sábado, 7 de março de 2020

Eu não gostava de ler.


Eu não gostava de ler.
Talvez pelo temperamento explosivo e um senso prático por demais aguçado, a ideia de sentar e por horas destrinchar, entender e memorizar tantos conceitos através dos labirínticos meandros de um texto, era muito angustiante.

Não me entenda mal.
Eu lia, desde pequeno, todo tipo de quadrinhos.
Comecei com Batman, colecionado desde os seis anos ou menos. Também amo mangás dos mais variados estilos, geralmente aqueles mais de combate e com narrativas de superação dos personagens. Mais tarde fui conhecer obras fantásticas como a história de Musashi, compilada em Vagabond, além de outros dramas ficcionais como Battle Royale, Gantz, Bersek, entre outros.

Quando moleque, quando tinha algum dinheiro, comprava uma edição da liga da justiça, das edições mensais de Batman ou algum mangá e ficava folheando, memorizando os diálogos, os traços do desenho, vendo o tempo passar, às vezes até adormecendo com a revista no peito.
Meu pai sempre me chamava atenção para o pé na parede e, quando adormecia, me colocava cobertor enquanto ele assistia alguma coisa na TV na casa onde nossa família residiu, sem possuir, por décadas.
Hoje, passando por ela, só restam lembranças.
Uma placa de "Aluga-se" soterra a expectativa que poderia, irracional, existir de voltar a pisar nela ou ver meu pai sair sorridente falando alguma coisa engraçada, para abrir o portão - isso quando eu não o pulava.

Foi ao longo da faculdade que percebi o quão difícil pode ser ler.
Pegava os ônibus chamados "interestelares", partindo do Jaçanã até o Butantã e, entre apagões fisiológicos ao longo das duas horas e meia de viagem, tentava arrancar o máximo que podia de Maquiavel, Schumpeter, Levi Strauss, Weber.
Isso tudo foi antes de se inaugurar a Linha amarela - evento no qual estive presente para repudiar os velhacos PSDBistas que, entre desvios e cartéis, passagens caras e transporte precário, inauguravam uma estação para servir a USP, quilômetros distantes da mesma.

Nunca tirei as melhores notas e, durante grande parte dessa jornada me pegava em contato com as mais diversas linhas do pensamento que, pela dinâmica da vida, não penetravam ou despertavam minha curiosidade da forma mais eficaz.
Era como se houvesse uma névoa que bagunçasse nossa relação e a leitura era sempre uma questão de esforço e páginas, de iniciar a caminhada esperando concretizar o maldito número visto na página final do livro ou texto.
As provas eram a coroação do martírio.
Trabalhando, dificilmente tinha ânimo para seguir uma rotina diária e constante de leitura, logo, a solução eram as maratonas dois, três dias antes, quando não no mesmo dia.
Café, tremedeiras, consultas heterodoxas, tudo isso se tornou meu modus operandi para sobreviver na selva do mundo acadêmico e sua exigência burocrática de centenas de páginas por mês.
Aos professores, draconianos em sua maioria, não importava trabalho, greve, distância ou estado psicológico.
“Essa faculdade não é para quem trabalha mesmo”, repetia uma delgada professora de semblante e nome nórdicos, certamente orgulhosa de sua posição alcançada, com baixo esforço, mas muito “mérito”, na estrutura estatal de ensino.

Me organizar politicamente, algo que pulsa dentro de mim por diversas razões, foi uma salvaguarda e uma boia nesse mar tortuoso.
Lia muito, sobretudo textos políticos, e-mails e obras clássicas do marxismo, pois, além de me interessar e ser necessário para uma ação política consciente, sentia um enorme prazer de conhecer as histórias de outros, como eu, que buscavam compreender seu mundo, as inter-relações entre seus membros e as ferramentas para transformá-lo - já que esta necessidade está mais evidente a cada dia em que o capitalismo destrói nossas mentes, sociedade, natureza e futuro. Isto reascendeu uma ponta de esperança de que, talvez, eu não odiasse ler e o problema fosse a forma como este hábito me fora apresentado e exigido.


Literatura e teoria, sobretudo a política, são gêneros que, ainda que possam ser, geralmente não são lidos da mesma forma, no mesmo ritmo e com a mesma atenção aos detalhes. Uma obra teórica, como aquelas exigidas tanto pela ação política quanto pela universidade, demanda outra dinâmica para se ler do que uma revista em quadrinhos ou um romance.

Penetrei fundo nesse mundo e, tal como antes, quando com algum dinheiro comprava revistas - ou, diga-se a verdade, jogos de playstation -, passei a direcionar o dinheiro para livros, em geral, teóricos e políticos.

Um fenômeno esquisito começou a se apresentar.
A linguagem, é claro, passava a se mesclar e, então, toda a gama de gírias e expressões que sei e sempre mobilizei para me expressar, começavam a se fundir com palavras e lógicas mais complexas.
Um personagem genial certa vez disse que se você entendeu realmente algo, você deve ser capaz de explicá-lo de forma simples e direta. Não é algo fácil e logo percebi.

Para os parceiros de quebrada, antigos e novos, muitas vezes eu era como uma esfinge.
Um cara que falava uma linguagem próxima, mas que às vezes entrava numas complexas que ou comiam a mente e deixavam em crise, por vezes, esclarecendo muitas das questões que afligem nosso cotidiano ou simplesmente não faziam sentido.

Já na Faculdade, se dava o oposto.
Tantas vezes o preconceito de classe se expressava sem nenhum pudor, como quando me perguntavam se eu "também era skatista", ou nas perguntas inocentes sobre "porque você não consegue ler mais?", sem falar da indignada surpresa de classe média uspiana com a "agressividade e aspereza" com que eu me portava nas lutas, atos ou papos. Um acinte para o decoro exigido pela recatada juventude pequeno-burguesa da USP e seus hábitos autocentrados.
Sentia-me assim, sempre no meio do caminho, em duas canoas, em dois espaços, tentando ligar pontas que, claro, em tantos sentidos, são irreconciliáveis.

Somente depois de terminar a graduação e ser demitido pude perceber o prazer da leitura. Reviver a literatura, o mangá, a teoria, no meu ritmo, respondendo as questões que eu faço diante da realidade e trilhando um caminho de desbravamento do conhecimento com meus pés livres, no meu ritmo. Este ano em 2 meses li 4 livros. Minha companheira, a qual, certamente, compartilha muito destas dificuldades e inquietações comigo, também termina o seu quarto.

Ler é, afinal, uma ferramenta. A mais poderosa, pois, através deste ato, que, não se enganem, sempre exigirá esforço e dedicação desde que haja condições para tanto, é que somos capazes de acessar a montanha infindável do conhecimento e das histórias humanas.

Somos uma espécie que só está onde está por sua capacidade de contar histórias e, através delas, promover coesão social, laços de solidariedade, valores comuns, perspectivas compartilhadas que nos movem a um futuro e nos dão objetivos, esperanças, vontades.

Não é por menos que aqueles, interessados na dominação e no privilégio de classe dominante, atacam a cultura, a leitura, o saber, Paulo freire e buscam distorcer e corroer, seja a capacidade de leitura, seja o próprio conteúdo desta.

Hoje eu amo ler.
Porque consegui, entre trancos e barrancos, encontrar uma forma de ligar o prazer com o conhecimento e dar sentido a este hábito. Sentido este que é o de tornar mais consciente minha compreensão de mundo para transformá-lo.
Isso me fará uma pessoa melhor, um companheiro melhor, um amigo melhor, um revolucionário melhor, um rapper melhor e um humano mais pleno e ciente de toda a tortuosa luta, os exemplos e lições que o passado deixa. 

A leitura é uma chave que te permite, em primeiro lugar, saber quais portas abrir e quais outras trancar.
Hoje, diante desse prêmio conquistado, dia após dia, pouco me importa que uns me achem um MC “professor” ou outros me achem um “cientista social” pé rapado ou maloqueiro.
Ler me ensinou que  estamos imersos e constantemente pressionados pelas margens de nossa própria ignorância, imaturidade e irreflexão.

Digamos que sou ambos. E mais! Sou um pouquinho de tudo o que absorvo e, se quero ser algo, é ser mais, com todos. Inclusive com estes que, infelizes, ainda não perceberam que podem ser mais, juntos.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Notas sobre o Direito, impeachment e a esquerda brasileira


Lendo a obra, precursora de todo o, hoje, badalado gênero "distópico", Nós, de Zamiatin, frequentemente me pego diante de questões incontornáveis, existenciais e políticas.
A certa altura, o narrador personagem D503 reflete sobre a natureza do Direito para os antigos (o livro se passa milhares de anos no futuro, no Estado Único, onde a população humana está reduzida a 10 milhões, seus membros não tem nomes, mas números e tudo segue uma ordem mecânica e matemática, plenamente controlada). Este mesmo Direito com letras maiúsculas, ou seja, o conjunto de regramentos e formalizações sob os quais, em tese, todos nós e nossa sociedade repousam. Conclui, sagaz e lúcido, que o Direito é uma função do poder, exatamente como o Estado. Mais exatamente uma função do poder de classe.
A ficção "pluralista" de que o Estado e, assim, o Direito são espaços "neutros", disputáveis, se desfaz todos os dias para aqueles que estão na base da sociedade, ou seja, os pobres e trabalhadores.
Sua função fundamental é proteger a ilusão de que existe tal neutralidade, precisamente porque esta é a melhor forma de proteger o que importa: as relações de produção entre os membros dessa sociedade.
O que isto significa? Que sua função fundamental e inescapável é lutar, com a caneta do juiz ou com o cassetete do PM, para garantir que a maioria continue trabalhando, gerando valores e riqueza sociais com este trabalho e que, esta riqueza, continue sendo tomada privadamente, sem pagar nada em troca, pela minoria de magnatas, empresários, capitalistas.
O mecanismo é, portanto, propositalmente complexo, pois no caminho de seu entendimento, com a massa de explorados absorvida pela preocupação em passar o mês e sobreviver alimentar e psicologicamente, é fácil se perder.
Eis a base fundamental que nos permite entender porque, de 2016 para cá, tudo ocorre como ocorre: presidente derrubada sem crime; STF legitima a isto e ao ilegal teto de gastos em saúde e educação; legitimação das reformas trabalhista e da previdência que destroem a vida do trabalhador e o baixam o preço do trabalho (vulgo menos direitos e salários); prisão, na correria, de Lula por ser adversário eleitoral do Bozo; ligações evidentes da família Bolsonaro com milícias e assassinato de Mariele sendo diminuídos e naturalizados.
Isso, então, serve como potente lição a quem quiser aprender e, principalmente, a esquerda dita revolucionária no Brasil (aquela à esquerda do PT).
Como função do poder, as soluções podem vir tão menos da Justiça e do Direito, burguês, patronal, quanto da ocupação dos espaços parlamentares no Estado.
A saída do impeachment e a cômica, embora trágica, indefinição da esquerda brasileira quanto ao que defender na manifestação que organizam para o dia 18 - o mesmo dia do ato chamado por Bolsonaro - corresponde a confusão adquirida pelas compreensões equivocadas e irrealistas sobre tanto o Direito quanto o Estado. E contrapor um movimento organizado nacionalmente sem uma visão clara de pelo que se luta é a melhor forma de perder o embate.
Não podem chamar o impeachment pois o congresso está lotado de bolsonaristas, bíblia, bala e boi. Assim qualquer linha parlamentarista se torna inútil e não mais do que o já comum berreiro e performance midiática dos poucos parlamentares de esquerda.
Por outro lado, separada dos espaços de vida e trabalho da real massa dos trabalhadores, esta esquerda não pode oferecer e convencer de um projeto próprio, de país e de mundo, que são a única força capaz de fazer frente a este neoliberalismo sem amarras que domina o poder no Brasil.
O primeiro passo é perceber o próprio "xeque" em que se encontram as multidões de explorados e a própria esquerda, espremidos entre a selvageria policial, judicial e empresarial capitalista e as traições e ilusões vendidas pelo PTismo.
A greve da Petrobrás não é um detalhe. Neste grande evento da luta de classes os trabalhadores poderiam mostrar seu peso, sua capacidade de controle e o quão grande é o seu poder e ação, que movem a sociedade.
CUT e PT, com apoio de correntes do PSOL, por exemplo, recuaram no momento em que era preciso unificar com outras categorias e desempregados, para transformar isto tudo num enorme conflito de toda a classe contra o absurdo que tem se tornado a vida.
Não fizeram em nome de confiar no TST e, nesta semana mesmo, viram que o máximo que este lhes propôs foi manter as demissões, pagando uma rescisão um pouco maior. Sofrerão, ainda, a demissão de quem foi linha de frente na greve e, assim, mais desmoralização virá para toda a classe.
Do Estado e da Justiça não virá nenhuma mudança. A república de 88 ruiu. O que existe é um regime eleitoral tutelado cinicamente pelos militares e controlado pelos bancos, os que verdadeiramente mandam no baixo e médio empresariado industrial, ruralista e comercial. Isto não é uma democracia.
Num governo do povo não morreriam 170 pessoas em 5 dias de motim miliciano/policial como no Ceará ou como em qualquer movimento de policiais nos últimos anos.A saída é, como no caso do Direito, golpear onde importa: o coração do sistema, as relações de produção e exploração do trabalho.
Por isto, ignorar os 14 milhões de desempregados, os 40 milhões de informais, o potencial unificador e explosivo de greves, como da Petrobrás, em nome de ações parlamentares e eleitorais, pensando que "preencher" o Estado ou o Direito com "gente boa" é suficiente, é puro oportunismo, covardia, cegueira.
O poder do Estado não vem das instituições; o poder do Direito não vêm das palavras e regramentos; o poder da polícia não vem destes dois. Estes poderes emanam das relações de classe, da exploração econômica e, cada vez mais, da inconsciência e alienação da maioria explorada, que é objeto desta dominação.
Organizar e conscientizar, como únicas formas de romper este ciclo, demandam jogar por terra qualquer ilusão no Estado e no Direito. Ambos são ferramentas da classe burguesa, dos 1%, dos capitalistas, chame como quiser. Apenas impondo nossa força, com métodos de força, poderemos destruir estas ferramentas e organizar outras, diretamente, controladas pela maioria trabalhadora.
Só existe futuro, no médio longo prazo, por este caminho. Fora disso, preparem-se para milícias, pestes, explosões de raiva social espontâneas, fome e desmoralização. Felizmente, os povos lutam e seguirão assim.
Chances para o novo existirão.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Greve de petroleiros na encruzilhada

A atual greve dos petroleiros é mais uma encruzilhada histórica, para o PT, para os petroleiros e para todos nós.

Com mais de 20 mil petroleiros parados, numa greve que a própria CUT anuncia como a maior desde 95. Lá, uma greve de 32 dias enfrentava Fernando Henrique e o Neoliberalismo em seu vigor de nascimento no Brasil. Chegando uma década mais tarde por aqui, após o levantamento operário dos anos 80, as forças do neoliberalismo fizeram o que puderam para acabar com esta greve.
Exército ocupando refinarias, multas milionárias contra a FUP (federação petroleira) pelo mesmo TST, enfim, o filme de sempre.
Foi importante para o imaginário popular , no entanto, manter consolidada a ideia do senso estratégico de uma Petrobrás estatal e para questionar o projeto neoliberal "sem amarras".

Cá estamos, em 2020, após a década neoliberal e o respiro social-liberal dos governos PT, ou seja, neoliberalismo com pitadas de socialdemocracia e assistencialismo, de volta a um piorado neoliberalismo sem amarras.

Bolsonaro é o capitão do barco do trabalho precário, do roubo de terras, assassinatos de indígenas, do fim da aposentadoria, da privatização de "tudo o que der", da terceirização total, dos 13 milhões de desempregados e 42 milhões de brasileiros na informalidade. A Petrobrás já possui grandes investimentos internacionais; o pré-sal não é vendido por falta de comprador e não vontade; todos gabinetes estratégicos do Planalto estão nas mãos dos militares; milícias, assassinatos e conspirações tomam conta do cenário do palácio burguês.

De nosso lado, uma greve da Petrobrás poderia ser o catalisador, a faísca, capaz de contagiar milhões de trabalhadores, empregados e desempregados, freando essa ofensiva social dos patrões.
Hoje, na cabeça de qualquer trabalhador consciente e, certamente, dos petroleiros cujo trabalho está ameaçado pelas demissões, soa o alerta: até quando pode durar esta greve? Uma semana? Uns dias? Um mês?
Quem vive de salário é muito concreto. Esta pergunta leva diretamente a outra: qual a estratégia para vencer?

Sob a terra arrasada do mundo do trabalho e a luta desesperada que cada peão tem para fechar o mês, a luta dos petroleiros pode ser um farol.

Não apenas vender gás a 30 reais, uma demonstração forte da capacidade dos trabalhadores de guiarem a luta popular, mas, em primeiro lugar, unificar os terceirizados de todas funções na própria Petrobrás, a greve, atropelando ou não os pelegos que dirigem seus sindicatos.
Poderia se unificar numa mobilização permanente com os caminhoneiros, em primeiro lugar pela libertação de seu líder sindical e pelas reivindicações.

Disto, quantas categorias não poderiam se animar com a luta e unificar suas forças?
Professores do RJ ou SP, humilhados por anos de arrocho salarial e precarização da educação? Correios, uma das maiores e mais antigas empresas prestes a demitir milhares e ser privatizada?

Desta unificação de "grandes pólos" dos trabalhadores, não seria possível organizar e ajudar a organizar comissões de mobilização e oposições entre os trabalhadores do call center? E entre os trabalhadores nos serviços? Não seria possível organizar assembléias de desempregados, que unissem organização, luta e ajuda material das categorias empregadas aos desempregados?

Isso não poderia envolver tanto grevistas quanto aqueles que não puderam ainda entrar em greve, mas que querem ajudar a "dar corpo" a este movimento?

Diante disso, quem poderia dizer que os trabalhadores no Brasil não tem voz, que não existem, que não tem força?

De todo esse movimento, não seria possível organizar um grande congresso, com membros de cada um destes setores citados, convocando os indígenas para se organizarem em conjunto, organizando uma pauta comum de reivindicações e luta, articulando seus passos, métodos e golpeando com uma só mão, numa frente única dos trabalhadores?

A CUT é a maior central sindical do Brasil. Possui milhões de verbas e, mais importante, milhões de trabalhadores em sua base sindical.

Se existe uma estratégia para não vencer é a de manter a greve da Petrobrás isolada, com efetivos isolados dos terceirizados, petroleiros isolados dos demais, apelando para ações midiáticas, moções de apoio e audiências na Justiça.

Se existe alguém capaz de dar passos nesse sentido é a CUT. Ao não fazê-lo, ela contribui não apenas para manutenção de toda a terra arrasada, para a derrota da greve e para, claro, o avanço do projeto bolsonarista neoliberal.

Veremos se, uma vez mais, as direções de CUT e PT, com medo de perder o controle, de ter de ceder espaço para a organização e ação livre e direta dos trabalhadores, trarão mais está derrota.

Isto marcaria mais um sinal de que estão dispostos a tudo para manter seu lugar no regime político como "conciliadores" entre trabalhadores e patrões, inclusive, direta e indiretamente, sustentar as condições que permitem Bolsonaro, Guedes e os bancos destruírem a vida do povo. Eles tem a faca e o queijo na mão, mas parecem não ter fome.

E aqui é que vem a responsabilidade de nós trabalhadores. Em primeiro os petroleiros, que devem refletir quais os caminhos para vencer; se este, baseado numa ação coletiva, ou o outro, baseado na ação controlada proposta por suas direções.  E, se for a primeira, cabe a estes forçarem este caminho.

Disto dependem vitórias objetivas e subjetivas para a classe trabalhadora. Se uma categoria capaz de rasgar os bolsos dos magnatas for derrotada, uma onda de desânimo adicional é quase certa.

E uma greve isolada da Petrobrás duramente duraria mais um mês. Os prejuízos são contidos e o patrão já mediu o teto da força dos trabalhadores. É hora de ampliar suas "reservas" e trazer mais lutadores para a arena.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Automático

Folheei algumas páginas daquele livro que estou pra terminar já há umas duas semanas.
O tempo escorre pelos dedos.
Tinha saído pra espairecer. Muita pressão. Muitos resultados esperados. Alguns frustrados, outros conquistados; aquela coisa banal que preenche a gangorra de qualquer um de nós.
Me sentei num dos bancos do parque. Alguns jovens nas mesas, outros dormindo nos bancos, duas moças que trabalham na limpeza sentadas numa mesa de pedra, entre sorrisos e pequenas falas, intercalam uma giradinha nas pétalas da pequena florzinha amarela que caiu da árvore sombreando o parque.
Me levanto e vou pra avenida.
Atravesso seu canteiro central e o farol fecha.

No entremeio do caminho, me cruzam velozes jovens, apressados com suas bicicletas, as vezes próprias, as vezes alugadas do Itaú.
Um deles, talvez por medo de eu cruzar muito rápido o cruzamento com a ciclovia, talvez apenas instintivamente, freia levemente e me olha.
Menos de um segundo.
Nossos olhos se desviam.
Após ele, bicicleta após bicicleta, jovens negros passam com seus grandes cascos de ifood. Empreendendo... às custas de si próprios, anônimos, apressados, exauridos e suando.

Chego a margem oposta. Imediatamente me vejo submergir na corrente humana que conduz o ritmo da calçada.
Olhares baixos, outros sorridentes para suas telas, alguns trabalhadores brincando entre si, esbarrões e desvios.
Me percebi de novo imerso em nós. Só por estar. Quem sabe tentando entender.

Quase em frente ao mercado percebo um rapaz. Negro, descalço, com as roupas um pouco sujas e um rosto avermelhado, talvez de sol, talvez de goró.
Olhei de novo.

Ele estava com um nunchaku na mão! Na porta do supermercado, a cada um que passava, girava o instrumento pra cima e pra baixo dos sovacos, girando rapidamente, como aqueles movimentos de kung Fu do Bruce Lee.
Cheguei mais perto, quase ombro a ombro. Olhei melhor.
Eu já tinha visto esse moleque!
Certa vez, naquele bar de esquina, eu e o Cléber estávamos na cerveja não me lembro mais qual número, ele parou e acabamos trocando idéia com ele. Entre uma história e outra, o mano disse que rimava, perguntou se eu rimava. Nos pegou, também, numa charada sobre um pato que não lembro agora. Um puta moleque esperto, inteligente, rápido e com carisma. Disse que queria uma grana pra voltar pra casa e que estava pra lançar um funk. Cantou pra nós. Aqueles bem putaria, tá ligado? Mas o moleque tinha todo o jeito, a entrega e a naturalidade do bagulho.

Agora estava ali, na porta do mercado, tentando trocar parcelas de seu talento inquantificável por, quem sabe, alguma ajuda alimentar pra seguir pro próximo dia.

Eu já estava na próxima esquina quando me perguntei porque não parei e fui cumprimentá-lo. Ele parecia meio desnorteado.
Olhei pros lados.
Ao redor dele se formava um vácuo. As pessoas nem olhavam.
Basicamente ao se aproximar daquele jovem negro e maltrapilho seus corpos, de tão condicionados, se afastavam e criavam uma distância. Cheguei a porta do metrô olhando essa cena.
Subitamente, sinto um esbarrão. Tiro o fone e olho. Um cara mal encarado me encara. Já não tô pra muita graça e pergunto:
- Que foi, tio? Ta loki?
- Cê que tá chapando aí. Tá na nóia maluco? Fica olhando mendigo porra, trombando com os outros...

Tô com um Beck no bolso. Meço a fita. Melhor deixar pra lá. Na fila da entrada, uma puta fila. Imagina o trem? Tenho de correr.

Foi só quando sentei, umas 10 estações depois, que lembrei do moleque e do seu nunchaku.
Submergi, mas desta vez nem percebi, na guerra da sobrevivência e do transporte urbanos.
Me perguntei depois se isso foi antes ou depois de perder o moleque de vista? As vezes, submergir em si, por estas bandas, acaba sendo automático...

sábado, 11 de janeiro de 2020

Hoje decidi falar de mim.

Hoje decidi falar de mim. Dessa incessante vontade de criar, propor, expor.
Nem todo dia estou de boa. Me empurro. Ando pela cidade, espero as flores e espinhos que encontro quando ando na multidão. Uma trombada no braço esquerdo; um soslaio incomodado; uma franzida de testa; aperto o passo, diminuo este.
Vez ou outra me presto ao papel estranho de entrar num bar só pra sentir como estão sentindo.
No meio do salão, olho pra esquerda. Na fila do banheiro, homens e mulheres de olhares baixos olham pra um nada, como se olhassem pra dentro de si. Não é raro um balbuciar indistinguível, daqueles que soltamos quando pensamos com nós mesmos.
Isso me provoca, me tira do conforto.
O dia a dia me ensina o conforto do sozinho, ainda assim, o passo me chama.
Talvez seja essa sensação de mistério insolúvel de não saber, nem poder saber, o que toma o coração e as idéias de toda essa turba. Ao menos não sem parecer um louco que, do nada, se preocupa com o que o outro pensa da vida.... Ou da morte.

E tem coisa mais interessante e reveladora do que saber a visão de mundo de alguém? Por mais simples que seja a resposta, muita coisa está envolvida.
Hoje, entre trombadas e passos me peguei pensando na vida. Pensei sobre seu fim. Não é um pensamento raro. Nosso hardware é feito pra nós afastar de tudo que ameace essa existência.
É a fórmula perfeita pra paranóia. E se hoje fosse o último? E se eu não pudesse viver o que planejei? Quantas narrativas como essas me cruzaram?

Olho o relógio. Já é quase meia noite. Vou carregar o bilhete. Operação negada para o usuário. Não tenho o que fazer. Será que o motô passa? Vou ter de dar migué?
Sei lá.
As vezes, uma vez vivo, o que importa é viver. E vivo, quero mudar.a mim e o mundo.
Quem sabe assim cada esbarrão me pareça menos vazio e insípido. Quem sabe esse encontro, único, me traga algo sobre nós além do choque. Quem sabe do choque surja o novo. E do comum e do banal, se veja a mais completa arte.
Aquela que percebemos num gesto simples do dia a dia.
Sem propósito, sem corolário. Apenas eu e minha continuidade, separados no tempo, juntos em essência, fluindo na história.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

"Sedução confrontacional"

- Porra velho, cê só escreve sobre um tema! Parece xarope assim.
- Como assim, tio?!
O gole desce um pouco mais amargo que o comum. O puto do Jonas começou com as psicanálises compulsórias dele. Foram só dois litrões, menos de meia hora pra ele parar a conversa no meio e dizer que tinha de ser sincero.
- É porra. Alguém tem que te dizer isto. Quando você fica postando e escrevendo desse jeito monotemático, a galera pode começar a pensar que é algum tipo de piração, neurose, uma coisa de doença mesmo, saca? Eu mesmo que não te vejo há um tempo...
Eu já tinha comentado com ele anos atrás - na última vez que nos vimos - que não gostava dessa merda.
Se tem algo pra me falar, me liga, manda um inbox, um direct, qualquer coisa porra. Essa mania de encarregado motivacional de escritório me deixa puto. O pior é que, cortando o papo da roda desse jeito, agora eu sou o centro das atenções. Respondo pra cortar:
- Ah tio, sério? Monotemático o que? Listando as merdas que o seu candidato tá fazendo na nossa vida com a ajudinha dos teus patrões?
- Aí velho! Não falei? Toda e qualquer coisa é motivo pra você começar a fazer malabares com estatística, cifra, notícia; botar na conta dos malvadões capitalistas. Tô te falando, essa lavagem cerebral que não te deixa ver. E ó, eu votei no Amoedo e anulei no segundo. Sou empreendedor; não tenho patrão. - replicou orgulhoso.
O Jonas antes de ser anarco-capitalista, tinha sido headbanger e, antes disso, otaku. Não entendo como fomos pensar tão diferente...
Se bem que não posso falar muito porque também frequentei umas feiras de japonês.
Nesse caso, ambos sofremos na mesma barca do ostracismo social da época. Nunca fizemos um amigo nessas feiras e nem compramos nada. Dois fodidos da periferia que só iam lá pra jogar nos Playstation de graça, bater nos boys com aqueles cotonetes gigantes e tomar mupy de saquinho.
Compartilhamos o declínio e a glória do mupy de saquinho plástico, uma joia hoje perdida.
Agora ele divide seu tempo entre ser coach de programação neurolinguística, psicólogo e microinvestidor na bolsa. “Sempre “pensando fora da caixinha”.
Disse que não foi nos atos do pato da FIESP porque achava a multidão um jeito muito atrasado de reivindicar. Outro dia me mandou uma petição para obrigatoriedade da implantação de canudos de papelão em todo território nacional. Não excluindo os de plástico, porque o livre mercado já iria fazer isso.
- Velho, eu já te falei que eu posso falar de qualquer coisa. Eu só me preocupo bastante com política. Acho que todos nós deveríamos, já que isso afeta em todos os sentidos as nossas vidas e --
- Páára tio!! - Exclamou me cortando. – Tá vendo, Júlia? Fala se não parece doido ficar retrucando sobre política? Cê precisa ter autocrítica, parar de ficar pregando...
Eu esqueci uma coisa importante. Parte das funções de coach do Jonas é ser “conselheiro amoroso”.
Dá dinheiro com os otários que pagam no desespero e status nesse mundinho dos Farialimers... Se a gente parar pra pensar, o Brasil tá avançado demais; até um charlatão tem seu saber organizado, né não?
Uma vez ele me disse que era especializado em “sedução confrontacional”.
Perguntei “que porra é essa” e ele me respondeu que era uma tática pra seduzir por tabela, aumentando seus traços e diminuindo o de outros. Usavam de Maquiavel a Roberto Justus pra potencializar os equilíbrios de handcaps e vantagens emocionais entre os competidores. O objetivo era baixar os do adversário e deixa-lo mal pra ter espaço cognitivo e fazer todo seu brilho aparecer.
Acho que na real o Jonas fez pós-graduação em filha da putice, mesmo.
A Júlia colou com a Sílvia não faz nem dez minutos. Com um sorriso meio sem graça ela diz:
- Ah deixa ele, Jo. Acho superimportante ter essa visão engajada. Hoje em dia a gente parece que não tem mais direitos. A gente trabalha o mês inteiro e não consegue ter nada...
Aí eu percebi a jogada. Eu sou o mais novo degrau na escada do Jonas. A Júlia terminou não faz nem um mês. Isso é que é urubu oportunista!.
Respondi atencioso:
- Total, Ju. A vida só piora e quando reclamamos ou escrevemos algo somos “monotemáticos”. Mas só diz isso quem tá na boa...Vê só o Jonas. O cara é um Glitch Tabajara, vive de dar conselhos pra vida afetiva alheia, fez campanha envergonhada pro Bozo e acha que nós mortais temos de ficar felizes com a “abertura da economia” e o “compliance empresarial”. Os caras aprendem a repetir expressões compostas pra parecer que sabem do que falam.
Notei um sorriso de soslaio no lado esquerdo da boca. A testa do Jonas franziu.
- Ah! Falou o motorista de Uber! Olha Ju, ele não consegue tirar nem dois barão por mês e quer cantar de galo. Ce não tiver pra pagar essa breja eu te empresto viu, man? Hahaha.
- Acho que pisei no calo de alguém...
- Que calo o que, loko! E eu lá sou mulher? Só tenho calo na mão. Hahaha.
De súbito, Júlia protestou:
- Nossa Jo! Como você tá machista!
- Machista não! Eu só reconheço as diferenças naturais entre os gêneros. Cê não vai vir com esse papo de machismo, né? Você também tá nesse negócio monotemático de ideologia de gênero?
- Não é isso, é que eu acho que não existe essa--
- E Laiá!!! Cês tão chato demais, gente! Achei que depois de anos de vocês ai presos nos namoros a gente ia se encontrar e falar da vida, aí cês me vem com essas besteiras de esquerdista? Ficaram solteiros e ficaram mais chatos! Hahaha. O lance é que já foi provado que a sociedade sempre foi patriarcal e o humano só funciona assim.
- Fontes? - Questionou Sílvia interrompendo a própria expressão boquiaberta.
- Oh, eu vou dar uma mijada, mas cara, tem um vídeo que vocês precisam ver. Tudo muito real, nada dessas coisas ideológicas de vocês. Cês conhecem o Olavo? – E levantou rápido para o banheiro.
Acho que percebendo o terreno, desistiu de tentar alguma coisa e decidiu por um pit stop. Olhei pra Júlia e pra Sílvia. O encontro de 3 olhos esbugalhados e bocas abertas falaram mais do que qualquer frase.
Não esperamos pelo Olavo. Porque, com certeza, não aguentaríamos até a terraplana.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Detalhes


O olho fechado.
Se abre num instante.

Lá de fora o que chega primeiro é o ronco do avião. As motos gritando seguem aos ouvidos na sequência.

É noite.

De frente pro teto um borrão preto, uma escuridão contínua regularmente marcada por fileiras de luzes passando pelos orifícios da janela de metal. Caminham de baixo pra cima conforme os carros passam.

Percebo agora o quão afobado fui a vida toda. Tantos detalhes passando despercebidos, cada um como uma assinatura do momento, ganchos pra que as memórias mais tarde encontrem onde puxar e trazer a lembrança viva ao espaço entre o que os olhos vêm e o que a mente pensa.

Cada toque, cada aroma, cada imagem, tudo podia ser aproveitado, quem sabe um pouco mais.

Um motor estaciona perto. A moto buzina estridente, três vezes. Começa um murmúrio.
Tento destilar cada gota do momento, mental e real, deitado no escuro, focado no instante, pensando em onde estou. Faz tempo que não faço isto.

Dia destes veio outro daquele maldito coração batendo forte. Não sei se é pelo salto muito grande que a minha cabeça fez pro futuro, o beck mofado ou só outro dos espasmos das minhas feridas.

Não, não uma real; de um corte ou mordida de cachorro.

Uma daquelas que todos vamos acumulando na vida e que, vez ou outra, ardem e coçam pra caralho, por debaixo da pele e dentro da cabeça, deixando nossas frases e respostas meio aéreas ou simplesmente nos silenciando por umas horas ou dias.

Lá embaixo o murmúrio continua. Dou uma espiada pelas frestas. Dois caras. Já passam das 23:00. Um deles tá bem feliz. Tá contando uma história. Parece que saiu da cadeia hoje. Saidinha. Do outro lado da rua entre os prédios, da janela do apartamento do térreo, a velha da Dulce afasta um pouco a cortina branca de rendas na ponta e observa tudo. Ê véia que gosta de fofocar!
O escrutínio é severo e atento.

Volto a deitar.
Já faz uns 10 minutos que estou aqui. Nunca me ensinaram a meditar. Também nunca tive a paciência de ficar sentado pensando "em nada" pra o que? Nada!?

Será que era pra nada, mesmo? Bom. Li outro dia que a fita é deixar os pensamentos rolarem e só contemplar o que passa, enquanto você se fixa na respiração. Uma espécie de âncora pra te manter seguro e concentrado enquanto sua mente veleja livre.

Foi nessa onda que me peguei pensando nisto. Estranho porque aqui, parece que estou numa terceira camada de toda essa história. Como estou pensando nisto tudo se... estou vivendo isto tudo?
Percebo que, na realidade, cada fato e gesto se traduz em imagens na minha cabeça, formando camadas de pensamento diferentes.... Começo a velejar mais distante.

Quantos pequenos gestos realizados displicentemente deram uma falsa impressão de mim? E aquela piada meio torta que falei semana passada na mesa do bar? O povo ficou me olhando meio desconcertado. Fizeram aquele "É..." condescendente... Quantos se afastaram porque também não estavam prestando atenção o suficiente nos detalhes? Nos meus detalhes? Quantos se importaram?

Quanta dor causei por isto? Quanto deixei de observar no outro? Quantas vezes coloquei a minha grande imagem idealizada do mundo passar por cima de tantos detalhes, ações, movimentos, expectativas e desejos desses tantos que passaram por minha vida? E quantas vezes fui esmagado por outros tratores de outros como eu?

O teto fica vermelho.
E então azul.

Minha âncora me recolhe. A regular intermitência azul-vermelho bate no céu obscuro de meu teto e atinge meus olhos, passando entrecortada pelos buraquinhos da janela. Um barulho alto começa. Um freio estridente corta o silêncio, como um prólogo.

"Vai, filho da puta, nóia do caralho. Tá de volta?"
Passos apressados e portas se abrindo ecoam pelos cubículos dos prédios.
Na rua entre eles os vermes gritam e xingam. O barulho de uma moto se espatifando no chão é inconfundível. A autoridade confiante parece irritadíssima.

"Tá com bom comportamento é? Não falaram pra'queles troxas que na rua cê não se comporta? Animal igual você tem de ficar enjaulado ou empalhado!"

Volto pras frestas.
Risos e gargalhadas, de uns 4 PM's, são brevemente interrompidos pelo cara da moto. "Eu to de saidinha senhor, não faço mais nada disso, agora lá dentro vou até na igre--" Um soco interrompe a frase.

O amigo dá um passo pra trás e é advertido: "Não foge não filho da puta, senão cê some junto".
Começa uma sessão de espancamento de frente pra todas as casas. O maluco na moto e o muleque na porta já estão no chão. Ele tem família, mas parece que não tem ninguém em casa hoje.

Não posso ficar aqui. Que que eu vou fazer? Porra, se eu ficar parado eu sou só mais um cusão. Pelo menos filmar, né?!! É meu direito! Esses putos não podem vir aqui e tacar o terror desse jeito! É dia 23 de dezembro, porra!

Vou pra janela da área de serviço. Vejo rapidamente os outros dormitórios. Como uma cascata, algumas luzes distantes, tipo as de uma cozinha nos fundos ligando pra iluminar a sala, começam a ascender. A Dulce já abriu a cortina e a janela. De onde ela olha não conseguem vê-la, mas ela parece vê-los bem.

Entre cassetetes e chutes o moleque do portão berra que são trabalhadores; recebe uma bota entre os dentes. Não tenho certeza, mas acho que vi um dente cair na poça de sangue mal iluminada que ele cuspiu no chão.
O da saidinha não tá com melhor sorte. Três espancam chutando e dando cacetadas no coitado. Estão todos rindo, apontando, xingando.

Que que eu faço porra??

Logo atrás deles, no meio da rua, pararam a viatura. Corri pra cozinha e peguei meu celular. Essa porra de resolução não chega até lá. A janela tá meio entreaberta, se eu for até ela e esticar o braço... Não, porra! Quase me viram! Será que não vão marcar minha mãe? E a Letícia? É seu direito, caralho! Vai lá, tira uma foto!

O borbulhar mental se resolve e meio que alcança uma forma consensual: tiro uma foto, meio torto, semi-agachado, olhando, com a cabeça atrás da parte fosca da janela, a tela do celular no espaço entreaberto.
Peguei a porra do número em cima da viatura! Os moleques tão cuspindo muito sangue. Já devem estar apanhando há uns 6 ou 7 minutos.

As janelas começam a se abrir. O conflito interno de cada um parece ir se resolvendo pouco a pouco, tão mais rápido quanto mais dura a tortura na rua.

“Vai matar os moleques, seus covarde!” diz um grito anônimo rompendo a cena de horror. “É tudo trabalhador aqui, seus coiso! Deixa eles!”.

 O PM que desceu o carro primeiro vasculha os olhares. Seus dentes serrados e olhos esbugalhados dão uma feição estranha. Os cara tão vidrado.

Começa a berrar: “Se aqui só tem trabalhador, que que esse filho da puta tava fazendo quando pegamos ele vendendo na biqueira ali atrás? Cês são os culpados! Cês protegem esses filhos da puta e com a biqueira tão ganhando, né?! Quando voltam, voltam pro ninho! Quem falar demais vamo levar de testemunha e vai passar o Natal no DP!”

Ainda assim, mais e mais janelas continuam a ascender.

Agora mais cortinas brancas se afastam, tem até alguns com as janelas abertas, consigo ver algumas telas de celular. Os murmúrios começam a se tornar mais altos, agora vindo de todos os lados.

Os PM’s percebem. Os golpes escasseiam. Deve ter parecido uma eternidade pra'queles dois tomando tanta pancada. Os gemidos se transformam em tosses molhadas. Os xingamentos agora se chocam com força contra a rua.

“PÉ de porco! Cês não servem pra nada aqui!”; “Veio pegar a caixinha de natal e não recebeu, seu safado!”; “Isso é abuso, cês tão matando os menino!”.
Me encorajo:
Vão pra casa do caralho seus verme! O cara só tava conversando! Ninguém precisa de vocês aqui, seu lambe bota de patrão, hipócrita; é quase dia 24 de dezembro porra; olha o tanto de sangue que cê tá arrancando de quem não fez nada pra você; olha as crianças vendo tudo, as velhinhas... cês tem orgulho do que fazem???!!

O primeiro PM a sair do carro para, levanta a cabeça e me olha na janela.
Não diz nada.
Apenas olha, em um intervalo não muito longo, mas particularmente expressivo.
Uns três segundos.
Não consigo ver nenhuma mudança em sua expressão, já séria, pelo que ocorre. Só percebo um leve apertar de olhos, como quem tenta ver melhor algo.
Começa a olhar para as outras janelas e pros caras no chão.

Rapidamente ele vira e começa a dar ordens pros outros PM’s.
Dois deles puxam e levantam o da saidinha. Nem falam nada pro moleque no chão, cuspindo sangue. Abrem o porta-malas da barca e jogam o primeiro. Um deles pega a moto e dá a partida.
Todos dentro, as luzes da viatura param. Ela sai e a moto vai atrás.
O moleque no chão levanta a cabeça ensanguentada, todo ofegante. Dulce já tá abrindo a porta com uma toalha na mão, falando algo pra ele.

Assim, do nada, para a cena.
As luzes começam a se apagar, janelas rangendo se fecham, portas batem, os murmúrios diminuem. Já passa da meia noite. Olhando a rua, agora vazia e silenciosa, levanto a cabeça e observo o horizonte, onde vejo a linha que os prédios da Paulista formam.
Tô com sede.
Bebo um copo de água.
Não to no clima de colocar vídeo ou ler nada. Vou pra cama.

Deitado, penso sobre por onde velejei antes disso. Detalhes. Pensava em detalhes.
O número da viatura me vem a cabeça. O rosto do saidinha. Os olhos apertados do verme.

O que vou fazer com todos estes detalhes?