uma sombra que escurecia o ambiente, me tirava as forças e sugava minhas possibilidades de fazer bem algo.
Lembro da vez em que fiquei quase 5 minutos tentando acertar um pênalti na fila de cobrança. A cada chutão pro espaço, no meio do gol ou na não do goleiro, um uivo da molecada sugava algo em mim e injetava o veneno que fazia crescer a sombra. A sombra da incerteza e da insegurança, algo muito familiar nos anos vindouros.
Aprendi então que, não sendo capaz de vencer, para ao menos olhar a luminosidade de algum êxito no horizonte, precisaria agir de alguma forma.
Esta foi a época em que era moda zuar a aparência alheia na escola. O nome e o cabelo encaracolado/crespo, é claro, foram alvos preferenciais.
Esmagado pela estrutura social dominante na escola de classe média alta, na qual ocupava o papel de “elemento de atenção”, a busca por identidade e a sombra da incerteza, percebi a fonte de onde poderia erguer minha vontade.
Algo começou a mudar quando, espremido pela sombra e sentado em algum canto escuro e seco, pela primeira vez, percebi uma fresta estranhamente luminosa e estridente, cujo calor dissipava a frieza da incerteza, se abrir, me mostrando uma fonte inesgotável de energia. A raiva foi minha companheira fiel — e segue sendo — durante todos esses anos.
Essa foi, então, minha força motriz. Não me lembro em quantas oportunidades praticamente entrei com bola, zagueiro, goleiro e, às vezes, até juiz, no gol adversário. A vontade passou a ser o mote e a raiva o combustível.
Comecei a concluir que, como forma de ser respeitado, devia pagar o fogo com fogo maior.
Aquela fresta no canto do quarto se tornava cada vez maior e, agora, me permitia até ver um pouco mais daquele espaço, vazio, é verdade, mas que um dia eu poderia mobiliar e decorar, tornando-o um lar que eu gostasse. Não precisaria me preocupar com o calor. Enquanto estivesse aberta aquela fresta, eu veria ao menos parte da minha sala, ficaria aquecido e estaria seguro.
Meti um soco na cara de um folgado; passei o rodo naquele que me chamou de cabeça de Bombril; angariei uma reputação para chamar de minha.
De uma forma estranha, o destaque me encontrou. Eu era o terror da escola. O cara que tirava boas — embora não excelentes — notas, que tocava o terror nas aulas, que não aceitava desaforo e que se defendia e a suas opiniões feito fera. Naqueles dias, parecia que, sugando a commodittie daquela fresta, eu poderia chegar a qualquer lugar.
É fácil perceber que, também, nunca fui o melhor em fazer escolhas.
O quarto estava cada vez mais quente, ainda que, por seu tamanho, a fresta crescente não o iluminasse todo. De início não percebi a contradição. Tentei buscar algum escape que me permitisse modular essa diferença. Tentei as artes marciais.
No judô, era bom. Treinava e dava trabalho para os faixas pretas. No entanto, seja por uma demasiada lentidão dos combates ou na progressão de faixas, rapidamente me entediei quando dos primeiros anos e das muitas quedas tomadas. Fui para o Kung Fu. Lá, não consegui aprender muito, vide que, nestes tempos, a maioria dos estabelecimentos e picaretas que se chamam de mestres apenas aproveitavam um nicho de mercado da classe média com algum capital excedente para gastar para vender um produto que satisfizesse o consumo performático. Novamente, foi inevitável a frustração.
Tentei uma Banda. No início não sabia tocar nada e, sendo honesto, não era o melhor dos cantores. Entretanto, ter sido criado por pai e mãe trabalhadores apaixonados por música e tendo crescido em um ambiente musical, em conjunto com o calor bombeado pela fresta, encontrei aí um caminho possível. Iniciei o violão, compus alguns sons e tive 3 ou 4 bandas até o início da vida adulta. Novamente, por querelas pessoais e pela pressão de decidir o que fazer com o futuro, aquela sala parecia ficar cada vez mais escura, ainda que cada vez mais quente.
Findou-se a escola. Num clima sufocante e escuro, me via diante, novamente, da indecisão. Realizei — um outro eu — uma investigação parecida com a que faço hoje, com muito menos elementos, cicatrizes e experiências. O que vou fazer? Quem sou eu? Há algo em que eu realmente seja bom?
Uma inconstância pulsante durante a vida de jovem adulto, um tipo de insatisfação perene, como algo que falta e não se sabe o que é. De educação física até ciências sociais, de física nuclear a biologia, demorei até chegar a uma definição do que fazer com o já restrito universo aberto pela possibilidade de uma Universidade.
Nela, igualmente, não fui o melhor em quase nada. Por um breve período, imaginei-me o melhor em determinadas matérias, em determinadas atividades, em determinadas lutas. Busquei incessantemente conduzir o calor das frestas pelos canos que moviam meu íntimo e, por certo período, encontrei um equilíbrio. Estava bem, ainda que, estranhamente, aquela sala parecesse ficar cada vez maior e menos iluminada, ao passo em que o calor se tornava mais e mais sufocante.
Na cama, meu corpo já sambava como um ovo na frigideira, de um lado pro outro, como se o incômodo psíquico não pudesse se conter e contagiasse o corpo.
Fechei os olhos novamente. Tentei vasculhar os cantos da sala, em busca de alguma lembrança que me trouxesse alguma confirmação. Percebi que não via nenhum vértice ou parede. O canto havia sumido, embora o calor fosse o mesmo. Olhei para o chão e imediatamente vi a fresta. Nunca a havia olhado diretamente, me contentando com a luz que ela projetava nas paredes e no canto que conhecia. Pensei que, com o tempo, inevitavelmente todos os lados da sala estariam claros, aquecidos e, assim, poderia começar a mobiliar minha morada, do jeito que gostasse, encontrando aquele objeto que me dissesse, só de ver, no que sou melhor. Olhei, no entanto, ao redor e percebi que, agora, eu estava no centro da sala. A fresta aberta, com um centro largo que ia se restringindo nas borda ao redor do círculo, formando rachaduras no chão, fervia com chamas se elevando de um líquido espesso e brilhante, como lava. Não sei como, mas em meio a esta lava, eu via figuras, de uma inspetora, do cara que me chamava de Bombril, de desafetos variados... Vi, de relance, uma foto, daquelas tiradas nas antigas Polaroids, flutuando por cima da massa flamejante. Tomei um susto quando tive a impressão de que me vi. Estendi a mão, num impulso, para pegar e uma chama lancinante me queimou os dedos. Recuei. Voltei a olhar ao redor e, a exceção daquele centro luminoso e quente, a sala parecia não tem cantos, se estendendo indefinidamente para todos os lados até adentrar uma área escura. Fiquei curioso e me afastei um pouco da fresta. Senti a temperatura amenizar-se e, longe da extrema luminosidade, comecei a perceber que naquele escuro salpicavam diversos pequeninos pontos de luz distantes. A sala era muito maior do que eu pensava. Acostumado com o calor da fresta e da segurança que me supria, jamais pensei em olhar ao redor, enquanto a sala crescia. Tudo para mim respousava na expectativa de poder ver e, então, decorar minha sala. Notei que, mesmo um pouco mais distante da fresta e suas chamas, ainda estava quente demais e mesmo o chão mostrava rachaduras que se prolongavam por debaixo de meus pés. Não queria cair ali dentro. Puxei uma poltrona chamuscada e afastei até a borda da luz, muito mais longe do que aquele antigo canto ficava. Senti-me bem, aquecido, mas não muito. Via com muita clareza os tantos pontos de luz diferentes. Pareciam iluminar de cima para baixo diversas superfícies, algumas no mesmo nível que eu, algumas mais baixas, outras vazias, outras ainda pareciam ter pessoas, todas, no entanto, de cores diferentes. Ao lado da chama nunca pude ver isto. Sentei na poltrona que, estranhamente, na penumbra parecia ter perdido seu chamuscar. Ao lado dela, um bloco de notas e uma caneta. Virei de frente para uma daquelas luzes e me pus a imaginar. Cada página do bloco tinha uma seta e cada seta tinha uma cor diferente e apontava para um lado diferente.
Acordei de súbito. Eram 11 horas.
Viver na periferia é treta.
Vasculho mentalmente as opções de como começar um texto em meio a esta situação. O esforço, excruciante, é totalmente em vão.
Me somo a triste turba de colegas e
amigos que já não conseguem nem acompanhar os jornais, nem pensar em outra
coisa.
Por vezes 3000 mortos por dia,
noutras os recordes de 649 pessoas mortas em SP, ainda outra a taxa de uma
morte a cada 2 minutos nesta cidade. Informações rodopiantes que pressionam o
peito e engolem qualquer traço de esperança que possa surgir num futuro "estável"
nestas terras.
Abrir os jornais é para tanto dar de cara com este absurdo, quanto uma fonte de surrealidade diária.
É absolutamente desconcertante assistir as declarações destes asnos vestidos de generais ou do criminoso presidencial. Ao mesmo tempo, é repugnante a vagarosidade incompreensível, a lerdeza, a pompa e etiqueta enjoativas, com que a mídia patronal de Globo, CNN, record e afins discutem os "equívocos" presidenciais e os "excessos da classe política".
Como se o ritmo da epidemia fosse um detalhe e não estivéssemos num país cujos hospitais NÃO TEM MAIS VAGA, colapsaram. Como se os enredos pessoais no Brasil não estivessem sendo encerrados a taxas de 3 mil por dia. Como se 10 aviões boiengs ou 250 boates Kiss não estivessem ocorrendo todos os dias. A vida, já sem muito sentido intrínseco, inerente, em si mesmo, deixou de ter qualquer significado. Virou uma ocorrência, um acidente, que “se eu tenho, tô no lucro”.
Não há outro nome para isto. E eu já
cansei de dizer qual é. Guerra, luta de classes, genocídio, tudo isso contempla
mas não expressa o sentimento.
A classe dominante de nossos tempos, os patrões, não é uma classe uniforme,
homogênea. Ela (ou melhor, suas frações) se unifica, com todas as disputas que
existem entre si, quando tem de enganar aqueles que domina. As duas ferramentas
que ela tem são a enganação ou a repressão. Hoje, combina as duas.
Mantém a peãozada no cabresto dos transportes lotados e mantém TUDO aberto (veja que fabricas, telemarketings, todo tipo de estabelecimento produtivo segue aberto, mesmo na tal "fase vermelha"). Se não trabalhar, não come. Entenda: se não trabalhar MESMO QUE POSSA SE INFECTAR, não permito sua existência. E assim a turba caminha feito gado para o abate.
Se passar fome e decidir agir nas brechas, furtar, roubar ou vender mercadorias ilegais, já sabe: a segunda mão entra em cena. Repressão, prisão forjada, assassinato, espancamento. A vida vale pouquíssimo, em geral, por aqui. Menos ainda agora. Se não te matarem nas voltinhas dadas no camburão da Blazer, tossem na tua cara pra você morrer na tranca. 40% dos presos nem julgados foi no Brasil. Entende? Ser preso, hoje, é também pena de morte.
Como consolo aos "bons cordeiros da sociedade" mostram seu olhar paternal responsável e proclamam suas "restrições" mentirosas e farsescas, pensadas pra passar uma sensação de segurança e controle, não servem de nada. Fase vermelha. Igreja, culto, role, festa clandestina, fábricas, transporte lotado, tudo aberto das 5h as 20h. O covid, respeitoso respeitador natural das regras sociais humanas, aguarda e espreita para começar seu massacre após tal poderosa restrição.
O mundo natural e o Covid estão, desde março de 2020 na ofensiva, se adaptando, ficando mais letal e transmissível, pouco se importando com as disputas mundanas e de classe entre os humanos. Nestas, ainda temos de viver com a desesperança insuportável de uma disputa entre o genocida gourmet e o genocida tiozão de boteco.
Uns falando contra máscara e vacina, outros sorrindo debaixo de sua máscara enquanto mandam batalhões e batalhões de trabalhadores, aos milhares, se aglomerarem pelo sacrifício ao deus Lucro($). Por detrás, o que lhes importa? Quem vai governar sob a pilha de ossos daqui 2 anos, em 2023. Essa é a verdade sobre Dória e Bolsonaro.
A esta altura, qualquer um, já aturdido, pediria por uma pausa no texto pra, quem sabe, olhar uma luz no fim do túnel.
É triste pensar nossa atual situação pelos olhos da história. Nossa colonização já começou como um empreendimento comercial, uma enorme empresa agrícola colonial voltada para proteger as novas posses portuguesas e ajudar a sua nascente burguesia, fundida a aristocracia, em sua disputa com os holandeses.
Por aqui o problema do povoamento sempre esteve ligado ao problema da mão de obra. Uma vez esgotadas as fontes nativas, por outro genocídio de proporções similares, se resolveu o problema com o sequestro de pretos africanos por 3 séculos. Como a produtividade do trabalho se impunha de maneira tirânica e o capitalismo chegava a sua fase de expansão mundial, o trabalho negro compulsório era substituído pelo semi-compulsório e, mais a frente, pelo de pobres trabalhadores de origem européia.
Essa herança cultural, histórica e social, deixou marcas profundas, vistas na enorme violência de classe cometida contra os pobres e trabalhadores. O sinhô virou sinhô patrão, nos diria Graciliano Ramos. E essa posição, mantida por séculos, maquiada e reforçada, tem raízes psicológicas profundas. Não é coincidência o culto a ascensão social e mobilidade através da ideia farsesca de meritocracia. Não é acaso o culto ao patrão, a defesa selvagem da propriedade, o individualismo e enorme agressividade em busca “do lugar ao sol” nestas terras. As ideias dominantes são as ideias da classe dominante.
E esta nossa classe dominante, com as transformações que teve ao longo dos
séculos, nas idas e vindas da luta de classes, com as quais aprendeu, manteve
bem as bases de suas ideias.
Também por isto não é de se espantar que hoje lidemos com movimentos antivacinas,
atos contra lockdown, empresários falando que “o povo deve se sacrificar pela
economia (deles)”. São as ideias que dominam.
De onde se esperaria uma saída, da ilustre e auto-definida “esquerda”, não se
vê nada. A história dos respiros recentes dos trabalhadores também não é muito
animadora. Veja, não é que não tenham existido ações de milhares, de massas,
coletivas. Existiram. No entanto, a história destes levantamentos se deu sempre
por dentro das margens estreitas desta tradição de dominação.
Todos os grandes respiros de
trabalhadores se deram ao redor de figuras messiânicas, quase (quando não
diretamente) religiosas, incorporando a ideia de que guiariam as massas
despossuídas a sua redenção e melhoria gradual da vida. Prestes, o trabalhismo
de Jango, o PT e Lula. Isso sem mencionar Getúlio Vargas que, sendo o provável
pai desta construção, não tinha a intenção de dar nenhum respiro, mas organizar
o cortejo: domesticar a revolta popular e fazê-la rodar nos trilhos da ordem.
E todas, sem exceção, conduziram a traição e posterior piora de vida das massas
trabalhadoras. O PCB e o trabalhismo traíram aceitando, sem luta, a ditadura, o
PT e Lula pactuaram com os generais e entraram nesta democracia fajuta e, uma
vez nela, governaram com os herdeiros diretos (Paulo Maluf, PP (onde Bolsonaro esteve
durante todo o governo Lula), PMDB, todo tipo de fisiológico do centrão,
depois, Joaquin Levy, Bradesco, Itaú, etc, etc).
Hoje, lendo o jornal, vejo na matéria ao lado que o centro do debate político é
a Vendetta de Lula contra Moro e sua “habilidade única” de articular aliados
para 2022. Um deles, leio atônito, Delfim Netto, o ministro da Ditadura
Militar, que, sendo um vaso tão ruim, nem na epidemia quebra. Pt e PCdoB, grande parte da "esquerda" brasileira e comandantes de duas das maiores centrais sindicais do País, CUT e CTB, agitam, não as fábricas e empresas com greves, mas redes sociais, com memes. PSOL se apressa a
dizer que é “lulalá” em 2022 e que, até lá, “vamos resistir”. Ciro balbucia
algum egocentrismo. O centrão se esparrama em verbas. O STF se lambuza em
nuttela e permite aos militares e Bolsonaro seu teatro. Vacinação 10 vezes mais
lenta do que necessário. Vírus mais letal. A primeira ou segunda maior cidade
da América latina COLAPSADA, vendo seus mortos aglomerados em contêineres.
Sinto uma pontada no estômago. Qualquer sintoma que tenho me vem a enxurrada de
matérias na cabeça. Me transporto mentalmente para um leito de UTI. Ora como médico,
ora como paciente. Sinto o impulso de ver o oxímetro, de medir a temperatura. Está
tudo bem.
Mas não está tudo bem. Um país que aceita 3 mil (de novo: TRÊS MIL)[DE NOVO:
TRÊS MIL PESSOAS, DEZENAS DE MILHARES DE HISTÓRIAS APAGADAS POR DIA(!!!!!)] sem
revolta, sem alarde, sem fúria, não está NADA bem. Uma sociedade que aceita ser
massacrada deste modo, é doente.
Mais precisamente, NÓS trabalhadores que aceitamos que nossas organizações e
representantes tenham a INDECÊNCIA de falar em votos nessa situação; que tenham
a postura ARQUEROSA de dedicar esforços pra fazer teatro no parlamento ao invés
de lutar COM TUDO POR UM LOCKDOWN, que seja mantido CONFISCANDO dinheiro que
EXISTE nos lucros dos Bancos e das empresas; estão PROFUNDAMENTE doentes,
entorpecidos, abatidos e desconectados da própria realidade.
O Brasil não é só inovador no mundo natural, formando novas variantes letais de
Coronavirus.
No plano Social o Brasil apresenta ao planeta e à História suas mais tenebrosas
criações: No lugar da luta de classes, o MASSACRE DE CLASSE e a Reificação
absoluta.
Queria ter algo mais gritante e expressivo do que um Caps Lock. Não tenho. E
menos ainda um final textual de mais impacto. Se assim o quiser, faça como eu:
Leia os jornais.
O DIA EM QUE A URNA PAROU
O quanto é necessário pra ser a gota d'água? Pra derramar o balde de insatisfação, desespero, sofrimento e raiva?
As vezes é sou um vídeo. Mas não um vídeo qualquer. João Alberto foi espancado até a morte, no Rio Grande do Sul, por seguranças da rede bilionária de supermercados, Carrefour. Um dos espancadores possuía o "know How" do ofício genocida: era um policial militar.
Um dia antes do dia da consciência negra.
No dia seguinte, o vice presidente do país, General Mourão, afirma, "com toda tranquilidade", que não existe racismo no Brasil. Detrás de todo o aparato estatal que as quatro estrelas lhe proporciona, tripudia, com tranquilidade, de mais esta morte banal.
Tão banal quanto a de Cláudia, João Victor, Douglas, a menina Ágatha e tantos e tantos outros e outras, cujas características unitárias são evidentes: pobres, trabalhadores e pretos.
Talvez instigados pela hiperconexão contemporânea, que liga instantânea e cotidianamente nossa realidade racista às notícias dos protestos contínuos desde a morte de George Floyd, em diversos Estados dos EUA, ou simplesmente já fartos de tanta espera e sujeição, parte das manifestações no dia da consciência negra radicalizaram-se.
Chutaram o pau, a barraca e as promessas de "pesos e contra-medidas" moderadores da democracia dos ricos e se lançaram a queimar e depredar lojas da rede, aparentemente, intangível, Carrefour.
Cenas lindas de ódio, indignação e raiva circulam a internet, trazendo algum alento e esperança de que, enfim, as coisas podem mudar.
Nas eleições, o recado também foi claro, a quem quiser, é claro, extrapolar o autoengano e ver: 30% dos brasileiros no país e 40% dos paulistanos não votaram em ninguém. Uma cifra enorme, que acompanha a série histórica de crescimento das abstenções, nulos e brancos.
O significado é nítido: mergulhados na luta pela sobrevivência, esmagados pela exploração econômica e cansados das mentiras de uma falsa igualdade política, massas de milhões de brasileiros dão seu grito mudo, demonstrando a crise de representatividade e legitimidade do regime democrático liberal.
Não surpreendem, no entanto, as narrativas que se seguem no mal chamado "campo progressista", esse conjunto difuso e vazio composto por aqueles "representantes do povo" sempre dispostos a surfar a insatisfação popular para, neutralizando-a, conduzi-la a votos que lhes garantam seus privilégios e acesso aos cargos de gestores do capitalismo.
Para um destes representantes, sempre o mais descarado porta voz do oportunismo eleitoreiro, todo esse quebra quebra deve ser apurado.
Maringoni, quase pedindo a prisão dos que quebram as lojas, afirma ser muito estranho nas vésperas da eleição tamanha revolta e que isso deve estar a serviço de desestabilizar as candidaturas Boulos e Manuela D'Ávila, candidatos a São Paulo e Porto Alegre pelo PSOL.
Nada de novo. Em 2013/14 estes representantes foram na mesma linha da política já conhecida de dividir e conquistar: "os atos são pacíficos até que são 'infiltrados' por Black blocs violentos e terroristas".
Isto no Brasil.
Ora, quem em sã consciência poderia esperar uma revolta desse tipo após mais uma morte banal? E ainda logo antes das eleições? Só pode ser a direita! E mesmo se não for, são os inconsequentes, sectarios, violentos, tresloucados, estes que tem de ficar no ostracismo social, bem longe de nossas vidas. Justo aqui? 50 milhões de informais, 15 milhões desempregados, centenas de milhares de mortos pelo vírus, dezenas de milhões de pessoas vivendo na extrema pobreza e fome... É ruim, mas não é pra tanto... Será que só isso é a motivação pra quebrar umas vidraças e queimar uns Elma Chips? Desconfiam e pedem apuração...
A conclusão é que, atrapalhando os pacíficos, devem ser expulsos e denunciados, ou seja, "com a gente lidem com a política, com eles, com a polícia".
Não importa que morram de fome. Não importa que sofram no desemprego. Não importa que percam pais, mães, filhos, tios, avós para o vírus (aliás, LOCKDOWN pra salvar vida de peão, pra essa gente que quer votos do empresariado "progressista", nem pensar!).
Não importa nem que estes sejam os próximos a morrerem espancados, fuzilados, estuprados, executados, na porta de mercados, nos becos dos morros, nas periferias e nas ruas, pelo Estado e o Para-Estado.
Como não podem entender que vencer uma prefeitura está acima disso? Como podem sucumbir a tamanha irracionalidade e raiva?
Vivemos em mundos divorciados e cindidos.
A epidemia elevou está conclusão a quem quiser ver.
Para uns, tudo se trata de conduzir o ódio popular para as vias institucionais, para a vida política oficial, o sufrágio e a legitimação do regime político (e seus objetivos materiais pessoais).
Não é surpreendente que tenha sido em governo destes senhores que a lei de drogas (2006), responsável por prender milhares de milhares de jovens negros com pequenas quantidades de droga ou muitas vezes sem nada, nos autos forjados, tenha sido aprovada como concessão as elites temerosas de uma revolta preta.
O fato é que estes não querem mudar nada. O teto da proposta destes "amigos do povo" é se proporem governo com uma cara de esquerda para, uma vez lá, governarem, com uma cara de centro, junto de todos partidos de direita que queiram compor a "governabilidade", dando todos os benefícios e privilégios aos ricos burgueses, aprovando suas leis draconianas (de drogas de 2006, antiterrorismo, etc) e, no caminho, engrossando suas pretensa biografias de estadistas aburguesados.
A mudança, no entanto, está do outro lado. Está na chama que arde. Dentro do Carrefour e no coração de cada preto e branco pobre e trabalhador que começa a perder a paciência e que, da indignação inssurreta com esta morte nada banal, passa a enxergar o que importa, além do teatro eleitoral.
Desta compreensão, podem surgir os frutos mais valiosos da luta de classes. Aqueles e aquelas que entendem que tudo tem a ver com o poder. E o poder, este centauro, só se impõe pelo consenso ou pela ameaça ou uso da força.
E para chegar ao poder, das ações radicalizadas e impacientes, virão conclusões radicalizadas sobre que força é necessária para obter o poder real e que sociedade e regime político NOVOS queremos.
Disto, pacientemente, cada preto e preta, trabalhador e trabalhadora, desprezando o teatro patronal, essa forma de domesticar a insatisfação em uma urna eletrônica, com promessas de um futuro que nunca chega, construirá uma nova sociedade, das cinzas de tudo - e todos - que tem de queimar para isso.
Que os canalhas oportunistas esperneiem. Um saque, uma queima, um quebra quebra é muito pouco perto da conta que nos devem.
Nós queremos mais.
Quereremos a tua alma, Capital.