sábado, 12 de dezembro de 2015

Carta à esquerda: Porque não uma nova organização dos trabalhadores?




A “tempestade perfeita” continua.
As condições da economia, do regime político, das instituições, partidos e políticos, o padrão de vida e dos empregos tem se degenerado cada vez mais  com o turbilhão de acontecimentos que lançaram o país no olho de um furacão cujos ventos mais fortes podem ainda estar por vir.

Com fissuras mais visíveis entre suas frações diante da aventura pelo impeachment, a classe dominante burguesa continua, no entanto, unificada ao redor do ajuste fiscal, desferindo um ataque “de classe” contra a juventude, os trabalhadores e o povo pobre.

Do outro lado, a crise tem sido paga com cortes de direitos, demissões e “reformas” que cobram na carne do trabalhador o preço para manter os lucros capitalistas estáveis.
A esquerda segue fragmentada continua fundamentalmente impotente, sem conseguir barrar este “ataque de classe”  com uma “resposta da classe operária” contra a ofensiva burguesa.

Diante disto, se coloca a questão: como construir uma saída dos trabalhadores?

A situação atual se desenvolve mais rapidamente do que a esquerda

É necessário, para se orientar, que tenhamos um método científico. Este, para nós marxistas, é o materialismo dialético e parte da relação combinada, entre a situação objetiva (a situação da economia, as condições materiais das classes sociais e suas relações mútuas) e subjetiva (como a política dos partidos dos trabalhadores, as crises políticas do regime, as greves, ocupações, lutas, o “estado de ânimo” das massas e como julgam as instituições, etc).

Hoje, no Brasil, a situação objetiva, da economia, é gravíssima. O recuo recorde de 4,5% do PIB, ), é expressão da queda das exportações dos gêneros primários, queda da produção industrial, más safras e seca, com o Dólar Alto encarecendo produção interna e compra de produtos com componentes importados, grande parte das famílias brasileiras endividadas, etc. Tudo isto é alavancado pela desaceleração da China (principal parceiro comercial e que compra commoditties do Brasil), a queda do preço do petróleo afetando a PetroBrás, a crise inflacionária e produtiva na Argentina, tudo apontando a um ciclo de queda e “retração” econômica que nem os analistas burgueses sabem prever até quando pode durar.

Os setores empresariais, banqueiros e “financeiros” respondem de uma forma: com unificação.
 Assim, pressionam um governo debilitado do PT e unificam todas as alas e partidos, apesar da crise política, a impor um duro corte de direitos, gastos sociais, demissões (que este ano tem sido em média 10 mil por mês) para manter seus lucros. É por isto que em meio a crise se paga religiosamente 42% do orçamento para a dívida pública (cujos donos são uma minoria de banqueiros e fundos estrangeiros) e os bancos privados como Itaú e Bradesco lucram recordes.

A crise econômica e a ação dos capitalistas corroem o padrão de vida do trabalhador, e encontram seu par perfeito na  profunda crise política. O escândalo do caso “Lava Jato” envolvendo todos os partidos tradicionais (PSDB, PSD, PP, PMDB, PT) se aprofunda cada dia mais e decompõe a legitimidade dos políticos, seus partidos e, inclusive, de instituições. É generalizado o sentimento de desencanto e indignação com a política.

Se, no entanto, o grito de “são todos ladrões” é hegemônico, quem mais perdeu neste escândalo foi o PT: além de ver uma enxurrada de votos “anti-PT” em 2014, o que quase o tirou da presidência e diminuiu suas bancadas,  está agora no centro da trama do Impeachment. Suas rupturas, formais e “informais” (na consciência de trabalhadores que o consideravam “menos pior”) são cada vez mais claras.

Este é apenas um lado deste processo de “crise de legitimidade” da política. Outra expressão, que provavelmente voltará com força em 2016, é o enorme número de votos nulos e abstenções nas últimas eleições. No Rio de Janeiro, estes foram maiores do que a quantidade de votos do governador eleito. Tal fenômeno é expressão desta crise de “legitimidade” e aponta para a crise de “representação” do povo.

Neste cenário, a esquerda legal, como PSOL, PCO, PCB e PSTU, além da esquerda, não legalizada (como MRT, MNN, etc), apesar do resultado pontual de Luciana genro, tem encontrado ínfima expressividade eleitoral e social.

No terreno da “luta de classes” (que não é nosso foco detalhar aqui) a esquerda tem se polarizado: por um lado uma posição “propagandista”, com propostas e “bandeiras” gerais pouco aplicáveis e dificuldades para dar “exemplos” sindicais que possam se generalizar e, por outro, em que está PSOL, que tem se atrelado cada vez mais a política governista, o que fará com que não seja nenhuma alternativa para massas e se atrelem cada vez mais ao regime.

A novidade da luta de classes veio de casos como a luta dos estudantes secundaristas que neste fim de ano tomaram as escolas derrotando o “feudo” do PSDB em São Paulo e a luta dos professores no Sudeste que, no entanto, foram exemplos muito “espalhados” e que não tem representado uma ação unificada contra a crise. 

É tempo de “ação política”


Esta crise gravíssima acelera o “ritmo” da luta de classes.
 A cada dia que passa, a burguesia ataca os trabalhadores não mais como “frações”.Não é mais o Bradesco (apenas) atacando seus bancários, a Ford demitindo seus metalúrgicos, a SEARA demitindo seus operários, etc. A classe dominante busca unificar esforços para que não seja ela que pague pela crise e usa o Estado para isto.

Os sindicatos, em sua maioria infestados pela praga da burocracia sindical que vende greves e negocia traições (como se demonstrou no caso recente da barganha entre Força sindical e a empresa UTC), estão diante de um momento de defensiva.
Não apenas podem perder membros como, graças aos acordos entre burocratas e patrões, vão perder a efetividade para responder a tarefas cada vez maiores (luta contra legislações que prejudiquem os trabalhadores, milhares de demissões, redução de salários, etc).

A crise de legitimidade e de representatividade, que também atinge os sindicatos, abre um espaço político (e eleitoral) que poderá ser preenchido por uma futura reorganização sindical e política. É de olho neste espaço que a REDE de Marina tenta ser “alternativa de centro esquerda” e diversos setores burgueses planejam a formação de novos partidos.

A reorganização é uma possibilidade já observável no horizonte próximo, na medida em que há a aguda crise de representatividade e a decadência da legitimidade da política tradicional, além de rupturas cada vez maiores com o PT, o maior “freio” das últimas décadas.

Esta situação exige uma “ação política”, que é a generalização da ação econômica, de “classe trabalhadora contra classe burguesa”, por parte dos sindicatos e dos trabalhadores.
Estes serão cada vez mais empurrados a “ação política”, que se aponta cada vez mais não contra “setores” específicos da burguesia, mas contra toda a classe dominante organizada no Estado.

O que isto significa? Que a cada dia que passa se coloca mais a necessidade de que os trabalhadores tenham uma ferramenta política unificada e que seus sindicatos, em ligação com esta, tenham uma ação unificada e “de classe” contra a unidade burguesa.
Em duas frases: está na ordem do dia lutar por um partido sem patrões e sindicatos sem burocratas.

 Não se pode esperar que o ritmo de evolução das organizações da esquerda seja tão rápido quanto o da situação de crise. Não será. É um fato objetivo que não podemos mudar.

No entanto, por pequena que seja a esquerda e poucos que sejam os ativistas independentes, diante de um processo de reorganização estes podem ser uma poderosa “vanguarda” capaz de influenciá-lo.

Uma nova organização de trabalhadores, aberta a todas as tendências da esquerda, que tenha em seus estatutos a obrigatoriedade de ser formado por trabalhadores que não explorem o trabalho de outros (cujos detalhes “sociológicos” poderíamos observar), enraizada principalmente nos locais de trabalho, mas também de estudo, universidades, etc, responde a uma necessidade objetiva da situação do Brasil.

Trotsky, ao abordar o tema da formação deste tipo de partido (que ele chamava de “Partido Operário Independente) nos EUA na década de 30, dizia que “esta necessidade objetiva encontrará sua expressão subjetiva nas cabeças dos operários, especialmente se nós os ajudamos”. Hoje, também, não se trata de esperar algum “fato” surgir, mas de agir audazmente para construir tal perspectiva, ajudando a classe.

Além disto: “agitar” a idéia deste “partido sem patrões” seria formidável para, ao mesmo tempo, a esquerda varrer dos sindicatos as burocracias sindicais, lutando pela bandeira de “sindicatos sem burocratas” e criando uma ponte para que o projeto revolucionário chegue a setores mais amplos da classe.

É claro, nesta formulação, setores reformistas, carreiristas, oportunistas e mesmo infiltrados teriam chance de entrar para tomar as rédeas do processo.

Ainda assim, o caráter deste partido, assim como a validade desta idéia, só se pode comprovar na prática. Desde o início, no entanto, nós revolucionários deveríamos defendê-lo em combinação inseparável com um programa revolucionário (em minha opinião estatização dos recursos estratégicos, bancos e grandes empresas, reajuste salarial de acordo com a inflação, divisão das horas de trabalho entre todos os desempregados, enfim o que chamamos de “ programa transitório” apresentado pelos trotskystas) que apresentaríamos diante dos trabalhadores; estes, então, diante dos demais programas, decidirão por que caminho seguir.

Não há motivos para sermos céticos. Uma proposta de tamanha audácia, caso se implemente pela ação decidida da esquerda unificada, criaria condições férteis para as propostas revolucionárias e poderiam encontrar um caminho mais curto para a formar a futura organização revolucionária necessária para os trabalhadores arrancarem o poder das mãos da burguesia.

Uma onda de entusiasmo se levantaria! Toda a energia de desprezo pela suja política tradicional encontraria uma válvula de escape positiva. Os revolucionários, além de ajudar a construir uma arma necessária contra a unificação burguesa, teríamos a chance de encontrar nossa classe em luta a lutar para demonstrar a superioridade de nossas propostas.

A esquerda não pode se esquivar da questão fundamental

Há  na esquerda diferentes visões sobre como responder a crise, sobretudo após a abertura do processo do impeachment.

O PSOL, apesar de posicionamentos de tendências internas que, como o PCB defendem a abstrata “luta independente por direitos”, fala da luta contra ajustes mas, na prática, está numa frente política chamada “Povo sem medo” com a CUT, CTB e setores governistas.
O objetivo desta é dar apoio “crítico” ao governo Dilma contra o impeachment, ou seja, no momento de maior crise do PT, a organização que dizia ser uma “alternativa” na prática opta por se tornar uma muleta, uma linha auxiliar, criando ilusão neste governo repressor como “menos pior”.

O PSTU, por outro lado, “agita”, por um lado, a idéia de erguer uma Greve geral contra os cortes num tom “propagandista”, ou seja, distante de qualquer chance de ocorrer devido as burocracias sindicais e, por outro, a idéia de “eleições gerais” para que, em suas palavras “o povo possa trocar todo mundo, se quiser. O que não dá para aceitar é que qualquer um desses que estão aí hoje governem”.

Já o MRT (Movimento revolucionário de trabalhadores), defende a idéia de que a bandeira mais “correta” é a de uma “Assembléia constituinte” imposta pela “ação das massas” que discuta todos os problemas do país e reformule sua estrutura de cima a baixo.

O que todas estas posições tem em comum? Elas se esquivam do problema fundamental que é o fato objetivo de a classe não ter uma organização política “com autoridade” para resistir a esta ofensiva burguesa.

Ora, a greve geral é o momento em que os interesses particulares das categorias se “elevam” e atingem o patamar da luta pelo interesse de toda a classe. Sem uma articulação política e sindical que tenha autoridade reconhecida pelos trabalhadores, isto é uma bandeira vazia.
O mesmo vale para eleições gerais: não tem qualquer significado, pois estes que aí governam são apenas a “cara atual” da política capitalista dos partidos tradicionais. Se ocorressem eleições as caras mudariam, mas política seria a mesma.

Por outro lado, apesar de responder a uma necessidade correta, a de reformular toda a estrutura política, econômica e social do país (hoje a serviço dos magnatas capitalistas), a bandeira de “Assembléia Constituinte”, sem uma articulação sindical que permita unificar os trabalhadores, por um lado e sem uma organização, um partido com autoridade, que canalize politicamente a insatisfação generalizada da classe trabalhadora é, no mínimo propagandista e perigosa.

Uma assembléia constituinte na frágil situação da esquerda não seria o momento de avanço de grandes propostas de estatização de recursos naturais ou para que todo político receba o salário de uma professora. Seria a do avanço de normas atrasadas que poderiam retroceder direitos arrancados pela constituinte de 1988, justamente porque o consenso entre “os de cima” (que tem dinheiro e presença geográfica para ser maioria esmagadora numa constituinte hoje) é o de que é preciso “menos social e mais neoliberal”, com privatizações e ataques a direitos.

Assim, enquanto a esquerda não responder ao problema da reorganização política e sindical necessária, este arco-íris de propostas não sairá do “propagandismo”.

De nossa parte, acreditamos que um primeiro passo seria a construção unificada entre os partidos da esquerda em luta e os ativistas independentes de um encontro nacional, composto por delegados eleitos por assembléias nos locais de trabalho.
Neste encontro, além de se propor um plano democrático de luta contra os cortes, buscando greves unificadas, etc, poderíamos iniciar o debate e a agitação pela construção de um “partido de trabalhadores, sem patrões”. Este passo unificado poderia “viralizar” na consciência dos trabalhadores que buscam uma alternativa para a crise.

Assim, teríamos uma ação (sem ingenuidade: difícil e que nos daria enorme trabalho diante das diferenças dentro da esquerda, a luta contra a burocracia e a influência dos partidos tradicionais) consciente para dar uma alternativa aos trabalhadores neste espaço político, sindical e social que se abre com a crise e, ai sim, chances de ter uma alternativa ao impeachment e rumar para propostas mais audazes como a de uma Assembléia Constituinte.
Lembremos: Em política não existe vácuo. A questão é quem – e com que política- irá ocupá-lo.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Sobre "comoção seletiva" ou como gente de esquerda consegue perder oportunidades

Estou tentando entender qual é o objetivo dessa gente que tenta opor a solidariedade a "síria" e Mariana em MG contra Paris.
Ainda assim, encontro poucas respostas.
Muitas vezes pelo facebook e afins, é claro, nem toda opinião tem objetivos. Mas se tratando de gente de esquerda, organizada ou não, espera-se algum.
E é aqui que entra o problema: Opor a solidariedade contra um atentado absurdo e animalesco como o ocorrido em Paris ao que ocorre no oriente Médio não apenas é inútil, como é funcional aos que hoje tentam utilizar o atentado para justificar uma guerra ao terror.
Dizer "Isso que aconteceu na França é o que ocorre todos os dias em x, y ou z lugares!", "Isto é culpa dos Franceses que fazem isto em todo mundo", etc, é no mínimo uma imprecisão perigosa que dará aos verdadeiros imperialistas todas as armas para dizer que irão levar, então, "civilização e democracia" ao "povo bárbaro" destes países.
Pior. No plano das opiniões cotidianas é ridiculamente sectário tripudiar do alto de uma suposta iluminação politizada todos os milhões que se horrorizaram com o horrível atentado a Paris. É um atentado animalesco, absurdo e digno de uma organização medieval.
NÃO há oposição entre uma tragédia provocada pela ganância capitalista em MG, o caos instalado na Síria, Líbia e Iraque e o absurdo atentado do Estado Islâmico em Paris!
Se você é "revolucionário" ou até mesmo, minimamente de esquerda, deve usar todas estas oportunidades para dissecar as complexas situações nestes países, separar os imperialistas dos trabalhadores, opressores dos oprimidos, demonstrar para as pessoas DE FORA deste círculo, infelizmente, restrito, os interesses por detrás destas lamentáveis tragédias e propor uma solução DE CLASSE: para e dos oprimidos.
Entretanto, o que tenho visto é dizerem: "Ah, a França mereceu, afinal..." ou "Onde está a solidariedade pela Síria"?
Que justificativa é esta? Que França mereceu?
Por acaso foram fuzilados Hollande, Marine Le Pen e diretores das multinacionais Francesas nas ruas? Todos no Bataclan e nas esquinas eram burgueses? Ou quer dizer mesmo que qualquer francês, trabalhador, pequeno comerciante merece o que ocorreu?
E que solidariedade a Síria? A Assad, que fuzilava manifestações em 2011, contra o Estado islâmico? Ou a abstrata "bandeira" síria? Ou, por outro lado, aos curdos e refugiados? O que quer dizer isto?
Onde está a classe, o lado, a posição, na avaliação de vocês?
Enquanto dezenas de especialistas sobre geopolítica mutilam simplistamente a realidade e, exaltando-se com sua "enorme clareza política", tripudiam comoções populares, milhões seguem a trilha bem traçada do imperialismo de usar este fato para iniciar uma guerra por mais exploração e espoliação.
O objetivo, então, não parece ser esclarecer, politizar educar, direcionar todas as críticas ao inimigo mortal.
É só mais uma disputa que leva a tanta gente de esquerda a perder, mais uma vez, a oportunidade de entender que as pessoas SÃO contraditórias e não gozam da plena consciência de classe e política. É nosso trabalho limpar as mentiras capitalistas ditas todo santo dia.
Se acostumem, desçam do pedestal e mãos a obra.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

ENEM: Fruto da pressão ou enganação planejada? Ou: o jeito mais fácil para nos isolar das massas...

A linha entre viver numa seita, ser "sectário" ou se adaptar e achar que tudo são "vitórias" e ser, como dizemos, oportunista, é tênue, fina, difícil de se desenhar. O ENEM, como prova, segue sendo, em minha opinião, mais uma ferramenta.

Não uma ferramenta dos oprimidos, mas dos empresários, do seu Governo e dos capitalistas para restringir por um lado a Universidade, criando pólos de "elite" e, por outro, manter o "mercado de ensino" das universidades privadas dos t
ubarões do ensino. Milhões de jovens endividados e as crises e o drama anual do vestibular estão ai para provar isto: O ENEM, como a FUVEST é uma ferramenta de DISCRIMINAÇÃO SOCIAL, de segregação seletiva para os que vão entrar na Universidade pública.

Ainda assim, é enormemente sectário, num país cuja violência contra as mulheres é BRUTAL, com dezenas de casos ao dia, milhares de estupros anuais, não entender o que se expressou na atual prova.

É óbvio que os capitalistas e "governantes" vão querer sequestrar nossas lutas, tomar o lugar dos que as defendem e, sim, ao colocar o tema da violência da mulher na prova tentam cumprir este objetivo.
No entanto, há um lado, fundamental, que não se pode esquecer que é o de que isto expressa uma pressão da sociedade, de setores que lutam, mulheres combativas, estudantes, setores progressistas, revolucionárias, etc, que estão na base da sociedade, dando voz a opressão que milhões sofrem cotidianamente, criando então uma situação em que a burguesia é obrigada a pautar de algum modo este tema.

Por mais limitado que seja (e é!) a menção do tema no ENEM abre a possibilidade de um debate nacional, no qual nós, setores na base da sociedade temos de entrar de cabeça.
Exaltando o governo progressista ou a "prova esclarecida"? Claro que não! Mas sim, observando que esta foi uma menção arrancada com muito suor da luta cotidiana, cujas protagonistas são as mulheres e, ao lado delas, os homens que se colocam a construir a luta pela igualdade de gênero e que, afirmando a todo momentos o quanto este governo e estado burgueses são CONIVENTES COM AS MORTES, ESTUPROS, RETIRADA DE DIREITOS, MORTES POR ABORTO, QUE VENDEM DIREITOS DAS MULHERES A FUNDAMENTALISTAS FEUDAIS DA IGREJA, etc, é só pela organização desde a base da sociedade que apontaremos para uma solução de longo prazo para o problema da violência contra as mulheres.

A menção no ENEM não resolve o problema. Fato. Mas confortar-se nessa posição de apontar os limites é muito inofensivo e a esquerda tem de sair, mais do que nunca (agora que a crise bate na porta de cada brasileiro e a esquerda NÃO faz, infelizmente, diferença para resistir em lugar nenhum, na prática) desta inércia.

É preciso inverter o OBJETO da comemoração e entender que sim isto foi arrancado pela LUTA e que esta deve se aprofundar, para que não apenas o vestibular, a violência de gênero, mas todos estes mecanismos de dominação da sociedade capitalista acabem.

Grande parte do trabalho revolucionário é buscar saber qual o caminho para se chegar às massas. É preciso CONFLUIR com a empolgação de amplos setores para mostrar que a luta vai além do que se vê. Esta estrada é por uma nova vida.

Aqueles confortáveis em seus tronos de verdades auto-consumíveis, enquanto milhões de ouvidos tateiam em busca de uma orientação libertadora, sua desconstrução tão necessária, por um caminho que leve a construção de uma moral pessoal, coletiva e social e uma sociedade livre da opressão, a estes senhores sectários, o isolamento parece ser o destino certo, caso não mudem de curso a tempo, enquanto o que está em jogo é apenas uma questão de ENEM.

domingo, 4 de outubro de 2015

Coincidência cósmica

Eu não sei o que é o mundo além dos limites do mensurável
O mundo é isto; Uma grande coincidência cósmica
e talvez a única grande coisa que exista sobre ele, sua única grandeza real, seja o fato de que é uma enorme conjunção de coincidências 
que funcionam, se harmonizam, se articulam, ao longo de milhões de anos...
Ao menos é uma raridade para nossas pequenas capacidades de apreensão do que se passa em outros mundos, galáxias, planetas.
O mundo é um nada. Mas para nós, é um tudo. E ainda assim a história da humanidade tem sido a persistência em dividir-se e levá-lo a destruição...
Da humanidade não... a dos herdeiros do primeiro privilegiado, que cercou a primeira porção de terra, se armou pela primeira vez e matou em nome do abstrato "direito" e "propriedade"...
Estes herdeiros levam a todos nós a catástrofe.

Justo nós, que podíamos ascender as estrelas.... 

Sobre cafezinhos matinais e intimidades anônimas.


“Todo dia ela faz tudo sempre igual, se sacode as seis horas da manhã”....

É embalado neste ritmo que ele levanta.
Em seu caso, a música poderia ajustar seu relógio interno e apontar para cinco da manhã. Ainda assim, a idéia da rotina está ali, onipresente, como que transbordando dos fones de ouvido, retirando um pequeno sorriso sádico, como de quem tira um sarro de si mesmo por estar tão próximo da ficção, embalando o ritmo cadenciado do cotidiano.

As 5:35 põe o pé na estrada e começa o rito diário. Aqui, os lugares comuns são incontornáveis e fonte de controversa satisfação. No ponto as 5:40, dentro do ônibus as 5:50, na entrada da estação de metrô as 6:05, na plataforma as 6:07, não importa, o movimento se repete: Caminha, encontra um lugar, levanta a cabeça, faz a varredura.

Com ela, percebe rostos conhecidos, cuja intimidade se faz sentir pela comunhão sagrada do perpétuo repetir de ações; se entreolham. No começo olhares curiosos, como de uma criança tentando se reconhecer no espaço, se integrar ao ambiente, entender as intenções e gestos.

Após tantas repetições, da casca dura da apatia irrompe o tímido sorriso, um “bom dia” em seco, um balançar de cabeça, um estribido de proximidade e, novamente, um lampejo de satisfação controversa pulsa para fora da austera normalidade.

O destino impõe um ritmo de ser. O horário é implacável. Não se pode perder tempo com frivolidades gestuais. Há de adentrar ao fluxo, chegar no horário, postar-se apresentável, vestir a motivação – ou, melhor dito, a resistência- e começar sua parcela no empurra-empurra de engrenagens alienantes, na marcha do dia a dia.

De todo modo, não se pode escapar a biologia. O material ainda é - e sempre será- o que move os humanos, seja para as grandes ou pequenas realizações. Em seu caso, a realização é parar o estampido, que religiosamente dobra seu estômago as 6:35. Aquela escapadela, antes de tomar seu papel, é a solução.

Sobe a escada, olha o céu ainda turvo e iluminado lateralmente por um Sol que ainda não se mostra, sai pela entrada, olha as tabuas improvisadas por cima das quais se preparam tapiocas e cafezinhos por ambulantes cada dia mais numerosos - seria crise? – e entra na lanchonete.

Mal chega, dirige-se ao freezer, pega sua Coca e, ao virar, encontra o braço estendido do atendente que, sem sequer ser indagado já oferece o corriqueiro canudo, a empada no pratinho de plástico e o banco no qual por tantas vezes sentou, por vezes com um sorriso, outras com um bom dia e ainda outras com aquele familiar olhar apático. Tudo em ordem. Tudo como sempre. Tudo normalmente.

Não fosse o estranhamento não pensaria o quão significante é a situação. Pensa em quantos milhões de conexões e relações se estabelecem todos os dias, em todos locais de labuta, em tantas esquinas, avenidas, banquinhas, lanchonetes e, daí, quantas intimidades anônimas se formam assim, produto do cotidiano.

Sim, intimidades. Dois trabalhadores. Não sabem seus nomes, mas naquele instante, cotidianamente, no mesmo lugar, repetem o mesmo ritual e, neste, expressam uma intimidade, tímida, sem dúvida, mas que estabelece uma conexão em meio a fria normalidade e austeridade de São Paulo.

Ali, no pequeno instante da gentileza, o atendente expressa a intimidade de saber que tipo de comida, com que tipo de prato, em que lugar e que salgado ele prefere. A pergunta não se faz necessária.

Através da relação de troca, da compra e venda, este baluarte sagrado que media todas as relações e enrijece sensibilidades e sensações nesta sociedade de lucro, se estabelece a conexão. Tímida e frágil, é verdade, mas ainda assim uma relação.

Um reconhece o outro e, apesar de não saberem nada de si, sorriem, timidamente, pelo gesto de intimidade, que os localiza num mesmo espaço e numa mesma situação. Tal como plantas que brotam de um solo de rígido concreto, esta relação os faz se sentirem mutuamente percebidos, não tão invisíveis e objetificados pelas obrigações e o fluxo do cotidiano.

Afinal, no deserto subjetivo desta maquina de moer gente, o pequeno gesto é o gérmen de uma solidariedade, uma percepção mútua, de um pertencer ao mesmo lugar e, ao menos ali, tornar a presença de alguém real, distanciando, por milímetros que seja, a vida da fria e implacável exatidão dos números, das horas, dos valores e do lucro.

Talvez amanhã eles perguntem o nome um do outro... Ou talvez ai esteja o limite seguro que o cotidiano os permitirá chegar.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Você sabe como a empresa do Metrô de SP lida com quem cai nos trilhos?

Diante do absurdo caso ocorrido semana passada com o vendedor ambulante Adílio Santos que, ao entrar na via (ou trilhos) dos trens da SuperVia carioca foi atropelado, abriu-se uma discussão sobre como tais ocorrências são tratadas nos meios de transporte “de massa” no Brasil.

Na ocasião, Adílio, que circulava pela via para, supostamente, fugir de fiscais da estação, foi atropelado por um primeiro trem e, após já estar estirado nos trilhos, foi novamente atropelado por um segundo minutos depois. O segundo atropelamento foi autorizado pelo centro de controle da SuperVia que, após o incidente, justificou a decisão baseando-se na quantidade de pessoas na estação (cerca de  6 mil) e na “prioridade para fazer o sistema circular”.
Não fosse o bastante, Adílio, que após o primeiro atropelamento foi declarado “morto” pela SuperVia, mesmo sem nenhum médico ou bombeiro atestar sua morte, ficou por mais de 2 horas (!!!) até ser “recolhido” pelos bombeiros.[1]

Em qualquer local e em qualquer situação, caso um acidente ocorra, o procedimento médico e legal é o de acionar um serviço médico imediato que, chegando a tempo, possa propiciar o atendimento para salvar a vida da vítima ou, no mínimo, mantê-la viva para atendimento mais adequado.

Do ponto de vista legal, igualmente, em qualquer situação, é necessário que, para se atestar a morte de alguém, haja a presença de um profissional treinado, de preferência um médico ou bombeiro que, não apenas poderá pela via de exames “imediatos” atestar o óbito, como isolar a via para a perícia analisar as causas do acidente.

Sem tal procedimento, o indivíduo não pode ser considerado de forma adequada como morto e, assim, em diversos casos, como o de Adílio, pode ser que nem mesmo estivesse e com ações como esta, completamente por fora de qualquer norma que priorize a vida, tenha perdido a vida.

A situação do transporte metroferroviário brasileiro é tão bárbara que há centenas de metros (ou alguns quilômetros) de distância, um centro de controle, com chefes que não são médicos, nem bombeiros, atestam a morte de um indivíduo e não contentes, passam por cima de qualquer procedimento legal, mandando um trem passar por cima do corpo para garantir que os demais trens sigam circulando, impedindo qualquer perícia para analisar as causas do acidente.

Ao usar o argumento hipócrita de que “haviam muitos usuários que poderiam também se acidentar”, a diretoria da SuperVia, como a do Metrô de SP, desvia a atenção do problema incontornável da superlotação dos sistemas metroferroviários, sua péssima qualidade, o stress e caos cotidiano que provoca na vida dos trabalhadores tentando, assim, jogar a população, como sempre, contra si mesma, como no caso da enquete sobre se era “certo ou errado” atropelar Adílio.

Não “atrapalhar o tráfego” para manter os lucros é a prioridade em oposição a vida humana.
Existe definição mais crua de barbárie?

No metrô de SP a prioridade também é “circular o sistema”

Recentemente, além dos ataques de privatização de linhas de metrô, como a linha 5[2] e trens, muitas denúncias tem saído do “baú escuro” do metrô de São Paulo, tendo destaque a investigação de executivos de grandes multinacionais envolvidos com superfaturamento e cartéis[3].

O metrô, nas mãos de um punhado de chefes ligados a administração de Geraldo Alckmin e PSDB, se transformou numa “galinha dos ovos de ouro”, lucrando milhões e, claro, sendo espaço de corrupção e enriquecimento de muitos burocratas, como denunciado nas investigações sobre cartéis.

O que, no entanto, não vem a tona, muitas vezes ofuscado pelos escândalos de corrupção, as obras atrasadas da Linha 4 amarela pagas com dinheiro público mas de “ganhos privatizados” e as privatizações e possíveis demissões, são casos como o que ocorreu na SuperVia do Rio de janeiro.

O metrô de São Paulo, já é conhecido como uma empresa pouquíssimo transparente e que impede acesso a informações sobre acidentes e ocorrências internas, seja com pessoas ou trens[4].

Numa cidade sufocante, com um ritmo de trabalho exaustivo e salários baixíssimos para a maioria dos trabalhadores, em que as opções de lazer e cultura para a classe trabalhadora são restritas, o índice de stress e de “doenças da mente” são elevadíssimos.

Só em São Paulo 10% da população sofre de depressão e os casos de suicídio no Brasil chegam a mais de 10 mil casos por ano[5]. Diante desta realidade, são numerosos os casos de suicídios também no sistema metroferroviário. Estimativas divulgadas por fontes que tentam pesquisar os acidentes variam de 2 a 3 casos por mês no metrô, inclusos os casos que não terminam em morte.

No caso da SuperVia, uma das justificativas para atropelar o ambulante era a de que “uma manobra em ré seria muito complicada”. Por mais que não haja casos de atropelamento autorizado pelo centro de controle (no metrô conhecido como CCO) no metrô de SP a lógica é a mesma.

Se a prioridade de um sistema que lida com milhões e milhões de pessoas fosse a vida (o que deveria ser uma obviedade que não necessitaria sequer de discussão), medidas simples como “dar ré” para permitir análise adequada da situação de qualquer corpo caído na via; paralisação do sistema (e viabilização de ônibus para os passageiros) até a chegada de bombeiros e médicos que possam prestar auxílio e retirar a vítima dos trilhos ou debaixo dos trens; a instalação de portas automáticas (como a que existe em algumas poucas estações), que impedem quedas acidentais ou propositais; a contratação de mais funcionários que possam fiscalizar e “desenergizar” os trilhos caso haja alguma queda; a construção de mais estações e mais investimento (sob controle dos trabalhadores e não dos mafiosos dos cartéis) para construção de mais linhas desafogando a superlotação; tudo isto seriam medidas não apenas “fáceis” como desejáveis.

Para os governantes e diretores, muitos deles investigados por envolvimento com cartéis, desvios de verba e superfaturamento, no entanto, todas estas medida são inviáveis por razões “financeiras e de custeio”. O que é viável é colocar a culpa em quem “pulou ou caiu” e conduzir os trabalhadores a brigarem entre si chegando ao absurdo, em termos civilizatórios, de se verem obrigados a opinar se estava “certo ou errado” atropelar um corpo para “não prejudicar” o sistema (!!!).

Enquanto isto, ninguém pergunta o quanto prejudicou “o sistema” e impediu a ampliação de linhas, a manutenção e aquisição de equipamentos de segurança, contratação de mais funcionários e construção de mais estações, os milhões desviados e superfaturados pelos corruptos envolvidos em todos os escândalos.

Como é na prática?

No metrô de São Paulo, quem retira as pessoas que caem na via, são os agentes de estação (listrados de azul, que sequer recebem adicional de periculosidade) ou seguranças.

Após receberem um treinamento prático de um dia (isto mesmo, um dia!) em que supostamente se encena um “resgate” o mais rápido possível embaixo de um trem, com um treinamento teórico rápido, estes funcionários são lançados a tarefa de descer a via e retirar um corpo, agonizante ou já morto.

Segundo denúncias, respondendo a um código, vestem um macacão amarelo, se lançam embaixo do trem que muitas vezes decepou ou prensou uma pessoa e de lá devem constatar a morte ou não desta pessoa (e baseando-se em determinados critérios "genéricos"se determina se é o agente de estação ou de segurança quem resgata)
, arrancá-la debaixo de um trem sob uma temperatura de 60º, lançá-la dentro de um saco preto (e caso tenham algum membro decepado, lançar este membro dentro deste mesmo saco preto) e retirá-la, presa a uma maca, o mais rápido possível da estação. Caso o corpo esteja preso, sob autorização oficial, segundo denúncias, pode-se mover o trem para retirar a vítima da situação prensada.

Não são médicos, não são bombeiros, não há ambulâncias, perícia, serras para retirar vítimas prensadas, não há médicos para atestar a morte, não paralisam a estação para analisar a causa do acidente, não há bombeiros ou médicos de plantão (ao menos nas estações mais movimentadas), nada do “básico” em casos de acidente.
O que há são pessoas que receberam um dia de treinamento para decidir, estando sujeitos a todos os traumas, sob a vida ou a morte de alguém.

No fim das contas, no entanto, não é sua culpa, afinal para o metrô também a prioridade é “circular o sistema” uma vez que a pressão das chefias antes, durante e depois destes casos é para que os trabalhadores realizem rapidamente a retirada.

Diante desta pressão os trabalhadores, outras vítimas destes casos, se vêem pressionados a realizar esta ação que até mesmo para um paramédico seria difícil e ainda temem possíveis represálias.

Casos de depressão, ansiedade, pânico e distúrbios psicológicos se desenvolvem em numerosos trabalhadores envolvidos nestes “resgates” já que além do precário treinamento, não está necessariamente previsto acompanhamento psicológico, segundo denúncias de envolvidos.

Assim, como no RJ, em São Paulo, circular em um sistema saturado e superlotado é uma verdadeira tarefa de risco para quem ali trabalha ou utiliza e, claro, o lucro se sobrepõe a soluções simples que poderiam diminuir a incidência de casos.

Antes, no entanto, de dar a resposta mais pragmática possível, de que era um “ambulante” contra milhares de “trabalhadores”,pense bem: e se fosse você caindo na via? Gostaria que este fosse o atendimento?






[1] http://brasil.elpais.com/brasil/2015/07/31/politica/1438377272_774029.html
[2] http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2015/07/governo-de-sp-passara-operacao-da-linha-5-do-metro-iniciativa-privada.html
[3] http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2015/06/justica-aceita-denuncia-contra-6-executivos-por-cartel-no-metro-de-sp.html
[4] http://www.redebrasilatual.com.br/blogs/blog-na-rede/2013/09/metro-sonega-informacoes-ao-publico-8033.html
[5] http://saude.ig.com.br/minhasaude/2014-08-26/depressao-atinge-10-da-populacao-mas-saude-publica-nao-consegue-diagnosticar.html

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Suco Gástrico de mim:


Desço o busão como quem mastiga a própria angústia
fustigada entre tantas emoções, peço uma Pizza
engordurada, engrossada pela incerteza de amanhã
misturada com um suco de desgosto pela vida levada mecatrônica, icônica, inócua, que
se pensa uma mudança... na vida, na idéia, na história...
e engulo, apago, durmo. E só. Só.