quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Brasil em mutação e a crise estrutural da esquerda


Trevas tomaram, literalmente, conta da cidade de São Paulo, o maior centro financeiro da América do sul, neste dia 19/08.

Confusos, os paulistanos se espantaram com o encontro entre a caricatura e a realidade resultante do completo descalabro bolsonarista.
Uma onda de queimadas, graças a liberação de Bolsonaro para mais de 500 autorizações de desmatamento, gerou uma nuvem de fumaça que tomou a cidade de São Paulo vinda das regiões do Pará, Bolívia, Paraguai e centro oeste, se espalhando pelo sudeste e nos dando uma prévia de como seria um inverno nuclear.

Inverno que se assenta, por sinal, em todos os campos da vida brasileira, seja político, social, econômico, ambiental ou moral.

Em 8 meses de governo, se estrutura progressivamente, baseado no já anunciado autoritarismo e violência característicos de Bolsonaro, o movimento das peças do movimento de extrema direita do Bolsonarismo, rumo a uma mutação profunda do regime político e das relações sociais e econômicas no Brasil.

Herdeiro, antes, de 1979 e da impunidade dos torturadores e, depois, do impeachment golpista de 2016, apoiado no desvio das energias de questionamento de 2013, Bolsonaro, outrora um insólito deputado fascista, apoiador da ditadura, cuja principal função era fazer eco as vozes do abismo moral e da latrina autoritária, conseguiu se alçar a capitão da guerra social contra os pobres e trabalhadores.

Sua eleição, surfando a enorme crise de representatividade e legitimidade das instituições, aprofundada pelas famílias que controlam a mídia burguesa, foi uma surpresa que, quando se tornou a única alternativa, foi abraçada por todo o grupo de magnatas, estrangeiros imperialistas, latifundiários, especuladores e rentistas.

Para tanto, o azeite das fake News, o esquema milionário de disparo destas pelo Whatsapp, o exército de robôs, a prisão do principal – e favorito - adversário (devidamente recompensada com o cargo de ministro da justiça para o Gangster travestido de juiz: Moro), a flagrantemente falsa facada e seu esquema de acobertamento, que lhe permitiram explorar a comoção popular para vencer sem apresentar propostas ou ir a debates, se fez necessário.

Eis agora, então, que a nau tupiniquim é (des)governada por um candidato que pregou o assassinato de 30 mil “comunistas” – que, diga-se de passagem, pode ser qualquer um que não concorde com ele -, é racista, homofóbico, inimigo dos direitos ambientais, dos povos originários, defende a tortura e tripudia da própria realidade.

Nas cabines da embarcação se encontra a mais pura nata do obscurantismo.

Guiados pelo guru da escatologia Olavo de Carvalho, a ala “Olavista” é dirigida por Jair e seu filho não menos estúpido e escatológico, Carluxo, tendo, além de distribuídas por numerosos cargos de administração pelas estatais ou no  congresso nacional, como figuras de primeiro escalão terraplanistas e alucinados macartistas como Ernesto Araújo, para quem o mundo é dominado por uma conspiração de comunistas e Ricardo Salles, Ministro do Meio Ambiente processado por crime ambiental, para quem o aquecimento global não existe.

Seguidos de perto, está a ala dos subservientes, porém ambiciosos membros do judiciário/ministério público que, em choque de ambições com o STF, realiza o serviço sujo da limpeza da lambança bolsonarista nas cabines.

Moro, político de quinta financiado pelos Estados Unidos, outrora travestido de juiz, acompanhado de Dallagnol e sua patota, prestou indispensáveis serviços a Bolsonaro, primeiro lhe permitindo a eleição sem adversário, graças a prisão, sem provas, do candidato do PT - fato, também, legitimado pelo STF - , depois lhe auxiliando no acobertamento de suas relações evidentes com os paramilitares das milícias do RJ.

Queiroz, aquele que depositou dez cheques, totalizando 40 mil reais, na conta da esposa de Bolsonaro foi, assim como Flávio Bolsonaro, filho do fascínora e patrão de Queiroz que, por sua vez, recebeu 48 cheques de 3 mil reais em sua conta, passou despercebido pelos “olhos de águia” do justiceiro Moro.
Da mesma forma, foram ignoradas pelo paladino da justiça as ligações da família Bolsonaro com o grupo que assassinou a vereadora carioca Marielle, o “escritório do crime”, cujo chefe tinha mãe e esposa trabalhando no gabinete de Flávio Bolsonaro.

Ali, de perto, como nunca desde a redemocratização, se encontra a ala dos militares, hoje, linha dura e entreguista ao mesmo tempo, comandada por Mourão, o vice, defensor da afirmação racista de “melhoramento da raça”, Augusto Heleno, o fascista comandante dos estupros e assassinatos travestidos de missão de paz no Haiti e Villas Boas, o comandante moribundo que ameaçou intervir militarmente caso Lula fosse solto.
Juntos, estes atores parecem atuar nas rebarbas do bolsonarismo, esperando oportunidades de aprofundar seu controle político direto, enquanto deixam as demais alas se desgastarem e servem de garantia “material” para a entrega do petróleo, tecnologia, terras, minérios e todos ataques.

A última fronteira das ilusões - ou o porteiro das cabines -, o STF, esse tribunal de iluminados de cargo vitalício, que não possuem qualquer controle social e nem são eleitos, trata de legitimar, acovardado diante da “política real” feita a bala e assassinatos - Teori Zavascki que o diga - toda a lambança feita pelas demais alas.

No final, é claro, se tratava disto: impor um profundo ataque histórico contra a maioria do povo e os trabalhadores brasileiros.
Diante de uma crise mundial que não dá trégua e, assim, de um enfrentamento entre duas potências em choque - EUA e CHINA-, relega-se ao Brasil a condição de semicolônia plena, exportadora de produtos primários, agropecuários, minerais, e consumidora dos industrializados das grandes potências capitalistas.

Qualquer lampejo de soberania que poderia existir e, com ela, a industrialização, foi jogada no lixo: mais de 3 mil industrias fecharam as portas nos últimos 3 anos, o desemprego bate a casa dos 14 milhões, o subemprego chega aos 32 milhões, quase metade (43%) da população trabalhadora é informal, ou seja, não tem qualquer garantia trabalhista, a extrema pobreza aumenta, o sarampo retorna, segue-se entregando metade do orçamento para pagar juros da dívida pública num esquema fraudulento dos Bancos, enfim, o caos se estabelece.

A reforma trabalhista, vendida como “forma de trazer mais empregos” destroçou a classe trabalhadora brasileira, enfraqueceu decisivamente os sindicatos, jogou milhões no desemprego, impôs a terceirização, piores salários, calou as reclamações judiciais dos trabalhadores, ameaçando-os com os custos dos processos contra seus patrões, acabou com a CLT abrindo margem para que o “negociado” fique acima da lei e se aprofunda com a atual “minirreforma” que, inclusive, permite o trabalho aos feriados e domingos sem hora extra.

A este descalabro se soma o ataque histórico da Reforma da Previdência que, na realidade, acabou com a aposentadoria para os trabalhadores do país, exigindo 40 anos de contribuição e idade mínima de 65 anos para uma população pobre que, além de viver de empregos altamente rotativos por vezes nem a essa idade chega.

Assim, o preço do trabalho diminui, a exploração da “mais valia” se amplia, já que se trabalha mais anos, por mais dias na semana recebendo menos e a capacidade de resistência dos trabalhadores diminui. Este é o objetivo da burguesia estrangeira – em primeiro lugar a estadunidense - e do consórcio burguês brasileiro que vê a crise e se prepara, esfolando o trabalhador, para manter seus lucros e privilégios durante a tempestade.

Em andamento, a guerra social segue enquadrando as massas trabalhadoras num cenário em que não existe melhora a vista. Os preços dos bens primários (commodities) não anunciam subir, o mundo desacelera, a economia piora, as famílias seguem endividadas, os preços sobem, a vida se encarece, a criminalidade explode, o encarceramento e guerra hipócrita as drogas se ampliam, a violência policial se liberta de amarras, lideranças da cidade e do campo são presas e mortas impunemente, assassinatos crescem chegando a casa dos 67 mil, enfim, uma verdadeira guerra civil de baixa intensidade se impõe, com um fechamento do regime político avançando.

Hoje, no “bonapartismo multicéfalo” em que vivemos, as cabeças da Hidra Bolsonarista se mordem, como que buscando uma forma hegemônica que lhes permita estabilidade para comer o prato principal, ou seja, nós.

Nesse cenário, resta responsabilidade enorme as forças de oposição ao Bolsonarismo , particularmente aquelas que se reivindicam de esquerda e/ou revolucionárias.
A crise da república de 88 encontra seu correlato na crise estrutural da esquerda brasileira. E a situação não parece se contornar, nem facilmente, nem a tempo.

Um esquerda confusa e em frangalhos

O ponto de partida para refletir a condição de nossa esquerda é a sua própria definição.
É comum se definir como “esquerda” qualquer agrupamento que venha do PDT, passe pelo PT, siga pelo PSOL e PSTU e vá a esquerda pelas organizações sem legalidade. Esta definição, confusa e que não corresponde a nenhuma análise séria, sociológica ou política, corresponde a um processo social ainda em curso.

Os milhões de trabalhadores e pobres do Brasil não realizaram, ainda, até o fim, sua experiência política com muitos dos partidos que hoje se reivindicam como representantes da esquerda. Não é raro se ver reclamações sobre a fragmentação e divisões internas, como se o motivo para estas fossem algo ou obscuro ou mesquinho. Nada mais distante da realidade que, dia a dia, passa a se demonstrar a olhos nus.

Em 2013, este marco da abertura da luta de classes aguda brasileira, se deu um levantamento espontâneo de milhões em todas as principais capitais. Naquele momento, PT e PCdoB eram governo e, não raramente, se distanciavam voluntariamente da definição de partidos de esquerda, tendo, inclusive, críticas e ações violentas contra as organizações que se apresentavam a sua esquerda, como PSOL, PSTU e demais.

Sabiamente, o consórcio burguês e as mídias a seu serviço, souberam explorar o descontentamento surgido pela desigualdade e encarecimento da vida decorrentes da administração capitalista e conciliação com patrões, marca dos governos PTistas.
Todo o processo se desenrolou, com a Copa do mundo, sua exploração dos trabalhadores e militarização das cidades sede, os verde-amarelos nas ruas e, enfim ,o famigerado Impeachment.

De lá para cá, a direção do PT, empenhada em emplacar uma narrativa vitimista, que apaga que os mesmos que deram impeachment eram os que estavam sob suas asas com poder decisório no governo (como é o caso do MDB de Temer) e que foi a própria Dilma quem iniciou a austeridade econômica, cortes na educação e colocou o homem dos bancos, Joaquin Levy (ironicamente, ex-presidente do BNDES do governo Bolsonaro) no Ministério da Economia, atua baseando-se numa estratégia de duas vias.

Com a prisão de Lula, por um lado, realiza um teatro parlamentar, cheio de imagens, performances e discursos inflamados, para manter o controle do espectro difuso “de esquerda”, fundamentalmente inofensivo dado que são minoria parlamentar; por outro, no terreno das lutas estudantis, de trabalhadores, no campo, mantém silêncio mais sepulcral, primeiro traindo a greve geral em 2017 contra a reforma trabalhista e deixando-a passar sob Temer, para, agora, trair milhões ao aceitar, sem nenhuma luta , a reforma da previdência.

Dirão que fizeram muito no dia 15 de maio (manifestações contra cortes na educação) e mais ainda no dia 14 de junho (suposta greve geral).
Que na primeira data o PT, que dirige a maior central sindical do país, a CUT, tenha impedido que os estudantes e professores usassem o dia para se unir aos demais trabalhadores de outras categorias e que no dia 14, na prática, fosse feito uma encenação de greve, com quase nenhuma categoria importante parando (em SP apenas os metroviários realizaram uma participação parcial), esquecem.

Seguidos de perto pelos pseudocomunistas do PCdoB, o PT, além de trair tais greves e não mover um dedo para organizar os desempregados, os trabalhadores informais, intermitentes, terceirizados, também ajudou Rodrigo Maia, o “Botafogo” da Odebretch, aprovador das reformas e sustentáculo de Bolsonaro, a se eleger presidente da Câmara: Toda a bancada do PCdoB votou em Maia e metade do PT também. Igualmente, enquanto o teatro parlamentar se fazia contra a reforma da previdência, os governadores do PT e desta pseudo-oposição, acertavam com Bolsonaro a implementação da reforma em seus estados no nordeste.
Um verdadeiro jogo duplo!

Desse modo, PT e PCdoB, nem se fale o PDT, um partido burguês comandado por coronéis e que tinha o gangster Paulinho da Força Sindical como presidente até alguns anos, não podem ser definidos como organizações de esquerda.
São partidos que degeneraram e se enquadrariam no máximo na definição de centro ou centro esquerda e que, do ponto de vista da política, são “sociais liberais”, ou seja, implementam a política capitalista liberal, com pequenos acenos sociais para manter uma base de trabalhadores iludidos.

Seu único objetivo é ver Bolsonaro “sangrar” pra colherem frutos eleitorais nas próximas eleições de 2022 que, esperam, ocorrerá caso não surja um golpe clássico no caminho.
Não há qualquer saída “de esquerda” e menos ainda revolucionária que passe pelo PT; pelo contrário, qualquer avanço nesse sentido se dará contra esta direção e resta aos que assim esperam ali, romperem com tal partido.

Mais a esquerda, se encontram agrupações como o PSOL, que, tendo sua origem na ruptura com o PT pela reforma da previdência que este realizou em 2003, retorna a casa de cabeça baixa e, infelizmente, aprofunda seu papel de linha auxiliar.

Este, que em todo este processo não conseguiu ser mais do que sempre foi, ou seja, não um partido, mas um “guarda chuvas” político com dezenas de correntes internas, cada uma com uma política distinta, avança a passos largos para abandonar qualquer perspectiva revolucionária.
Isso se vê tanto em seu programa, liberal e sem nenhuma proposta que aponte num sentido realmente socialista (a despeito de seu nome socialismo e liberdade) apresentado nas últimas eleições, quanto em sua prática e sua composição social, se apresentando como um grupo da “classe média radical esclarecida”, disposta a “respeitar as regras do jogo” e, no máximo propor uma sociedade, esta sim utópica, de um capitalismo humanizado, com a “civilização dos bancos” e a velha conciliação entre pobres e ricos.

Até mesmo seu funcionamento interno se assemelha a mais um partido qualquer, como demonstram as denúncias de fraude na eleição de delegados de seu último congresso e a indicação escandalosa de Guilherme Boulos, do MTST, como candidato a presidência por fora das decisões partidárias, aparecendo como “fato consumado” apenas a uma plenária, sendo que nem do partido era quando articularam.
Tal fato corrobora a tendência de linha auxiliar do PT, vide que a campanha de Boulos foi a pior da história do PSOL, com apenas 600 mil votos (comparados aos 1,5 milhões de Luciana Genro em 2014) e aproximou o PSOL totalmente da narrativa PTista de defesa de Lula e da abstrata “democracia”, retirando qualquer “cara própria” do partido e possibilidade de se colocar como alternativa ao PT.

Que tenham sofrido o repudiável e asqueroso ataque a vida de Marielle, sem sequer exigirem que a investigação fosse independente da polícia e do Estado, por uma comissão de especialistas internacionais ou algo que o valha, diz muito sobre as atuais ilusões dominantes nas concepções dos PSOListas. Assim, a adaptação ao parlamento e as regras que nem mesmo a classe dominante respeita é, hoje, completa, no PSOL. O horizonte socialista, outrora já distante, sumiu de vez.

A esquerda destes se encontra o PSTU - cuja ruptura recente, em 2016, deu origem a uma das alas da direita do PSOL - além de uma constelação de pequenos agrupamentos sem legalidade.

Em comum com estes, o PSTU demonstra o “propagandismo” socialista abstrato, característico de organizações que não tem ligação com a vida cotidiana dos trabalhadores, sendo que, se diferencia pela adaptação aos pequenos espaços sindicais em que ainda tem alguma presença.
Em termos de política, seguem até hoje com sua absurda defesa de que o impeachment foi algo positivo e, mesmo diante da realidade, se negam a enxergar que este não foi fruto da luta dos trabalhadores, mas de uma manobra dos patrões.

Algo coerente com sua visão “objetivista” e absurda de estratégia revolucionária: qualquer movimento que tenha participação das massas vai levar a mais luta, mais vitórias e, assim a revolução; basta aos revolucionários surfar este movimento. O pecado original da chamada “escola morenista” do comunismo cobrou seu preço em 800 militantes que abandonaram um projeto revolucionário e foram para o PSOL.

Se o PSOL se adapta ao Estado Burguês e a ilusão na democracia (que para os pobres, negros e trabalhadores é uma ditadura) pela via do parlamento, o PSTU o faz pela via dos sindicatos e da burocratização nestes.

Dirigentes sindicais mais preocupados com os acordos e a matemática de apoio nas próximas eleições de seus pequenos sindicatos, com os privilégios que vem destes cargos (liberações do trabalho, status, verbas,  etc), ao mesmo tempo em que escrevem textos abstratos para seus jornais sobre “erguer uma rebelião socialista”, “estatizar os bancos e grandes empresas”, “parar de pagar a dívida pública”, não fazem nada diante de ataques onde dirigem, não denunciam o PT e as burocracias sindicais da CUT , CTB e, pelo contrário, posam ao lado destes como se não se tratassem de inimigos infiltrados entre nós.

Exemplos definitivos se observam na contradição: enquanto faziam este discurso “vermelho” nas eleições de 2018, no Metrô de SP, onde o PSTU dirige o sindicato harmoniosamente com o PCdoB, mais de 80 funcionários eram demitidos (dentre eles o que vos escreve) por Dória, avançando na privatização, sem nem sequer uma assembleia, um panfleto, uma atividade ser chamada para se lutar contra.

O mesmo se vê na GM de São José dos Campos, onde o PSTU é direção há mais de 30 anos e que, em fevereiro, desferiu um ataque histórico contra os trabalhadores, reduzindo salários (a média salarial era de 6 mil e cairá para um piso de 1.700 para novos funcionários), acabando com adicional noturno e com estabilidade para acidentados.
Enquanto se canta a revolução, se deixa passar, sem luta, um ataque deste tipo: Esta é a expressão mais clara da adaptação total na qual o PSTU entrou, como resultado de suas adaptações antes e depois de sua ruptura em 2016.

Neste cenário de terra arrasada, são numerosos os ex-militantes e pequenas organizações que, pulverizados, tentam encontrar nas atuações cotidianas vias de impor pequenas resistências a esta ofensiva geral. Não é, no entanto, nada fácil.

Nossa “esquerda tradicional” é herdeira das mesmas contradições que hoje trazem o Brasil para o beco sem saída em que nos encontramos.

Herdeira da absurda lei da anistia de 79 que permitiu a Bolsonaro e todas as raposas ligadas a ditadura seguirem comandando a política no Brasil, gestada pelas lutas operárias de 78 a 80, herdeira da formação do PT na década de 90 e, desde então, seguindo sua trajetória, de maneira mais ou menos conflituosa, de oposição ao regime capitalista até a sua completa integração e transformação como partido capitalista a partir de 2002, nossa esquerda se adaptou completamente a um modelo de política domesticado, limitado, tacanho e engessado.

Sua composição, em geral, baseada nos extratos “radicalizados” da classe média pequeno-burguesa e em setores mais “confortáveis” dos trabalhadores (estatais, categorias de grande importância estratégica), deixaram por anos (principalmente a partir dos anos 2000) milhões de trabalhadores terceirizados, superexplorados, informais, temporários e, agora, desempregados, órfãos de qualquer atuação e representação política.
Assim é que se formou, ao longo dos anos, uma massa indefesa para a ilusão assistencialista vendida pelo discurso PTista ou reféns de gangsters e burocratas sindicais dos sindicatos patronais como Força Sindical, UGT, etc.

Ao mesmo tempo, tais organizações criaram, como estratégia de sobrevivência, todo um “microverso” interior, com seus cargos, afazeres, estruturas hierárquicas burocráticas, jogos informais de privilégios e status e até mesmo um léxico e vocabulário distante, sem preocupação em traduzir e organizar os milhões de trabalhadores órfãos de um projeto de mundo.

Nestas organizações (além do PSTU e PSOL, muitas das menores também),  as intrigas palacianas, ou seja, entre grupos de dirigentes baseados não num projeto estratégico revolucionário, não numa concepção de posições táticas a serem adotadas, mas em afinidades pessoais e amizades, são a regra e movem a ação. A base militante resta o papel de executar o decidido na cúpula e rezar o credo de tal ou qual grupo para encontrar alguma razão no que faz.

A formação teórica marxista, a compreensão do básico da exploração capitalista do trabalho humano (o coração da sociedade capitalista) e de seus mecanismos, das contradições da nova estrutura do trabalho, da importância da ação independente do Estado e dos patrões pela classe trabalhadora, como projeto estratégico de desenvolvimento do país e da revolução, ou seja, tudo o que poderia dotar os militantes de compreensão sobre os “nós” dos problemas de organização e conscientização dos trabalhadores, são abandonados.

No lugar, existe há anos uma militância alienada, que vive de pequenas tarefas performáticas nas universidades de elite ou nos empregos confortáveis estatais, separada por um abismo da vida da massa explorada brasileira.
Abismo lexical, social, ideológico.

Não é de se espantar que o Bolsonarismo tenha encontrado o gol aberto; ocorre que esta esquerda, a esquerda do PT, achou que não precisava entrar em campo.

A situação avança muito mais rápido do que se ergue uma alternativa

A situação é grave e, assim, a sensação de impotência acomete muitos militantes e muito mais os trabalhadores diante da evidente piora das condições de vida.

Estamos diante de uma situação econômica e política que se desenrola muito mais rapidamente do que nossa capacidade de reação.
Para tal “esquerda tradicional” tudo segue bem. Como não tem influência ou sequer disposição de buscar atuar nos problemas fundamentais, vivem de ou pregar uma conciliação “paz e amor” inexistente no horizonte da guerra social em curso, ou de exigir que as burocracias sindicais, como CUT e CTB, PT e PCdoB, façam algo, ignorando seu projeto real.

Para os revolucionários e revolucionárias espalhados pelo país a principal tarefa do próximo momento deve ser resistir e se politizar estudando e mantendo as bases teóricas revolucionárias e buscar um reagrupamento partidário em base a uma estratégia comunista independente dos trabalhadores.

Junto a isto, girar todos esforços para construir uma frente única que retome os sindicatos dos pelegos, organize novas formas de representação e organização dos trabalhadores intermitentes, precarizados e terceirizados, buscar ligação, politização e atuação junto aos desempregados e, assim, criar as bases para uma refundação da esquerda revolucionária brasileira.

Tudo indica que este processo será cruzado por muito mais rupturas e levantamentos espontâneos dos trabalhadores, conforme as condições de vida piorem.
Ter clareza da atual crise e honestidade intelectual para chamar as coisas pelo nome são, no entanto, condições para erguer uma alternativa.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

É muito louca quantidade de detalhes que a gente perde, bicho!



Dia ensolarado. Depois de umas friacas, um dia desses parece que limpa a atmosfera. Alguns anos desempregado permite perceber alguns traços gerais do clima ao passar dos dias.

Um bosque verde desabrochando flores de todas as cores balança levemente pra um lado e pro outro. Nada daquela coisa violenta e esgarçada que as pessoas vêem em filmes.
O vento flui lento, corre, acelera e freia, gerando movimentos variados que encontram, nas árvores, só pequenas ondulações.
Enquanto isso, a luz bate firme sob as abóbadas esverdeadas e reflete nos olhos, com cores meio que preenchidas com um filtro esbranquiçado.

Uma serra é ligada. De cima de um andaime um operário serra piso, serra teto, serra tudo. O barulho áspero e ruidoso da serra dilacera o ambiente, algo perfeitamente natural dada sua criação artificial, ou seja, abrupta para a lenta e imparável evolução das coisas naturais.

Um cachorro, algo um pouco menos alheio a natureza, late, esperneia e resmunga de dentro da sacada do predinho de 3 andares, cada um com 2 apartamentos, cada porta com seu jeitinho.

Lá embaixo um gato se esmiúça dentro da hortinha improvisada entre o início do barranco e o muro que o corta. Entre flores avermelhadas, brotos redondos e amarelados, uns 4 troncos e cinco linhas de arame farpado os cruzando de cima a baixo, o gato olha desafiador e, aparentemente, meio sádico para o cachorro. Talvez zombasse de sua incapacidade de sair por uma simples grade de sacada.

O vento acelera rápido.
Olhando para a esquerda, numa distância de, quem sabe, uns 200 metros , uma árvore enorme que forma uma abóbada tão perfeitamente arredondada que parece que alguém a apara toda semana, dança no ar.
A fumaça da serra se impõe entre a visão e a dança da gigante. Um ladinho pra esquerda, outro pra direita, uma espalhada geral, o vento passa por entre os galhos fazendo toda a árvore parecer um dente de leão que balança mas se recusava deixar voar suas pétalas.
Do seu lado esquerdo, aparentemente imóvel, ainda faz seus gracejos a árvore quase sem folhas, nua, balançando apenas seus pequenos brotos e galhos como uma espécie de esqueleto semimóvel.

É louca a quantidade de detalhes que a gente perde!
Parece que, vez por outra, auxiliado por algum remédio pra romper a monotonia quase inescapável da rotina social, conseguimos ter estes rompantes e olhar as coisas como são. E, derrepente, levar um susto incrível.

Arrancar poesia e, ao menos como atitude mental, resistir a maré de normatização, robotização e alienação talvez seja se dar um tempo para isto: meditar o cotidiano, ismiuçar as camadas do dia a dia, se dar um tempo pra respirar e ver cada um destes detalhes, tão simples que, no dia a dia de obrigações, nos parecem inexistentes.

A serra me era um pouco mais do que um incômodo semiperceptível. As cores me passavam batido. As árvores pouco se diferenciavam daquelas dos quadros da sala. A luz, pouco mais forte do que a do meu quarto. Os tons imperceptíveis, as danças insondáveis, os detalhes embolados na massa do cotidiano.

Foi preciso apenas alguns instantes pra perceber o quão mais rico é o tecido da vida. E como, a disputa por nossa atenção, essa guerra de morte pelos olhos e  vontades humanos, na qual, tantas vezes, contribuímos voluntariamente nestas redes sociais, precisa e só pode ser freada com, além de muita luta e consciência, um momento pra parar e fruir.

Afinal, o único que temos e sob o que nos movemos e geramos qualquer riqueza e trabalho é o tempo. É nesse tecido da vida que nos movemos. E é nele que tudo passa.

Amanhã tomara que eu acorde e ouça a serra ou quem sabe o cachorro... Quem sabe...

quarta-feira, 24 de julho de 2019

O capitulo um da revolução brasileira mal terminou...

O coração da tragédia destes anos que vivemos reside precisamente no fato de que o consórcio de frações e grupos burgueses, nacionais e estrangeiros, aproveitando uma janela de oportunidade e o efeito da desaceleração provocada pelo efeito da crise mundial que, finalmente, chegava ao Brasil, decidiu e percebeu que não mais precisava manter um pacto de convivência com a conciliação.
Percebeu que os oprimidos não apenas perdiam capacidade e estrutura de organização, como a insatisfação que começou a nutrir, produto de um crescimento econômico que não se convertia em benefícios para as camadas trabalhadoras, a não ser através de créditos relativamente baixos e pequenas concessões de benefícios assistenciais, proporcionalmente a acumulação de capital nas mãos do empresariado e dos bancos.
A explosão de junho de 2013 pegou de surpresa mas fez com que o "cérebro" burguês entendesse que chegava o momento da readaptação e uma oportunidade de maior acumulação. E que para isto seria necessário lançar mão de ações de força, ou seja, retomar a tradição da burguesia e dos políticos golpistas brasileiros de maneira aberta e agressiva.
Em última análise, forçar e bancar, social, política e, principalmente, repressivamente, o abismo social que hoje indiscutivelmente separa os interesses e modos de vida dos capitalistas e seus lacaios, de um lado, e a enorme maioria do povo trabalhador e pobre, de outro.
Esta tragédia, concretizada com a traição das organizações como PT e PCdoB que usam uma "aura de esquerda" abstrata apenas para lavar a própria cara diante das traições e manter qualquer alternativa de esquerda e radical travada, impossibilitada de surgir e ganhar influência entre a maioria dos trabalhadores.
Hoje, o papel mais relevante e decisivo de PT e PCdoB é o de impedir, seja elo teatro parlamentar e as traições no sindicato, seja pela política de "se fingir de morto" no cotidiano e na organização das lutas, é o de impedir a radicalização e organização dos trabalhadores contra o centro de sua exploração: os grandes, bancos, grandes empresários e seus gerentes no congresso. Nem sequer esta impressão se constrói.
O povo segue achando que o problema "são os políticos", quando o que se trata é uma guerra entre classe de pessoas e não funções: Grandes latifundiários e magnatas usando a máquina do Estado pra extrair MAIS riqueza, sem contrapartida, do bolso do trabalhador com cortes de direitos, demissões, reforma da previdência e reforma trabalhista.
Não se faz, é claro, porque hoje, estes além de estarem comprometidos com nada mais além de administrar este país capitalista, de maneira capitalista e, assim, beneficiar os capitalistas e administrar a miséria, também ajudaram a criar a idéia de que neste mundo cibernetizado e da pós-modernidade, nem se pode sonhar em um outro tipo de sociedade, uma outra forma de organizar a economia, as relações, o estado, de maneira coletivista, socialista, revolucionária. Este sonho foi arrancado desta geração dos 80 para lá.
Nossa geração sofre uma derrota histórica com a ofensiva autoritária bonapartista, que destrói os mecanismos de proteção social, como as leis trabalhistas e a previdência, destrói a capacidade de trabalho minimamente decente, com a lei de terceirização irrestrita e destrói o futuro desenvolvimento do país com as privatizações e entregas de recursos estratégicos nacionais e com a lei d drogas, com os 700 mil presos e mais de 67 mil mortos por ano, numa política de genocídio e extermínio dos negros e trabalhadores.
Toda esta derrota, cujas bases foram assentadas em 1979, quando a geração em luta não conseguiu avançar, por responsabilidade de suas direções políticas, e teve de estabelecer um pacto com os mesmos torturadores, políticos da ditadura, empresas financiadoras da ditadura, figurões políticos e territoriais da ditadura, concretizado na Lei da anistia e nesta democracia tutelada, onde pode tudo, desde que o Milico não se incomode, está acompanhada de outra grande transformação histórica.
Nossa geração entra na próxima fase de reestruturação produtiva, ou seja, de transformação nas relações de trabalho, agravadas pelo desenvolvimento tecnológico, a informatização, automação, terceirização irrestrita e uberização do trabalho.
Esta bomba histórica e social coloca diante desta geração e as próximas nos anos que estão por vir um desafio histórico sem precedentes tanto do ponto de vista da organização dos oprimidos para a luta contra a exploração, quanto para a reflexão e percepção precisa de de qual maneira o desenvolvimento da Inteligência Artificial pode golpear a força do trabalho contra o Capital.
Isto implica que, talvez, passemos por um tempo relativamente prolongado de lutas espontâneas, erupções sem direção e por esgotamento até que os revolucionários que passarem por esrte processo de "seleção natural" de quadros, começarão a tratar de dar forma consciente e organizada ao movimenbtos destes trabalhadiores terceirizados, intermitentes, uberizados.
Construir as futuras, comissões, sindicatos, associações, combativas e independentes em relação ao estado e o patrão talvez seja a tarefa que nos próximos 5 ou mais anos deverão, por força dos acontecimentos da vida, levar a frente os verdadeiros revolucionários e trabalhadores conscientes.
Isto pode, numa perspectiva de uma década ou mais, e provavelmente deve ser a única forma a partir da qual poderá surgir uma alternativa política, um partido realmente fundido, presente, pertencente e construído pelos trabalhadores brasileiros, capaz de se colocar perspectivas e uma estratégia de transformação social, contra-ofensiva contra o capital e tomada do poder.
No futuro livro da, possível e desejável, ainda que trabalhosa e tortuosa, Revolução Brasileira, junho de 2013 será marcado como o Capitulo Um. E eu arrisco dizer que ainda nem viramos a página para o próximo.
Uma grande obra há a frente. Ver claro na escuridão é a melhor maneira de superar a angústia do trajeto.
Avante.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Aprovada a reforma da previdência na câmara; quais lições um trabalhador tem de tirar?

O nível de desinformação construído pela mídia corporativa burguesa é absurdo. Esta reforma tira 90% do "economizado" de quem recebe até 2 mil reais, ou seja, da CLASSE TRABALHADORA no RGPS, regime geral. Essa reforma na prática INVIABILIZA a aposentadoria para a maioria dos trabalhadores.
Ela exige 40 anos de contribuição para se receber algo próximo de 100% da média dos salários. Os poucos que conseguirem se aposentar hoje terão, além de esperar até 65 anos, uma idade altissima, que em alguns lugares é maior que a expectativa de vida, contribuir PELO MENOS 20 anos de carteira registrada, recebendo, neste caso apenas 60% dos salários.

Isso num país com 14 milhões de desempregados, terceirização irrestrita, rotatividade do trabalho e em que METADE da força de trabalho é informal, ou seja, não tem carteira assinada e nem contribui para a previdência.

Nos privilégios dos ricos, judiciário, legislativo, militares, não se mexeu em NADA.
As grandes empresas devem 500 BILHÕES de reais para a previdência. Sabe como? Não pagando as contribuições patronais e ROUBANDO o dinheiro que seus empregados achavam que estava indo para o INSS mas que eles não repassavam. Este montante não foi cobrado e nem será.

Brasil, que junto da Estonia é o único país em que não existe imposto sob lucros e dividendos, ou seja, para RICOS e MAGNATAS empresariais, não haverá nem nunca houve desde antes da ditadura civil-militar reforma tributária.
Não haverá aumento de imposto sob herança, fim de isenção fiscal pra empresa e latifundiário, aumento de imposto sob grandes fortunas, limitação de remessa de lucros pro exterior, IMPOSTO PARA A RENDA DO PATRÃO, que são lucros e dividendos - que hoje paga 0%!! !-.

Por aqui rumamos para voltar mais rapidamente a ser uma colônia de miseráveis, com uma elite burguesa isolada numa torre de marfim, mantida com o genocídio dos pobres e pretos, através da mentira chamada "guerra as drogas" que só serve pra colocar a Polícia para prender e jogar num buraco milhões de negros e pobres, como tática de controle social através do terror e medo, como forma de manter os privilégios da classe dominante salvaguardada da revolta popular.

Isso sem falar em toda a economia gerada pra transferir o que sobrar da previdência para pagar os juros da divida pública devido aos bancos...pegando MAIS EMPRÉSTIMOS com os mesmos bancos...

O Brasil é um paraíso fiscal de bancos, empresários, latifundiários, burgueses do comércio , mantidos por um Estado policial ( tão eficiente em "servir e proteger" que prende centenas de milhares com rondas ostensivas por pouquíssimas quantidades de droga mas não chega a investigar nem 8% dos assassinatos do país), que usa o pretexto da guerra as droga para exterminar e manter controlada uma população pobre e trabalhadora que vive no limite da fome, da miséria, do desemprego e da revolta.
Essa democracia só é democracia para os ricos. Para a maioria do povo é ditadura e medo da fome e da morte.

Nossa ÚNICA saída é a revolta e um governo que seja a antítese deste sistema. Um governo dos trabalhadores, exercido diretamente por eles, em que todos cargos públicos sejam revogáveis e elegíveis e não recebam mais de um salário mínimo vital. Em que tudo o que é produzido e como é seja planejado e guiado pelas NECESSIDADES das pessoas trabalhadoras e não pela expectativa de lucro de uma minoria de patrões que vivem de enganar o povo.

Para chegar a isto, só através de uma verdadeira revolução, que derrube e destrua este sistema político, jurídico e legislativo, ou seja, este Estado e construa um novo, pelas mãos de cada um de nós trabalhadores atuando diretamente na política. Consciência e organização devem ser construídos com toda a força neste momento.

Esta é a lição que cada trabalhador deve tirar da aprovação desta reforma - fora a trabalhista e os demais ataques- por um sistema político burguês que obriga os trabalhadores a trabalharem até morrer
para enriquecer seus já tão fartos bolsos!

domingo, 30 de junho de 2019

Sobre as novas demissões no Metrô de SP e a política da diretoria do Sindicato


Já faz um ano e meio que estou demitido. Se se tratasse só de mim, apesar de difícil, seria menos grave. Mas são dezenas de Metroviários em SP demitidos desde 2017/2018 até hoje. Conheço alguns deles. Fomos demitidos numa onda de DEMISSÕES que já dura 2 anos e que o metrô quase nunca realizou no passado. Tinha até uma piada que pra "ser demitido do metrô tinha de se esforçar".

Bem, atualmente eles demitem por "baixa produtividade", ou seja, usando avaliações unilaterais de desempenho que a chefia usa, na pratica, pra impedir que trabalhadores façam concursos internos e pra perseguir política e pessoalmente. Hoje as coisas estão diferentes.

Ano passado escrevi diversos textos, relatos, polêmicas e até um escrito mais e fôlego propondo uma reflexão a todos grupos políticos (PSOL, MRT, PSTU, PCB, etc) na categoria sobre como o lema vindo da luta que TODOS DEMOS de 2014, "Ninguém fixa pra trás", não podia ser um chavão, mas que deveria ser um princípio e que, também possuía um profundo caráter estratégico prós trabalhadores no metrô e na cidade. Todos, por um ano e meio ignorados.

Enquanto alguns diretores faziam festa diante da readmissão (merecida, legítima e tardia) dos demitidos de 2014, estávamos sendo demitidos a dezenas e sem sequer ser respondidos. Ficamos pra trás.
80 é o último número que tive notícia em 2017/2018. Não é exagerado mencionar que todas estas demissões foram tratadas pela diretoria como casos individualizados, passíveis apenas de recursos administrativos e, no limite, de entrar na justiça burguesa, que, sabemos, muitas vezes não beneficia o trabalhador.

Não houve assembleia, não houve denúncia, não houve manifestação, não houve campanha, não houve nem sequer tentativa de organizar quem estava demitido pra tentar formar uma luta. Eu e todos demitidos sequer tivemos direito ao seguro desemprego e nosso sindicato não falou nada!

Do ponto de vista jurídico, a equipe de advogados do setor jurídico do sindicato é extremamente abnegada e disposta e deles só posso falar bem. Mas a diretoria política, eleita pela categoria, são outros 500 e, por isto, a cobrança é diferente.

Após dois anos em que a empresa do metrô usa de demissões baseadas em avaliações ilegítimas e feitas pra perseguir, retornam as demissões após a greve do 14 J, demissões contra as quais temos de lutar, é claro!

Todas elas, afinal, cumprem o papel de colocar os trabalhadores na defensiva, aterrorizar, enfraquecer e avançar com o plano da ala raivosa de Doria: privatizar o sistema metroviário e tornar um espaço para seus amigos lucrarem.

Contraditoriamente, a diretoria do sindicato, que não apenas não atuou verdadeiramente pra defender na ação política os demitidos até agora, hoje, diante da inescapável crise das novas demissões, divide estas demissões entre políticas e "não políticas", na prática dizendo que todas as realizadas antes, em 2018/2017, seriam baseadas em critérios legítimos, ainda que fossem injustas. Mas não são legítimos, são apenas uma forma de perseguição maquiada para o mesmo objetivo.

E a inação diante das demissões passadas mandou um recado e o Metrô concluiu: se demitir a conta gotas, com critérios pouco claros, é uma forma possível que não encontra resistência, então é possível seguir demitindo e avançar mais rápido na privatização.
A luta não dada desde 2017 cobra seus preços até hoje e explica a ofensiva da gestão Doria e das demissões, privatizações de bilheteria, etc.
É por isto que lutar pelos demitidos é, além de um princípio, uma questão estratégica para que a categoria siga lutando e, assim, resistindo e ajudando o conjunto da classe em suas manifestações e lutas mais amplas contra as reformas.
Uma derrota total dos metroviários (privatização e demissões) impacta e impactaria mais o conjunto dos trabalhadores de São Paulo.

Disso só se conclui que, diante das atuais demissões de 2019, não é possível seguir errando.
E pior. Se foi grave não realizar nenhuma ação política organizada em defesa dos demitidos de 2018/2017 (nem tentar organiza-los pra pensar ações), se se confirma que a diretoria pretende dividir entre "demissões políticas" as de 2019 e "não políticas" as anteriores, seremos, então, abandonados UMA SEGUNDA VEZ e pode-se dizer que traídos nessa defesa de um princípio fundamental (e do sustento dos demitidos em geral).

Eu, particularmente, fui demitido dois dias antes da greve de janeiro de 2018. Outros alguns dias depois.
Fui descobrir qual a justificativa de demissão da empresa, não no dia, mas 8 meses depois que eu entrei com o processo, mostrando que demitiram a mim e a tantos sem nenhuma justificativa e, depois, tentaram inventar alguma história pra dar base. Sigo lutando na justiça.

Mas o nosso terreno é o da luta direta da categoria, com nossa força unificada. É daí que vem nossas forças, como tantas greves jah mostraram.
Abrir mão disto e preferir ações jurídicas e conversas com o secretario do Doria é, novamente, o caminho da derrota.
É é por isso que não posso, como demitido, me calar diante das ações da diretoria. Dividir as demissões torna, inclusive, mais difícil lutar para reverter as demissões de 2019 agora.

Pelo fim das avaliações de desempenho e pela readmissão de TODOS metroviários demitidos de 2018 e 2019 que querem voltar e lutar por isto na justiça, sem separação entre "tipos de demissão"!
Por uma mobilização real e com diversas ações por isto!

Estas são as únicas bandeiras que podem nos fazer vencer e mandar um recado claro a chefia da empresa. Este é o marco zero de qualquer luta.

Porque quem vai lutar políticamente com o sindicato se perceber que, se demitido, não vai ser, políticamente, defendido?

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Debate com Jones Manoel: sobre a Coréia do norte e confusões intencionais.



Recentemente nos deparamos, através do site da Editora Boitempo, com um texto - ou mais corretamente, uma apologia - em defesa do regime e estado de coisas vigentes na Republica Popular da Coréia, mais conhecida em terras ocidentais como Coréia do Norte.

Tal apresentação do esforço de Jones Manoel, youtuber e militante do PCB, pode soar polêmica e, com justiça, no decorrer do debate proposto por estas linhas, esperamos que seja, de fato, assim encarada.

Entre numerosas citações pirotécnicas, com o objetivo de dotar de credibilidade sua análise e um debate moral a frente no início, colocando em segundo plano a análise marxista das relações de produção, políticas e sociais existentes na República da Coréia, Jones resulta num stalinismo revisitado e condescendente com todas as contradições desta nação complexa e distante para a análise dos trabalhadores e revolucionários brasileiros.
 
Salta aos olhos a dedicação com que Jones, tecendo sua narrativa e conduzindo o leitor ao erro, tenta estabelecer a crítica tanto as pessoas em geral, como a esquerda em particular, utilizando uma linha acessória, moral e política, para isto.

Para o autor, o problema da visão dos marxistas brasileiros (e, mais amplamente, ocidentais) é que ela é deturpada e conduzida pelos, evidentemente influentes, monopólios midiáticos, que não apenas moldariam nossa desinformação sobre a Coréia do Norte como nos levariam ao “desencanto infantil” a partir do surgimento das primeiras dificuldades dos povos em “erguer sua libertação”.

Praticamente um terço de seu texto é gasto em citações, dados e cifras que, se esquivando as questões fundamentais, relatam não apenas o abandono moral, o desencanto de uma esquerda que não valorizaria a luta “nacional e anticolonial”, como a situação de dominação  a que as pessoas em geral e os marxistas ocidentais em particular, estão sujeitos diante do controle do fluxo de informações exercido por 3 monopólios midiáticos dos EUA, Inglaterra e França.

Estabelecida sua base argumentativa (e, de certo modo, sua visão de que seus leitores seriam no melhor dos casos desinformados e, no pior, idiotas preguiçosos) Jones segue para a definição das condições de vida na Coréia do Norte.
Que o mercado de informações internacional, é monopolizado por estas quatro agências citadas (Associated Press, FrancePress, Reuters), não é nenhuma novidade.
No Brasil, a compreensão dos efeitos deletérios deste tipo de monopólio, em época em que a “pós-verdade” é uma arma política de massas na construção de falsas narrativas através de redes sociais, tem aumentado.
Além dos meios alternativos de fake News, os meios clássicos da burguesia Brasileira, como Globo, Estadão e Folha continuam firmes e moldam notícias ao sabor dos interesses burgueses aos quais se associam.

É, portanto, um fato que a República Popular da Coréia sofre uma campanha de desmoralização, demonização, falsificação enorme, como sempre foi o caso de toda e qualquer experiência revolucionária nos 170 anos de luta dos trabalhadores contra o capitalismo.
Certamente não é apenas (e prestemos atenção nesta palavra) por esta via que um trabalhador consciente e crítico e, mais ainda, um marxista revolucionário, vai buscar suas informações e, principalmente formar seu juízo.

Todavia, localizar a ojeriza de amplos setores populares e de uma maioria entre os marxistas revolucionários a uma entrega acrítica as informações dos monopólios ou a um suposto ocidentalismo abstrato que não reconhece as “particularidades” coreanas é de uma superficialidade e prepotência exageradas.

Em sua argumentação o aspecto histórico da formação do Estado da república coreana, os traços econômicos e a análise das relações de produção - o ABC para um marxista - são ignorados por Jones.
Resta apenas a apologia e o apelo a comoção diante dos dados sobre os, evidentemente, criminosos danos realizados pelo Imperialismo dos EUA, através do bloqueio econômico atual ou da guerra no passado.

Desse modo, é preciso dizer que existem, sim, opiniões embasadas, econômica, política e ideologicamente, por parte de marxistas, sobre o processo da Coréia e do que chamamos de Estados Operários Deformados.

Onde está e o que é a Coréia, afinal?

A República Popular da Coréia é um país isolado.
Esta é uma verdade incontornável que impõe, deste modo, uma cautela necessária para definições..

Se por um lado a campanha de desinformações possui seu peso específico e importante na construção de uma Coréia caricaturada e hostil, características próprias de sua formação política e ideologia exercem um papel importante neste isolamento.

A Coréia de 1910 até 1945 era parte, anexada, do império japonês. Apenas após o fim da segunda guerra mundial, com a derrota japonesa através da heróica luta do povo coreano, é que surgiria o que hoje conhecemos como a Coréia do Norte.

Num processo muito parecido, no entanto, com o ocorrido no Leste europeu (com a ocupação e expropriação das burguesias pelo exército vermelho da URSS em países como Estônia, Letônia e Lituânia) ou mesmo na Alemanha (com a divisão entre Berlim oriental e ocidental), após tentativas de reunificação terem falhado (mas terem seguido por décadas mesmo após a guerra), em 1948 a península Coreana foi "dividida" entre os EUA e a URSS, durante a guerra fria.

Um guerrilheiro chamado  Kim IL Sung, com o apoio logístico e militar soviético e chinês, a frente da luta contra o sanguinário ditador imposto pelos EUA na Coreia do sul, Syngmann Ree, foi lançado ao poder. 

Em 1950, após uma invasão do Norte diante da pressão das tropas dos EUA, maquiadas de tropas da ONU, estacionadas no sul, tem início a guerra da Coréia, um enorme conflito que só chegou a um impasse após a entrada das tropas chinesas em apoio ao norte, o que, por sua vez, levou a um armistício em 53, mas nunca a uma assinatura de fim da guerra.

O resultado deste processo, cujos pormenores não são nosso objetivo expor, foram, de fato, a eliminação de cerca de 30% da população, bombardeios, destruição de terras e fábricas e um bloqueio econômico feroz por parte dos EUA e das potencias capitalistas.

Por outro lado, no norte, a antiga burguesia foi expropriada, as fábricas, terras e meios de produção em geral foram estatizados e se estabeleceu um governo do Partido dos trabalhadores coreanos, o qual, até hoje, monopoliza o controle da “Frente democrática para a reconstrução da pátria”, com mais dois partidos. Toda representação política só pode se dar por esta frente.

A partir de 1955 o autoproclamado “líder supremo”, terminologia bastante comum aos autocratas dotados do beneplácito stalinista, começa a desenvolver a chamada “ideologia Juche” que em 1977, oficialmente, substitui o marxismo, sob todos os pontos de vista e, principalmente, o simbólico.
Saem quaisquer referências visuais ou intelectuais a Marx e Lênin – e até mesmo ao patrocinador, Stalin -, entra o culto a Kim Il Sung e sua família.

Isto inaugura o culto a personalidade – outra excrecência antimarxista inspirada no Stalinismo - que dura até hoje, baseado na doutrina da adoração aos líderes e em sua infalibilidade, ensinado como doutrina escolar desde a infância.
O Juche, como ideologia, por outro lado, se define como, literalmente, “autossuficiência” e, sendo assim, professa pela autossuficiência econômica e bélica, num país montanhoso em que apenas 15% das terras são fertéis (e ainda conta com um feroz bloqueio imperialista) para alimentar seus 26 milhões de cidadãos. Somado a ele, a ideologia “Songun” é imposta pelo filho do ditador original e define que “os militares vem antes de tudo”, estabelecendo as prioridades do regime.

Após o fim da URSS, em 91, a Coréia do Norte, num processo parecido com Cuba, sofre com os mesmos males sofridos pelas nações na esfera de influência – principalmente, econômica - da URSS, passando por uma grave crise de produção (vide sua dependência total da indústria e materiais da URSS) e apostando no fortalecimento do culto a personalidade e das forças militares como via de tentar manter o regime político de pé.

No início dos anos 2000 se inicia a implementação de medidas de economia de mercado (capitalistas) entre as duas Coréias para a criação das Zonas Econômicas especiais de Kaesong, Kumgang-San,Rajin e Shinuiju, próximas da zona militarizada de fronteira¹, divididas entre áreas de turismo e de produção industrial, onde estão mais de 124 empresas sul coreanas e 50 mil trabalhadores norte coreanos trabalham entregando seus salários ao Estado e recebendo uma fração minoritária deste².
 
Diante de tal explicação histórica e das principais definições sobre de onde vem e como se define a Coréia do norte, temos muito mais elementos pra definir o que é a República Popular.

Trotsky, o dirigente mais destacado da revolução russa ao lado de Lênin, dedicou especial atenção a deformação burocrática da URSS nos anos 30 em vários artigos e sua grande obra “a Revolução Traída” e, posteriormente, foi seguido por marxistas do pós guerra que aprofundaram suas análises sobre os processo de formação dos Estados Operários deformados decorrentes das ocupações do pós segunda guerra.

Para os marxistas, a definição do caráter de classe de um estado se dá de maneira científica, principalmente levando em conta um critério amplo: Como se produzem os produtos – e as riquezas - nesta sociedade? Ou seja, quais são as relações de produção deste estado?

Sob o capitalismo, nunca é redundante dizer, a anarquia domina a economia; tudo e todas as quantidades do que é produzido não vêm de um plano baseado nas necessidades das pessoas, mas no desejo de cada grande capitalista em aumentar seu lucro. Da mesma forma, no capitalismo, a classe dominante é a dos donos dos meios de produção, que com a força do SEU estado, controlam as terras, fábricas, ferramentas, matérias primas e obrigam a enorme maioria do povo, sem qualquer meiod e produção, a trabalhar vendendo sua força de trabalho.

Um Estado operário, então, para os marxistas e, claro, como consequência direta das posições do próprio Marx, é a antítese, o extremo oposto a este estado capitalista, que nada mais é do que uma cobertura, cujo objetivo é defender e articular os negócios dos grandes bancos, industriais e latifundiários.

Para eles, um Estado operário se define como aquele em que a propriedade é coletivizada, ou seja, a burguesia foi expropriada; em que a economia é planificada democraticamente pelos produtores segundo suas necessidades; em que o comércio exterior é monopolizado pelo Estado, ou seja, a economia do país não é refém das peripécias das grandes corporações. Estas são as bases econômicas de um estado de transição para o socialismo.

Tais idéias, para alguns membros da esquerda, podem parecer antiquadas, mas da ciência econômica não há escapatória.
As decisões econômicas são, apesar de ideólogos burgueses tentarem maquiar, políticas e seus efeitos também.
Um estado que não possui estas características não inicia a construção do socialismo, não porque não se queira, mas porque não existem condições econômicas para tal.

Esta é a via para suprir o Estado dos operários, construído pela revolução, do capital necessário para a industrialização e, assim, para criar a abundância, ou seja, o avanço das forças produtivas para deixar de produzir para o lucro e passar a produzir para garantir a necessidade das pessoas.
Fora destes critérios, fora da busca pela abundância e da libertação da necessidade imposta pela economia capitalista, ainda domina o mesmo mercado capitalista, a anarquia econômica, a divisão de classes entre donos dos meios e despojados dos meios de produção, patrões e operários, em essência, dominam os grandes magnatas da burguesia.

Diferentemente da própria Rússia, China e das nações do leste europeu, onde a restauração capitalista já ocorreu e o que existe é de um lado um Capitalismo de Estado feroz e de outro repúblicas liberais capitalistas semidemocráticas, felizmente, o caso da República Popular da Coréia não parece estar resolvido.

A Coréia do Norte, fruto da imposição das bases econômicas socialistas “por cima”, via apoio soviético e não como um processo que foi construído desde baixo, pelos trabalhadores organizados democraticamente, como foi o caso clássico da revolução Russa, é um Estado Operário Deformado, em que, apesar de ter se dado a expropriação da Burguesia e seguir com a maior parte do comércio monopolizado pelo Estado, nunca viu uma verdadeira planificação democrática da economia.
Pelo contrário, são notáveis os relatos, de direita e esquerda, de observadores presenciais de ambos os campos, sobre as inspeções que a burocracia do Partido dos trabalhadores da Coréia realiza nos campos e fábricas e que, de uma hora pra outra, reorganizam a produção segundos os interesses dos funcionários de alto escalão, sem qualquer meio de controle e participação dos trabalhadores nestas decisões.
Kim Jon Un, aliás, é conhecido por realizar estes giros bruscos, destinando, recentemente, milhares de trabalhadores para construir um complexo turístico de esqui, posteriormente paralisado, visto a falta de procura de turistas...

Também é comum, nestes relatos, a existência do que Jones chama, de maneira condescendente como “privilégios burocráticos”, que vão desde as viagens internacionais, até acesso a restaurantes, alimentação abundante, carros e resorts de luxo, pelos funcionários do governo, oficiais do exército e do alto escalão, demonstrando que, longe de serem “menores privilégios”, a economia da Coréia é monopolizada por uma casta burocrática que se ergue acima dos trabalhadores, gozando de direitos pagos com seu trabalho e que ela mesma veta a estes.

Mas e a política? A confusão intencional entre Regime Político e Estado

Jones parece não conseguir resistir a um traço particular de personalidade argumentativa. Sempre tenta antecipar os argumentos de seus opositores cometendo um “sincericídio”. É o caso de quando diz que “
O leitor pode pensar que estou falando das conquistas sociais mas ocultando a dimensão política do país”.

Após passar boa parte de seu tópico em que deveria definir a Coréia do Norte  (sem no entanto abordar em nenhuma linha suas condições econômicas e relações de produção, como se se tratassem de obviedades) exaltando conquistas sociais, Jones faz uma definição rigorosamente precisa do que está fazendo.

Algo claramente confirmado nas linhas seguintes, quando expõe de passagem e acriticamente a ideologia Juche, menciona um autor para argumentar que as instituições Norte-coreanas são republicanas, que por conta do bloqueio sofrem uma mentalidade de “bunker” e, por fim, rechaça, tão preguiçosamente quanto os que critica, quem define o regime político como um tipo de Stalinismo burocrático, negando inclusive o irrefutável culto a personalidade na Coréia.

Para fechar com chave de ouro, Jones invoca a Esfinge indecifrável que para os menos críticos pode servir de cala boca, sobre as particularidades da fusão do “confucionismo, cultura asiática e marxismo”, como escudo contra as vozes divergentes.
O fato é que no regime político da Coréia do Norte o fazer político é monopolizado por uma única frente – a “Frente democrática para a reconstrução da pátria” – e dentro dela pelo PTC.
 
As eleições existentes ocorrem a cada 5 anos e elegem a chamada “Assembléia Popular Soberana”, que se reúne apenas duas vezes ao ano e delega todas as prerrogativas do Legislativo e executivo – fundidos no país – a um Presidium.
Este, no entanto, muito mais reduzido e controlado pela alta cúpula da frente mencionada é votado indiretamente, ou seja, não pelo povo mas pela Assembléia e é o responsável por toda a tomada de decisões, a exceção dos dois dias por ano em que se reúne a assembleia.

De outro lado, o cargo mais importante, de fato, é o de Presidente da Comissão da defesa nacional da Coréia do Norte, cargo criado por Kim Jong IL em 1993 e ocupado por ele mesmo desde então até sua morte, quando foi “eleito” seu filho Kim Jon Um, o atual chefe supremo das forças militares do país e o detentor de todo o poder, de fato.

Sabemos que as formas políticas podem e, usualmente, servem aos interesses dos grupos dominantes. É por isto que não basta a análise formal, para os marxistas, mas a essência de seu funcionamento, os interesses de classe e de casta envolvidos em seu desenvolvimento.

É por isto, também, que deveria causar espanto que um intelectual que tem influência no debate da esquerda, nas redes sociais e se propõe a polêmica, trate o assunto neste nível de superficialidade e, pior, chegue a extremos como dizer que Ditadores sanguinários de países que nunca nem sequer chegaram próximos de iniciar a construção do socialismo, como Khadafi da Líbia, seriam “ditadores”, com aspas e tudo.

A forma política do regime Coreano é uma casca que busca erigir legitimidade para um regime, sim, ditatorial de partido único, em que existe censura, em que visitantes estrangeiros devem ser acompanhados o tempo todo e só ver o que foi cuidadosamente preparado para verem, onde vigora o monopólio do poder decisório por uma casta social, em que o líder supremo emana um culto a própria personalidade e define unilateralmente os rumos da nação, tudo isto dentro de um estado operário deformado, em que há planificação da economia, mas nunca existiu democracia operária, nunca existiu planificação democrática do que se produzir pelos trabalhadores e em que esta casta usufrui de privilégios pagos com o trabalho das massas.

Jones faz uma confusão consciente entre o que é um Regime Político e o que é um Estado,
para, assim, coagir o leitor a um beco sem saída: Ou apoia os dois ou não apoia nenhum!

Esse tipo de manobra, essa sim, preguiçosa, no entanto, não é nova e daqui há alguns anos fará 100 anos.
E ela não tem outro nome que não seja Stalinismo, ou seja, uma maneira de pensar condescendente com as burocracias, que pensa o Estado em oposição e até “apesar” das massas, contanto que traga “conquistas sociais”.

Como uma boa visão stalinista, a máxima maquiavélica de “os fins justificam os meios” se aplica inteiramente. O problema é que, em se falando de marxismo revolucionário, há pelo menos 100 anos sabemos que existe uma profunda “interdependência entre os fins e meios”, ou seja, os fins e os meios não podem se contradizer, sob pena de degenerarem em qualquer coisa, menos em ação revolucionária.
Somos, sim, partidários de uma ditadura dos trabalhadores contra os burgueses sem nenhuma vergonha de dizer: uma ditadura de classe. Mas não somos, os marxistas, condescendentes com a degeneração desta quando usurpa o poder e a participação política da classe que deveria dirigir seu destino. Ainda vigora a máxima de Marx e não a de fidel: "A EMANCIPAÇÃO DOS TRABALHADORES SERÁ OBRA DOS PRÓPRIOS TRABALHADORES."

E é a isto que Jones se dobra quando nos coage a defesa do regime norte-coreano como se isto significasse defender as conquistas sociais.

É preciso sim, nos últimos estados operários do mundo, como Cuba e a Coréia do norte, defender todas as conquistas sociais, inclusive contra as burocracias que hoje dominam o poder político! Estas conquistas não são frutos das particularidades destes países ou da benevolência das burocracias, mas da resistência dos trabalhadores e camponeses que as arrancaram da burguesia e as impedem de desaparecer.
Por outro lado, elas são frutos, também, de uma economia planificada e socializada, ou seja, superior a anarquia da produção capitalista, que obriga as burocracias, como condição de sua existência, a manter uma condição de vida minimamente digna caso contrário podem cair.

Diante destes Estados, as reflexões não são novas. Já na década de 30, diante da profunda burocratização construída pelo Stalinismo (a ala burocrática que tomou o partido comunista russo) na URSS, Trotsky e milhares de revolucionários da Oposição de Esquerda se colocaram a refletir a política para tentar resolver a situação e avançar nas conquistas sociais e econômicas do socialismo.

Do ponto de vista político, propunham uma saída muito clara: As bases econômicas do socialismo deveriam ser mantidas a todo custo. O fim da propriedade privada e o surgimento da propriedade coletivizada dos meios de produção, o fim da anarquia da produção e da sede de lucro da burguesia, eram um avanço rumo ao socialismo.

No entanto, o monopólio do poder político e das decisões por uma casta burocrática e privilegiada, especializada em “gerir a escassez” não apenas impedia o desenvolvimento do socialismo, como impedia o desenvolvimento da revolução mundial e, assim, levariam a restauração capitalista, ou seja, os próprios burocratas tenderiam a se tornar burgueses, a tomar os meios de produção para si e voltar a explorar o povo trabalhador e as riquezas geradas por seu trabalho. Tudo o que, infelizmente, se confirmou ao longo do século 20.

A saída? Apenas uma revolução política, que derrubasse a burocracia e colocasse de pé uma verdadeira democracia operária, onde a administração, as decisões e planejamento da produção fossem feitas pelos trabalhadores produtores, ou seja, pelos conselhos (sovietes) revitalizados.

Isto, no entanto, só faria sentido se a nação encontrasse seu caminho para a revolução mundial: As forças produtivas (terras, fábricas, maquinário, matérias primas, força de trabalho) socializadas de nenhuma nação poderiam sobreviver isoladas e sob a pressão dos países capitalistas.
Somar estas forças produtivas com as de outras nações, através de revoluções que começam nacionais, mas se unificam, não apenas é a única via de obter a abundância necessária para construir o socialismo: é a única forma de derrotar o capitalismo e libertar a humanidade da exploração do homem pelo homem.

Ou seja, É preciso sim defender as conquistas e a qualidade de vida dos trabalhadores e camponeses. Mas isto não se confunde com a defesa de um regime burocrático, ditatorial, baseado na censura e no monopólio decisório.

Sobre isto, sobre o internacionalismo revolucionário, algo presente em todo o marxismo revolucionário desde Marx, mas longe das reflexões dos stalinistas, como se pode perceber, Jones não fala rigorosamente nada.

O capitalismo é mundial, logo, a revolução deve ser mundial.

Não é nenhuma surpresa que Jones, sendo do PCB, tenha este tipo de visão stalinista.
O que surpreende, no entanto, é que tais visões ressoem não apenas em militantes marxistas em geral, mas, inclusive, encontrem o silêncio condescendente de parceiros da dita “nova esquerda” como Sabrina Fernandes, Humberto Martins, a própria boitempo, etc, em pleno século 21.

O autor reclama da preguiça dos detratores do regime norte coreano.
Paradoxalmente, em pleno 2019, diante de uma economia capitalista em crise, nunca antes tão centralizada nas mãos dos monopólios, em que só no Brasil 6 bilionários concentram a mesma riqueza do que 100 milhões de pessoas, Jones acredita ser possível uma revolução socialista “de características especiais” e estritamente nacional e não tira nenhum balanço de TODAS as experiências revolucionárias do século vinte, além de um argumento, este sim, bastante preguiçoso:
Todo esse bloqueio do imperialismo gera deformações e certo nível de burocratização pouco agradável a alguém que defende uma democracia operária. Mas a prioridade quando o assunto é a Coreia Popular, é defender o país do imperialismo”

Agarrado a sua concepção stalinista, Jones segue usando as conquistas sociais do Estado Operário para coagir uma defesa do regime e lança a máxima de Fidel de que “Em uma fortaleza sitiada, toda dissidência é traição”, uma frase interessante para aqueles que, hoje, avançam a passos largos pra uma restauração capitalista das relações de produção em Cuba.

Que a história do único partido operário que chegou ao poder pela via da democracia operária (sovietes que organizavam trabalhadores), o partido Comunista da URSS, outrora partido bolchevique, tenha sido oposta a esta máxima, sendo um partido vivo, com agrupamentos e frações até 1921, nosso sagaz autor trata de esquecer.
Que a proibição de qualquer dissidência tenha se dado circunstancialmente em 21, num cenário de isolamento e guerra civil, mas com o objetivo de ser temporária e dar lugar a um “pluripartidarismo soviético” como defendiam Lênin, trotsky e tantos outros, apenas um detalhe.
Que inclusive a tomada do poder em 1917 tenha sido feita por dois partidos, os SR de esquerda (camponeses pobres) e os Bolcheviques, além de independentes, novamente vem o esquecimento... Que ajuda, é claro, sua máxima stalinista.

Certa vez, em 1919, em plena guerra civil na recém fundada URSS, um autor chamado Bukharin, que não pode ser acusado de Trotskysmo, escreveu junto de outro proeminente ccomunista, Preobrazhenky, um grande manual para ingressantes chamado “ABC do Comunismo”.

Neste manual, aceito e comemorado por todos os revolucionários da heroica geração que tomou o poder em 17, incluindo Lênin e Trotsky, seguindo a linha revolucionária construída desde Marx, afirmam a toda uma geração de novos membros do partido:
 A revolução comunista só poderá vencer se for uma revolução mundial. Se num país a classe operária toma conta do poder, mas nos outros, o proletariado permanece devotado ao capitalismo, esse país será finalmente estrangulado pelos Grandes Estados. De 1917 a 1919 todas as potências imperialistas tentaram estrangular a Rússia dos sovietes.(...)Não puderam porque sua situação interna era tal que deviam temer, elas também, ser derrubadas pelos seus próprios operários.(...) A ditadura proletária num país isolado está continuamente ameaçada se não encontra apoio entre os operários dos outros países. (...) Nesse país a organização econômica é muito difícil porque quase nada recebe do estrangeiro, está bloqueado de todos os lados

A política de bloqueios, invasões e sanções sempre foi a política de todas as nações capitalistas contra a revolução operária, desde a Comuna de paris até nossos dias. Nunca houve nem haverá uma revolução que possa “construir livremente” - como parece desejar Jones - o socialismo, justamente porque nunca existirá o burguês que abrirá mão da supremacia social sem luta.

Por outro lado, seja em Marx a partir de sua análise da tendência do capitalismo em centralizar e concentrar riquezas em poucas mãos, seja em Lênin em sua análise da partilha do mundo pelo imperialismo e do domínio da economia e dos estados pelos trustes e monopólios, contra os quais qualquer revolução teria de se chocar até a derrota total do capitalismo, seja em Trotsky com sua teoria da revolução permanente, em que professa:
- “A revolução socialista não pode realizar-se nos quadros nacionais. Uma das principais causas da crise da sociedade burguesa reside no fato de as forças produtivas por ela engendradas tenderem a ultrapassar os limites do Estado nacional. Daí as guerras imperialistas, de um lado, e a utopia dos Estados Unidos burgueses da Europa, de outro lado. A revolução socialista começa no terreno nacional, desenvolve-se na arena internacional e termina na arena mundial. Por isso mesmo, a revolução socialista se converte em revolução permanente, no sentido novo e mais amplo do termo: só termina com o triunfo definitivo da nova sociedade em todo o nosso planeta.”,
em qualquer um destes, fica evidente o distanciamento de de uma visão marxista pelo autor.

No entanto, longe de um lapso, tal falta mostra a real concepção de Jones.
Uma concepção stalinista, baseada na lógica de “socialismo num país só” e, portanto, nada marxista. Infelizmente, vemos que não tirou balanços dos processos históricos de todo o século 20.

Verdade seja dita, tais erros já receberam o veredito da história repetidas vezes: Seja na restauração do capitalismo na Rússia, na China, na antiga Iugoslávia, no Vietnã, etc.
Seja, também, nas dezenas de revoluções traídas por conta da teoria e prática stalinista, nomeadamente a revolução chinesa de 25 a 27(em que os stalinistas obrigavam trabalhadores comunistas a serem dirigidos pelo partido dos burgueses nacionais de Chiang Kai Chek que, para Jones, tal como Khadaffi, talvez recebesse aspas quando chamado de “ditador”) a ascensão de Hitler ao poder em 33 (já que o stalinismo se negava a frentes únicas e dizia que os social democratas eram “social-fascistas” iguais ou piores que os nazistas), a ditadura civil militar de 64 (quando o PCB se recusou a resistir ao golpe e erguer uma greve geral, armar os trabalhadores e dividir os setores que estavam rompendo no exército, levando a sua ruptura partidária e o surgimento da Guerrilha, além da ditadura), durante os cordões industriais chilenos, durante a revolução espanhola de 30 a 39 (quando os stalinistas condicionavam enviar comida e armas apenas se houvesse o fim da tomada de terras e de fábricas, assim como de dissolução das milícias dos trabalhadores), durante a primavera de praga e um longuíssimo etc...

A principal questão eleita pelo autor para o socialismo no século 20, a de construir uma democracia operária superior durante um estado de guerra permanente, não está equivocada. O problema é que ela já teve sua resposta. E ela não veio, sob nenhum ponto de vista, do stalinismo. Pelo contrário, foi a preocupação fundamental de todos os maiores pensadores do marxismo e está ligada a revolução mundial.

Vemos então que sua visão, apesar de aparentemente “bem intencionada” não apenas passa, de fato, por cima do fundamental, como leva ao crime político de confundir a defesa dos trabalhadores com a defesa dos burocratas que usam suas conquistas para manter seus privilégios.

Como diria o velho Marx “o caminho ao inferno está pavimentado de boas intenções”.  

Em política revolucionária, não é a comoção, mas as armas da crítica que nunca podem faltar a história. Desafortunadamente, não parece ser esta a preocupação do autor, vide este eleger como teoria guia de sua ação, aberta ou maquiada, o stalinismo, esta teoria da traição dos interesses dos trabalhadores.

Desse modo, vemos que a revolução da Coréia não segue firme em direção ao socialismo. Pelo contrário. Seguindo os passos de Jones ela pode até seguir firme...mas em direção a restauração do capitalismo.

 
1-
https://pt.wikipedia.org/wiki/Zona_econ%C3%B3mica_especial#Coreia_do_Norte
2 https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2016/02/1738314-seul-suspendera-operacoes-em-parque-industrial-com-a-coreia-do-norte.shtml

quarta-feira, 22 de maio de 2019

E agora...?


Estava só comendo um pastel.
Vez ou outra pego o metrô, sem muito destino, terminando sempre na mesma esquina, ora cheia, ora vazia, como que esperando a vida se manifestar.

Promoção. Nove e noventa um caldo de cana e um pastel.
Espero, enquanto, em um dos ouvidos, soa um rap qualquer, daqueles que já decorei até o timbre do hihat. No outro,  entra o corriqueiro "vai querer sua via?". Nego.
Mais uns minutos e a bomba de carne e massa frita com o refrigerante me são entregues. A coceira de sempre toma a atenção. O celular, como uma necessidade biológica, pede pra ser olhado.
Nada nas redes, nada de novo, apenas a mesma ânsia vazia.
Desço um degrau, miro uma mesa. No instante do movimento, um homem me observa e balança a cabeça em tom de cumprimento. Não sou tão carrancudo a ponto de ignorar.
Retribuo.

De fone de ouvido, o senhor me aborda na mesa, naco e pastel e gole de coca na garganta.
Engulo, puxo um lado do fone, como quem dá metade da atenção e o senhor começa a falar.

Edinei é um homem pra lá dos seus 60 anos. Calça jeans surrada, casaco de lã, cabelos brancos, olhos vidrados e expressão cansada. Na mão, uma sacola de plástico, daqueles verdes desbotados do mercado, cheia de alguma coisa.
Sua fala é rápida, decorada, cheia de informações.

Faz menos de um mês que uso óculos. Deve ser por isso que me abordou, já que, entre uma e outra rajada da propaganda de rua, ele me informa sobre o PH da água, como isso pode danificar as lentes, o estômago e, inclusive, prejudicar a visão. Água o mais alcalina possível é o ideal. Sardinha, pescado, alimentos que ajudam na melhoria da visão.
Em menos de 6 minutos já sei do que se trata. Tiro, por impulso e envolvimento, o outro fone.
Edinei está vendendo algo. Meu impulso de desempregado, claro, tenta esboçar reservas, mas ele continua.

Um gasto de energia grande somado a um acúmulo de informações, muitas delas muitos úteis sobre como conservar os óculos, melhorar a visão, mas ainda nada de me dizer o que ele está vendendo.

Me fala que veio de Ubatuba. Não tem nem 13 anos de contribuição, não se aposentou e tem, como era de se esperar, dois filhinhos pequenos. Não tomou café da manhã nem almoçou, só um salgado no estômago. Já são, afinal, seis da tarde. Ele deve estar mesmo com fome, seus olhos estão vidrados. Do outro lado, rappis, Uber eats, ifoods anônimos se amontoam numa esquina, eventualmente saindo disparados para alguma entrega.

Edinei, então, me fala sobre seu paninho.
Feito de fibra de carnaúba, vindo do Maranhão de caminhão numa viagem de quase dez dias, mais branco que papel, mais macio que algodão. Com cinco apertadas em cada lente e quinze movimentos circulares pra esquerda e direita seu óculos está e fica limpo, salvo eventuais acidentes, pelo dia todo. Nada de roupa, dedo ou detergente pra limpar.

Há algo de mágico na explicação dele. Mágico, metódico e sistemático. Ele se apegou ao que faz com muita gana, criando uma narrativa que instiga e não
dá sequer brechas pra você pensar, afinal, é a forma que encontrou pra sobreviver. Precisa bombardear o interlocutor com informações,  dados, vantagens que, caso adquira, podem ser suas e garantir seus 20 reais, sendo que, destes, ele lucra apenas 7 ou 8. De que outro modo um ambulante, com mais de 60 anos, conseguiria a atenção e o tempo de alguém pra sobreviver na cidade do efêmero?

Decido comprar. Uma nota de dez dou em espécie e o resto passo no cartão.
Sim! Edinei não tem mochila, mas de alguma forma  de dentro da sacola esverdeada lotada de panos e garrafinhas d'água, ele tira uma maquininha. Cada um faz o que pode....

Agradeço o pano e ele me dá a dica final: Se eu dividir o pano em 12 pedaços iguais e lavá-lo uma vez por ano em água filtrada, sem cloro, eles podem durar por 10, 20 ou até 30 anos. É a salvação das minhas lentes, coisa que a obsolescência programada de tudo no capitalismo jamais me proporcionou.

Pergunto seu nome, desejo boa sorte e ele me agradece dizendo que com os dez em dinheiro, ao menos, ele poderá levar um pão pra casa dele.
A desconfiança que qualquer paulistano pode ter, deixando o cartão numa maquininha de ambulante se esvazia quando vejo seu rosto ao se despedir.

Um sorriso de boca fechada, como quem reverencia com os olhos, uma caminhada para a esquina, uma olhada para um lado, para o outro, alguns segundos fixos olhando os entregadores, a franzida na testa como que se questionando "e agora?" e não vejo mais Edinei.

Uso o pano e não é que essa porra é incrível mesmo? Óculos limpo, visão menos turva, coração mais inquieto.
Quantos "e agora" surgem de quantos Edineis na terra da "ambulância" brasileira....?