segunda-feira, 25 de junho de 2018

Demitidos de 2014 no metrô são readmitidos: Ninguém fica pra trás?

Neste dia 20 de junho, após 4 anos de sua demissão política, 37 metroviários demitidos durante a greve de 2014 em SP foram, enfim, reintegrados. O caso, após 4 anos de lentidão entre a primeira e segunda instâncias da Justiça, tão rápida para julgar casos de reintegração de posse contra trabalhadores em busca de moradia ou jovens negros, mesmo quando condenados por portar pinho sol, como Rafael Braga, se fechou com a comprovação de que as acusações eram infundadas e, assim, as demissões ilegais.

Todos se lembram de Alckmin em rede nacional anunciando dezenas de demissões no Metrô como resposta a greve da categoria que ocorria às portas da Copa do Mundo no Brasil.
Que Alckmin tenha usado de terrorismo político para acabar com uma greve legítima, garantida constitucionalmente e com apoio popular, denotando o caráter persecutório e, portanto, ilegal das demissões, pouco pareceu importar a esta justiça. Igualmente pouco parece importar que tenhamos o “legado” de uma das Copas mais corruptas da História, com denúncias de propina, compra de resultados e obras que após 4 anos ainda não foram completadas.
A justiça, como sempre, está do lado dos patrões. Ainda assim, é uma importante vitória parcial que 37 metroviários da linha de frente desta greve possam voltar a obter seu sustento ilegalmente arrancado e somar suas forças a luta, hoje em dia mais aguda ainda, contra a privatização e entrega do Metrô para grandes empresas ligadas ao PSDB.
O Papel do Metrô e a estratégia das organizações contra as demissões
O metrô de SP é uma empresa estratégica. Alckmin sabia, assim como todos os governos sabem, que seu potencial de “contagiar” mobilizações populares é enorme. A histórica greve geral ocorrida no dia 28 de Abril de 2017 demonstrou que o papel dos metroviários foi fundamental parando as vias de transporte e possibilitando outros milhões a aderirem ou a pressionarem seus sindicatos. Este papel só não foi maior graças as traições da burocracia sindical de PT e PCdoB, que impediram todas as demais tentativas de eclodir uma greve geral, no metrô e fora dele.
Seu papel econômico segue, no entanto, crucial, sendo capaz de dificultar decisivamente a própria “circulação” e produção capitalistas numa cidade central como São Paulo.
Contraditoriamente, vemos as ações das atuais organizações atuantes no movimento sindical do Metrô. Se de início ainda existiam setores de militantes independentes e também algumas organizações, como o atual MRT, que apontavam como saída para a reversão das demissões a continuidade da luta (seja durante a greve defendendo sua continuidade, apostando que Alckmin recuaria e reverteria as demissões, seja após, mostrando os limites de uma ação apenas jurídica), depois destes 4 anos, a ação de todos os grupos da categoria passou a de considerar esta luta como “perdida” e o que “dava” era seguir na estratégia jurídica.
PSTU e PSOL, a frente do sindicato naquele momento, desde o início embarcaram nesta linha de braços dados, apostando apenas na justiça, pois “não dava pra lutar”; as demais correntes, pouco a pouco, foram se adaptando a este marasmo e os independentes, com cada vezes menos espaço na estrutura sindical fechada, com assembléias sem praticamente nenhum espaço para suas propostas, viram o processo andar vagarosamente.
É verdade que decisões à época foram corretas. A decisão de aprovar em assembléia uma ajuda financeira para os 37, como forma de garantia de seu sustento enquanto se lutava pelo retorno, é uma delas.
O resultado desta, no entanto, se tornou contraditório na medida em que a luta, durante e depois da greve se apoiava, exclusivamente, numa ação jurídica, distanciada da base, do chão das estações e pátios.
Vez ou outra atos pequenos, mal organizados pelo sindicato, distantes da realidade cotidiana das bases (uma das reclamações mais comuns entre os metroviários) eram chamados, mas serviam muito mais como lembrete e “desencargo de consciência” do que como ferramentas reais de pressão sob o metrô.
Esta é a realidade que explica que, mesmo após perder em 2 instâncias na Justiça a diretoria do Metrô e o Governo só tenham aceitado acatar a decisão judicial quando perceberam que desrespeitá-la iria incorrer em mais custos.
Se apressaram, então, a propor um acordo que reintegrasse os demitidos, mas que, dentre outros problemas, tivesse como condição que estes, ao assinar, não poderiam processar a empresa por danos morais. Sem entrar no mérito de se o acordo era o melhor a se aceitar ou não, foram definitivamente reintegrados.
Entretanto esta adaptação total de todas as correntes ditas de esquerda e revolucionárias a uma ação exclusivamente na Justiça, que, como vemos todos os dias, é o terreno do inimigo e não julga casos de trabalhadores de forma justa, deixou importantes contradições.

Com o tempo passando, setores como PCdoB e PT, aproveitando-se do distanciamento desse tema da base e a inexistência de mobilização pela readmissão, passaram a tentar reverter o caso politicamente a seu favor.
Num famigerado áudio que circulou por whatsapp e na internet, um dirigente do PCdoB, chefe no metrô e diretor do sindicato – Godoy- dizia aos berros para seus colegas que “ia acabar a mamata” e que eles iriam para as bases pra cortar a ajuda destes demitidos, os quais “até podiam voltar, mas o metrô iria demitir de novo e eles iam ver a dor da perda outra vez”. Praticamente um plano para cortar o sustento e entregar a cabeça dos 37 numa bandeja para o metrô.
O argumento era simples, mentiroso e reacionário: a ajuda de custo era dada para militantes que usavam para seus partidos e eles iam “acabar com a mamata” impondo na diretoria o corte dos salários.
Felizmente, a reintegração veio antes. E a verdade era, também, bem evidente. Se apoiando na falta de clareza da base sob a condição dos demitidos e na desmobilização total da categoria, o PCdoB e PT tentavam aparecer como os “ honestos e melhores candidatos” a assumir a diretoria (tanto é que hoje são quase majoritários) e, de quebra, retaliavam os demais membros pertencentes aos outros partidos por não terem aceitado pagar o salário para um militante seu –Maruzan, demitido por uma ocorrência – SEM ter votado isto em nenhuma assembléia. Uma ação de canalhas milimetricamente pensada. Tanto os salários foram fundamentais para garantir os sustentos de 37 famílias, quanto não eram apenas militantes demitidos.
Privatização e 80 (ou mais) novas demissões; mesmos erros
Apesar de perder espaço para a burocracia sindical que diretamente traí dentro e fora do metrô e de amargar 4 anos de um embate com a justiça e o metrô pelo retorno de trabalhadores perseguidos, a esquerda parece não ter apreendido. Ou melhor: Não quer aprender.
Para chegar a esta conclusão não basta lembrar que nenhum partido hoje organizado no metrô denunciou o PCdoB ou exigiu que Godoy fosse expulso do sindicato pelo áudio a que nos referimos acima. Ou que o abandono de qualquer estratégia política e de ação (mobilização, continuidade ou eclosão da greve, construção na base desta perspectiva) lá atrás e em todos estes anos foi um dos responsáveis pela confusão da categoria em relação as demissões, pela incerteza de todos estes anos e pela absurda demora da reintegração.
Tampouco, basta lembrar que este “todo” é um dos responsáveis pelo retorno do PCdoB e seus métodos de gangsters pró-patrão ao sindicato. De 2017 para cá, o Governo tem buscado acelerar seu projeto de privatização. A linha 5 do capão redondo já está praticamente nas mãos de empresas privadas, diversas linhas da CPTM foram anunciadas como concessões e novas linhas do metrô também. Dentro da empresa pública, o patrimônio também é corroído: Máquinas de bilhetes, privatização de bilheterias na linha 2 Verde e ameaça de fazer o mesmo nas linhas 1 e 3 vermelha.
Esta ofensiva, naturalmente, não poderia vir sem ataques contra o que os patrões acham que são obstáculos: os empregados públicos. Sejam eles “excesso” de recurso humano, sejam eles ativistas, cipistas, militantes, todos estes são alvos da empresa.
Assim, neste cenário, a partir de 2017 o metrô começou uma nova onda de demissões que, até hoje, seguem ocorrendo nas estações, segurança e manutenção.
Utilizando uma avaliação de desempenho fraudulenta, realizada pelas costas dos trabalhadores, sem nenhuma transparência, por chefes indicados politicamente pela diretoria da empresa do metrô (cargos de confiança e não de carreira) a empresa já demitiu cerca de 80 metroviários.
Não se espante se você não ouviu falar sobre isto. Nenhuma organização ou o sindicato falam disto. No congresso de metroviários ocorrido em fevereiro, nas atuais campanhas salariais e depois dela nada se falou sobre estas demissões. Apesar de uma quantidade enorme, a estratégia de todas estas correntes segue sendo a mesma (e piorada): dizem que a “conjuntura está difícil” e enviam os que quiserem tentar voltar para o jurídico, enquanto sequer denunciam as demissões publicamente.

Não se trata aqui de desqualificar a iniciativa de ações judiciais. Todas as armas, na luta de classes são boas. Entretanto não apenas é gritante o completo abandono de 80 metroviários demitidos de forma fraudulenta, em uma empresa que nunca realizou demissões por avaliações, como é ensurdecedor o silêncio de todas as organizações ( PSTU, MRT, RESISTÊNCIA/PSOL, MÊS/PSOL, CST, UNIDOS PRA LUTAR, PT, PCdoB, etc).
Para os militantes trabalhadores classistas e os revolucionários, as ações jurídicas podem e devem ser utilizadas, mas sempre de forma acessória ao combate, auxiliando a ação na luta de classes com mobilizações, conscientização na base, greves, paralisações, atos, ações que efetivamente pressionam e demonstram a insatisfação coletiva da classe.
A esquerda atual, no entanto, apaga um princípio, a defesa dos que lutam, talvez por ceticismo, talvez por não querer se indispor com setores da base, talvez para manter seus cargos sindicais…
As lições, entretanto, ficam. Segue sendo crucial por de pé uma luta para que, realmente, “ninguém fique pra trás” e que o metrô seja pressionado a reverter todas as demissões ilegais e fraudulentas realizadas de 2017 para cá, baseadas numa avaliação falsa e com objetivos políticos.
Um chamado às organizações para que tomem esta tarefa está feito, apesar de improvável que se cumpra.
Enquanto isto os panfletos entregues para a população e os adesivos entregues para a categoria seguem dizendo: “Contra a privatização, por mais direitos”. Alguns demitidos, pensamos: “Quem vai lutar com vocês, quando souber que vocês não vão lutar por eles?”
O que fazer para que de fato ninguém fique pra traz?
Militantes sinceros de algumas correntes criticadas nesse artigo poderiam buscar nos responder: “a crítica dos companheiros pode até ser sincera, legítima, mas é irrealista, pois não considera o fato de que hoje não existe mobilização na base, que não é possível construir lutas efetivas contra as novas (mais de 80) demissões, e que então o único caminho é efetivamente o jurídico, etc,”; esse argumento, caso existisse, seria ingênuo, na boca dos mais sinceros e hipócrita, na dos mais conscientes. Seu erro está baseado em dois pressupostos equivocados: 1- de que a atual descrença da base da categoria na mobilização é um fato dado, exterior a atuação anterior das correntes, quando na verdade essa descrença relativa foi construída pela atuação política destes grupos que ali atuam, as direções tendo grande responsabilidade nessa passividade relativa (mesmo as que se reivindicam mais à esquerda e críticas a atual direção do sindicato); 2-que dada a atual descrença e passividade da base com as ações mais radicalizadas, o papel das direções que se reivindicam revolucionárias é se adaptar a esse sentimento da base e não se chocar com ele.
Os debates particulares numa categoria tão fundamental para uma estratégia revolucionária no Brasil, como é a categoria de metroviários de SP, transcendem as questões imediatas da categoria para ganharem aspectos mais gerais, sobre como devem atuar os revolucionários no movimento sindical. Frente a uma situação assim, de passividade da base frente a grandes ataques (admitindo momentaneamente que essa passividade é algo objetivo e exterior a atuação dos grupos que se reivindicam revolucionários que estão na categoria, para sermos condescendentes com eles por um momento) qual deveria ser o papel de uma direção classista e combativa que estivesse nessa categoria, se adaptar ou nadar contra a corrente?
Colocar a questão é já respondê-la, na verdade. É evidente que podem haver momentos em que as bases, desmoralizadas e derrotadas por direções burocráticas, não respondam e se comportem de forma passiva em relação a grandes ataques, como os que vemos agora com as mais de 80 demissões no metro no último ano.
Contudo, uma direção que se coloque como revolucionária não deve, evidentemente, se adaptar a esse sentimento na categoria. Se não encontra eco para sua política entre os trabalhadores, nada contra a corrente, permanece em minoria, buscando educar o setor mais ativo e consciente, visando fortalecê-lo e lhe dando coesão, para os conflitos futuros. Qualquer outra posição aparece como uma adaptação em busca de cargos sindicais e não a busca para construir um setor revolucionário entre os metroviários.
A importante vitória tática da readmissão por via judicial dos 37 demitidos na greve de 2014, assim, pode se tornar uma vitória de “Pirro”. A vitória tática aqui é fator importante dentro de uma estratégia de expansão da luta contra a privatização do metrô se ela é elemento para fortalecer a luta contra todos os ataques e demissões, mostrando que efetivamente “ninguém fica pra trás”./
No entanto, se a readmissão é forma de esconder os ataques e as novas demissões, ela é tática da direção do metrô para esconder os novos ataques (mais profundos) permitindo vitórias parciais da categoria. Infelizmente, parece que todas as correntes, grupos e partidos dentro do metrô se adaptam a segunda alternativa.

domingo, 17 de janeiro de 2016

“The walking dead”: série de terror ou reflexão sociológica?

Dentre as mais arrebatadoras séries do momento, “The Walking dead” (e a série especial “Fear the walking dead”), baseada na bem sucedida série em quadrinhos, conta a história de um grupo de sobreviventes em meio a um “apocalipse zumbi”.
Este grupo, sob a liderança do ex-sheriff Rick Grimes conta com personagens marcantes como jovem negra Michone, com sua espada samurai, e Daryl, um “caipira” do sul dos EUA. Ela se passa em um mundo que literalmente “acabou” diante de uma epidemia que transforma seres humanos, caso mordidos pelos “walkers”(zumbis), em mortos vivos e que reanima qualquer um que morra.

Na série, Rick acorda de um coma sofrido após uma operação policial em um hospital da cidade de Atlanta e dá de cara com uma verdadeira hecatombe: Enormes multidões de seres humanos decompostos, esmagados e destroçados em busca de qualquer fonte de carne, animal ou humana, para alimentar a fome insaciável que surge de seu despertar. Estes mortos-vivos são a “ameaça total” logo percebida por Rick que, ao longo da série, encontra familiares e novos companheiros caminhando por uma longa jornada de sobrevivência.

Até ai tudo indicaria um roteiro batido de Hollywood, capaz de tirar alguns sustos e muito entretenimento lucrativo para os grandes estúdios. Isto, é claro, não deixa de ser parte de seus objetivos principais, no entanto, a série vai muito além e provoca intencionalmente ou não uma interessante reflexão.

Uma das principais características das duas séries, explorada com habilidade pelos roteiristas e diretores e expressa com credibilidade pelos atores e atrizes, é o processo de embrutecimento dos personagens ao longo dos episódios e temporadas.

Estamos falando de um mundo onde as regras civilizatórias não cabem mais.
Neste mundo, todo e qualquer tipo de instituição, seja política, econômica ou até mesmo moral, foi ou completamente destroçada ou abalada decisivamente, pela rápida expansão dos zumbis. Milhões e milhões deles, contaminando novas pessoas e milhões de mortos retornando a vida destroçaram as bases da civilização e fizeram o governo estabelecido literalmente ruir por dentro, diante da incapacidade de parar a velocidade epidêmica.

Os episódios mostram indivíduos, anteriormente em uma vida confortável com acesso a serviços, água, energia elétrica, remédios e alimentos entrarem em choque diante da completa suspensão da civilização, tendo de conviver com um mundo de escassez (graças ao abandono de qualquer operação de energia elétrica, água, produção de alimentos massiva), brutal violência (diante da necessidade de se proteger da violência irrefreável da ameaça zumbi) e completa insegurança (seja diante dos zumbis ou dos, muito mais perigosos, vivos sobreviventes). É interessante como de “falantes personagens” os diálogos se escasseiam e chegam a por vezes grunhidos após 2 anos do apocalipse (tempo em que se passa a série principal).

Aqui se torna interessante a reflexão que suscita ao redor do “humano”.
Neste mundo, os mortos, apesar de serem a “ameaça total”, ou seja, aquela com que já se conta e impõe as regras de restrição de como se pode viver, não são os mais perigosos.  Na série, diante da queda do Estado, da Lei e da ameaça de uma força social e regras organizadas capazes de obrigarem os indivíduos a seguirem comportamentos e ações “socialmente aceitos”, os vivos são a ameaça mais perigosa.

Roubos, estupros e assassinatos, são ingredientes da trama, incitando a reflexão a quem assiste: “Então, em condições naturais e na ausência do Estado, seria o homem... naturalmente mau?”.

Tal questão, já formulada e apontada por filósofos como Thommas Hobbes é fruto de debates interessantíssimos na filosofia e sociologia, encontrando diversas respostas.

O marxismo, de onde tiramos nossa visão de mundo, mostrará que o homem é produto de suas condições sociais, materiais e históricas que são, por sua vez, em “ultima instância”, determinadas economicamente. A sua condição “material”, ou seja, a capacidade de produzir alimentos, construir suas moradia , em suma, de transformar a natureza em seu favor, determina os tipos de comportamento e visões de mundo que este ser humano, ou melhor, este grupo de humanos em sociedade e lozalizado na história, irá estabelecer.

Para Hobbes, o ser humano seria essencialmente mal. Para ele o homem não sabe e não quer viver em sociedade e a única forma que se encontrou para não se levar, como espécie, a “auto-extinção”, foi um “acordo” social em que se troca a liberdade pela segurança materializada na figura do Estado.
Este Estado seria o “Leviatã”, título de sua obra, que viria, materializando a idéia da ação coletiva em respeito ao acordo social, para punir os humanos que desrespeitassem as regras.

Apesar da série apontar, a primeira vista, para uma idéia “hobbesiana” do ser humano, a interpretação marxista tanto do homem quanto do Estado (como sendo nada mais  do que um “corpo de homens armados” que surge, necessariamente, da divisão social do trabalho) se expressa com mais força.

Na série o homem não é apresentado como essencialmente mal. Numa sociedade em que domina a escassez, estabelece-se uma espécie de “comunismo primitivo” (com todos compartilhando os poucos recursos, igualmente, sem distinção de classe e privilégios) em que o Estado deixa de existir e os sobreviventes se organizam em bandos os quais, por melhor que seja a ordem que possam impor, são apenas isto: um bando onde todos exercem as mesmas funções e se revezam no desempenho das tarefas.
Esta é a característica da maioria dos grupos e comunidades menores de “Walking dead”, que, no entanto, avançam para comunidades mais complexas, em que se desenvolvem certa divisão do trabalho, especialização de funções e até moeda para compra de produtos e serviços.

Mas em geral,  se dá um cenário de barbárie e que a condição material destes indivíduos isolados os leva a uma guerra sem fim contra a “ameaça total”, a uma coleta diária, “dia após dia”, de alimentos e água e a disputa freqüente e mortal entre os vivos sobreviventes pelos recursos e ruínas da civilização que caiu.

De maneira crua e quase caricaturesca, vemos como a economia, na visão exposta, determina as formas de lidar com a realidade e o relacionamento entre os vivos, embora os elementos culturais e ideológicos vez ou outra se mostrem (como arrependimentos, medos, hesitações e recusa de alguns personagens a matar) como espasmos de uma civilização que já se perdeu.

É aqui que se expressa o grande sentido de “walking dead” como uma série muito mais interessante do que um simples blockbuster de terror.

Nela o que está em foco é o debate  sobre o ser humano, um ser social, diante da barbárie. Qual a forma de organização social e econômica é necessária e desejável para a garantia de sua perpetuação enquanto espécie?

Esta pergunta estala em nossas mentes ao fim de cada novo episódio ou revista em quadrinhos. Seria uma democracia em que os líderes são eleitos? Ou uma ditadura em que este controla os homens barbarizados com mão de ferro? Ou um reinado, de um “novo” tipo de monarca, bondoso e admirado?  Ou ainda um regime de igualdade, produção coletiva e rotatividade de funções com líderes eleitos e planos coletivamente elaborados?

De fato, todos estes “tipos” se apresentam e são discutidos ao longo da série, nos dando uma riqueza de elementos para refletir não apenas esta improvável situação, mas para pensar situações já existentes.

Guerras e epidemias mortais quase incontroláveis (como as pestes negra e bulbônicas em seu tempo ou o Ebola recentemente) colocam, igualmente, em questão todas estas questões: Diante destas “ameaças totais”, que desorganizam a sociedade, impõe a doença, a morte e a fome, quais as formas sociais e a organização social seriam a melhor saída para garantir a segurança dos que sobrevivem?

É claro, em nossa sociedade, em que existem os privilégios de classe abundantes dos capitalistas e burgueses, mesmo diante de guerras e epidemias, são muito concretos e propiciam saídas enormemente mais eficazes.

Diferentemente de Walking dead, em que as classes desaparecem, nestas crises globais advindas das guerras e epidemias, os que viram “zumbis”, ou seja, aqueles a quem o destino já reservou a morte, são, em geral, os pobres e trabalhadores, explorados.

Longe de definir a série como produto sociológico e, menos ainda, marxista, é interessante refletir a partir dela 
(e esta preocupação certamente esteve na mente dos autores) os debates que tomaram a preocupação de filósofos há séculos e que ocupam a mente de milhões que pensam se é possível transformação de uma sociedade ameaçada por tantas “ameaças totais”.

Da forma como vemos, nossa “ameaça total” são os grandes magnatas capitalistas e sua tão sedenta quanto a fome dos zumbis, sede de lucro, que levam a todos nós, trabalhadores ainda vivos a um beco sem saída: Socialismo ou a barbárie selvagem.

sábado, 12 de dezembro de 2015

Carta à esquerda: Porque não uma nova organização dos trabalhadores?




A “tempestade perfeita” continua.
As condições da economia, do regime político, das instituições, partidos e políticos, o padrão de vida e dos empregos tem se degenerado cada vez mais  com o turbilhão de acontecimentos que lançaram o país no olho de um furacão cujos ventos mais fortes podem ainda estar por vir.

Com fissuras mais visíveis entre suas frações diante da aventura pelo impeachment, a classe dominante burguesa continua, no entanto, unificada ao redor do ajuste fiscal, desferindo um ataque “de classe” contra a juventude, os trabalhadores e o povo pobre.

Do outro lado, a crise tem sido paga com cortes de direitos, demissões e “reformas” que cobram na carne do trabalhador o preço para manter os lucros capitalistas estáveis.
A esquerda segue fragmentada continua fundamentalmente impotente, sem conseguir barrar este “ataque de classe”  com uma “resposta da classe operária” contra a ofensiva burguesa.

Diante disto, se coloca a questão: como construir uma saída dos trabalhadores?

A situação atual se desenvolve mais rapidamente do que a esquerda

É necessário, para se orientar, que tenhamos um método científico. Este, para nós marxistas, é o materialismo dialético e parte da relação combinada, entre a situação objetiva (a situação da economia, as condições materiais das classes sociais e suas relações mútuas) e subjetiva (como a política dos partidos dos trabalhadores, as crises políticas do regime, as greves, ocupações, lutas, o “estado de ânimo” das massas e como julgam as instituições, etc).

Hoje, no Brasil, a situação objetiva, da economia, é gravíssima. O recuo recorde de 4,5% do PIB, ), é expressão da queda das exportações dos gêneros primários, queda da produção industrial, más safras e seca, com o Dólar Alto encarecendo produção interna e compra de produtos com componentes importados, grande parte das famílias brasileiras endividadas, etc. Tudo isto é alavancado pela desaceleração da China (principal parceiro comercial e que compra commoditties do Brasil), a queda do preço do petróleo afetando a PetroBrás, a crise inflacionária e produtiva na Argentina, tudo apontando a um ciclo de queda e “retração” econômica que nem os analistas burgueses sabem prever até quando pode durar.

Os setores empresariais, banqueiros e “financeiros” respondem de uma forma: com unificação.
 Assim, pressionam um governo debilitado do PT e unificam todas as alas e partidos, apesar da crise política, a impor um duro corte de direitos, gastos sociais, demissões (que este ano tem sido em média 10 mil por mês) para manter seus lucros. É por isto que em meio a crise se paga religiosamente 42% do orçamento para a dívida pública (cujos donos são uma minoria de banqueiros e fundos estrangeiros) e os bancos privados como Itaú e Bradesco lucram recordes.

A crise econômica e a ação dos capitalistas corroem o padrão de vida do trabalhador, e encontram seu par perfeito na  profunda crise política. O escândalo do caso “Lava Jato” envolvendo todos os partidos tradicionais (PSDB, PSD, PP, PMDB, PT) se aprofunda cada dia mais e decompõe a legitimidade dos políticos, seus partidos e, inclusive, de instituições. É generalizado o sentimento de desencanto e indignação com a política.

Se, no entanto, o grito de “são todos ladrões” é hegemônico, quem mais perdeu neste escândalo foi o PT: além de ver uma enxurrada de votos “anti-PT” em 2014, o que quase o tirou da presidência e diminuiu suas bancadas,  está agora no centro da trama do Impeachment. Suas rupturas, formais e “informais” (na consciência de trabalhadores que o consideravam “menos pior”) são cada vez mais claras.

Este é apenas um lado deste processo de “crise de legitimidade” da política. Outra expressão, que provavelmente voltará com força em 2016, é o enorme número de votos nulos e abstenções nas últimas eleições. No Rio de Janeiro, estes foram maiores do que a quantidade de votos do governador eleito. Tal fenômeno é expressão desta crise de “legitimidade” e aponta para a crise de “representação” do povo.

Neste cenário, a esquerda legal, como PSOL, PCO, PCB e PSTU, além da esquerda, não legalizada (como MRT, MNN, etc), apesar do resultado pontual de Luciana genro, tem encontrado ínfima expressividade eleitoral e social.

No terreno da “luta de classes” (que não é nosso foco detalhar aqui) a esquerda tem se polarizado: por um lado uma posição “propagandista”, com propostas e “bandeiras” gerais pouco aplicáveis e dificuldades para dar “exemplos” sindicais que possam se generalizar e, por outro, em que está PSOL, que tem se atrelado cada vez mais a política governista, o que fará com que não seja nenhuma alternativa para massas e se atrelem cada vez mais ao regime.

A novidade da luta de classes veio de casos como a luta dos estudantes secundaristas que neste fim de ano tomaram as escolas derrotando o “feudo” do PSDB em São Paulo e a luta dos professores no Sudeste que, no entanto, foram exemplos muito “espalhados” e que não tem representado uma ação unificada contra a crise. 

É tempo de “ação política”


Esta crise gravíssima acelera o “ritmo” da luta de classes.
 A cada dia que passa, a burguesia ataca os trabalhadores não mais como “frações”.Não é mais o Bradesco (apenas) atacando seus bancários, a Ford demitindo seus metalúrgicos, a SEARA demitindo seus operários, etc. A classe dominante busca unificar esforços para que não seja ela que pague pela crise e usa o Estado para isto.

Os sindicatos, em sua maioria infestados pela praga da burocracia sindical que vende greves e negocia traições (como se demonstrou no caso recente da barganha entre Força sindical e a empresa UTC), estão diante de um momento de defensiva.
Não apenas podem perder membros como, graças aos acordos entre burocratas e patrões, vão perder a efetividade para responder a tarefas cada vez maiores (luta contra legislações que prejudiquem os trabalhadores, milhares de demissões, redução de salários, etc).

A crise de legitimidade e de representatividade, que também atinge os sindicatos, abre um espaço político (e eleitoral) que poderá ser preenchido por uma futura reorganização sindical e política. É de olho neste espaço que a REDE de Marina tenta ser “alternativa de centro esquerda” e diversos setores burgueses planejam a formação de novos partidos.

A reorganização é uma possibilidade já observável no horizonte próximo, na medida em que há a aguda crise de representatividade e a decadência da legitimidade da política tradicional, além de rupturas cada vez maiores com o PT, o maior “freio” das últimas décadas.

Esta situação exige uma “ação política”, que é a generalização da ação econômica, de “classe trabalhadora contra classe burguesa”, por parte dos sindicatos e dos trabalhadores.
Estes serão cada vez mais empurrados a “ação política”, que se aponta cada vez mais não contra “setores” específicos da burguesia, mas contra toda a classe dominante organizada no Estado.

O que isto significa? Que a cada dia que passa se coloca mais a necessidade de que os trabalhadores tenham uma ferramenta política unificada e que seus sindicatos, em ligação com esta, tenham uma ação unificada e “de classe” contra a unidade burguesa.
Em duas frases: está na ordem do dia lutar por um partido sem patrões e sindicatos sem burocratas.

 Não se pode esperar que o ritmo de evolução das organizações da esquerda seja tão rápido quanto o da situação de crise. Não será. É um fato objetivo que não podemos mudar.

No entanto, por pequena que seja a esquerda e poucos que sejam os ativistas independentes, diante de um processo de reorganização estes podem ser uma poderosa “vanguarda” capaz de influenciá-lo.

Uma nova organização de trabalhadores, aberta a todas as tendências da esquerda, que tenha em seus estatutos a obrigatoriedade de ser formado por trabalhadores que não explorem o trabalho de outros (cujos detalhes “sociológicos” poderíamos observar), enraizada principalmente nos locais de trabalho, mas também de estudo, universidades, etc, responde a uma necessidade objetiva da situação do Brasil.

Trotsky, ao abordar o tema da formação deste tipo de partido (que ele chamava de “Partido Operário Independente) nos EUA na década de 30, dizia que “esta necessidade objetiva encontrará sua expressão subjetiva nas cabeças dos operários, especialmente se nós os ajudamos”. Hoje, também, não se trata de esperar algum “fato” surgir, mas de agir audazmente para construir tal perspectiva, ajudando a classe.

Além disto: “agitar” a idéia deste “partido sem patrões” seria formidável para, ao mesmo tempo, a esquerda varrer dos sindicatos as burocracias sindicais, lutando pela bandeira de “sindicatos sem burocratas” e criando uma ponte para que o projeto revolucionário chegue a setores mais amplos da classe.

É claro, nesta formulação, setores reformistas, carreiristas, oportunistas e mesmo infiltrados teriam chance de entrar para tomar as rédeas do processo.

Ainda assim, o caráter deste partido, assim como a validade desta idéia, só se pode comprovar na prática. Desde o início, no entanto, nós revolucionários deveríamos defendê-lo em combinação inseparável com um programa revolucionário (em minha opinião estatização dos recursos estratégicos, bancos e grandes empresas, reajuste salarial de acordo com a inflação, divisão das horas de trabalho entre todos os desempregados, enfim o que chamamos de “ programa transitório” apresentado pelos trotskystas) que apresentaríamos diante dos trabalhadores; estes, então, diante dos demais programas, decidirão por que caminho seguir.

Não há motivos para sermos céticos. Uma proposta de tamanha audácia, caso se implemente pela ação decidida da esquerda unificada, criaria condições férteis para as propostas revolucionárias e poderiam encontrar um caminho mais curto para a formar a futura organização revolucionária necessária para os trabalhadores arrancarem o poder das mãos da burguesia.

Uma onda de entusiasmo se levantaria! Toda a energia de desprezo pela suja política tradicional encontraria uma válvula de escape positiva. Os revolucionários, além de ajudar a construir uma arma necessária contra a unificação burguesa, teríamos a chance de encontrar nossa classe em luta a lutar para demonstrar a superioridade de nossas propostas.

A esquerda não pode se esquivar da questão fundamental

Há  na esquerda diferentes visões sobre como responder a crise, sobretudo após a abertura do processo do impeachment.

O PSOL, apesar de posicionamentos de tendências internas que, como o PCB defendem a abstrata “luta independente por direitos”, fala da luta contra ajustes mas, na prática, está numa frente política chamada “Povo sem medo” com a CUT, CTB e setores governistas.
O objetivo desta é dar apoio “crítico” ao governo Dilma contra o impeachment, ou seja, no momento de maior crise do PT, a organização que dizia ser uma “alternativa” na prática opta por se tornar uma muleta, uma linha auxiliar, criando ilusão neste governo repressor como “menos pior”.

O PSTU, por outro lado, “agita”, por um lado, a idéia de erguer uma Greve geral contra os cortes num tom “propagandista”, ou seja, distante de qualquer chance de ocorrer devido as burocracias sindicais e, por outro, a idéia de “eleições gerais” para que, em suas palavras “o povo possa trocar todo mundo, se quiser. O que não dá para aceitar é que qualquer um desses que estão aí hoje governem”.

Já o MRT (Movimento revolucionário de trabalhadores), defende a idéia de que a bandeira mais “correta” é a de uma “Assembléia constituinte” imposta pela “ação das massas” que discuta todos os problemas do país e reformule sua estrutura de cima a baixo.

O que todas estas posições tem em comum? Elas se esquivam do problema fundamental que é o fato objetivo de a classe não ter uma organização política “com autoridade” para resistir a esta ofensiva burguesa.

Ora, a greve geral é o momento em que os interesses particulares das categorias se “elevam” e atingem o patamar da luta pelo interesse de toda a classe. Sem uma articulação política e sindical que tenha autoridade reconhecida pelos trabalhadores, isto é uma bandeira vazia.
O mesmo vale para eleições gerais: não tem qualquer significado, pois estes que aí governam são apenas a “cara atual” da política capitalista dos partidos tradicionais. Se ocorressem eleições as caras mudariam, mas política seria a mesma.

Por outro lado, apesar de responder a uma necessidade correta, a de reformular toda a estrutura política, econômica e social do país (hoje a serviço dos magnatas capitalistas), a bandeira de “Assembléia Constituinte”, sem uma articulação sindical que permita unificar os trabalhadores, por um lado e sem uma organização, um partido com autoridade, que canalize politicamente a insatisfação generalizada da classe trabalhadora é, no mínimo propagandista e perigosa.

Uma assembléia constituinte na frágil situação da esquerda não seria o momento de avanço de grandes propostas de estatização de recursos naturais ou para que todo político receba o salário de uma professora. Seria a do avanço de normas atrasadas que poderiam retroceder direitos arrancados pela constituinte de 1988, justamente porque o consenso entre “os de cima” (que tem dinheiro e presença geográfica para ser maioria esmagadora numa constituinte hoje) é o de que é preciso “menos social e mais neoliberal”, com privatizações e ataques a direitos.

Assim, enquanto a esquerda não responder ao problema da reorganização política e sindical necessária, este arco-íris de propostas não sairá do “propagandismo”.

De nossa parte, acreditamos que um primeiro passo seria a construção unificada entre os partidos da esquerda em luta e os ativistas independentes de um encontro nacional, composto por delegados eleitos por assembléias nos locais de trabalho.
Neste encontro, além de se propor um plano democrático de luta contra os cortes, buscando greves unificadas, etc, poderíamos iniciar o debate e a agitação pela construção de um “partido de trabalhadores, sem patrões”. Este passo unificado poderia “viralizar” na consciência dos trabalhadores que buscam uma alternativa para a crise.

Assim, teríamos uma ação (sem ingenuidade: difícil e que nos daria enorme trabalho diante das diferenças dentro da esquerda, a luta contra a burocracia e a influência dos partidos tradicionais) consciente para dar uma alternativa aos trabalhadores neste espaço político, sindical e social que se abre com a crise e, ai sim, chances de ter uma alternativa ao impeachment e rumar para propostas mais audazes como a de uma Assembléia Constituinte.
Lembremos: Em política não existe vácuo. A questão é quem – e com que política- irá ocupá-lo.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Sobre "comoção seletiva" ou como gente de esquerda consegue perder oportunidades

Estou tentando entender qual é o objetivo dessa gente que tenta opor a solidariedade a "síria" e Mariana em MG contra Paris.
Ainda assim, encontro poucas respostas.
Muitas vezes pelo facebook e afins, é claro, nem toda opinião tem objetivos. Mas se tratando de gente de esquerda, organizada ou não, espera-se algum.
E é aqui que entra o problema: Opor a solidariedade contra um atentado absurdo e animalesco como o ocorrido em Paris ao que ocorre no oriente Médio não apenas é inútil, como é funcional aos que hoje tentam utilizar o atentado para justificar uma guerra ao terror.
Dizer "Isso que aconteceu na França é o que ocorre todos os dias em x, y ou z lugares!", "Isto é culpa dos Franceses que fazem isto em todo mundo", etc, é no mínimo uma imprecisão perigosa que dará aos verdadeiros imperialistas todas as armas para dizer que irão levar, então, "civilização e democracia" ao "povo bárbaro" destes países.
Pior. No plano das opiniões cotidianas é ridiculamente sectário tripudiar do alto de uma suposta iluminação politizada todos os milhões que se horrorizaram com o horrível atentado a Paris. É um atentado animalesco, absurdo e digno de uma organização medieval.
NÃO há oposição entre uma tragédia provocada pela ganância capitalista em MG, o caos instalado na Síria, Líbia e Iraque e o absurdo atentado do Estado Islâmico em Paris!
Se você é "revolucionário" ou até mesmo, minimamente de esquerda, deve usar todas estas oportunidades para dissecar as complexas situações nestes países, separar os imperialistas dos trabalhadores, opressores dos oprimidos, demonstrar para as pessoas DE FORA deste círculo, infelizmente, restrito, os interesses por detrás destas lamentáveis tragédias e propor uma solução DE CLASSE: para e dos oprimidos.
Entretanto, o que tenho visto é dizerem: "Ah, a França mereceu, afinal..." ou "Onde está a solidariedade pela Síria"?
Que justificativa é esta? Que França mereceu?
Por acaso foram fuzilados Hollande, Marine Le Pen e diretores das multinacionais Francesas nas ruas? Todos no Bataclan e nas esquinas eram burgueses? Ou quer dizer mesmo que qualquer francês, trabalhador, pequeno comerciante merece o que ocorreu?
E que solidariedade a Síria? A Assad, que fuzilava manifestações em 2011, contra o Estado islâmico? Ou a abstrata "bandeira" síria? Ou, por outro lado, aos curdos e refugiados? O que quer dizer isto?
Onde está a classe, o lado, a posição, na avaliação de vocês?
Enquanto dezenas de especialistas sobre geopolítica mutilam simplistamente a realidade e, exaltando-se com sua "enorme clareza política", tripudiam comoções populares, milhões seguem a trilha bem traçada do imperialismo de usar este fato para iniciar uma guerra por mais exploração e espoliação.
O objetivo, então, não parece ser esclarecer, politizar educar, direcionar todas as críticas ao inimigo mortal.
É só mais uma disputa que leva a tanta gente de esquerda a perder, mais uma vez, a oportunidade de entender que as pessoas SÃO contraditórias e não gozam da plena consciência de classe e política. É nosso trabalho limpar as mentiras capitalistas ditas todo santo dia.
Se acostumem, desçam do pedestal e mãos a obra.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

ENEM: Fruto da pressão ou enganação planejada? Ou: o jeito mais fácil para nos isolar das massas...

A linha entre viver numa seita, ser "sectário" ou se adaptar e achar que tudo são "vitórias" e ser, como dizemos, oportunista, é tênue, fina, difícil de se desenhar. O ENEM, como prova, segue sendo, em minha opinião, mais uma ferramenta.

Não uma ferramenta dos oprimidos, mas dos empresários, do seu Governo e dos capitalistas para restringir por um lado a Universidade, criando pólos de "elite" e, por outro, manter o "mercado de ensino" das universidades privadas dos t
ubarões do ensino. Milhões de jovens endividados e as crises e o drama anual do vestibular estão ai para provar isto: O ENEM, como a FUVEST é uma ferramenta de DISCRIMINAÇÃO SOCIAL, de segregação seletiva para os que vão entrar na Universidade pública.

Ainda assim, é enormemente sectário, num país cuja violência contra as mulheres é BRUTAL, com dezenas de casos ao dia, milhares de estupros anuais, não entender o que se expressou na atual prova.

É óbvio que os capitalistas e "governantes" vão querer sequestrar nossas lutas, tomar o lugar dos que as defendem e, sim, ao colocar o tema da violência da mulher na prova tentam cumprir este objetivo.
No entanto, há um lado, fundamental, que não se pode esquecer que é o de que isto expressa uma pressão da sociedade, de setores que lutam, mulheres combativas, estudantes, setores progressistas, revolucionárias, etc, que estão na base da sociedade, dando voz a opressão que milhões sofrem cotidianamente, criando então uma situação em que a burguesia é obrigada a pautar de algum modo este tema.

Por mais limitado que seja (e é!) a menção do tema no ENEM abre a possibilidade de um debate nacional, no qual nós, setores na base da sociedade temos de entrar de cabeça.
Exaltando o governo progressista ou a "prova esclarecida"? Claro que não! Mas sim, observando que esta foi uma menção arrancada com muito suor da luta cotidiana, cujas protagonistas são as mulheres e, ao lado delas, os homens que se colocam a construir a luta pela igualdade de gênero e que, afirmando a todo momentos o quanto este governo e estado burgueses são CONIVENTES COM AS MORTES, ESTUPROS, RETIRADA DE DIREITOS, MORTES POR ABORTO, QUE VENDEM DIREITOS DAS MULHERES A FUNDAMENTALISTAS FEUDAIS DA IGREJA, etc, é só pela organização desde a base da sociedade que apontaremos para uma solução de longo prazo para o problema da violência contra as mulheres.

A menção no ENEM não resolve o problema. Fato. Mas confortar-se nessa posição de apontar os limites é muito inofensivo e a esquerda tem de sair, mais do que nunca (agora que a crise bate na porta de cada brasileiro e a esquerda NÃO faz, infelizmente, diferença para resistir em lugar nenhum, na prática) desta inércia.

É preciso inverter o OBJETO da comemoração e entender que sim isto foi arrancado pela LUTA e que esta deve se aprofundar, para que não apenas o vestibular, a violência de gênero, mas todos estes mecanismos de dominação da sociedade capitalista acabem.

Grande parte do trabalho revolucionário é buscar saber qual o caminho para se chegar às massas. É preciso CONFLUIR com a empolgação de amplos setores para mostrar que a luta vai além do que se vê. Esta estrada é por uma nova vida.

Aqueles confortáveis em seus tronos de verdades auto-consumíveis, enquanto milhões de ouvidos tateiam em busca de uma orientação libertadora, sua desconstrução tão necessária, por um caminho que leve a construção de uma moral pessoal, coletiva e social e uma sociedade livre da opressão, a estes senhores sectários, o isolamento parece ser o destino certo, caso não mudem de curso a tempo, enquanto o que está em jogo é apenas uma questão de ENEM.

domingo, 4 de outubro de 2015

Coincidência cósmica

Eu não sei o que é o mundo além dos limites do mensurável
O mundo é isto; Uma grande coincidência cósmica
e talvez a única grande coisa que exista sobre ele, sua única grandeza real, seja o fato de que é uma enorme conjunção de coincidências 
que funcionam, se harmonizam, se articulam, ao longo de milhões de anos...
Ao menos é uma raridade para nossas pequenas capacidades de apreensão do que se passa em outros mundos, galáxias, planetas.
O mundo é um nada. Mas para nós, é um tudo. E ainda assim a história da humanidade tem sido a persistência em dividir-se e levá-lo a destruição...
Da humanidade não... a dos herdeiros do primeiro privilegiado, que cercou a primeira porção de terra, se armou pela primeira vez e matou em nome do abstrato "direito" e "propriedade"...
Estes herdeiros levam a todos nós a catástrofe.

Justo nós, que podíamos ascender as estrelas.... 

Sobre cafezinhos matinais e intimidades anônimas.


“Todo dia ela faz tudo sempre igual, se sacode as seis horas da manhã”....

É embalado neste ritmo que ele levanta.
Em seu caso, a música poderia ajustar seu relógio interno e apontar para cinco da manhã. Ainda assim, a idéia da rotina está ali, onipresente, como que transbordando dos fones de ouvido, retirando um pequeno sorriso sádico, como de quem tira um sarro de si mesmo por estar tão próximo da ficção, embalando o ritmo cadenciado do cotidiano.

As 5:35 põe o pé na estrada e começa o rito diário. Aqui, os lugares comuns são incontornáveis e fonte de controversa satisfação. No ponto as 5:40, dentro do ônibus as 5:50, na entrada da estação de metrô as 6:05, na plataforma as 6:07, não importa, o movimento se repete: Caminha, encontra um lugar, levanta a cabeça, faz a varredura.

Com ela, percebe rostos conhecidos, cuja intimidade se faz sentir pela comunhão sagrada do perpétuo repetir de ações; se entreolham. No começo olhares curiosos, como de uma criança tentando se reconhecer no espaço, se integrar ao ambiente, entender as intenções e gestos.

Após tantas repetições, da casca dura da apatia irrompe o tímido sorriso, um “bom dia” em seco, um balançar de cabeça, um estribido de proximidade e, novamente, um lampejo de satisfação controversa pulsa para fora da austera normalidade.

O destino impõe um ritmo de ser. O horário é implacável. Não se pode perder tempo com frivolidades gestuais. Há de adentrar ao fluxo, chegar no horário, postar-se apresentável, vestir a motivação – ou, melhor dito, a resistência- e começar sua parcela no empurra-empurra de engrenagens alienantes, na marcha do dia a dia.

De todo modo, não se pode escapar a biologia. O material ainda é - e sempre será- o que move os humanos, seja para as grandes ou pequenas realizações. Em seu caso, a realização é parar o estampido, que religiosamente dobra seu estômago as 6:35. Aquela escapadela, antes de tomar seu papel, é a solução.

Sobe a escada, olha o céu ainda turvo e iluminado lateralmente por um Sol que ainda não se mostra, sai pela entrada, olha as tabuas improvisadas por cima das quais se preparam tapiocas e cafezinhos por ambulantes cada dia mais numerosos - seria crise? – e entra na lanchonete.

Mal chega, dirige-se ao freezer, pega sua Coca e, ao virar, encontra o braço estendido do atendente que, sem sequer ser indagado já oferece o corriqueiro canudo, a empada no pratinho de plástico e o banco no qual por tantas vezes sentou, por vezes com um sorriso, outras com um bom dia e ainda outras com aquele familiar olhar apático. Tudo em ordem. Tudo como sempre. Tudo normalmente.

Não fosse o estranhamento não pensaria o quão significante é a situação. Pensa em quantos milhões de conexões e relações se estabelecem todos os dias, em todos locais de labuta, em tantas esquinas, avenidas, banquinhas, lanchonetes e, daí, quantas intimidades anônimas se formam assim, produto do cotidiano.

Sim, intimidades. Dois trabalhadores. Não sabem seus nomes, mas naquele instante, cotidianamente, no mesmo lugar, repetem o mesmo ritual e, neste, expressam uma intimidade, tímida, sem dúvida, mas que estabelece uma conexão em meio a fria normalidade e austeridade de São Paulo.

Ali, no pequeno instante da gentileza, o atendente expressa a intimidade de saber que tipo de comida, com que tipo de prato, em que lugar e que salgado ele prefere. A pergunta não se faz necessária.

Através da relação de troca, da compra e venda, este baluarte sagrado que media todas as relações e enrijece sensibilidades e sensações nesta sociedade de lucro, se estabelece a conexão. Tímida e frágil, é verdade, mas ainda assim uma relação.

Um reconhece o outro e, apesar de não saberem nada de si, sorriem, timidamente, pelo gesto de intimidade, que os localiza num mesmo espaço e numa mesma situação. Tal como plantas que brotam de um solo de rígido concreto, esta relação os faz se sentirem mutuamente percebidos, não tão invisíveis e objetificados pelas obrigações e o fluxo do cotidiano.

Afinal, no deserto subjetivo desta maquina de moer gente, o pequeno gesto é o gérmen de uma solidariedade, uma percepção mútua, de um pertencer ao mesmo lugar e, ao menos ali, tornar a presença de alguém real, distanciando, por milímetros que seja, a vida da fria e implacável exatidão dos números, das horas, dos valores e do lucro.

Talvez amanhã eles perguntem o nome um do outro... Ou talvez ai esteja o limite seguro que o cotidiano os permitirá chegar.